AS CONDIÇÕES PARA SER UM VERDADEIRO MUÇULMANO
A palavra “Islã” significa, em árabe, “entregar-se, submeter-se, alcançar a salvação” e também “paz”. Imam-i a’zam (rahimahullahu ta’âlâ) definiu o Islã como “entregar-se e submeter-se às ordens de Allahu ta’âlâ”.
Daqui se depreende, por si mesmo, como deve ser um bom muçulmano. Os nossos sábios explicaram assim as qualidades que um muçulmano deve ter: o bom muçulmano é, antes de tudo, limpo de corpo e de alma.
Allahu ta’âlâ diz em vários lugares do Alcorão al-Karîm: “Eu amo os que se purificam!” Os muçulmanos não entram de sapatos nas mesquitas nem nas casas. Os seus tapetes e assoalhos são limpos e sem poeira. Na casa de todo muçulmano há um lugar para se lavar. Eles mesmos, a sua roupa de baixo e a sua comida estão sempre limpos. Por isso não há entre eles micróbios nem doenças.
O verdadeiro muçulmano sabe proteger a sua saúde. Não consome bebidas alcoólicas, que são harâm e um veneno. Não come a carne de porco, que tem muitíssimos perigos e foi proibida, declarada harâm.
Nosso Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) elogiou de vários modos a ciência da medicina. Por exemplo, disse: “A ciência é de dois tipos: a ciência do corpo e a ciência da religião.” Isto é, dizendo que, entre as ciências, as mais necessárias são a ciência da religião, que protege a alma, e a ciência da saúde, que protege o corpo, ordenou que antes de tudo se trabalhe pelo vigor da alma e do corpo. O Islã ordena aprender a ciência do corpo antes da ciência da religião. Pois todo bem só pode ser feito com o corpo são. Nosso Mestre, o Profeta, havia escrito uma carta ao imperador bizantino Heráclio, convidando-o ao Islã. Heráclio respondeu à carta e enviou muitos presentes. Um deles era um médico. Quando o médico chegou, disse: “Mestre! O imperador enviou-me para te servir. Tratarei de graça os teus doentes!” Nosso Mestre, o Profeta, aceitou. Por sua ordem, deram ao médico uma casa. Todos os dias lhe levavam comidas e bebidas deliciosas. Passaram-se dias e meses. Nenhum muçulmano procurou o médico. Envergonhado, o médico apresentou-se a ele e disse: “Mestre! Vim aqui para servir. Até hoje não veio nenhum doente. Fiquei sentado sem fazer nada. Comi, bebi e descansei. Agora quero partir.” Quando pediu licença, nosso amado Profeta disse: “Como quiseres. Se ficares mais, servir e honrar o hóspede é dever dos muçulmanos. Se partires, vai em paz. Mas sabe isto: ainda que fiques aqui anos a fio, ninguém te procurará. Pois os meus Companheiros não adoecem! A religião do Islã mostrou o caminho para não adoecer. Os meus Companheiros têm muito cuidado com a limpeza. Não comem nada enquanto não têm fome e levantam-se da mesa antes de estarem saciados.”
Isto não quer dizer que o muçulmano nunca adoeça. Mas o muçulmano que cuida da sua saúde e da sua limpeza permanece são por muito tempo. Não adoece facilmente. A morte é uma verdade. Ninguém escapa da morte, e cada um morrerá em consequência de alguma doença. Mas, se até essa hora ele consegue conservar a saúde, é somente graças à observância das coisas ordenadas no Islã e da limpeza. Assim como o bom muçulmano cuida da limpeza do corpo, cuida muito também da limpeza da alma. Nosso Profeta disse: “Fui enviado para completar as boas qualidades e difundir no mundo o belo caráter.” Em um hadîth sharîf foi dito: “Aquele de vós cujo îmân é mais elevado é aquele cujo caráter é mais belo.” Até o îmân se mede pelo caráter.
