Meu Amado Profeta

ALGUMAS SUNNAS ZAWÂID DE NOSSO MESTRE, O PROFETA

As coisas que nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), fazia dividem-se em três. A primeira – as coisas que também os muçulmanos devem fazer. A estas chama-se “sunna”. A segunda – as coisas próprias de nosso Profeta (sallallahu ta’âlâ alaihi wa sallam). A estas chama-se “khasâis”. Não é permitido que outros as façam. A terceira – as coisas ligadas ao costume. Todo muçulmano deve fazê-las conforme o costume do lugar onde vive. Se forem feitas contra o costume, surge a discórdia (fitna). E provocar a discórdia é harâm.1

Se nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu ta’âlâ alaihi wa sallam) não censurou, isto é, não se desagradou de quem deixava as coisas que ele mesmo fazia como adoração, a estas adorações chama-se “sunnat-i hudâ”. Se as fez continuamente, chamam-se “sunnat-i muakkada”. Às coisas que Rasûlullah fazia por costume chama-se “sunnat-i zâida” ou “mustahab”.2 Assim são, por exemplo, começar as boas obras pela direita, fazê-las com a mão direita, e as coisas que ele fazia e usava na construção, no comer, no beber, no sentar-se, no levantar-se (no deitar-se), no vestuário e nos utensílios. Às coisas surgidas depois chama-se “bid’a”. Fazer as coisas que são “bid’a no costume”, como usar a peneira de farinha e a colher, isto é, os costumes surgidos depois, não é desvio (dalâla). Não é pecado. Daqui se compreende que comer à mesa, usar garfo e colher, dormir numa cama, usar rádio, televisão e gravador em conferências e, nas escolas, nas aulas de moral e de ciências, servir-se de toda espécie de meios de transporte e tirar proveito de meios técnicos como os óculos e a máquina de calcular é permitido, porque estas coisas são bid’as no costume. Usar as bid’as e novidades do costume para cometer o harâm é harâm. Sobre o uso de rádio, alto-falante e gravador no namâz, no adhân e na pregação e na khutba da mesquita, há amplas informações nos livros “Se’âdet-i Ebediyye” e “İslâm Ahlâkı”. Fazer bid’a na adoração, ainda que seja uma pequena alteração, é um pecado muito grave.3 O jihâd, isto é, a guerra do governo e do exército contra os inimigos, é adoração. Mas usar na guerra toda espécie de meios técnicos não é bid’a; pelo contrário, traz muita recompensa, porque foi ordenado usá-los na guerra. Nas adorações, é preciso adotar as novidades que ajudam a fazer o que foi ordenado. Introduzir novidades e alterações que ajudam a fazer o que foi proibido é bid’a. Por exemplo, para recitar o adhân é preciso subir ao minarete, porque foi ordenado recitá-lo num lugar alto. Mas recitar o adhân com alto-falante é bid’a, porque não foi ordenado recitá-lo por meio de um aparelho; foi ordenado que o homem o recite. Além disso, Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) proibiu o uso de instrumentos musicais, como tocar sinos ou soprar trombetas, para anunciar as horas do namâz ou para praticar outras adorações.4

“Seguir Rasûlullah também nas coisas ligadas ao costume faz o homem ganhar muito neste mundo e na outra vida e abre caminho a várias felicidades” Maktûbât-i Rabbânî, II, carta 5

Deixar a chamada “sunnat-i hudâ” é makrûh. Deixar a chamada “sunnat-i zâida” não é makrûh.5

A importância que nosso Mestre, o Profeta, dava à limpeza, à ordem e à disciplina

Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), dava muita importância à limpeza, à ordem e à disciplina. Gostava de começar tudo pela direita e de fazê-lo com a mão direita.6 Só a purificação depois das necessidades, fazia-a com a mão esquerda.

Tanto quanto possível, fazia tudo em número ímpar. Dizia: “Quem tem cabelo, cuide bem dele!”

Estando nosso Profeta na mesquita, entrou um homem de cabelo e barba desgrenhados. Nosso amado Mestre, o Profeta, disse: “Não se encontra nem óleo de rosas para assentar o cabelo deste homem?”, e depois fez-lhe sinal com a mão para que saísse logo e arranjasse o cabelo e a barba. Quando o homem fez isso e voltou, nosso Profeta disse: “É melhor que um de vós venha assim, ou que venha com o cabelo e a barba desgrenhados como um shaytân?”

Mesmo em viagem levava óleo num frasco. Quando punha óleo, colocava primeiro na cabeça um pano fino e punha o barrete por cima do pano. Assim, de fora não se percebia que tinha posto óleo. Nosso Profeta penteava a barba duas vezes por dia.

Anas ibn Mâlik diz: “Rasûl alaihis-salâm punha muitas vezes óleo de rosas no cabelo abençoado e penteava a barba abençoada molhando-a com água.”7 Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), aparava um pouco o comprimento e os lados de sua barba abençoada. Antes de sair para o namâz de sexta-feira, encurtava o bigode abençoado e cortava o que crescera das unhas abençoadas. Ordenava também aos muçulmanos que encurtassem o bigode.

Sempre que nosso Profeta se olhava no espelho, louvava Allahu ta’âlâ e fazia dua dizendo: “Ó Allah! Assim como criaste bela a minha forma, torna belo também o meu caráter!”

Todas as noites, antes de dormir, nosso Profeta passava kohl nos olhos abençoados três vezes. Passava o kohl três vezes no olho direito abençoado e duas vezes no olho esquerdo abençoado. Dizia: “Passai kohl nos olhos, pois ele dá brilho aos olhos e faz crescer o cabelo (as pestanas).”8

Os sábios do Islã declararam que é permitido ao homem passar kohl como remédio, mas não é permitido passá-lo como adorno. Não se devem confundir as palavras jamâl e zînat.

Jamâl significa eliminar a fealdade, ter dignidade e mostrar a dádiva para agradecê-la. Mostrá-la por ostentação, para se gabar, não é jamâl: é soberba. Nosso Mestre Rasûlullah dava muita importância ao uso do miswâk. Nunca se separava dele. Nosso Profeta dizia: “Usai o miswâk feito do ramo da árvore arak!” O miswâk dá bom odor à boca. Nosso Profeta disse: “Ele é sunna minha e dos profetas que vieram antes de mim!”

Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Se não fosse impor dificuldade à minha umma, eu lhes ordenaria que usassem o miswâk a cada namâz!”9 “Recomendo-vos muito o uso do miswâk!”

“O miswâk é limpeza da boca e satisfação de meu Senhor!” Quando nosso amado Profeta entrava em casa, a primeira coisa que fazia era limpar com o miswâk os dentes abençoados. Não dormia sem ter consigo o miswâk e, ao acordar, começava por limpar com o miswâk os dentes abençoados. Também à noite, quando se levantava para o namâz de tahajjud, limpava com o miswâk os dentes abençoados.10 Nossa mãe Âisha (radiyallahu anhâ) disse: “Não houve noite nem dia em que o Profeta alaihis-salâm dormisse e, ao acordar, não usasse o miswâk antes da ablução!” Ibrâhîm, filho de nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), tinha falecido. No enterro, um dos tijolos de adobe postos no túmulo ficou torto. Nosso Profeta interveio e endireitou-o. Explicou que o tijolo torto não trazia ao falecido nenhum proveito nem dano, mas que ele se sentia incomodado com a desordem.

A Casa da Felicidade de nosso Mestre, o Profeta

Quando nosso amado Profeta mandou construir a sua mesquita em Medina, mandou fazer ao lado dela dois quartos de adobe e cobri-los com troncos e ramos de tamareira. Quando se construiu a mesquita abençoada, fez-se um quarto para Âisha e outro para Sawda (radiyallahu anhumâ). A porta do quarto de nossa mãe Âisha dava para o caminho que levava à mesquita. A porta do quarto feito para nossa mãe Sawda dava para a terceira porta da mesquita, a porta de Âl-i Uthmân. Quando nosso Profeta tomou outras esposas, o número de quartos aumentou e chegou a nove. Estes foram construídos entre o quarto de nossa mãe Âisha e a qibla. Alguns quartos eram de adobe, outros de pedra. Alguns eram feitos de ramos de tamareira (ao estilo de Bagdá), rebocados por cima com argamassa de barro, e o teto também era feito de ramos de tamareira. Hasan ibn Abul-Hasan (radiyallahu anh) diz: “Quando eu era adolescente, entrei nas casas de Rasûlullah e, estendendo a mão, alcancei o teto. A cobertura do quarto de Rasûlullah não era mais que um tecido de pelo estendido sobre um tronco de cipreste ou de zimbro.”

Segundo o imam Bukhârî, “a porta da casa de Rasûlullah não tinha argola, e batia-se nela com a ponta de um arco”. Muhammad ibn Hilâl e Atâ al-Khurâsânî viram os quartos das esposas de nosso Profeta e informaram que eram feitos de ramos de tamareira e que, em lugar de portas, tinham cortinas de tecido grosso de pelo negro. Segundo o testemunho de Dâwûd ibn Qays, que os viu com os próprios olhos, a largura de cada quarto, da porta às paredes laterais, era de cerca de 6–7 dhirâ’11 (3–3,5 m), e a profundidade interior, de aproximadamente dez dhirâ’ (4,8 m). (Um dhirâ’ mede 48 cm.)

“O miswâk é limpeza da boca e satisfação de meu Senhor!” Hadîth sharîf

No dia em que chegou e foi lida em Medina a carta do califa Abdulmalik sobre a desapropriação dos quartos das esposas de nosso Mestre, o Profeta, para anexá-los à mesquita, muitos não conseguiram conter as lágrimas, e os habitantes de Medina choraram como no dia em que nosso Profeta faleceu.12

Sa’îd ibn Musayyab também exprimiu a sua tristeza a este respeito, dizendo: “Por Allah! Como eu desejaria que tivessem sido deixados como estavam! Os jovens de Medina que estão crescendo e os que vêm a Medina de fora veriam com o que Rasûl alaihis-salâm se contentava em sua vida, e as pessoas não se empenhariam em ter muitos bens e em gabar-se deles.”

Os estados de nosso Mestre, o Profeta, dentro de casa

Husayn conta: “Perguntei a meu pai como nosso Mestre, o Profeta, se ocupava dentro de casa. Meu pai contou assim: Quando entrava em casa, nosso Mestre, o Profeta, dividia o seu tempo em três: a adoração a Allah, os assuntos da gente de casa e os seus assuntos pessoais. O tempo que reservava para si, repartia-o ainda entre si mesmo e as pessoas. Nesse tempo, só entravam junto dele os Companheiros escolhidos. Por meio deles comunicava ao povo as questões religiosas, e não guardava nem acumulava junto de si nada do que dizia respeito ao povo. Era costume de nosso Mestre, o Profeta, repartir o tempo destinado à sua umma entre as pessoas de virtude, segundo os seus graus de superioridade na religião, e chamá-las à sua presença de acordo com isso. Destas, umas tinham uma necessidade, outras duas, e outras ainda mais. Nosso Mestre, o Profeta, ocupava-se de suas necessidades religiosas, dava às suas perguntas as respostas devidas e depois dizia: ‘Que os que estão aqui transmitam isto aos que não estão! Trazei-me a necessidade de quem não pode vir pessoalmente expor-me a sua necessidade. Pois Allah firmará sobre a Sirât, no Dia do Juízo, os pés de quem expuser a necessidade daquele que não pode expô-la!’

Junto de nosso Mestre, o Profeta, não se mencionava nem se falava de outra coisa senão disso. Aliás, ele mesmo não aceitava de ninguém senão isso. Os que entravam na presença de nosso Mestre, o Profeta, entravam em busca de ciência e saíam como os maiores sábios, tendo provado o sabor da ciência e servindo de guias para os outros!”

Os estados de nosso Mestre, o Profeta, fora de casa

Husayn perguntou a seu pai, Alî, sobre os estados de nosso Mestre, o Profeta, fora de casa. Ele os contou assim:

O Mestre do universo não falava fora de casa, a não ser que a sua palavra fosse útil aos muçulmanos, os aproximasse uns dos outros e afastasse a desunião e a frieza entre eles. Honrava o homem de mais nobres qualidades de cada povo e fazia-o governador sobre o seu povo.13 Protegia o povo dos maus e das maldades, e ele mesmo se guardava de cair em tais situações. Não negava a ninguém o seu rosto sorridente e o seu belo caráter.

Se não via os seus Companheiros, procurava-os e perguntava aos Companheiros o que se passava entre eles. Louvava e fortalecia o bem; censurava e enfraquecia o mal. Tudo o que fazia era moderado, sem contradição. Temendo que caíssem na negligência, não deixava de advertir os muçulmanos. Todos os seus estados eram constantes. Nosso Mestre Rasûlullah tinha plena disposição para a adoração e a obediência. Não ultrapassava o direito nem deixava de cumpri-lo. Os que lhe eram próximos eram os melhores dos homens.

Junto dele, o mais excelso dos Companheiros era o de conselho mais abrangente, e o de grau mais elevado era o que melhor ajudava e fazia bem aos necessitados. O Mestre do universo não se sentava nem se levantava sem mencionar Allah.

Na reunião não reservava para si nenhum lugar, e proibia que se fizesse isso. Onde quer que fosse, quando chegava junto de um grupo sentado, não passava para o lugar de honra; sentava-se no fim da reunião e ordenava aos muçulmanos que fizessem o mesmo.

Dava a sua parte a cada um dos que se sentavam com ele e honrava-os de tal modo que cada um pensava não haver ninguém mais estimado do que ele junto de Rasûlullah. Tinha paciência em tudo com quem se sentava com ele ou vinha expor-lhe a sua necessidade, até que este se levantasse e partisse.14

Quando alguém lhe fazia um pedido, não o recusava: ou dava, ou o despedia com palavras doces e brandas. O seu belo caráter era tão amplo que abarcava todos os homens. Foi para eles um pai compassivo. Em matéria de direito, todos eram iguais diante dele. A reunião de nosso Mestre, o Profeta, era uma reunião de ciência, de pudor, de paciência e de confiança.

Na sua reunião não se levantavam as vozes, ninguém era acusado, e não se divulgavam as faltas e os erros cometidos. Os que estavam na reunião do Mestre do universo eram iguais entre si; a sua superioridade uns sobre os outros era só pela taqwâ. Todos eram humildes. Honravam os mais velhos, mostravam ternura e compaixão aos pequenos, preferiam os necessitados aos outros e esforçavam-se por atender às suas necessidades, protegiam e cuidavam dos estrangeiros e dos que vinham de fora. Nosso Mestre, o Profeta, tinha sempre o rosto sorridente e o caráter brando. A sua clemência e o seu perdão eram abundantes. Não era duro de coração. Não disputava com ninguém. Nunca gritava nem dizia palavras feias. Não censurava ninguém. Não era avarento. Fingia não ver aquilo de que não gostava. Não fazia perder a esperança a quem esperava algo, e não mostrava abertamente o seu desagrado por coisa alguma.

Nosso Mestre Rasûlullah mantinha-se longe de três coisas:

- de disputar com as pessoas,

- de falar muito,

“Eu não como recostado em alguma coisa” Hadîth sharîf

- de ocupar-se com coisas inúteis e vãs.

E deixava as pessoas em paz em três coisas:

- não censurava nem repreendia ninguém, nem em face nem pelas costas,

- não investigava os defeitos e as faltas de ninguém,

- não dizia a ninguém palavra que não lhe trouxesse recompensa e bem.

Quando nosso Mestre, o Profeta, falava, os que estavam em sua presença ficavam silenciosos e imóveis, como se um pássaro lhes tivesse pousado na cabeça; quando ele terminava e se calava, diziam o que tinham a dizer, mas nunca discutiam nem disputavam diante dele. Quando alguém falava junto de nosso Mestre, o Profeta, os outros calavam-se até que terminasse. Junto de nosso Mestre, o Profeta, a palavra do último não era diferente da palavra do primeiro. Se os que estavam em sua reunião riam de alguma coisa, ele também ria com eles; se se admiravam de alguma coisa, também ele se admirava com eles. Suportava a rudeza e a aspereza nas palavras e perguntas dos estrangeiros e forasteiros que vinham à sua presença, para que os seus Companheiros agissem como ele. Nosso Mestre, o Profeta, dizia: “Quando virdes alguém necessitado pedir aquilo de que precisa, ajudai-o a obtê-lo!”

Nosso Mestre, o Profeta, não aceitava louvor que não correspondesse à verdade. Não interrompia a palavra de ninguém, a não ser que ultrapassasse o direito. Quando o ultrapassava, interrompia-o e proibia-o, ou levantava-se e deixava a reunião. O silêncio do Mestre do universo baseava-se em quatro coisas: hilm (brandura), hadhar (cautela), taqdîr (ponderação) e tafakkur (reflexão). A sua ponderação mostrava-se em olhar e ouvir todas as pessoas por igual. A sua reflexão via-se no pensar nos assuntos deste mundo e da outra vida.

A brandura e a paciência, ele as reunira em si. Nada do que pertencia ao mundo o encolerizava. Quanto à cautela, por esta qualidade reuniam-se nele quatro virtudes:

- tomava o melhor para que fosse seguido,

- deixava as coisas feias para que delas se abstivessem,

- empregava o seu juízo nas coisas úteis à sua umma,

- concentrava todo o seu empenho nas coisas que assegurariam a felicidade de sua umma neste mundo e na outra vida.

Nunca aconteceu que o Mestre do universo dissesse “Não!” a alguma coisa. Quando lhe pediam algo que queria fazer, dizia: “Está bem!”; quando lhe pediam algo que não queria fazer, calava-se, e por esse silêncio se compreendia que não o queria fazer. Esforçava-se pela felicidade de todos neste mundo e na outra vida. Numa expedição, quando lhe pediram que fizesse dua para que os kâfirs fossem aniquilados, disse:

“Não fui enviado para amaldiçoar, para que os homens sofram tormento. Fui enviado para fazer o bem a todos, para que os homens alcancem a paz.”

No sentido do centésimo sétimo versículo da Sura al-Anbiyâ foi dito: “Não te enviamos senão como misericórdia e bem para os mundos.” Por isso ele se esforçava sempre pelo bem de todos. Segundo relata Anas ibn Mâlik, quando nosso Mestre, o Profeta, encontrava alguém, fazia musâfaha15 com ele; enquanto aquela pessoa não retirasse a mão, nosso Mestre, o Profeta, também não retirava a sua, e enquanto ela não desviasse o rosto, nosso Mestre, o Profeta, também não desviava dela o rosto.

Anas ibn Mâlik conta também: “Perguntamos a nosso Mestre: ‘Yâ Rasûlallah! Devemos inclinar-nos uns diante dos outros?’ Ele disse: ‘Não!’ Perguntamos: ‘Devemos abraçar-nos uns aos outros?’ Ele disse: ‘Não! Mas fazei musâfaha!’”16

Barâ ibn Âzib contou que nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quando dois muçulmanos se encontram e fazem musâfaha, são perdoados antes mesmo de se separarem!”

O Mestre do universo estava sempre pensativo. O seu silêncio durava mais que a sua fala. Rasûlullah não falava sem necessidade. Ao começar e ao terminar de falar, mencionava o nome de Allah.

Falava com palavras breves e cheias de sentido. As palavras de Rasûlullah eram sempre verdadeiras e oportunas. Quando Rasûlullah falava, não usava palavra a mais nem a menos. Não magoava o coração de ninguém nem desprezava ninguém.

Nosso Mestre Rasûlullah não se irava por causa do mundo nem dos assuntos do mundo. Mas, quando alguém queria violar um direito, nada podia deter a sua ira até que esse direito fosse restituído.

Nunca se irava nem se vingava por causa de sua própria pessoa. Quando apontava para alguma coisa, não apontava com o dedo, mas com a mão inteira. Quando se admirava, virava a mão: se a palma estava voltada para o céu, voltava-a para a terra, e se estava voltada para a terra, voltava-a para o céu. Quando falava, fazia gestos com a mão e batia com a palma da mão direita abençoada no lado interior do polegar da mão esquerda. Quando se irava, abandonava logo a ira e não a deixava transparecer. Quando se alegrava e se regozijava, fechava os olhos abençoados. O seu riso mais forte era o sorriso. Quando sorria, os dentes abençoados de sua boca abençoada pareciam grãos de pérola.17

Gostava de dar a precedência ao lado direito nas boas obras;
Na ablução e ao vestir-se, apressava-se aquela mina de generosidade.
Deitava-se sobre o lado direito, com o rosto voltado para a qibla;
A cada respiração contemplava o invisível aquela mina de generosidade.

“Quando dois muçulmanos se encontram, se saúdam e fazem musâfaha, são perdoados antes mesmo de se separarem!” Hadîth sharîf

O seu leito era de couro, o travesseiro cheio de fibra de palmeira;
Deitando-se à noite, pouco dormia, sempre desperta, aquela mina de generosidade.
Dormiam-lhe os olhos, mas o coração não dormia, estava com o Amigo;
Desde a eternidade, enamorada de Sua beleza estava aquela mina de generosidade.

O deitar-se e o dormir de nosso Mestre, o Profeta

Quando nosso Mestre, o Profeta, queria dormir em seu leito, deitava-se sobre o lado direito abençoado, punha a mão direita abençoada debaixo da face direita abençoada e depois fazia esta dua: “Ó Allah! Entreguei-me a Ti. Voltei o meu rosto para Ti. Confiei-Te o meu assunto. Apoiei as costas em Ti. Temo o Teu castigo e espero a Tua misericórdia. Não há refúgio senão a Tua misericórdia, e não há de que se guardar senão do Teu castigo.

Só na Tua misericórdia se encontra refúgio, e só pela Tua misericórdia se alcança a salvação. Creio no Livro que revelaste e no Profeta que enviaste.

Ó meu Senhor! Pus o meu lado na terra com o Teu nome. Se retiveres a minha alma, trata-a com a Tua misericórdia! Se a soltares, protege-a como proteges os Teus servos virtuosos!

Ó Allah! Com o Teu nome morro e com o Teu nome revivo. Ó Allah, que nos alimentas e nos dás de beber, que satisfazes todas as nossas necessidades, que nos dás abrigo e refúgio! Louvo-Te infinitas vezes. Quantos há que não têm quem lhes satisfaça as necessidades nem quem lhes dê abrigo! Ó Allah! No dia em que reunires os Teus servos na Tua presença, protege-me do Teu castigo! Ó Allah! Tu és o Primeiro (Awwal)! Nada há antes de Ti! Tu és o Último (Âkhir)! Nada há depois de Ti! Tu és o Manifesto (Zâhir)! Nada está acima de Ti!”

Ao acordar, fazia esta dua: “Não há deus senão Tu! Glorifico-Te e declaro-Te isento de toda imperfeição. Ó Allah! Peço o perdão de meus pecados e a Tua misericórdia.

Louvado seja Allah, que nos ressuscitou depois de nos ter feito morrer. E a Ele será o nosso retorno no Dia do Juízo.”18 Depois fazia esta dua: “Ó Allah! Aumenta a minha ciência! Depois de me teres mostrado o caminho reto, não desvies o meu coração! Concede-me, da Tua sublime presença, uma misericórdia! Pois Tu és Aquele cujo perdão é o maior!” Barâ ibn Âzib conta: o Mestre do universo disse-me:

“Quando fores para o lugar onde te deitas, faz a ablução como a fazes para o namâz! Depois deita-te sobre o lado direito e dize: ‘Ó Allah! Entreguei-me a Ti. Voltei o meu rosto para Ti. Apoiei as costas em Ti. Temo o Teu castigo e espero a Tua misericórdia. Não há refúgio senão a Tua misericórdia, nem há proteção contra o Teu castigo! Só na Tua misericórdia se encontra refúgio, e só pela Tua misericórdia se alcança a salvação. Creio no Livro que revelaste e no Profeta que enviaste!’ Se morreres nessa noite, morrerás na fitra do Islã. Quem disser isto e morrer nessa noite, morrerá na fitra do Islã!”

Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quando um de vós se levantar do leito durante a noite e depois voltar para se deitar, sacuda-o três vezes, porque não sabe o que aconteceu depois que se levantou, nem o que veio pousar sobre o leito.” Abdullah ibn Tikhfa (radiyallahu anh), dos Ashâb-i Suffa, conta: “Eu estava dormindo na mesquita, ao amanhecer, deitado de bruços, isto é, sobre o rosto, quando alguém me tocou com o pé.

– ‘Quem é este?’, perguntou ele.

– ‘Sou Abdullah ibn Tikhfa’, respondi.

E que vejo? Era o Mestre do universo! Recompus-me logo.

– ‘Esta é a maneira de deitar-se que Allah, o Altíssimo, menos ama!’, disse ele.”19 Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), não pisava a terra sem ablução.

Nunca se viu nosso Mestre Rasûlullah ir ao lugar das necessidades e não fazer depois a ablução.

O andar de nosso Mestre, o Profeta

Hind ibn Abû Hâla conta: “Quando o Mestre do universo andava, levantava os pés do chão com vigor, não se bamboleava para os lados, dava passos largos, inclinava-se um pouco para a frente, como quem desce de um lugar alto, e andava com dignidade e serenidade, à vontade.

Quando queria olhar para algum lado, voltava-se inteiramente para olhar. Não olhava ao redor a esmo.

O seu olhar para a terra era mais demorado que o seu olhar para o céu.

E olhava para a terra com o canto dos olhos. No caminho, andava atrás de seus Companheiros.

Quando encontrava alguém, era ele o primeiro a saudar.”

Abû Hurayra conta: “Não vi ninguém mais rápido no andar do que o Mestre do universo. Quando andava, era como se a terra se dobrasse debaixo de seus pés! Nós nos esforçávamos ao máximo para alcançá-lo, ao passo que o Mestre do universo, ao andar, não se esforçava nada.”20

O sentar-se de nosso Mestre, o Profeta

Na maioria das vezes sentava-se de joelhos. Viram-no também sentar-se na posição de qurfusâ, isto é, com os joelhos levantados e rodeando-os com os braços.21 Nunca estendia os pés na direção dos que estavam em sua reunião. Em geral sentava-se voltado para a qibla. Muitas vezes estendia para os hóspedes que vinham a ele o manto (abâ) que trazia às costas e fazia-os sentar sobre ele. Às vezes dava aos hóspedes até a sua própria almofada. Hanzala ibn Hidhyam contou: “Quando fui até nosso Mestre, o Profeta, vi-o sentado de pernas cruzadas.” Jâbir ibn Samura também informou que nosso Mestre, o Profeta, depois de fazer o namâz da manhã, ficava sentado de pernas cruzadas no lugar do seu namâz até o nascer do sol.

“Adornai-vos com o caráter de Allahu ta’âlâ!” Hadîth sharîf

Sharîd ibn Suwayd diz: “Nosso Mestre, o Profeta, passou por mim. Eu estava então sentado com a mão esquerda posta atrás das costas, apoiado sobre metade da palma da mão. O Mestre do universo disse: ’Sentas-te como se sentam aqueles que incorreram na ira de Allah (os judeus)?’” Abû Juhayfa conta: “Nosso Mestre, o Profeta, disse: ‘Eu não como recostado em alguma coisa.’”22

Sentava-se de pernas cruzadas, ou de joelhos, ou com o joelho erguido;
Cheia de compostura, às claras e em segredo, era aquela mina de generosidade.
Comia com três dedos e lambia-os com gosto;
Bebia a água em três goles aquela mina de generosidade.
Gostava de mel, de halwa, de abóbora, de vinagre e de tharîd, mas
Nunca comeu pão de cevada até fartar-se aquela mina de generosidade.
Às vezes, de fome, amarrava uma pedra ao ventre abençoado;
“Que o meu coração não trema”, dizia aquela mina de generosidade.
Na Casa da Felicidade, durante meses não se acendia o fogo;
Com contentamento comia tâmaras e romãs aquela mina de generosidade.

O comer e o beber de nosso Mestre, o Profeta

Nosso Mestre, o Profeta, disse:

“A bênção da comida está em fazer a ablução antes de comer e em lavar as mãos depois de comer!”23

“Quem dormir sem lavar da mão o cheiro e a sujeira da carne e da gordura, e lhe acontecer alguma coisa, não culpe ninguém senão a si mesmo!” “A bênção da comida está no meio dela! Quando um de vós comer, coma da borda do prato e não do meio, porque a bênção desce no meio!” Nossa mãe Âisha relata: “O Mestre do universo disse: ‘Quando um de vós for comer, diga Bismillahir-rahmânir-rahîm e mencione o nome de Allah, o Altíssimo. Se esquecer de dizê-lo antes de começar a comer, diga: Bismillahir-rahmânir-rahîm pelo começo e pelo fim da comida!’”24

Segundo relata Umayya ibn Makhshî, um homem comia sem dizer a basmala.

Nosso Mestre, o Profeta, percebeu que ele não tinha dito a basmala e disse-lhe: “Dize Bismillahir-rahmânir-rahîm pelo começo e pelo fim da comida!” Quando o homem disse “Bismillahir-rahmânir-rahîm”, nosso Mestre, o Profeta, sorriu e disse: “O shaytân estava comendo contigo. Quando mencionaste o nome de Allah, o Altíssimo, o shaytân vomitou tudo o que tinha no ventre, sem deixar nada!”

Segundo relata Abdullah ibn Umar, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quando um de vós comer, coma com a mão direita. E quando beber alguma coisa, beba também com a mão direita. Pois o shaytân come com a mão esquerda e bebe com a mão esquerda!”25

Salama ibn Akwa’ relatou o que ouvira de seu pai: Quando nosso Mestre, o Profeta, viu um homem da tribo de Ashja’, conhecido como Busr ibn Ra’iyul-Îr, comendo a seu lado com a mão esquerda, disse-lhe: “Come com a mão direita!” O homem mentiu, dizendo: “Não tenho forças para isso, não consigo comer com a mão direita!” Nosso Mestre, o Profeta, disse então: “Que não tenhas forças! Nada o impede de comer com a mão direita senão a soberba e o orgulho!” Desde aquele dia, o homem nunca mais conseguiu levar a mão à boca!26 Nosso Mestre, o Profeta, costumava dizer: “Allahu ta’âlâ, que é Azîz e Jalîl, certamente Se satisfaz com o servo que come algum alimento ou bebe alguma bebida e por isso O louva!”