Para o muçulmano, a limpeza da alma é o essencial. Quem mente, engana, ilude as pessoas, oprime, comete injustiças, não ajuda os seus correligionários, se mostra arrogante e só pensa no próprio interesse não pode ser considerado verdadeiro muçulmano, por mais que pratique a adoração. Nos três primeiros versículos da Sura al-Mâ’ûn foi dito, em sentido: “Ó Meu Rasûl! Viste aquele que nega o Dia do Juízo, que maltrata o órfão e lhe usurpa o direito, que não sacia o pobre e não incita os outros a fazer o bem ao pobre?” A adoração de tais pessoas não é aceita. Na religião do Islã, abster-se das proibições vem antes de cumprir as ordens. O verdadeiro muçulmano é, antes de tudo, um ser humano completo e perfeito. Tem o rosto risonho, a palavra doce e diz a verdade. Não sabe o que é zangar-se.
Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu ta’âlâ alaihi wa sallam) disse: “A quem foi dada a brandura, foram dados os bens deste mundo e da outra vida.”
O muçulmano é extremamente humilde. Escuta todo aquele que o procura e, sempre que pode, ajuda. O muçulmano é digno e cortês. Ama a sua família e a sua pátria. Em um hadîth sharîf foi dito: “O amor à pátria vem do îmân.”
Allahu ta’âlâ explica assim no Alcorão al-Karîm como devem ser os Seus servos. O sublime sentido dos versículos 63–69 da Sura al-Furqân é este: “Os servos (virtuosos) do Rahmân (isto é, de Allahu ta’âlâ, muito compassivo com os Seus servos) andam sobre a terra com humildade e dignidade. Quando os ignorantes os provocam, dizem-lhes belas palavras como (paz e salvação a vós) e, com retidão e doçura, guardam-se do pecado. Passam a noite prostrando-se e de pé (fazendo o namâz) diante do seu Senhor (louvando-O). Eles dizem: ‘Ó nosso Senhor! Afasta de nós o castigo do Inferno! Na verdade, o seu castigo é permanente e amargo. Sem dúvida, que lugar péssimo e que péssima morada é ele!’ Quando gastam, não são pródigos nem avarentos, mas seguem um caminho intermediário entre os dois, e não diminuem o direito de ninguém. Não associam parceiros a Allahu ta’âlâ. Não tiram a vida que Allahu ta’âlâ tornou sagrada, não matam ninguém. (Só castigam os culpados.) Não cometem fornicação.” E nos versículos 72–74: “Não dão falso testemunho. Afastam-se das coisas inúteis e nocivas. Se, por acaso, se veem envolvidos numa dessas coisas inúteis e nocivas, ou feitas à força, voltam o rosto e afastam-se com dignidade. Quando lhes são lembrados os versículos de Allahu ta’âlâ, não se fazem de cegos e surdos, fingindo não ver nem ouvir. Eles suplicam: ‘Ó nosso Senhor! Concede-nos, de nossas esposas e de nossos filhos, pessoas piedosas (sâlih) (que sejam nossos herdeiros e os melhores sucessores), que sejam a alegria dos nossos olhos! Faze de nós guias dos que se guardam de desobedecer a Allahu ta’âlâ!’”
Além disso, o sublime sentido do segundo e do terceiro versículos da Sura as-Saff é este: “Ó vós que credes! Por que dizeis o que não fazeis? Dizer que fizestes o que não fazeis é causa de grande ira junto de Allah.” Isto mostra que, se uma pessoa fizer o voto de algo que não poderá cumprir, ou prometer algo que não poderá fazer, isso a tornará uma pessoa má junto de Allah.
“Juro por Allahu ta’âlâ: se alguém não ama para o seu irmão de religião o que ama para si mesmo, o seu îmân não será completo” Hadîth sharîf
O verdadeiro muçulmano é extremamente respeitoso para com a sua religião, a sua mãe, o seu pai, o seu professor, o seu superior, os dignitários do país e as leis. Não se ocupa de coisas inúteis. Ocupa-se somente de coisas proveitosas. Não se entrega a jogos de azar. Não desperdiça o seu tempo.