Nosso Mestre, o Profeta, sentava-se sobre a terra e comia também no chão. Dizia: “Sento-me como se senta o servo, e como da mesma forma que o servo come. Eu não sou senão um servo! Quem se desvia da minha sunna não é dos meus!”27

Umar ibn Abû Salama conta: “Eu era um menino criado sob a tutela do Mestre do universo. Enquanto comia, minha mão andava por todo o recipiente da comida. O Mestre do universo disse-me: ‘Meu filho! Dize a basmala. Come com a mão direita! Come do que está diante de ti!’28 Desde então, passei a comer sempre assim.” Nosso Mestre, o Profeta, jamais desprezou ou censurou comida alguma. Não elogiava uma dádiva por lhe agradar, nem a censurava por não lhe agradar. Se desejava uma comida, comia-a; se não a desejava, deixava-a e calava-se. Mostrava respeito até pela menor dádiva e não censurava dádiva alguma. Nosso Mestre Rasûlullah não dizia: “Fazei isto, fazei aquilo.” Comia o que houvesse. Nossa mãe Âisha relata: Nosso Mestre, o Profeta, vinha até mim e perguntava: “Tens algo de comer?” Eu respondia: “Não!” Ele dizia então: “Nesse caso, estou jejuando!”29 Nossa mãe Âisha relata: “Desde a chegada de nosso Mestre, o Profeta, a Medina até o seu falecimento, sua família nunca se saciou com pão de trigo por três noites seguidas.30 Na maioria das vezes, o que comiam era pão de cevada e tâmaras, e mesmo isso não em grande quantidade. No estômago de nosso Mestre, o Profeta, nunca se juntaram num mesmo dia duas espécies de comida: quando saciava seu estômago abençoado com tâmaras, não o saciava com pão; e quando o saciava com pão, não o saciava com tâmaras. Eis o que me faz chorar!”31

Nosso Mestre, o Profeta, gostava da halwa e do mel, do tharîd de pão, do tharîd de tâmaras e dos pratos de verduras. Quando lhe traziam e ofereciam leite, dizia: “No leite há duas bênçãos.”32

“Quando um de vós comer, coma com a mão direita. E quando beber algo, beba também com a mão direita, pois o shaytân come com a mão esquerda e bebe com a mão esquerda!” Hadîth sharîf

Abdullah ibn Abbâs relata: Eu, Khâlid ibn Walîd e o Mestre do universo fomos juntos à casa de minha tia materna, Maymûna bint Hârith. Minha tia perguntou: “Quereis que vos sirva leite?”

O Mestre do universo disse: “Está bem!” Minha tia foi e trouxe leite numa vasilha. O Mestre do universo tomou-a e bebeu. Eu estava à direita do Mestre do universo, e Khâlid ibn Walîd, à sua esquerda. Nosso Mestre Rasûlullah deu-me o resto do leite e disse: “Bebe tu. Se quiseres, podes dá-lo de preferência a Khâlid.”

Eu disse: “Quando se trata de beber o que tu deixaste, jamais darei preferência a ninguém sobre mim mesmo!” Então nosso Mestre Rasûlullah disse:

“Aquele a quem Allahu ta’âlâ der de comer algum alimento diga: Allahumma bârik lanâ fîhi wa at’imnâ khayran minhu (Ó Allah! Concede-nos bênção neste alimento e dá-nos de comer algo ainda melhor do que ele)!

E aquele a quem Allahu ta’âlâ der de beber leite diga: Allahumma bârik lanâ fîhi wa zidnâ minhu (Ó Allah! Concede-nos bênção neste leite e dá-nos ainda mais dele)! Pois nada, senão o leite, ocupa o lugar da comida e da bebida.”33

Quando os muçulmanos de Medina viam as primeiras tâmaras, as temporãs, traziam-nas a nosso Mestre, o Profeta. Nosso Mestre Rasûlullah tomava-as na mão, fazia a dua da bênção e depois chamava a menor das crianças que visse ali e dava-as a ela. Dizia: “Na casa em que não há tâmaras, a sua gente passa fome.” Nosso Mestre, o Profeta, gostava de comer o que ficava no fundo do recipiente. Dizia: “Quem, depois de comer num prato ou numa vasilha, raspa o que nele ficou, esse prato pede perdão (faz istighfâr) por ele!” Relata-se também que nosso Mestre, o Profeta, disse: “Ó Abû Dharr! Quando cozinhares carne, põe-lhe mais caldo, pensa em teus vizinhos e reparte também com eles.”34

“Quem se sacia enquanto o seu vizinho passa fome não é um crente perfeito!”

“Adorai a Allah! Dai de comer! Difundi a saudação de paz (salâm), para que entreis nos Paraísos!”35

“A comida de um basta para dois. A comida de três basta para quatro. A comida de quatro basta para oito!”36

Asmâ bint Abû Bakr relatou: Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) recomendava que a comida cozida fosse mantida coberta até cessar a fervura e o vapor, e dizia: “É a maior das bênçãos!” Na Conquista de Meca, nosso Mestre Rasûlullah foi à casa de Umm Hânî, filha de seu tio Abû Tâlib. Perguntou-lhe: “Tens algo de comer?” Umm Hânî disse: “Não! Só há migalhas de pão seco e vinagre! Mas tenho vergonha de oferecer-te isso!” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Traze-as. Esfarela-as na água. Traze também sal!” Depois de derramar o vinagre por cima e de comer, agradeceu a Allah, o Altíssimo, e disse: “Ó Umm Hânî! Que bom acompanhamento é o vinagre! A casa em que há vinagre não fica privada de acompanhamento!”37 Comia o pão sem nada, ou com tâmaras, com vinagre, com fruta, com sopa, ou molhado em azeite de oliva. Comia também carne de galinha, de lebre, de camelo, de gazela, de peixe e carne seca, e também queijo. Gostava da parte da paleta. Segurava-a com as mãos e comia-a mordendo. (É permitido também cortá-la com faca e comer.) Na maioria das vezes, tomava leite ou comia tâmaras. Dentre os alimentos, gostava da carne de carneiro, do caldo de carne, da abóbora, dos doces, do mel, das tâmaras, do leite, da nata, da melancia, do melão, das uvas e do pepino.38 Bebia a água devagar, em três goles, começando com a basmala; no fim, dizia “Alhamdulillah” e fazia dua. Nosso Mestre, o Profeta, bebia da água doce trazida de Buyût as-Suqyâ. Buyût as-Suqyâ ficava a dois dias de caminho de Medina.39 Quando lhe perguntaram: “Qual das bebidas é a mais deliciosa?”, nosso Mestre, o Profeta, respondeu: “A água doce e fresca!”40

Nosso Mestre, o Profeta, dizia: “Quando um de vós beber algo, não respire dentro do recipiente.” Assim como proibia respirar dentro do que se come e se bebe, proibia também comer e beber em recipientes de ouro e de prata. Ao beber água, nosso Mestre, o Profeta, tomava fôlego duas ou três vezes e dizia: “Assim é mais proveitoso e sacia melhor a sede.” E dizia ainda: “Quando um de vós beber algo, não o beba de um só fôlego.” E: “Não bebais de um só fôlego, como os camelos! Bebei em dois ou três fôlegos! Quando fordes beber, dizei ‘Bismillah!’, e quando afastardes a boca do recipiente, dizei ‘Alhamdulillah!’”41

Nawfal ibn Mu’âwiya relata: “O Mestre do universo, ao beber algo, tomava fôlego três vezes. No começo, mencionava o nome de Allah, o Altíssimo, dizendo ‘Bismillahir-rahmânir-rahîm’, e no fim louvava-O dizendo ‘Alhamdulillah’.”42

Segundo relata Abû Umâma al-Bâhilî, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quando meu Senhor, que é Azîz e Jalîl, me propôs transformar em ouro o vale de Meca, eu disse: ‘Não! Ó meu Senhor! Que eu esteja um dia saciado e um dia com fome. Quando estiver com fome, suplicarei a Ti e Te recordarei. Quando estiver saciado, eu Te louvarei e Te agradecerei!’”43

Aprender o conhecimento do comer e do beber vem antes de aprender o da adoração. Lavar as mãos antes e depois da refeição, comer com a mão direita e beber com a mão direita era o costume de Rasûlullah. Ao lavar as mãos antes da refeição, lavam primeiro os jovens; depois da refeição, primeiro os mais velhos.44 Comer da borda do prato, comer do que está diante de si e sentar-se sobre o pé esquerdo, com o pé direito erguido, é sunna de Rasûlullah. Não se deve comer nem cheirar o que está muito quente.

“Quem se sacia enquanto o seu vizinho passa fome não é um crente perfeito!” Hadîth sharîf

Nosso Mestre, o Profeta, não achava conveniente comer sem dizer palavra alguma. Isso é costume dos adoradores do fogo. Deve-se conversar com alegria.

Começar e terminar a refeição com sal é sunna de Rasûlullah, e é cura. Uma das primeiras bid’as surgidas no Islã é comer até se fartar. Comer carne todos os dias aflige o coração. Os anjos não gostam disso. Comer carne muito raramente, por sua vez, estraga o caráter. Comer sobre a sufra, isto é, sobre uma toalha estendida, e estendê-la no chão é bom. A sufra, antigamente, era de couro. O alimento vegetal é muito bom. A sufra em que não há alimento vegetal foi comparada a um velho sem juízo.

O imam Ja’far Sâdiq disse: “Quem quer ter muitos bens e muitos filhos, coma muito alimento vegetal!” Primeiro deve-se sentar à sufra, e só depois trazer a comida.

Nosso Profeta disse: “Eu sou um servo. Como os servos, sento-me no chão e como.”45

Não se deve comer sem ter fome, deve-se levantar antes de ficar saciado [não se deve comer muito], e não se deve rir sem que haja algo de que se espantar. Nosso Mestre, o Profeta, dizia: “O princípio de todos os bens é a fome. O princípio de todos os males é a saciedade.” O sabor da comida cresce na medida da fome. A saciedade faz esquecer. Cega o coração e, como as bebidas alcoólicas, estraga o sangue. A fome purifica a mente e faz brilhar o coração. Não se deve comer nem beber com os fâsiqs e com gente má. A comida fervente deve esfriar coberta.

Nosso Mestre Rasûlullah dizia: “Comei com a mão direita. Bebei com a mão direita.” Comer com três dedos é sunna. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Ó Alî! Come a comida com três dedos, pois o shaytân come com dois dedos.” Nosso Profeta tomava o pão com a mão direita e depois comia a melancia com a mão esquerda. O pão não deve ser partido com uma só mão, mas com as duas.46 O bocado deve ser pequeno e bem mastigado. Não se deve olhar para a direita, para a esquerda ou para o alto; deve-se olhar para o próprio bocado e para o que está diante de si. Não se deve abrir muito a boca. À sufra, não se devem limpar as mãos na roupa ou na cabeça. Quando se vai tossir ou espirrar, deve-se virar a cabeça para trás. Não se deve sentar a uma sufra para a qual não se foi convidado. À sufra, não se deve comer mais do que todos os outros. Uma vez saciado, deve-se fazer dua para não usar essa saciedade em cometer pecados. Deve-se pensar na conta que dela se prestará no Dia do Juízo. Deve-se comer com a intenção de ganhar forças para a adoração. Mesmo com fome, deve-se comer devagar. Os mais velhos devem começar primeiro. Não se deve importunar ninguém dizendo-lhe “Come!” mais de três vezes. Nosso Mestre Rasûlullah comia pouco e insistia muito em não se comer demais. Dizia: “O coração humano é como a seara no campo. A comida é como a chuva. Assim como a água em excesso seca a seara, o alimento em excesso mata o coração. Allahu ta’âlâ não ama quem come muito e bebe muito.”

Rasûlullah recomendava que um terço do estômago fosse reservado à comida e um terço à bebida. Que o terço restante fique para o ar, isto é, vazio, é o grau mais baixo. O melhor grau é comer pouco e dormir pouco. Comer muito é o princípio das doenças; comer pouco é o princípio dos remédios. O hóspede não deve esperar do anfitrião senão pão e sal. O anfitrião deve oferecer bocados ao hóspede. Deve derramar-lhe água nas mãos. Deve servir-lhe o que ele aprecia. O que o hóspede deixar cair num lugar limpo, deve apanhá-lo e devolvê-lo a ele. Se estiver sujo, deve deixá-lo para o gato e outros animais. A bênção de uma casa assim aumenta. Alcança até os netos. Se o que cai no chão não for recolhido, o shaytân o come.

Raspar e comer o que ficou no recipiente é sunna. Pôr água no que sobrou de coisas como a compota ou o ayran, agitar e beber é de grande recompensa. É permitido deixar sobras no prato ou no copo. Rasûlullah gostava de comer o que o crente deixava.

Limpar os dentes com o miswâk e com o palito depois da refeição é sunna de Rasûlullah. É limpeza. A limpeza fortalece a fé. Depois da refeição, faz-se dua pelo dono da casa, pedindo para ele bênção, misericórdia e perdão. Depois, pede-se licença para partir. E convida-se o anfitrião para uma refeição.

Durante a refeição não se devem contar coisas assustadoras ou repugnantes. Não se deve falar de morte nem de doença. Não se deve ficar olhando para os pratos que são trazidos à sufra. Não se deve tomar um segundo bocado na mão antes de engolir o primeiro. No meio da refeição, não se deve levantar da sufra por coisa alguma, nem mesmo pelo namâz. O namâz deve ser feito antes. Se os pratos preparados estiverem para esfriar ou estragar-se, e o tempo do namâz permitir fazê-lo depois da refeição, deve-se comer antes do namâz. Deve-se levantar da sufra depois de retirada a comida. Não se deve comer na rua, de pé ou andando. Não se deve deitar com cheiro de carne ou de comida na boca ou nas mãos. Também se devem lavar as mãos das crianças. Não se deve deitar de estômago cheio. Os alimentos devem ser comprados na medida da necessidade, e não sem medida, em excesso. Do contrário, há desperdício. Os recipientes de comida e de bebida devem ter tampa. Não se deve beber de rio ou de tanque curvando-se e sorvendo com a boca. Também não se deve beber pelo bico do jarro ou da moringa. Não se deve beber pela parte lascada da xícara ou do copo. No verão, deve-se beber fresco. Rasûlullah gostava de beber sherbet fresco. A água de Zamzam pode ser bebida de pé. Foi dito que o viajante pode beber qualquer água de pé. Não se deve beber água de estômago vazio. A água deve ser bebida devagar, aos sorvos. Nosso Mestre Rasûlullah gostava do prato chamado keshkek. Foi Jibrîl alaihis-salâm quem ensinou a nosso Mestre, o Profeta, a preparar a harîsa, isto é, o keshkek. A harîsa fortalece muito a pessoa. Todos os profetas comeram pão de cevada. Rasûlullah gostava do doce de abóbora e da sopa de lentilhas, da carne de caça e da carne de carneiro. Do carneiro, gostava da paleta, do peito e da espádua. Gostava muito da carne da espádua do cabrito. A carne de cabrito é de fácil digestão. Convém a todos.47

“O princípio de todos os bens é a fome. O princípio de todos os males é a saciedade” Hadîth sharîf

A carne do animal macho é mais fácil de digerir do que a da fêmea, e a carne escura, mais do que a branca. Quanto à facilidade de digestão e ao sabor, a carne de carneiro e o leite de vaca são os melhores.

Das carnes de caça, a melhor é a de veado. A carne de lebre é halâl. Nosso Profeta comeu-a. É diurética; em excesso, causa insônia. Convém a todos. A carne de aves e de frango é boa para todos. Das aves domésticas, a de melhor carne é a galinha.

Nosso Profeta disse: “Que bom alimento é o vinagre!” O vinagre é o mais proveitoso dos alimentos. A tâmara também é alimento, isto é, come-se com pão. A uva é ao mesmo tempo alimento e fruta. Comer uvas com pão é sunna. Comer tâmaras em número ímpar é sunna. Comer passas, nozes e amêndoas é sunna. No mel há cura. Setenta profetas fizeram dua pedindo bênção para o mel. Nosso Mestre Rasûlullah gostava muito de tâmaras. Comia as tâmaras junto com melão e melancia. O melão e a melancia limpam os rins e tiram a dor de cabeça. Expelem os vermes. Dão força aos olhos. Ao comer pilaf, deve-se recitar salawât. Nosso Mestre, o Profeta, louvou o comer a fava com a vagem. Disse: “A habbat as-sawdâ, isto é, o cominho-preto, é remédio para os males.” Comer nozes com queijo é cura. Comê-los sozinhos é prejudicial. Devem ser comidos com alguma outra coisa. Nosso Mestre tomava o cacho de uvas na mão esquerda e comia as uvas com a mão direita.48 O marmelo tira a angústia do coração. Em cada melão, em cada melancia e em cada romã há uma gota de água do Paraíso. Cada um deve comer a sua romã sozinho, sem que se perca uma única gota. A romã é boa para as palpitações. Fortalece o estômago. Espremida com a polpa e bebida, expele a bílis e alivia a prisão de ventre. O figo dá alívio ao coração. Tira as dores nas costas e nas espáduas e as cólicas dos órgãos digestivos.

Comer pepino verde com sal e comer nozes com tâmaras e mel é sunna de Rasûlullah.49 Nosso Profeta louvou a berinjela e disse: “Preparai-a com azeite de oliva.”

Louvou também a beldroega. O aipo faz passar o esquecimento. É diurético. Produz sangue e leite. Limpa o fígado. A harshaf, isto é, a alcachofra, dissolve os cálculos da vesícula, limpa o sangue e faz bem ao endurecimento das artérias. Tira também o cheiro do suor. Para quem chega a uma terra, comer primeiro um pouco de cebola crua é bom para a saúde. A cebola aumenta a força de resistência aos micróbios. Se depois da cebola se comer aipo, este lhe tira o mau cheiro. Foi dito que, comendo-se arruda, o cheiro também desaparece. Na última refeição de Rasûlullah havia cebola. Dizia: “Comei a cebola e o alho cozidos.” O cheiro deles incomoda os anjos. O rabanete é diurético. Facilita a digestão.

A barba e os cabelos abençoados de nosso Mestre, o Profeta

Os cabelos abençoados e os pelos da barba de nosso Mestre, o Profeta, não eram muito crespos nem muito lisos; eram naturalmente ondulados. Seus cabelos abençoados eram compridos. A princípio usava franja; depois passou a reparti-los em dois lados. Às vezes deixava crescer os cabelos abençoados; outras vezes cortava-os e encurtava-os.

Quando perguntaram a Anas ibn Mâlik como eram os cabelos abençoados de nosso Mestre Rasûlullah, ele respondeu: “Não eram muito crespos nem muito lisos. Eram algo entre os dois, de tipo intermediário. Quanto ao comprimento, ficavam a meio caminho entre as orelhas e o alto dos ombros.”50 Ibn Abbâs disse: “O Orgulho do mundo deixava os cabelos abençoados caírem sobre a testa. Depois passou a reparti-los.”51 Os sábios disseram: “Repartir os cabelos em dois lados é sunna do Orgulho do universo, pois depois passou a fazer assim. Deixá-los cair sobre a testa é permitido, e reparti-los em dois lados também é permitido. Mas reparti-los é melhor.”

Nossa mãe Âisha as-Siddîqa disse: “Os cabelos abençoados de nosso Mestre, o Profeta, ficavam acima da jumma e abaixo da wafra.”52 Chama-se “jumma” o cabelo que chega ao alto dos ombros, e “wafra” o cabelo que chega ao lóbulo da orelha. Em suma, segundo o relato de nossa mãe Âisha, os cabelos abençoados de nosso Mestre Rasûlullah desciam abaixo do lóbulo das orelhas, mas não chegavam aos ombros; ficavam entre os dois.

Qâdî Iyâd disse: “Estes relatos conciliam-se assim: os cabelos do lado das orelhas abençoadas chegavam até o lóbulo das orelhas abençoadas; os de trás chegavam aos ombros abençoados.” E disseram também: “Dizer-se num relato que desciam até a orelha e noutro que desciam até o ombro abençoado significa que num tempo eram de um modo e noutro tempo de outro. Todos os relatos são verdadeiros. Nosso Mestre, o Profeta, às vezes deixava crescer os cabelos abençoados, e eles desciam até o alto dos ombros. Às vezes cortava-os, e chegavam até o lóbulo ou até o meio das orelhas abençoadas.” Para os homens, raspar a cabeça ou deixar crescer os cabelos, penteá-los e reparti-los em dois lados é sunna. Deve-se agir conforme a situação, o costume e a época. Torcer ou trançar os cabelos é makrûh. Tornar o rosto liso e brilhante como o de uma mulher, raspar a barba para parecer-se com as mulheres, ou raspar o queixo e deixar crescer a barba sobre as faces é harâm.

Anas descreve assim a barba abençoada de nosso Mestre Rasûlullah: “Na barba abençoada de nosso Mestre, o Profeta, havia muito pouco branco. Na cabeça abençoada e na barba abençoada, os fios brancos não passavam de dezessete ou dezoito.”

Um dia, quando Abû Bakr as-Siddîq lhe disse: “Encaneceste, yâ Rasûlallah”, Rasûlullah disse: “Fizeram-me encanecer as suras Hûd, al-Wâqi’a, al-Mursalât, an-Naba (Amma yatasâalûn) e at-Takwîr (Idhash-shamsu kuwwirat).”53

Isto é, nestas suras mencionam-se muito os estados do Paraíso e do Inferno. “Pensando em qual será o estado da minha umma, com pesar e tristeza, encaneceram-me os cabelos e a barba”, disse ele. Amr ibn Shu’ayb disse: “Rasûlullah aparava a barba abençoada na largura e no comprimento.” No hadîth sharîf relatado por Tirmidhî, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quem não apara o bigode não é dos nossos.”54 E em outro hadîth sharîf foi dito: “Deixai crescer a barba e aparai bem o bigode.”55 Ibn Abdulhakîm disse: “Deve-se aparar bem o bigode e não cortar a barba. Aparar bem o bigode não quer dizer raspá-lo.” O imam Nawawî disse: “O que convém, ao aparar o bigode, é cortá-lo até que apareça a borda do lábio; não se deve cortá-lo rente à raiz, mas encurtá-lo.”

“Comei a cebola e o alho cozidos” Hadîth sharîf

Os sábios consideraram makrûh aparar a parte de cima do bigode e deixar pender as pontas dos dois lados. Ibn Umar conta: “Falaram a nosso Mestre Rasûlullah da comunidade dos magos (adoradores do fogo). Nosso Mestre Rasûlullah disse então: ‘Eles deixam crescer as pontas do bigode e raspam a barba. Portanto, fazei o contrário deles.’”56

Quando Abû Umâma disse: “Yâ Rasûlallah! A Gente do Livro apara a barba e deixa crescer o bigode”, nosso Mestre Rasûlullah disse: “Vós, aparai as pontas do bigode e deixai crescer a barba.”

Segundo informam os sábios, aparar o bigode, encurtando-o até a espessura das sobrancelhas, é sunna. Deixar a barba crescer do comprimento de um punho e cortar o que passar de um punho é sunna. Deixar a barba mais curta do que um punho também não está de acordo com a sunna. Deixar a barba curta com a intenção de seguir a sunna torna-se bid’a e harâm. Deixar crescer a barba é sunnat-i zawâid. Para cumprir o amr-i ma’rûf, para garantir o sustento, para impedir que surja fitna, é permitido, e até necessário, raspar completamente a barba. Estas coisas são justificativas para deixar a sunna. Mas não servem de justificativa para cometer a bid’a de deixar a barba curta.

As roupas que nosso Mestre, o Profeta, vestia

Vestia tudo o que encontrava dentre as coisas que é permitido vestir. Cobria-se, à maneira do ihrâm, com peças não costuradas de tecido grosso, cingia-se com um pano à cintura, e vestia também camisa e túnica (jubba). Eram tecidas de algodão, de lã ou de pelo. Na maioria das vezes vestia branco; às vezes, verde. Também acontecia vestir roupas costuradas. Nas sextas-feiras e nos bayrams, quando chegavam embaixadores estrangeiros e em tempo de batalha, vestia camisas e túnicas de valor. A cor de suas roupas era, na maioria das vezes, branca. Às vezes eram verdes, vermelhas ou pretas. Suas roupas cobriam-lhe os braços até os pulsos e as pernas abençoadas até o meio da canela. O imam Tirmidhî (rahimahullahu ta’âlâ) diz em seu livro “Shamâil-i Sharîf”: “Rasûlullah gostava de vestir o qamîs, isto é, a camisa. As mangas de sua camisa chegavam até os pulsos. Nas mangas e na gola de sua camisa não havia botões. Seu calçado era de couro, com uma correia e dois qibâls. O qibâl é uma tira de couro com uma ponta costurada à correia e a outra à ponta da frente do calçado. Passa entre dois dedos. No vestir roupas e calçados segue-se o costume. Afastar-se do costume é causa de notoriedade. É preciso guardar-se da notoriedade. Quando entrou em Meca, trazia na cabeça abençoada um turbante preto.” Enrolava na cabeça, em forma de turbante, uma musselina, na maioria das vezes branca, às vezes preta, e deixava pender a ponta, do comprimento de um palmo, entre os dois ombros. Seu turbante não era muito grande nem muito pequeno; tinha cerca de três metros e meio de comprimento. Enrolava o turbante sem solidéu e, às vezes, usava um solidéu acolchoado sem turbante. Nosso Mestre, o Profeta, tinha uma roupa chamada Hibara, feita de pano listrado do Iêmen, tecido com fio de algodão e de linho. Gostava muito de vestir essa roupa. Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), tinha também uma roupa branca. Dizia: “Das vossas roupas, vesti as brancas! Que os vossos vivos vistam roupa branca. E envolvei também os vossos mortos em mortalha branca! Pois ela é a melhor e a mais excelente das vossas vestes!”57

“Quem veste uma roupa por fama e ostentação, Allah desvia-Se dele até que a tire! No Dia do Juízo, Ele o fará vestir a roupa da humilhação!” Hadîth sharîf

Nosso Profeta também foi visto vestido de verde. Abû Rimtha conta que viu nosso Profeta trajando uma roupa verde de duas peças, uma por baixo e outra por cima.58 Nosso Profeta vestia também a hulla listrada. Barâ ibn Âzib disse: “Entre os que vestem a roupa chamada hulla vermelha (listrada) e têm o cabelo até o lóbulo da orelha, não vi ninguém mais belo do que Rasûlullah alaihis-salâm!”59 Nosso Profeta tinha uma túnica (jubba) vermelha que vestia nas sextas-feiras e nos bayrams. Tinha também uma túnica feita no Iêmen. Nas viagens, nosso Profeta vestia uma túnica feita em Damasco, de mangas estreitas nos punhos. Nas batalhas, quando se encontrava com o inimigo, nosso Profeta vestia também uma túnica feita do tecido taylasan que os xás da Pérsia usavam, com uma peça de cetim na gola e um debrum de cetim nas duas aberturas da frente e de trás da fralda e nas mangas.

Esta túnica ficou com Âisha até o seu falecimento; depois dela, tomou-a Asmâ bint Abû Bakr. Com a água em que se lavava esta túnica que nosso Profeta vestira, lavavam-se os doentes, e eles se curavam.60 Entre os despojos tomados na expedição de Dûmat al-Jandal, uma túnica coube a nosso amado Profeta na partilha. Sua trama e sua urdidura eram tecidas de seda, o tecido era cetim, e nos bordados havia folhas de tamareira feitas com fio de ouro. Nosso Mestre, o Profeta, vestiu esta túnica, subiu ao minbar, sentou-se e desceu do minbar sem dizer palavra. Os Companheiros tocavam-na com as mãos, olhavam-na e admiravam a sua beleza. Nosso Mestre, o Profeta, perguntou: “Admirais-vos da beleza disto? Agradou-vos muito?” Eles disseram: “Nunca vimos roupa mais bela do que esta!” Nosso Profeta disse: “Juro por Allah, em cuja mão poderosa está o meu ser, que os lenços de Sa’d ibn Mu’âdh no Paraíso são mais belos e mais agradáveis do que isto que vedes!”

Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quem veste uma roupa por fama e ostentação, Allah desvia-Se dele até que a tire! No Dia do Juízo, Ele o fará vestir a roupa da humilhação!”

E disse ainda: “A quem veste uma roupa por fama e ostentação, Allah fará vestir, no Dia do Juízo, uma roupa igual. Depois a fará arder em chamas!”

Sahl ibn Sa’d diz: “Uma mulher trouxe a Rasûlullah alaihis-salâm uma burda61 debruada que ela mesma tecera e disse: ‘Yâ Rasûlallah! Teci isto com minhas próprias mãos. Trouxe-o para ti como presente.’ Nosso Mestre Rasûlullah aceitou o presente. Saiu até nós envolto nessa burda. Um dos presentes tocou-a com a mão e disse: ‘Yâ Rasûlallah! Não pode haver nada mais belo do que esta burda! Não a darias a mim?’ Nosso Mestre Rasûlullah disse: ‘Está bem!’ Depois de conversar conosco na mesquita e de nos aconselhar, voltou para casa, mandou embrulhar a burda e enviou-a àquele homem. Os presentes repreenderam-no, dizendo: ‘Não fizeste bem! Pediste a Rasûlullah algo que ele vestia e de que precisava! Tu também sabes que Rasûlullah alaihis-salâm nunca rejeita quem lhe pede nem o despede de mãos vazias!’ O homem disse: ‘Por Allah, não o pedi para vesti-lo. Pedi-o para que seja a minha mortalha no dia em que eu morrer!’ E de fato aquela burda foi a sua mortalha no dia em que morreu.”62 Também aconteceu nosso Profeta vestir uma roupa preta de lã. Nossa mãe Âisha disse: “Fizeram para Rasûlullah alaihis-salâm uma roupa de lã preta. Quando a vestiu e transpirou, sentiu o cheiro da lã. Tirou-a logo e deixou-a, pois só gostava de bom perfume.” Nosso Mestre, o Profeta, permitia que a fralda do cafetã que se veste por cima descesse somente até o meio da perna ou um pouco abaixo, até os tornozelos, e proibia que descesse mais abaixo dos tornozelos, isto é, a ponto de arrastar no chão. Dizia que, no Dia do Juízo, Allah, o Altíssimo, não olhará com o olhar da misericórdia os homens que, por soberba, arrastam seus cafetãs pelo chão.