O verdadeiro muçulmano pratica a sua adoração. Paga a dívida de gratidão que tem para com Allahu ta’âlâ. A adoração não se pratica por mera formalidade, nem só para se livrar de uma obrigação. A adoração deve ser praticada pela satisfação de Allahu ta’âlâ. Temer a Allahu ta’âlâ é amá-Lo muito. Assim como uma pessoa não quer entristecer alguém a quem ama muito e teme causar-lhe tristeza, também a adoração a Allahu ta’âlâ deve ser praticada de modo que prove o nosso amor por Ele. As dádivas que Allahu ta’âlâ nos concedeu são tão grandes que só podemos pagá-las amando-O muito e adorando-O de todo o coração.
Estas adorações são de vários tipos. Uma parte delas é entre Allahu ta’âlâ e o servo. Allahu ta’âlâ talvez perdoe os que falham na adoração a Ele. Respeitar o direito alheio também é adoração. Ele nunca perdoa os que fazem mal aos outros e os que têm sobre si direitos alheios, enquanto os donos desses direitos não os perdoarem. Nos hadîths sharîfs foi dito:
“Allahu ta’âlâ não tem misericórdia de quem não tem misericórdia das pessoas.”
“Ajudai tanto o opressor como o oprimido, impedindo a opressão.”
“Se, do dinheiro pago por uma camisa comprada, nove décimos forem halâl e um décimo for dinheiro harâm, Allahu ta’âlâ não aceita o namâz feito com essa camisa.”
“O muçulmano é irmão do muçulmano. Não o oprime. Corre em sua ajuda. Não o tem por pequeno nem por inferior a si. Causar dano ao seu sangue, aos seus bens, à sua dignidade e à sua honra é harâm.”
“Juro por Allahu ta’âlâ: se alguém não ama para o seu irmão de religião o que ama que lhe façam, o seu îmân não será completo.”
“Juro por Allah: aquele cujo vizinho não está a salvo do seu mal não tem îmân (isto é, não é um verdadeiro crente).”
Para alcançar neste mundo a felicidade, os bens e a paz, e para salvar-se na outra vida dos tormentos, é preciso fazer duas coisas.
A primeira é cumprir as ordens de Allahu ta’âlâ. A segunda é abster-se das coisas que Ele proibiu. A segunda é mais importante e mais proveitosa do que a primeira. Para poder cumprir plenamente o dever de abster-se das proibições, é preciso não praticar em excesso as coisas mubâh, isto é, permitidas, e não ir além do necessário. Pois o excesso na prática do mubâh arrasta o homem a praticar o harâm. Os sábios do Islã disseram: “A cabeça baixa dos que cometem pecados é mais agradável do que a vanglória dos que cumprem as ordens.”
Abster-se dos pecados também é de dois tipos. O primeiro é abster-se das proibições relativas aos direitos de Allahu ta’âlâ. O segundo é abster-se das proibições em que se misturam os direitos das pessoas (huqûq al-ibâd). O segundo é mais importante. Pois Allahu ta’âlâ não tem necessidade de nada e é muito misericordioso. As pessoas, ao contrário, são muito necessitadas e avarentas. Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) diz:
“Quem tem sobre si um direito alheio, quem tocou nos bens e na honra das criaturas, que peça perdão e pague antes de morrer! Que não vá ao Dia do Juízo, em que o dinheiro e os bens não terão valor, carregando direitos alheios! Naquele dia, as adorações que praticou no mundo serão dadas ao dono do direito. Se não tiver adorações, ou se elas se acabarem, os pecados do dono do direito serão postos sobre ele.” Certa vez, disse aos que estavam com ele: “Sabeis quem é o falido?” Responderam: “É aquele cujo dinheiro e capital se acabaram.” Então ele disse: “Sabei bem: o falido é aquele que, embora tenha feito o namâz, jejuado e pagado o zakât no mundo, insultou as pessoas, falou mal delas pelas costas, comeu os bens alheios, tirou vidas, espancou e feriu. Na outra vida, as suas recompensas serão dadas aos donos dos direitos; se as suas recompensas se acabarem, os pecados dos donos dos direitos serão postos sobre ele, e ele será lançado no Inferno.”