Um dia, nosso Mestre, o Profeta, disse a Jâbir ibn Sulaym: “Deixa descer a fralda do teu cafetã até o meio da perna! Se não puderes fazer isso, deixa-a descer até os tornozelos! Guarda-te de deixá-la descer a ponto de arrastar no chão! Pois isso é sinal de soberba. E Allahu ta’âlâ não ama a soberba!” Por isso, Abdullah ibn Umar (radiyallahu anhumâ) usava o cafetã até o meio das pernas.63

“Sinto soprar do lado do Iêmen o vento da misericórdia” Hadîth sharîf

Nosso Mestre, o Profeta, tinha uma camisa feita de pano tecido com fio de algodão simples. Nossa mãe Âisha relata: Abû Jahm presenteara nosso Mestre, o Profeta, com um tapete de oração estampado. Um dia, enquanto nosso Mestre, o Profeta, fazia o namâz sobre esse tapete, seus olhos abençoados prenderam-se na estampa. Ao dar o salâm, disse: “Levai isto a Abû Jahm. Há pouco me distraiu no namâz. Que me traga um tapete liso, sem estampa.”

Como a terra de Medina é úmida e salitrosa, esse tapete foi estendido no fundo do túmulo abençoado de nosso Mestre, o Profeta, quando ele faleceu.

A Khirqa-i Sharîf enviada a Uways Qaranî

Uways ibn Âmir Qaranî (radiyallahu anh) é um dos grandes dos Tâbi’în. É da aldeia de Qaran, no Iêmen. Depois de se tornar muçulmano, viveu a vida inteira ardendo de amor por nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) e nem por um instante esqueceu o seu Senhor. Chegou a tal grau na servidão que cada estado seu, cada movimento e cada palavra se tornaram exemplo e conselho para os homens. Não se magoou com ninguém e não magoou ninguém. Suas qualidades mais importantes são o amor a nosso Mestre, o Profeta, a perseverança de corpo e alma na adoração e o respeito à mãe. Serviu muito à mãe e recebeu a sua dua de bênção. Esse amor a nosso amado Profeta e essa fidelidade ao Islã levaram nosso Mestre a louvá-lo. Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) voltava de tempos em tempos o rosto abençoado para o lado do Iêmen e dizia: “Sinto soprar do lado do Iêmen o vento da misericórdia.” E disse ainda: “No Juízo Final, Allahu ta’âlâ criará setenta mil anjos com a figura de Uways, e eles o levarão no meio deles ao Arasât. Ele entrará no Paraíso, e nenhuma criatura, a não ser aquelas que Allahu ta’âlâ quiser (a quem Ele o informar), saberá qual deles é Uways.” “Há um homem da minha umma que, no Juízo Final, intercederá por tantas pessoas quantos são os pelos das ovelhas das tribos de Rabî’a e Mudar.” Os Companheiros perguntaram: “Yâ Rasûlallah, quem é ele?” Ele disse: “Um dos servos de Allah.” Disseram: “Todos nós somos servos; qual é o seu nome?” Ele disse: “Uways.” Perguntaram: “De onde é?” Rasûlullah disse: “De Qaran.” Quando perguntaram: “Ele te viu?”, respondeu: “Não me viu com os olhos da cabeça.”

Disseram: “Que estranho! Ama-te tanto e não vem correndo servir-te e estar em tua presença!” Rasûlullah disse: “Por duas razões. A primeira é que está dominado pelos seus estados. A segunda, a sua fidelidade à minha religião. Tem uma mãe idosa que abraçou a fé. Os olhos dela não veem, e as mãos e os pés não se movem. Uways trabalha de dia como pastor de camelos e gasta o salário que recebe no seu sustento e no de sua mãe.” Perguntaram: “Nós o veremos?” A Abû Bakr ele disse: “Tu não o verás no teu tempo.” E a Umar e a Alî disse: “Vós o vereis. Seu corpo é peludo. Do lado esquerdo e na palma da mão tem uma mancha branca do tamanho de uma moeda de prata. Não é a brancura do vitiligo. Quando o encontrardes, transmiti-lhe a minha saudação e pedi-lhe que faça dua pela minha umma.”

Uways Qaranî, depois do falecimento de sua mãe, saiu da aldeia de Qaran e foi para a cidade de Cufa. Quando se aproximou o falecimento de nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), perguntaram-lhe: “A quem daremos a tua khirqa?” Ele disse: “Dai-a a Uways Qaranî.” Depois do falecimento de Rasûlullah, quando Umar e Alî chegaram a Cufa, Umar disse: “Ó gente de Najd, há entre vós alguém de Qaran?” Disseram: “Sim.” Perguntou-lhes por Uways. Disseram: “Conhecemo-lo. É alguém muito abaixo de quem procurais. É meio louco, sem juízo, e tem o hábito de fugir das pessoas.”

“Ó meu Senhor! Em honra desta Khirqa-i Sharîf, em honra de nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), perdoa toda a umma de Muhammad” Uways (radiyallahu anh)

Khirqa-i Sharîf

A khirqa abençoada que nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) deu de presente a Uways Qaranî (rahmatullahi alaih) pode ser visitada no abençoado mês de Ramadã, em Istambul, no bairro de Fatih, na Mesquita da Khirqa-i Sharîf.

Umar (radiyallahu anh) disse: “É a ele que procuro; onde está?” Disseram: “Está no vale de Arna, apascentando os nossos camelos, e em troca nós lhe damos a ceia. Tem o cabelo e a barba desgrenhados, não vem às cidades, não conversa com ninguém, não come o que as pessoas comem. Não conhece tristeza nem alegria: quando as pessoas riem, ele chora; quando as pessoas choram, ele ri.” Umar disse: “É justamente a ele que procuro.” Indicaram-lhe o lugar onde estava. Umar e Alî foram até lá. Encontraram-no fazendo o namâz. Allahu ta’âlâ encarregara um anjo de apascentar os camelos dele. Quando Uways terminou o namâz e deu o salâm, Umar levantou-se e saudou-o. Ele respondeu à saudação. Umar perguntou: “Qual é o teu nome?” Ele disse: “Abdullah, isto é, servo de Allah.” Quando Umar perguntou: “Todos somos servos de Allah; qual é o teu verdadeiro nome?”, ele disse: “Uways.” Umar disse: “Mostra-me a tua mão direita.” Quando ele a mostrou, Umar disse:

“Nosso Mestre, o Profeta, envia-te a saudação. Mandou-te a sua khirqa abençoada e deixou este legado: ‘Que a tome e a vista, e que faça dua pela minha umma.’”

Uways disse: “Ó Umar! Eu sou um servo fraco, impotente e pecador.

Vê bem: não será este legado para outra pessoa?” Umar respondeu: “Não, ó Uways, aquele que procuramos és tu. Nosso Mestre, o Profeta, descreveu claramente a tua figura e as tuas qualidades.”

Então Uways tomou a Khirqa-i Sharîf com reverência, beijou-a, cheirou-a e passou-a pelo rosto e pelos olhos. Chorou muito e, dizendo “Esperai aqui”, afastou-se deles. Um pouco adiante, prostrou-se em sajda. Com lágrimas nos olhos, começou a implorar a Allahu ta’âlâ e a fazer dua pelo perdão da umma de Muhammad. Soluçando e implorando, fez esta dua: “Ó meu Senhor! Nosso amado Mestre, o Profeta, embora eu não seja digno, enviou a este Teu servo pobre e impotente a sua Khirqa-i Sharîf por meio de Umar e de Alî. Disse que eu fizesse dua pela sua umma pecadora. Ó meu Senhor! Em honra desta Khirqa-i Sharîf, em honra de nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), perdoa toda a umma de Muhammad… Perdoa, ó Allah, perdoa… Ó Allah…” Quando foi informado de que muitos muçulmanos pecadores tinham sido perdoados, vestiu a Khirqa-i Sharîf com reverência.

Esta Khirqa-i Sharîf, dada de presente a Uways Qaranî, chegou até os beis de Irisân, nas proximidades de Van, e no ano de 1618 foi levada e oferecida ao sultão Osman Khan II, um dos soberanos otomanos. O sultão Abdulmecid Khan mandou construir em Fatih, para esta Khirqa-i Sharîf, a mesquita chamada “Mesquita da Khirqa-i Sharîf”. Esta abençoada Khirqa-i Sharîf, cor de creme como a espuma do mel, que ainda conserva com o mesmo frescor o perfume de rosa da pele abençoada de nosso amado e honrado Mestre, o Profeta, é exposta à visitação do povo, atrás de um vidro, todos os anos no abençoado mês de Ramadã.

A Khirqa-i Sa’âdat dada a Ka’b ibn Zuhayr

Ka’b ibn Zuhayr (radiyallahu anh), filho de uma família de poetas, era também poeta. Antes, recitava poemas contra nosso Mestre, o Profeta, e contra o Islã. Nosso Mestre foi informado disso e ordenou que fosse morto onde quer que o vissem.

“Dou testemunho de que não há deus digno de adoração senão Allah. Muhammad alaihis-salâm é Seu servo e Seu Rasûl” Ka’b ibn Zuhayr (radiyallahu anh)

Seu irmão Bujayr (radiyallahu anh), que se tornara muçulmano antes dele, comunicou-lhe esta decisão por carta e escreveu-lhe que, se ele se tornasse muçulmano, nosso amado Profeta, oceano de misericórdia, o perdoaria. Ao ler a carta, Ka’b mergulhou em profunda reflexão. Começou a compreender o absurdo da adoração dos ídolos, a grandeza do Islã e de nosso Mestre, o Profeta, e seu coração começou a iluminar-se. Por fim, decidido a tornar-se muçulmano, tomou o caminho da luminosa Medina. Escreveu um longo poema em louvor de nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), no qual declarava que se arrependera e se tornara muçulmano. Chegando a Medina, foi com um amigo da tribo de Juhayna à presença de nosso Mestre, o Profeta. Nosso Mestre conversava com seus Companheiros. Antes de se dar a conhecer, Ka’b disse: “Yâ Rasûlallah! Ka’b ibn Zuhayr, arrependido do que fez, veio como muçulmano pedir segurança. Se eu o trouxer a ti, tu lhe darás segurança e aceitarás que se torne muçulmano?” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Sim.” Então Ka’b disse: “Dou testemunho de que não há deus digno de adoração senão Allah. Muhammad alaihis-salâm é Seu servo e Seu Rasûl.” Nosso Mestre, o Profeta, perguntou: “Quem és tu?” Ele disse: “Sou Ka’b ibn Zuhayr, yâ Rasûlallah.” Quando um dos Ansâr disse: “Yâ Rasûlallah, permite-me que corte o pescoço deste homem que foi contra ti”, nosso Mestre disse: “Deixa-o. Ele veio arrependido do estado em que estava e voltado para o Haqq.” Então Ka’b ibn Zuhayr (radiyallahu anh) recitou a sua célebre qasîda, em que contava como se tornara muçulmano e louvava a grandeza e o valor de nosso amado Profeta e dos Companheiros. Esta qasîda, que começava com as palavras “Bânat Su’âd / A amada afastou-se” e prosseguia assim, agradou muito a nosso Mestre, o Profeta:

Todo homem, sem dúvida, um dia será levado sobre o esquife…
Vim pedir perdão, yâ Rasûlallah, à tua sublime presença…
O seu perdão é o que mais se espera…
Na sua presença aceita-se o pedido de perdão…
Tem misericórdia de mim, yâ Rasûlallah…
Perdoa-me, yâ Rasûlallah…
Sem dúvida, Rasûlullah é, dentre as espadas cortantes de Haqq ta’âlâ
Que aniquilam os males, uma espada desembainhada…
É um nûr que irradia a hidâya, que mostra o caminho reto…

Ele o perdoou. E quando Ka’b chegou a este verso:

Innar-Rasûla la-nûrun yustadâu bihî,
Muhammadun min suyûfillahi maslûlu.
Rasûlullah é um nûr; com ele o povo se ilumina,
É uma das espadas desembainhadas de Haqq ta’âlâ,

o Soberano dos dois mundos, o Orgulho do mundo, Muhammad Mustafâ (sallallahu alaihi wa sallam), tirou de seus ombros abençoados a sua khirqa chamada “Khirqa-i Sa’âdat” e colocou-a sobre os ombros de Ka’b ibn Zuhayr.64

Durante o seu califado, Mu’âwiya mandou dizer a Ka’b ibn Zuhayr: “Vende-nos a khirqa de Rasûlullah!” Enviou-lhe dez mil dirhams. Ka’b ibn Zuhayr recusou o desejo de Mu’âwiya, dizendo: “Quanto a vestir a khirqa de Rasûlullah, não posso dar preferência a ninguém sobre mim mesmo!” Quando Ka’b ibn Zuhayr faleceu, Mu’âwiya comprou-a dos filhos de Ka’b por vinte mil dirhams. Esta khirqa abençoada que nosso Profeta dera a Ka’b ibn Zuhayr passou como herança de califa a califa.

Depois da queda do domínio omíada, foi comprada por trezentos dinares pelo primeiro califa abássida, Abul-Abbâs Saffâh ibn Abdullah ibn Muhammad. Nos bayrams, os califas a vestiam. Quando os abássidas vieram para o Egito, trouxeram-na consigo. Quando o sultão Yavuz Selim Khan conquistou o Egito e se tornou califa, esta khirqa abençoada foi trazida para Istambul junto com as outras “Relíquias Sagradas” que havia no Egito. Em Istambul, todos podem visitá-la no “Pavilhão da Khirqa-i Sa’âdat” do palácio de Topkapı.

Esta khirqa abençoada tem 124 centímetros de comprimento, mangas largas, e é feita de tecido de lã preta. O interior da khirqa é forrado de tecido de lã cor de creme. Envolta em várias trouxas de pano, está guardada dentro de um cofre de ouro com tampa que se abre por cima, mandado fazer pelo sultão Murad III. Este cofre da Khirqa-i Sa’âdat é, do ponto de vista artístico, uma obra extraordinária, e além disso está adornado de esmeraldas. Sobre o cofre está escrito:

“Lâ ilâha illallah, wa mâ arsalnâka illâ rahmatan lil-âlamîn. Lâ ilâha illallahul-Malikul-Haqqul-Mubîn, Muhammadur-Rasûlullah, as-Sâdiqul-wa’dil-amîn.”

O leito de nosso Mestre, o Profeta

O colchão (leito) sobre o qual nosso Mestre, o Profeta, se deitava e dormia era revestido de couro. Por dentro era recheado de fibra de tamareira. Nele dormiam ele e sua esposa. O travesseiro que nosso Profeta punha sob a cabeça abençoada também era revestido de couro e recheado de fibra de tamareira. Nosso Mestre, o Profeta, não dava importância ao mundo nem às coisas do mundo.

Abdullah ibn Mas’ûd relata: O Mestre do universo deitara-se e dormira sobre uma esteira, e a esteira deixara marcas em seu flanco abençoado. Quando acordou, esfreguei-lhe o flanco abençoado e disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Se nos tivesses avisado, teríamos estendido sobre a esteira algo que te protegesse dela!” Depois acrescentei: “E se te arranjássemos um colchão macio?”

O Mestre do universo disse: “Que tenho eu a ver com as coisas do mundo? O meu exemplo, o meu estado em relação ao mundo é como o exemplo, o estado de um cavaleiro que descansa um pouco à sombra de uma árvore e depois a deixa e segue o seu caminho!”65 Nossa mãe Âisha relata: Veio à minha casa uma mulher dos Ansâr. Ao ver o leito de Rasûl alaihis-salâm, foi-se e enviou um colchão recheado de lã.

Rasûl alaihis-salâm veio até mim e perguntou: “Que é isto?” Eu disse: “Yâ Rasûlallah! Fulana, dos Ansâr, veio visitar-me. Ao ver o teu leito, foi-se e enviou-te isto.” Ele disse: “Devolve-o a ela imediatamente!” Mas eu não o devolvi. Agradava-me tê-lo em casa. Rasûl alaihis-salâm repetiu estas palavras três vezes. Por fim, disse: “Por Allah, ó Âisha! Se eu quisesse, Allah faria andar comigo montanhas de ouro e de prata!”66 O colchão do Profeta alaihis-salâm também consistia em duas abâs.

“Rasûlullah mandava tirar os anéis de ouro e de ferro e não se opunha aos anéis de prata” Amr ibn Shu’ayb (radiyallahu anh)

Uma noite, quando ele veio até mim, eu havia dobrado essa abâ em duas, tornando-a mais estreita. Ele dormiu sobre ela. Depois perguntou: “Ó Âisha! Por que o meu leito desta noite não estava como sempre?” Eu disse: “Yâ Rasûlallah! Dobrei-a para ti, tornando-a mais estreita.” Ele disse: “Volta a pô-la como estava antes!”67

Âisha conta ainda: “Para os coraixitas, em Meca, não havia coisa mais agradável do que dormir sobre um catre. Quando Rasûl alaihis-salâm chegou a Medina e se hospedou na casa de Abû Ayyûb, perguntou-lhe: ‘Ó Abû Ayyûb! Não tendes um catre?’ Abû Ayyûb disse: ‘Por Allah, não temos.’ Sa’d ibn Zurâra (radiyallahu anh), dos Ansâr, ao saber disso, enviou a Rasûlullah um catre com as colunas feitas de madeira de teca e coberto por uma esteira tecida de fibra de linho. Rasûlullah dormiu sobre ele até se mudar para a sua própria casa, e continuou dormindo sobre ele até falecer. Quando Rasûlullah alaihis-salâm foi lavado e amortalhado, foi posto sobre esse catre, e o namâz fúnebre também foi feito estando ele sobre esse catre. As pessoas pediam-no a nós para levar nele os seus mortos e buscavam nele bênção. Também os corpos de Abû Bakr e de Umar foram levados sobre ele.”

Âisha diz: “Rasûl alaihis-salâm tinha uma esteira sobre a qual fazia o namâz à noite; de dia, estendia-a e sentava-se sobre ela com as pessoas.”68

Os anéis de nosso Mestre, o Profeta

Nosso Profeta informou que para os homens só é halâl o anel de prata, e que usar anel de ouro, de ferro ou de latão é harâm. Ele mesmo, até falecer, usou somente anel de prata.

Nosso Mestre Rasûlullah usava o anel na mão direita abençoada. Também foi visto usá-lo na mão esquerda. Usá-lo tanto na mão direita como na esquerda é permitido. Usa-se no dedo mínimo ou no dedo ao lado dele. Nos bayrams é mustahab que todos o usem. Usá-lo por ostentação e por vanglória é harâm.

Entre os presentes que o Najâshî da Abissínia, Ashama, enviou a nosso Profeta havia também um anel de ouro com engaste de pedra abissínia. Nosso amado Profeta chamou Umâma, filha de Abul-Âs e sua neta, e disse: “Minha filha! Usa-o tu!”69

Um dia, Nu’mân ibn Bashîr veio à presença de nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam). Tinha no dedo um anel de ouro. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Por que usaste um adorno do Paraíso antes de entrar no Paraíso?” Ele passou a usar um anel de ferro. Ao ver isto, nosso Mestre disse: “Por que trazes um objeto do Inferno?” Tirou também este e pôs um anel de bronze. Ao ver isto, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Por que sinto em ti o cheiro de ídolo?” Ele perguntou: “Yâ Rasûlallah! Que anel usarei?” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Podes usar um anel de prata. Que o seu peso não passe de um mithqâl (4,8 g), e usa-o na mão direita!”

Amr ibn Shu’ayb diz: “Rasûlullah mandava tirar os anéis de ouro e de ferro e não se opunha aos anéis de prata.”

Quando nosso amado Profeta quis mandar escrever cartas ao xá da Pérsia, ao imperador bizantino e ao Najâshî da Abissínia, disseram-lhe: “Yâ Rasûlallah! Eles não leem uma carta que não esteja selada!” Então nosso Profeta mandou fazer um anel de prata, em cuja pedra estava gravado, em três linhas: “Muhammadur-Rasûlullah”.

A inscrição do anel de selo estava disposta em três linhas, de cima para baixo: “Allah”, uma linha; “Rasûl”, uma linha; e “Muhammad”, uma linha. A pedra do anel de prata de nosso Mestre, o Profeta, era uma pedra abissínia.70 Relata-se também que a pedra deste anel de prata era de prata.

Amr ibn Sa’îd viera à presença de nosso Profeta. Ao ver o anel que ele tinha no dedo, nosso amado Profeta perguntou: “Que anel é esse na tua mão?” Amr ibn Sa’îd disse: “Yâ Rasûlallah! É um aro. Fi-lo eu mesmo.” Nosso Profeta perguntou: “Qual é a sua gravação?” Amr ibn Sa’îd (radiyallahu anh) disse: “Muhammadur-Rasûlullah.” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Deixa-me vê-lo.” Tomou-o e usou-o como seu selo pessoal, e proibiu os outros de gravarem nos anéis as palavras “Muhammadur-Rasûlullah”.71 Nosso amado Profeta faleceu com este anel de selo no dedo abençoado.

Nosso Profeta usava o anel com a parte da pedra voltada para a palma da mão abençoada. Quando ia entrar no lugar das necessidades, tirava o anel do dedo abençoado. Depois do falecimento de nosso amado Profeta, usaram o seu anel de selo Abû Bakr, depois dele Umar e, depois de Umar, Uthmân. Quando Uthmân era califa, um dia, estando sentado à beira do poço de Arîs, deixou-o cair no poço. Embora se tirasse toda a água do poço e se procurasse durante três dias, indo e vindo, este anel abençoado não foi encontrado.72 O costume de gravar inscrições na pedra do anel continuou depois de nosso Profeta.

No anel de Abû Bakr estava escrito “Ni’mal-Qâdiru Allah” (Como basta bem o poder de Allahu ta’âlâ sobre todas as coisas), e no de Umar, “Kafâ bil-mawti wâ’izan yâ Umar” (Basta a morte como conselho, ó Umar).

No anel de Uthmân estava escrito “La-nasbiranna” (Certamente seremos pacientes), e no de Alî, “Al-mulku lillah” (O reino pertence só a Allahu ta’âlâ).

“Fazei o namâz com as sandálias, para não vos assemelhardes aos judeus” Hadîth sharîf

No anel de Hasan estava escrito “Al-izzatu lillah” (A majestade, a grandeza pertence a Allahu ta’âlâ).

No anel de Mu’âwiya estava escrito “Rabbighfir lî” (Meu Senhor, perdoa-me), e no de Ibn Abû Laylâ, “Ad-dunyâ ghurûrun” (O mundo é enganador, mentiroso).

No anel do imam-i a’zam Abû Hanîfa estava escrito “Qulil-khayra wa illâ fasqut” (Ou dize o bem, ou cala-te!).

No anel do imam Abû Yûsuf estava escrito “Man amila bi-ra’yihî nadima” (Quem age por sua própria opinião arrepende-se), e no do imam Muhammad Shaybânî, “Man sabara zafira” (Quem é paciente alcança a vitória).

No anel do imam Shâfi’î estava escrito “Al-barakatu fil-qanâ’a” (A bênção está no contentamento). Usavam os anéis como selos.

As pegadas abençoadas (Naqsh-i Qadam-i Sharîf) de nosso Mestre, o Profeta

O Naqsh-i Qadam-i Sharîf são as pegadas abençoadas de nosso amado Profeta, Muhammad alaihis-salâm. Um dos milagres de nosso Mestre, o Profeta, era que, quando pisava em matérias moles, como a areia, suas pegadas não ficavam marcadas, mas quando pisava na pedra e em matérias duras, as marcas apareciam. Algumas pedras e mármores que seus pés abençoados pisaram e em que deixaram marca foram guardados durante séculos como lembrança, passados de mão em mão como depósito de confiança, e com eles buscou-se bênção.

Sobretudo os estadistas e os soberanos muçulmanos colocaram estas preciosas lembranças sob proteção especial em lugares importantes, guardaram-nas, visitaram-nas e fizeram que outros as visitassem. Os mais célebres dos Naqsh-i Qadam-i Sharîf conhecidos e conservados são os seguintes: 1. O Naqsh-i Qadam-i Sharîf que se encontra no mausoléu de Fath Khan, filho de Fîrûz Shâh Tughluq, na Índia. 2. As duas pegadas abençoadas que se encontram no mausoléu de Qâytbây, no Cairo. 3. As duas pegadas abençoadas da mesquita de Âthâr an-Nabî, no Cairo. 4. A pegada abençoada do pé direito no mausoléu de Khâlid ibn Zayd Abû Ayyûb al-Ansârî (Eyyûb Sultan), em Istambul. Este Naqsh-i Qadam-i Peygamberî foi trazido do palácio para o mausoléu em 1734, por ordem de Mahmud Khan I.

5. As duas pegadas guardadas num armário na parede do lado da Mesquita Nova, no mausoléu de Abdulhamid Khan I.

6. As duas pegadas abençoadas sobre uma pedra, guardadas num armário feito especialmente na parede, no mausoléu do sultão Mustafa Khan III, em Laleli. 7. As pegadas que se encontram no Pavilhão das Relíquias Sagradas do palácio de Topkapı, em Istambul. No Pavilhão da Khirqa-i Sa’âdat do palácio de Topkapı há seis Naqsh-i Qadam-i Sharîf, quatro de pedra e dois de tijolo. Um deles é a pegada abençoada que ficou sobre a rocha em que nosso Mestre, o Profeta, pisou ao subir ao Mi’râj, e é guardada num armário na sala da Khirqa-i Sa’âdat. Sobre esta rocha abençoada em que nosso Mestre Rasûlullah pisou ao subir ao Mi’râj foi construído o edifício conhecido pelo nome de Qubbat as-Sakhra. Os Naqsh-i Qadam-i Sharîf, antes de serem transferidos para os lugares onde estão, foram guardados durante séculos em lugares diversos. Por fim foram postos nos lugares de hoje. Os Naqsh-i Qadam-i Sharîf verdadeiros são visitados para obter bênção.

O Qadam-i Sharîf e o sultão Ahmed Khan I

O soberano otomano sultão Ahmed I, que subiu ao trono aos treze anos e faleceu aos vinte e oito, era ligado de coração ao Islã e a nosso Mestre Rasûlullah. O sultão Ahmed I, que escrevia também poemas sob os pseudônimos de Bahtî e Ahmedî, mandou fazer um penacho de turbante cravejado de pedras preciosas em forma de Naqsh-i Qadam-i Sharîf e mandou escrever no meio, em ouro sobre esmalte azul, estes seus versos:

Que tem de mais, se eu a levar sempre na cabeça como a minha coroa,
A pegada pura daquele nobre rei dos Mensageiros?
A rosa do jardim da profecia é o dono daquela pegada;
Ó Ahmed, não te detenhas: esfrega o rosto na pegada daquela Rosa.
Sultan I. Ahmed (Bahtî)

O sultão Ahmed I usava este penacho na cabeça nas sextas-feiras e nos dias de bayram, e também em outros dias abençoados. Mehmed Münib Efendi, de Ayıntab, escreveu uma obra intitulada Âsâr-ul-Hikem fî Nakş-il Kadem, que conta como foi encontrado e ali colocado o Naqsh-i Qadam-i Sharîf que está no mausoléu do sultão Abdulhamid I. O sultão Ahmed Khan escreveu esta estrofe com a própria caligrafia e enviou-a ao seu shaykh, Azîz Mahmûd Hüdâyî Efendi. Além disso, o sultão Ahmed mandou pintar este poema numa tábua e pendurá-la diante do trono do sultanato. Esta tábua com o poema escrito está ainda hoje pendurada na Mesquita do Sultão Ahmed.

As Na’layn-i Sharîf de nosso Mestre, o Profeta

As sandálias usadas no tempo de nosso Mestre, o Profeta, eram diferentes das de hoje. Tinham a forma de um calçado com sola de couro, aberto em cima e preso com correias. Rasûlullah e os Companheiros faziam o namâz com as sandálias que usavam na rua. Suas sandálias eram limpas, e o chão da Masjid an-Nabawî era coberto de areia. Não se entrava ali com sandálias sujas.

Num hadîth sharîf foi dito: “Fazei o namâz com as sandálias, para não vos assemelhardes aos judeus.”

Acreditando que até a imagem das Na’layn-i Sa’âdat seria causa de bênção, as pessoas penduravam-na nas casas e nos lugares de trabalho. No Pavilhão da Khirqa-i Sa’âdat, junto com as Na’layn-i Sa’âdat, guardam-se também modelos delas feitos de metal e de madeira.

As sete coisas que nosso Mestre, o Profeta, levava consigo

Nosso amado Profeta saía de viagem levando consigo o pente, o espelho, o miswâk, o óleo de rosa, o kohl e a tesoura, e, em viagem e em casa, não os afastava de si. Âisha disse: “Para as expedições, eu preparava o óleo de rosa de Rasûl alaihis-salâm, o seu pente, o seu espelho, as suas duas tesouras, o seu estojo de kohl e o seu miswâk.” E nossa mãe Âisha disse ainda: “Em viagem e em casa, Rasûl alaihis-salâm levava consigo sete coisas:

1. o frasco de óleo de rosa, 2. o pente, 3. o espelho, 4. o estojo de kohl, 5. o miswâk, 6. duas tesouras, 7. o osso para repartir o cabelo.”73

O cajado e as varas de nosso Mestre, o Profeta

Nas sextas-feiras, ao pronunciar a khutba, nosso Mestre, o Profeta, apoiava-se num cajado ou num arco; em viagem, num arco. Nosso amado Profeta dizia que apoiar-se no cajado é do caráter dos profetas; ele mesmo se apoiava no cajado e recomendava apoiar-se nele. Durante o califado de Mu’âwiya ibn Abû Sufyân (radiyallahu anhumâ), o cajado de nosso Mestre, o Profeta, estava com Sa’d al-Qaraz. Mu’âwiya ibn Abû Sufyân viera para o hajj no ano cinquenta da Hégira. Quis desmontar o minbar da mesquita de nosso amado Profeta e transferi-lo para Damasco. Mandou pedir também o cajado que estava com Sa’d al-Qaraz. Jâbir ibn Abdullah e Abû Hurayra foram até ele e disseram: “Ó Emir dos Crentes! Não é correto arrancar do seu lugar e levar o minbar de Rasûl alaihis-salâm, nem transferir o seu cajado para Damasco!” Então Mu’âwiya desistiu disso e pediu desculpas.