Muhammad Ma’sûm Fârûqî Sirhindî diz na carta 110 do segundo volume do livro “Maktûbât”: “Quando se comete um pecado, é preciso arrepender-se (fazer tawba) imediatamente. O arrependimento do pecado secreto é secreto; o do pecado cometido abertamente é aberto. Não se deve adiar o arrependimento. Os anjos Kirâman kâtibîn não escrevem o pecado imediatamente. Se houver arrependimento, ele não é escrito de modo algum. Se não houver arrependimento, escrevem-no. Ja’far ibn Sinân (quddisa sirruh) disse: ‘Quem não se arrependeu do seu pecado deve arrepender-se antes de morrer.’ Não se deve abandonar o wara’ e a taqwâ. A taqwâ é não fazer o que foi proibido abertamente, e o wara’ é não fazer também as coisas duvidosas. Abster-se do que foi proibido é mais proveitoso do que cumprir o que foi ordenado. Os grandes da religião disseram: ‘Tanto os bons como os maus fazem o bem. Mas somente os siddîq, os bons, se abstêm do pecado…’ Em um hadîth sharîf foi dito: ‘No Dia do Juízo, os que alcançarão a presença de Allahu ta’âlâ são os donos do wara’ e do zuhd.’ E noutro hadîth sharîf: ‘O namâz do dono do wara’ é aceito’, e noutro ainda: ‘Estar com o dono do wara’ é adoração. Falar com ele é recompensado como dar sadaqa.’ Nas coisas de que duvidas, consulta o teu coração! Não faças as coisas que inquietam o teu coração! Não sigas o teu nafs!”
“A sabedoria tem dez partes. Nove delas estão na reclusão (uzla), e uma em falar pouco” Hadîth sharîf
Nos hadîths sharîfs foi dito: “A boa ação é aquela que dá sossego ao nafs e alívio ao coração. A ação que excita o nafs e agita o coração é pecado.” “As coisas halâl são claras, e as harâm também foram declaradas. Guardai-vos das duvidosas. Fazei o que sabeis sem dúvida!” Estes hadîths sharîfs mostram que não se deve fazer aquilo de que se duvida e que oprime o coração. Fazer aquilo de que não se duvida, porém, é permitido. Em um hadîth sharîf foi dito: “O que Allahu ta’âlâ tornou halâl no Alcorão al-Karîm é halâl. O que Ele não declarou no Alcorão al-Karîm, Ele o perdoa.” Quando alguém se depara com algo duvidoso, deve pôr a mão sobre o peito. Se o coração não bater mais forte, pode-se fazê-lo. Se bater mais forte, não se deve fazê-lo. Em um hadîth sharîf foi dito: “Põe a mão sobre o peito! Na coisa halâl o coração fica tranquilo. Na coisa harâm há palpitação. Se duvidares, não o faças. Ainda que os homens da religião deem fatwâ, não o faças!”
Quem tem îmân foge até do pecado pequeno, para não cair no pecado grave. É preciso considerar falhas todas as suas adorações e boas obras. É preciso pensar que não cumpriu plenamente as ordens de Allahu ta’âlâ. Abû Muhammad Abdullah ibn Manâzil (quddisa sirruh) disse: “Allahu ta’âlâ ensinou diversas adorações. Ordenou a paciência, a sinceridade, o namâz, o jejum e o istighfâr nas horas do amanhecer (sahar). Mencionou o istighfâr por último. Assim, tornou-se necessário que o servo considere falhas as suas adorações e boas obras e peça perdão e indulgência por todas elas.”
Ja’far ibn Sinân disse: “Que os que praticam a adoração e o bem se considerem superiores aos que cometem pecados é pior do que os pecados destes.”
Alî Murta’ish, passado o vigésimo dia do bendito mês de Ramadã, abandonou o i’tikâf e saiu da mesquita. Quando lhe perguntaram: “Por que saíste?”, respondeu: “Quando vi os hâfiz recitarem com tagannî e se vangloriarem disso, não pude ficar lá dentro.”
É preciso trabalhar para ganhar do halâl o sustento próprio e o da família. Para isso é preciso dedicar-se ao comércio ou a um ofício. Os salaf-i sâlihîn (rahmatullahi ta’âlâ alaihim ajma’în) sempre ganharam assim, trabalhando. Há muitíssimos hadîths sharîfs que anunciam as recompensas do ganho halâl. Quando perguntaram a Muhammad ibn Sâlim: “Devemos trabalhar e ganhar, ou só praticar a adoração e confiar (tawakkul)?”, ele disse: “A confiança (tawakkul) é o estado de Rasûlullah. Trabalhar e ganhar é a sua sunna (sallallahu alaihi wa sallam). Trabalhai, e confiai também.”