Nosso Profeta levou Abdullah ibn Unays da mesquita para a sua casa, deu-lhe um cajado e disse: “Guarda este cajado contigo, ó Abdullah ibn Unays!” Quando Abdullah ibn Unays (radiyallahu anh) saiu com o cajado para junto do povo, perguntaram-lhe: “Que cajado é este?” Ele disse: “Rasûl alaihis-salâm deu-me isto e ordenou-me que o guardasse comigo.” Disseram a Abdullah ibn Unays: “Por que não voltas a Rasûl alaihis-salâm e lhe perguntas por que te deu isto?”

Imagem das Na’layn-i Sharîf de nosso Mestre, o Profeta

Na’layn-i Sharîf

As sandálias de Rasûlullah elevam-se aos céus,
E à sua sombra estão todas as criaturas.
Quando no Tûr se disse a Mûsâ: “Tira as tuas sandálias”,
Sobre o Arsh a ele se diz: “Tu não as tires”.
É esta a forma das sandálias do mais honrado Rasûl,
E até as estrelas querem ser o pó que ele pisou.
Por elas suspiram os habitantes dos sete céus,
As coroas dos sultões invejam-nas.
Não há igual às sandálias de Mustafâ,
Luz aos olhos, paz ao coração – tudo vem delas.
Tem em altíssima estima a imagem das sandálias,
Todas as cabeças desejam ser-lhes pés.
Quando calamidades e desgraças cercam todos os lados,
As Na’layn-i Sharîf são para mim fortaleza segura.
Estou em segurança nesta fortaleza forte,
Quando me refugio em sua bela forma, ela me protege.
O coração, servindo à forma das sandálias sagradas,
Deseja viver à sua sombra nos dois mundos.
Ibn Mas’ûd alcançou a felicidade servindo às sandálias,
E a minha felicidade vem-me por meio de sua imagem.
Yûsuf Nabhânî

Então Abdullah ibn Unays voltou a nosso Profeta e perguntou: “Yâ Rasûlallah! Por que me deste este cajado?” Nosso amado Profeta disse: “É um sinal entre nós no Dia do Juízo! Naquele tempo, no Paraíso, os que se apoiarão num cajado serão muito poucos! Tu te apoiarás nele no Paraíso!” Abdullah ibn Unays levava-o consigo junto com a espada e nunca o afastava de si. Quando caiu no leito de morte, deixou recomendado à sua família que o pusessem dentro da mortalha e o enterrassem com ele. Puseram-no entre o seu corpo e a mortalha, e cumpriu-se a sua vontade. Nosso Mestre, o Profeta, tinha um mihjan do comprimento de um côvado (68 cm) ou um pouco mais. Mihjan é a vara de ponta recurvada. Com ele nosso Profeta fazia o istilâm da Hajar al-Aswad apontando-a de longe. Quando montava no camelo, pendurava-o diante de si. Nosso Profeta tinha também uma mikhsarra chamada Urjûn (feita de um ramo seco de tamareira). Chama-se mikhsarra à vara feita de um ramo de árvore. Quando nosso Profeta ia a Baqî al-Gharqad, levava-a consigo, apoiava-se nela e, sentado, revirava-a na mão. Às vezes nosso Profeta também pronunciava a khutba com esta mikhsarra na mão. Nosso Profeta tinha também um qadîb (vara fina) cortado de árvores da montanha, chamado Mamshûq. Enquanto Uthmân, com o qadîb de nosso Mestre, o Profeta, na mão, pronunciava a khutba no minbar, Jahjâh ibn Sa’îd, ou Jahjâh ibn Qays, aproximou-se, tomou o qadîb da mão de Uthmân, dobrou-o apoiando-o no joelho e quebrou-o. O povo gritou contra Jahjâh. Isto tocou o zelo divino, e Allahu ta’âlâ fez surgir na mão de Jahjâh, ou no joelho, a doença da âkila (comichão). Menos de um ano depois do martírio de Uthmân, Jahjâh morreu coçando-se.

“Não há igual às sandálias de Mustafâ; luz aos olhos, paz ao coração – tudo vem delas” Yûsuf Nabhânî (rahmatullahi alaih)

As espadas de nosso Mestre, o Profeta

Nosso Mestre, o Profeta, tinha nove espadas.

A espada herdada de seu pai e chamada Ma’thûr estava com nosso Profeta quando ele emigrou para Medina.74 Abd: esta espada fora dada de presente a nosso Mestre, o Profeta, por Sa’d ibn Ubâda, e ele a levou consigo quando foi para a Batalha de Badr.

Dhulfiqâr: era a espada de Munabbih ibn Hajjâj, ou de Âs ibn Munabbih, dos politeístas coraixitas, e ficou como despojo na Batalha de Badr. Nosso Mestre, o Profeta, deu Dhulfiqâr de presente a Alî. O pomo do punho, as argolas e as correntes do talim eram de prata.75

Depois do falecimento de nosso Profeta, quando Abbâs recorreu a Abû Bakr para pedir Dhulfiqâr a Alî, Abû Bakr disse: “Sempre vi esta espada na mão dele. Não acho bem tirá-la dele!” E Abbâs também a deixou com Alî.

As lanças de nosso Mestre, o Profeta

Três lanças dos judeus de Banû Qaynuqâ couberam como despojo a nosso Mestre, o Profeta. Uma das lanças de nosso Profeta chamava-se Muthwî, e a outra, Muthnâ. Nosso Profeta tinha também uma harba grande chamada Baydâ e uma harba menor que a lança, chamada Anaza. O Najâshî da Abissínia, Ashama, enviara a nosso amado Profeta três anazas (lanças) chamadas Nab’a e uma harba. Nosso Profeta guardou uma delas para si, deu a segunda a Alî e a terceira a Umar.

Nos bayrams do Ramadã e do Sacrifício, Bilâl Habashî (radiyallahu anh) levava a lança de nosso Profeta diante dele até o lugar do namâz e ali a cravava diante de nosso Mestre, o Profeta. E nosso amado Profeta dirigia o namâz do bayram voltado para ela. Depois do falecimento de nosso Mestre, o Profeta, Bilâl Habashî levava esta lança, nos bayrams, diante de Abû Bakr e cravava-a diante dele no lugar do namâz. Depois de Abû Bakr, no tempo de Umar e, depois dele, no de Uthmân, esta tarefa foi cumprida do mesmo modo pelo muezim Sa’d al-Qaraz. Também no tempo dos governadores de Medina manteve-se este costume.

Os arcos de nosso Mestre, o Profeta

Nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) tinha seis arcos. Três deles, chamados Rawhâ, Baydâ e Safrâ, couberam como despojo dos judeus de Banû Qaynuqâ. O arco Safrâ era feito de madeira de nab’.76 O arco chamado Katûm era também feito de madeira de nab’ e quebrou-se na Batalha de Uhud. Qatâda ibn Nu’mân tomou o arco quebrado como lembrança. Além disso, tinha os arcos chamados Sadad e Zawrâ.77

“Não há jovem como Alî, nem espada como Dhulfiqâr!” Hadîth sharîf

Os escudos de nosso Mestre, o Profeta

Nosso Profeta tinha três escudos. Sobre o escudo chamado Zalûq havia a figura de uma cabeça de carneiro. Este escudo fora dado de presente a nosso Profeta. Mas, por ter uma imagem, não agradou a nosso Profeta. Ao amanhecer, Allah havia removido e apagado aquela figura do escudo.78

As cotas de malha de nosso Mestre, o Profeta

Nosso Mestre Rasûlullah tinha sete cotas de malha. Estas cotas eram as seguintes:

Dhât al-Fudûl: Sa’d ibn Ubâda deu-a de presente a nosso Profeta quando ele partia para a Batalha de Badr.79

Sa’diyya e Fidda: estas duas cotas de malha couberam a nosso Profeta como despojo dos judeus de Banû Qaynuqâ. A cota chamada Sa’diyya era a histórica cota de malha que Dâwûd alaihis-salâm vestira para combater Jâlût. Na Batalha de Uhud, nosso Profeta vestiu a Fudûl e a Fidda uma sobre a outra.80 Quando nosso Profeta faleceu, a cota de malha chamada Dhât al-Fudûl estava empenhada com um judeu de Banû Zafar chamado Abush-Shahm, em troca de trinta sâ’ de cevada tomados para as necessidades da família.81

As suas outras cotas eram Dhât al-Wishâh, Dhât al-Hawâshî, Batrâ e Khirniq.82

Na Batalha de Hunayn, nosso Profeta vestiu a Dhât al-Fudûl e a Sa’diyya.83

Os elmos de nosso Mestre, o Profeta

O primeiro dos elmos de Rasûlullah é o Muwashshah. Este elmo coube como despojo dos judeus de Banû Qaynuqâ. O elmo chamado Dhus-Subugh, ou Dhus-Susub, ou Mashbû’, era o elmo que nosso Profeta pôs na cabeça na Batalha de Uhud. Quebrou-se com os golpes de espada dos politeístas e com as pedras atiradas, e duas de suas argolas cravaram-se nas faces abençoadas de nosso amado Profeta.

Também quando entrou para conquistar Meca, nosso Profeta trazia elmo.

Montou o exército, erguendo estandartes e bandeiras,
Tocaram a mehter84, os timbales e os pandeiros.

As bandeiras e os estandartes de nosso Mestre, o Profeta

Nas expedições, nosso Mestre, o Profeta, usava duas espécies de bandeira (estandarte). A sua râya era preta; a sua liwâ era menor e branca. Yûnus ibn Ubayd, liberto de Muhammad ibn Qâsim, conta: “Muhammad ibn Qâsim enviou-me a Barâ ibn Âzib para perguntar pela bandeira de Rasûlullah alaihis-salâm. Barâ ibn Âzib disse: ‘Era preta, quadrada, de namira (tecido de lã listrado de preto e branco).’” Esta bandeira era um pano de cintura de Âisha, tecido de lã e adornado com desenhos de albarda de camelo; era preta. Chamavam-na Uqâb. A bandeira de nosso amado Profeta ficava com Alî. Na Conquista de Khaybar, nosso Profeta disse: “Darei a bandeira a um homem que ama Allah e o Seu Rasûl, e a quem Allah e o Seu Rasûl amam!”, chamou Alî e entregou-lhe a bandeira.85 Allahu ta’âlâ concedeu a Alî a Conquista de Khaybar.

Sobre o estandarte (bandeira) de Rasûlullah chamado Liwâ al-Hamd estava escrito: “Lâ ilâha illallah Muhammadur-Rasûlullah”. Na sariyya de Kharrâr, nosso Profeta atou um estandarte branco (bandeira, liwâ) para Sa’d ibn Abû Waqqâs. Ao enviar Alî ao Iêmen, atou um turbante na ponta de uma lança e disse: “A liwâ é assim!” Só o comandante do exército segurava e levava a liwâ. O estandarte branco de nosso Profeta foi levado por Hamza na expedição de Abwâ (Waddân), por Sa’d ibn Abû Waqqâs na expedição de Buwât, por Alî na perseguição de Kurz ibn Jâbir Fihrî e por Hamza na expedição de Dhul-Ushayra.

Ao partir para a Batalha de Badr, nosso Profeta deu o seu estandarte branco (liwâ) a Mus’ab ibn Umayr, e Alî levou diante de nosso Profeta o seu estandarte preto (râya), o Uqâb.86 O estandarte branco (liwâ) de nosso Profeta foi levado por Hamza na expedição de Banû Qaynuqâ; por Alî na expedição de Qarqarat al-Kudr, na Batalha de Uhud e na expedição de Badr al-Maw’id; e por Zayd ibn Hâritha na Batalha da Trincheira. Nosso Profeta conquistou também Meca com o seu estandarte branco. Na expedição de Tabûk, nosso Mestre, o Profeta, fez Abû Bakr levar o seu estandarte grande, e Zubayr ibn Awwâm o pequeno.

Os cavalos de nosso Mestre, o Profeta

O primeiro cavalo de nosso amado Profeta é aquele que ele comprou em Medina a um beduíno de Banû Fazâra por dez ûqiyas87 de prata, ao qual a gente do deserto chamava Daris e nosso Profeta deu o nome de Sakb. Montou-o na Batalha de Uhud.88 Sakb tinha uma mancha branca no lábio. Três patas tinham malhas brancas; uma das patas direitas não tinha. Sakb era muito veloz, isto é, ao correr fluía como a água. O cavalo chamado Murtajiz, nosso Profeta comprou-o a um beduíno de Banû Murra. Murtajiz era belo, harmonioso, e relinchava como quem recita poesia.89 O cavalo chamado Lizâz foi dado de presente a nosso Profeta por Muqawqis, rei de Alexandria. Lizâz corria muito depressa.90

O cavalo chamado Zarib foi dado de presente a nosso Profeta por Farwa ibn Umayr al-Judhâmî. Zarib era um cavalo muito forte e resistente.

Lahîf (ou Luhayf). Este cavalo foi dado de presente a nosso Profeta por Rabî’a ibn Abû Barâ al-Kalbî. Lahîf tinha a cauda tão comprida que varria o chão. Ya’sûb era o melhor dos cavalos de nosso Profeta.

“Darei a bandeira a um homem que ama Allah e o Seu Rasûl, e a quem Allah e o Seu Rasûl amam!” Hadîth sharîf

Murâwih era um cavalo de corrida; Ubayd ibn Yâsir deu-o de presente a nosso Profeta em Tabûk. Murâwih corria veloz como o vento.

O cavalo chamado Mirwâh foi dado de presente a nosso Profeta pelos delegados de Banû Rahâ, que vieram a Medina no décimo ano da Hégira. Quando o montaram e o fizeram andar diante de nosso Profeta, agradou-lhe muito. Ward: este cavalo foi dado de presente a nosso Profeta por Tamîm Dârî. A cor de Ward era alazã. Nosso Profeta deu-o de presente a Umar. E Umar combateu sobre Ward no caminho de Allahu ta’âlâ e levou-o a galope de expedição em expedição. Nosso Profeta fazia correr três dos seus cavalos. O cavaleiro de Zarib era Sahl ibn Sa’d, e o de Lizâz, Abû Usayd as-Sâ’idî. Lizâz ia à frente, Zarib atrás dele e Sakb atrás de Zarib.