Abû Muhammad ibn Manâzil disse: “Trabalhar e confiar é melhor do que retirar-se a um canto e praticar a adoração.” No comer e no beber é preciso guardar o meio-termo. Não se deve comer a ponto de causar moleza. Nem se deve fazer dieta a ponto de não poder praticar a adoração. Shâh-i Naqshiband (quddisa sirruh), um dos grandes awliyâ, disse: “Come bem, trabalha bem!” Em suma, tudo o que ajuda a praticar a adoração e o bem é bom e abençoado. Em toda boa ação é preciso cuidar da intenção. Enquanto não houver boa intenção, não se deve fazer essa ação.
É preciso manter-se longe dos que não seguem o Islã e dos que praticam a bid’a e o pecado, e não ter trato com eles. Em um hadîth sharîf foi dito: “A sabedoria tem dez partes. Nove delas estão na reclusão (uzla), e uma em falar pouco.”
Com tais pessoas só se deve ter o trato necessário. O tempo de divertir-se é depois da morte. É preciso conviver com os muçulmanos piedosos e puros (rahmatullahi ta’âlâ alaihim ajma’în), ser-lhes útil e tirar proveito deles. Não se deve desperdiçar o tempo com palavras desnecessárias e inúteis.
É preciso mostrar o rosto risonho a todos, bons e maus. Não se deve provocar discórdia (fitna) nem fazer inimigos. É preciso seguir as palavras de Hâfiz Shîrâzî: “Aos amigos deve-se dizer a verdade, e com os inimigos deve-se lidar com rosto risonho e língua doce.” É preciso perdoar os que pedem perdão. É preciso ter bom caráter com todos. Não se deve contradizer as palavras de ninguém nem discutir. É preciso falar a todos com brandura e não com aspereza.
Shaykh Abdullah Bayâl (quddisa sirruh) disse: “O tasawwuf não é o namâz, o jejum e a adoração durante as noites. Fazer estas coisas é o dever de servidão de todo ser humano. O tasawwuf é não magoar as pessoas. Quem alcançou isto chegou ao seu objetivo.”
Perguntaram a Muhammad ibn Sâlim como se distinguem os awliyâ das outras pessoas. Ele disse: “Reconhecem-se pela brandura de suas palavras, pela beleza de seu caráter, pelo seu rosto risonho, pela abundância de sua generosidade, por não contradizerem quando falam, por perdoarem os que pedem perdão e por serem misericordiosos com todos.”
Abû Ahmad Maqqârî também disse: “A futuwwa é fazer o bem a quem te ofendeu, ser generoso com quem não amas e mostrar o rosto risonho a quem te aborrece.”
É preciso falar pouco, dormir pouco e rir pouco. Rir às gargalhadas escurece o coração. É preciso trabalhar, mas esperar a recompensa de Allahu ta’âlâ. É preciso sentir prazer em cumprir as Suas ordens. Quando se confia somente Nele, Ele concede tudo o que se deseja. Em um hadîth sharîf foi dito: “Allahu ta’âlâ dá àquele que confia somente Nele tudo o que ele deseja e faz de todas as pessoas seus ajudantes.”
Yahyâ ibn Mu’âdh Râzî disse: “Quanto mais amares a Allahu ta’âlâ, tanto mais todos te amarão. Quanto mais temeres a Allahu ta’âlâ, tanto mais todos te temerão. Quanto mais servires a Allahu ta’âlâ, tanto mais todos te ajudarão. Não corras atrás do teu próprio interesse.”
Abû Muhammad Abdullah Râshî (rahmatullahi ta’âlâ alaih) disse: “O maior véu entre Allahu ta’âlâ e o homem é o homem pensar no próprio nafs e confiar num servo impotente como ele. É preciso pensar em alcançar o amor de Allahu ta’âlâ, e não o das pessoas.” É preciso ter língua doce e rosto risonho com a família e os filhos. É preciso estar com eles o suficiente para cumprir os seus direitos. Mas não convém apegar-se a eles a ponto de desviar o rosto de Allahu ta’âlâ.
Nos assuntos da religião não se deve consultar homens da religião ignorantes e pecadores (fâsiq). Não se deve estar com os que se entregam ao mundo. Em tudo é preciso seguir a sunna e abster-se da bid’a. Nos momentos de alegria não se deve sair dos limites do Islã, e nos momentos difíceis não se deve perder a esperança em Allahu ta’âlâ. Não se deve esquecer que junto de toda dificuldade há uma facilidade. Na alegria e na aflição o estado do homem não deve mudar; na abundância e na escassez ele deve estar no mesmo estado. Mais ainda: deve sentir sossego na escassez e inquietação na abundância. A mudança dos acontecimentos não deve mudar o homem.
“Quem tem família numerosa e pouco sustento, faz bem os seus namâz e não fala mal dos outros pelas costas estará junto de mim no Dia do Juízo” Hadîth sharîf
Não se deve olhar para os defeitos de ninguém; é preciso ver os próprios defeitos. Ninguém deve considerar-se superior a muçulmano algum. É preciso ter todo muçulmano por superior a si. É preciso crer que se pode alcançar a felicidade pela dua de qualquer muçulmano. É preciso ser como o escravo daqueles que têm algum direito sobre si. Em um hadîth sharîf foi dito: “É perfeito o îmân do muçulmano que faz três coisas: servir a sua família, sentar-se entre os pobres (não entre os mendigos) e comer junto com o seu servo.” Que estas três coisas são sinal dos crentes foi declarado no Alcorão al-Karîm. É preciso aprender os estados dos salaf-i sâlihîn e procurar ser como eles. Não se deve falar mal de ninguém pelas costas (ghîba), e é preciso impedir quem o faz. (Quando se diz pelas costas de alguém algo que o magoaria se o ouvisse, se a palavra for verdadeira é ghîba; se for falsa, é calúnia. Ambas são pecado grave.) É preciso fazer do amr-i ma’rûf wa nahy-i munkar um costume.
Em um hadîth sharîf foi dito: “Quem tem família numerosa e pouco sustento, faz bem os seus namâz e não fala mal dos outros pelas costas estará junto de mim no Dia do Juízo.” O muçulmano atende às necessidades do seu irmão muçulmano e alegra-o. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “O muçulmano é irmão do muçulmano. Eles não se magoam nem se entristecem uns aos outros. Quem ajuda o seu irmão de religião num assunto, Allahu ta’âlâ também lhe facilita os seus assuntos. Quem afasta a aflição de um muçulmano e o alegra, Allahu ta’âlâ o livrará da aflição nas horas mais aflitivas do Dia do Juízo. Quem encobre o defeito e a falha de um muçulmano, Allahu ta’âlâ encobrirá o defeito dele no Dia do Juízo.” “Quem se faz ajudante do seu irmão de religião, Allahu ta’âlâ também se faz seu ajudante.”
“Allahu ta’âlâ criou alguns dos Seus servos para atenderem às necessidades dos Seus servos e serem os seus ajudantes. Os necessitados recorrem a eles. Para estes não haverá temor do castigo na outra vida.”
“Quem vai fazer um serviço para o seu irmão de religião, a cada passo lhe são perdoados muitos pecados e lhe são dadas setenta recompensas. Assim continua até que o serviço termine. Quando o serviço é feito, todos os seus pecados lhe são perdoados. Se morrer enquanto faz esse serviço, entrará no Paraíso sem interrogatório nem prestação de contas.”
“Quem vai às autoridades do governo e se esforça para que o seu irmão de religião alcance alívio ou se livre de uma aflição, Allahu ta’âlâ o ajudará a passar depressa sobre a ponte Sirât no Dia do Juízo, quando os pés de todos escorregarem.”
“Mostrar o rosto risonho ao irmão de religião, ensinar-lhe as coisas boas, impedi-lo de fazer o mal, indicar ao estranho o lugar que procura, tirar da rua as pedras, os espinhos, os ossos e coisas semelhantes, nocivas, feias e sujas, e dar água aos outros – tudo isto é sadaqa” Hadîth sharîf
“A ação que Allahu ta’âlâ mais ama é alegrar um crente, dando-lhe roupa, saciando-o ou atendendo a outra necessidade sua.”
“Quando alguém faz um bem a um crente, Allahu ta’âlâ cria um anjo. Este anjo pratica a adoração sem cessar. As recompensas das suas adorações são dadas a essa pessoa. Quando essa pessoa morre e é posta no túmulo, este anjo vem ao seu túmulo, luminoso e de aspecto amável. Ao ver o anjo, ela sente alívio e alegria. Pergunta: ‘Quem és tu?’ O anjo responde: ‘Eu sou o bem que fizeste a fulano e a alegria que puseste no coração dele. Allahu ta’âlâ enviou-me hoje para te alegrar, interceder por ti e mostrar-te o teu lugar no Paraíso.’”
“Pelo seu belo caráter, o homem alcança os graus mais altos do Paraíso. As adorações (nâfila) não podem fazer o homem alcançar esses graus. O mau caráter arrasta o homem às covas mais baixas do Inferno.” “A quem mostra o rosto risonho ao saudar com o salâm são dadas as recompensas que alcançam os que dão sadaqa.”
“Mostrar o rosto risonho ao irmão de religião, ensinar-lhe as coisas boas, impedi-lo de fazer o mal, indicar ao estranho o lugar que procura, tirar da rua as pedras, os espinhos, os ossos e coisas semelhantes, nocivas, feias e sujas, e dar água aos outros – tudo isto é sadaqa.”
“No Paraíso há palácios tais que quem está neles vê todo lugar que deseja e se mostra a todo lugar que deseja.” Quando Abû Mâlik al-Ash’arî perguntou: “A quem serão dados tais palácios?”, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Serão dados aos que têm a palavra doce, aos generosos e aos que, quando todos dormem, refletem sobre a existência e a grandeza de Allahu ta’âlâ e Lhe suplicam.”
O verdadeiro muçulmano não crê em superstições. Não dá crédito à magia, ao mau agouro, à cartomancia, aos encantamentos, aos amuletos em que se escrevem coisas além do Alcorão al-Karîm, às contas azuis, à adivinhação e a coisas semelhantes, nem crê que elas produzam efeito com certeza; não dá importância a acender velas nos túmulos nem a atar fios e linhas, e não se deixa enganar pelos impostores que dizem possuir karâma. A maioria destas coisas falsas e corrompidas chegou-nos, na verdade, de outras religiões. A respeito dos que esperam “karâma” de alguns homens da religião, o grande sábio do Islã, imam Rabbânî (rahimahullahu ta’âlâ), diz: “As pessoas esperam karâma dos homens da religião. Alguns deles não têm karâma, mas estão mais próximos de Allahu ta’âlâ do que os outros. A maior karâma é aprender o Islã e conseguir viver de acordo com ele.”
O Alcorão al-Karîm ordena dirigir-se sempre às pessoas com língua doce e com compreensão, ainda que sejam de outra religião. Está escrito nos livros de fiqh que magoar o coração de quem não é muçulmano chamando-o na cara de “kâfir” ou de “sem religião” é pecado, e que quem assim fala deve ser punido. O objetivo é explicar a todos a grandeza da religião do Islã. Também este jihâd só se faz com língua doce, paciência, conhecimento e îmân. Quem quer fazer alguém crer em algo deve, antes de tudo, crer ele mesmo nisso. E o crente nunca perde a paciência nem encontra dificuldade em explicar aquilo em que crê. Não há religião tão clara e tão lógica como a religião do Islã. Que esta religião é a única religião verdadeira pode ser provado com facilidade. Em suma, o verdadeiro muçulmano é um ser humano perfeito, dotado de todas as boas qualidades, digno, de caráter firme, limpo de corpo e de alma, merecedor de toda confiança. Se todos os homens aceitassem a religião do Islã, não restaria no mundo nem maldade, nem fraude, nem guerra, nem violência, nem opressão. Por isso, esforçar-se por ser um muçulmano completo e perfeito e difundir no mundo inteiro o Islã, explicando os seus fundamentos e as suas sutilezas, é uma dívida que pesa sobre os ombros de todos os muçulmanos.