O asno e as mulas de nosso Mestre, o Profeta

Nosso Mestre Rasûlullah tinha também asno e mula. Muqawqis, rei de Alexandria, deu de presente a nosso Profeta uma mula cinzenta e um asno cinzento. A mula chamava-se Duldul, e o asno, Ya’fûr ou Ufayr.91 A primeira mula branca vista no Islã foi Duldul. A que nosso Profeta montou na Conquista de Khaybar foi esta mula cinzenta; na Batalha de Hunayn, foi a outra mula cinzenta. Nosso Profeta esporeou a mula, querendo avançar contra a tribo de Hawâzin; Abbâs, segurando as rédeas da mula, e Abû Sufyân ibn Hârith, segurando o estribo, procuraram moderar-lhe a velocidade e impedir que nosso Profeta se lançasse no meio do inimigo. Relata-se que, na Conquista de Khaybar, puseram sobre Ya’fûr uma albarda e na cabeça um cabresto de corda de fibra de tamareira, e que nosso Profeta também o montou. Quando nosso Profeta voltou da Peregrinação de Despedida, Ya’fûr tinha morrido; e Duldul, depois do falecimento de nosso Profeta, ficou com Alî. Montou-a Alî até o seu martírio, depois Hasan, depois Husayn e, mais tarde, Muhammad ibn Hanafiyya. Duldul viveu até o tempo de Mu’âwiya.

Os camelos de nosso Mestre, o Profeta

Qaswâ: esta camela de nosso Mestre, o Profeta, chamada também Jad’â e Adbâ, era dos animais de Banû Qushayr ibn Ka’b ibn Rabî’a ibn Âmir, ou de Huraysh ibn Ka’b; Abû Bakr comprou-a por quatrocentos dirhams e passou-a pelo mesmo preço a nosso amado Profeta. Nosso Profeta emigrou para Medina sobre Qaswâ. Foi sobre ela à umra de Hudaybiya. E conquistou Meca também sobre ela. Nosso Mestre, o Profeta, fazia correr Qaswâ, e nenhum camelo conseguia ultrapassá-la. Mas um beduíno entrou na corrida com um camelo de dois anos e ultrapassou-a. Na Peregrinação de Despedida, pronunciou o sermão de Arafat sobre Qaswâ. No tempo do califado de Abû Bakr, Qaswâ foi deixada no cemitério de Jannat al-Baqî. Ali pastou livremente até morrer.92

“Ó Allah! Assim como criaste bela a minha forma, torna belo também o meu caráter” Hadîth sharîf

O camelo tomado como despojo de Abû Jahl: na Batalha de Badr, o famoso camelo de Abû Jahl coube como despojo a nosso amado Profeta. Até a umra de Hudaybiya, nosso Profeta saía também nas expedições montado neste camelo. Marcou-o como animal de sacrifício para a umra. Os politeístas quiseram tomá-lo dando cem camelos por ele. Nosso Profeta disse: “Se não o tivéssemos separado e marcado como animal de sacrifício, teríamos satisfeito o vosso desejo.” As camelas leiteiras: nosso Profeta tinha sete camelas leiteiras que pastavam nos pastos de Dhul-Jadr e de Jamma, chamadas Hannâ, Samrâ, Urays, Sa’diyya, Baghûm, Yasîra e Dabbâ; a família de nosso Profeta vivia do leite delas, dois odres cheios que lhes traziam todas as noites.93 Mas, quando nosso Profeta faleceu, nenhuma delas restava.

Os bens que nosso Mestre, o Profeta, constituiu em waqf

O primeiro waqf do Islã foram os sete jardins e hortas, chamados pelos nomes seguintes, que Mukhayrîq, caído mártir em Uhud, deixara em testamento para serem entregues a nosso Profeta, e que nosso Profeta recebeu e constituiu em waqf: 1. Mithab, 2. Sâfiya, 3. Dalâl, 4. Husnâ, 5. Burqa’, 6. A’wâf, 7. Mashraba.94 Mukhayrîq, que antes de se tornar muçulmano era dos sábios e dos ricos dos judeus, tomou posição na Batalha de Uhud diante dos de sua raça, dizendo: “Vós mesmos sabeis muito bem que Muhammad é o profeta dos últimos tempos. Na Tawrât estão escritas claramente as suas qualidades. Agora o que nos convém é segui-lo e estar ao seu lado nos seus dias difíceis.” Os judeus disseram: “Tens razão, mas hoje é sábado. Não se trabalha!” Vendo que não adiantava insistir, cingiu a espada e declarou que se tornara muçulmano. Deixou aos seus parentes este testamento: “Se eu for morto, todos os meus bens são de Muhammad. Ele é livre para usá-los como quiser.” Foi e juntou-se ao exército do Islã. E bebeu o sherbet do martírio, radiyallahu anh.

Por fim, a batalha terminou, as feridas foram enfaixadas. Os parentes de Mukhayrîq foram fiéis ao testamento e entregaram os seus bens ao Habîbullah. E nosso Mestre, o Profeta, constituiu em waqf essas terras de águas frescas e frutos abundantes e abriu-as ao proveito dos pobres e necessitados. Foi assim que começou a tradição do waqf na civilização islâmica. Nosso Mestre louvou-o dizendo: “Mukhayrîq é um homem de bem da raça dos judeus.”

Os waqfs de nosso Profeta em Medina provinham, em geral, dos bens de Mukhayrîq.

Ibn Humayd diz: “O califa Umar ibn Abdulazîz quis que lhe trouxessem tâmaras dos palmares de waqf de Mukhayrîq. Trouxeram-nas numa bandeja. Quando Umar ibn Abdulazîz disse: ‘Abû Bakr ibn Hazm escreveu-me que estas tâmaras são de uma tamareira que vem do tempo de Rasûl alaihis-salâm e que Rasûl alaihis-salâm comia delas’, eu disse: ‘Ó Emir dos Crentes! Reparte-as entre nós!’ Ele as repartiu. Couberam nove tâmaras a cada um de nós.”

Umar ibn Abdulazîz disse: “Quando entrei naquele palmar como governador de Medina, comi das tâmaras daquela tamareira, e nunca vi tâmara tão fina e tão doce como aquela!”

Amr ibn Muhâjir diz: “Os pertences de Rasûl alaihis-salâm ficavam num quarto junto de Umar ibn Abdulazîz, e ele olhava para eles todos os dias. Fazia entrar também neste quarto os coraixitas que vinham reunir-se junto dele e depois, voltando-se para esses pertences, dizia: ‘Eis a herança daquele com quem Allah vos honrou!’” Eram estes: 1. um catre trançado com folhas de tamareira,

2. uma almofada revestida de couro e recheada de fibra de tamareira, 3. um prato bastante grande, 4. um copo de água,

5. uma roupa, 6. um moinho de mão,

7. uma aljava, 8. uma coberta de veludo.

(Esta coberta, por causa dos bons perfumes que nela se impregnaram do corpo abençoado de nosso Mestre Rasûlullah, cheirava melhor do que o almíscar. Quando Umar ibn Abdulazîz (radiyallahu anh) adoecia, lavava-se com a água em que essa coberta fora lavada e curava-se.)

Quando o mar do amor se agitou em ondas,
Apareceu aquela pérola única (Durr-i Yatîm),
E o Criador Puro disse a seu respeito:
“Lawlâka lamâ khalaqtul-aflâk.”
Quando nasceu, o resplendor daquele Sol
Encheu o universo inteiro;
Quem quer que siga as suas pegadas
Encontra o bem em todas as suas obras.
Embora os reinos estivessem sob o seu mando,
Não possuía sequer três camisas.
Não havia muitos bens em sua casa,
E, ao falecer, viu-se a sua cota de malha empenhada.
Diante das coisas que ele via a maior parte do tempo,
Que vale este mundo?
Suas dádivas eram fartas para todos,
Dizer “não há” não era coisa sua.
Às vezes dava tanto
Que os seus inimigos todos se inclinavam.
Era pai compassivo para todo órfão,
Sua ternura era farta até para o vil.
Em cada obra sua havia muita sabedoria,
Nunca lançou em rosto a ninguém o bem que fez.
Visitava o doente,
Dava cura ao aflito.

“Yâ Rasûlallah! Não tenho forças para te louvar; todos nós fomos criados em consideração a ti. Em suma, ó Rei do reino da fidelidade, por ti dou a minha alma, dou tudo!” Hüseyin Hilmi bin Sa’îd (rahmatullahi alaih)

Nunca deixava o tahajjud,
Por temor de Allah não se deitava.
O Profeta tinha a todos, sempre,
Em pé de igualdade consigo mesmo.
Orgulhava-se de ser servo,
Tinha por caráter o caráter divino.
Quem quer que aspire a este caminho
Adorna-se de belas qualidades.
Frequentou assiduamente uma escola,
Onde o seu mestre era Allah.
Para o descrever, o Rahmân
Deu-lhe no Alcorão bela expressão.
Até o Dia da Reunião, ao Rei dos profetas,
Sejam salawât sem fim!
E à sua família e aos seus Companheiros
Salât e salâm, humildemente!

O Canal de Ouro / Ka’ba

Vista exterior da Masjid an-Nabawî / Madîna al-Munawwara

HILYA-I SA’ÂDAT Depois de aconselhar os seus Companheiros, Disse o Orgulho do mundo: depois de mim, Se alguém vir a minha pura hilya, Será como quem viu o meu rosto; Se, ao vê-la, nascer nele o amor, Isto é, se se enamorar da minha beleza, Se desejar ver-me, Se tiver o coração cheio do meu amor, O Inferno lhe será proibido, Meu Senhor lhe concederá o Paraíso. O Haqq não o ressuscitará nu, Ele alcançará o perdão do Haqq. Foi dito: se a mão de alguém Escrever com amor a hilya do Rasûl, O Haqq o porá a salvo do temor, Ainda que a face da terra se encha de calamidades. Seu corpo não verá doença neste mundo, Todo o seu corpo jamais sofrerá dor. Ainda que este homem tenha pecado, O Inferno será proibido ao seu corpo. Na outra vida se salvará do castigo, Neste mundo todas as suas obras serão fáceis. E o Senhor, glorificado seja, o ressuscitará Com os que viram o Rasûl neste mundo. Embora seja difícil expor a hilya do Profeta, Começamos, na medida do possível. Refugiando-nos no Dono da Majestade, Descrevemo-la humildemente. Nisto concordaram as gerações: O Orgulho do mundo era branco e rosado. Seu rosto abençoado era branco puro, Rosado como a rosa. O suor do seu rosto, como pérolas, Tornava ainda mais formosa aquela bela essência.

Quando suava, aquele manancial de alegria,
Era como se um mar de nûr se agitasse em ondas.
Seus olhos pareciam sempre pintados de kohl,
Seus belos olhos atraíam os corações.
O branco dos olhos era branquíssimo,
Seu Senhor o louvou com um versículo.
A parte negra dos olhos não era pequena,
Para ele, o perto e o longe eram um só.
Seus olhos eram grandes, belos e delicados,
Seu rosto abençoado sempre espalhava nûr.
A força da vista de Mustafâ
Era tão forte de noite como de dia.
Se desejava olhar para algum lado,
Seu corpo puro também se voltava.
Fazia o corpo acompanhar a cabeça,
E nunca deixou de fazê-lo.
Rasûl-i akram tinha corpo, é verdade,
Mas bem lhe cabe que eu o chame alma em corpo.
Belo e amável era o Rasûl,
Muito amado pelo Haqq era o Rasûl.
Mâlik e Abû Hâla disseram:
Tinha as sobrancelhas separadas, como a lua crescente.
O espaço entre as duas sobrancelhas, sempre,
Aparecia claro como a prata.
Seu rosto abençoado era levemente redondo,
Sua pele era límpida e luminosa.
O mihrâb das suas sobrancelhas negras
Era a qibla do mundo inteiro.
Visto de lado, o seu nariz abençoado
Parecia um pouco elevado no meio.
Era muito belo, afilado e delicado,
Quem o via não o podia descrever por inteiro.
Seus dentes eram espaçados,
Brilhavam como um fio de pérolas.
Sempre que os dentes da frente apareciam,
Um nûr cobria todos os lados.

Quando sorria o Soberano dos dois mundos,
O profeta de tudo o que tem vida e do que não tem,
Viam-se os seus dentes da frente, muito puros,
Delicados como grãos de granizo.
Ibn Abbâs diz: o Habîb de Allah
Tinha pudor de rir.
Por seu pudor, ele, o esteio da religião,
Dizem que jamais riu às gargalhadas.
Delicado e pudico era o augusto Rasûl,
Sempre se envergonhava de fitar.
Seu rosto parecia a lua cheia,
Sua pessoa era espelho do Senhor Altíssimo.
Aquele belo rosto era sempre luminoso,
Pelo seu brilho não se podia olhá-lo.
Aquele belo Profeta conquistou os corações,
Cem mil Companheiros dele se enamoraram.
Os que o viram uma só vez em sonho
Disseram: não há no mundo deleite igual.
E que saibam: as suas belas faces
Não eram carnudas demais, dizem.
O Criador, amando-o,
Fez-lhe o rosto branco e a fronte larga.
O nûr do seu pescoço, a cada instante,
Resplandecia entre os seus cabelos.
Da sua barba abençoada, sabe bem,
Só dezessete fios tinham embranquecido.
Não era crespa nem comprida,
Era harmoniosa como cada um dos seus membros.
O pescoço puro do Rasûl dos horizontes
Era branquíssimo e límpido ao extremo.
Muitos homens de boas maneiras dentre os Companheiros
Disseram todos: o ventre e o peito eram nivelados.

Se se abrisse o seu peito abençoado,
O tesouro da ciência espalharia faiz95.
Quando o amor se tornou o lugar da sua honra,
Poderia aquele nobre peito ser de outro modo?
Seu peito abençoado era largo,
A ciência ladunnî descera sobre ele.
Branco e límpido era aquele grande peito,
Quem o via julgava ver a lua cheia luminosa.
O fogo do amor pela Essência eterna
Havia lançado aquele belo às chamas.
Isto, por certo, sabem o velho e o jovem:
O Orgulho do mundo tinha as omoplatas largas.
O meio de suas costas era também carnudo,
Ele era o dono da generosidade, o venturoso.
Havia delicadeza na sua pele de prata,
Havia nela um grande selo da profecia.
O selo da profecia estava nas costas,
Perto do lado direito, por certo.
Os que o descreveram informaram-nos:
O nobre selo era um grande sinal.
Sua cor era escura, puxando para o amarelo,
Era do tamanho de um ovo de pomba.
Ao redor, como se fossem linhas,
Pelinhos colados uns aos outros.
Os que descreveram aquele de linhagem sublime
Disseram: o Profeta tinha ossatura grande.
Cada osso era grande e varonil,
Sua figura e seu caráter eram régios.

Cada um dos seus membros abençoados
Fora criado harmonioso e forte.
Cada membro do Profeta era tão belo
Como os versículos do Alcorão.
As palmas das mãos daquele sultão
E também as plantas dos seus pés
Eram largas, puras, delicadas e amáveis,
Delicadas e queridas como a rosa fresca.
Muito bem proporcionadas, dizem os de olhar atento,
Eram aquelas mãos abençoadas, dotadas de karâma.
Se o Profeta saudava alguém,
Sempre sorria.
Ainda que passassem um ou dois dias,
E até mesmo que passasse mais de um mês,
Reconhecia-se pelo bom perfume
Aquela pessoa no meio dos homens.
Seu corpo sem pelos era como cristal,
Como hei de louvar aquele flanco!
Para contemplar o Amigo, aquele nobre
Fizera-se olho com todo o seu corpo delicado.
Sua pele delicada era perfeita,
O Criador mostrara nela a Sua sabedoria.
No peito e no ventre não havia
Pelo algum – como se fosse uma lâmina de prata.
Só do meio do peito para baixo
Estendia-se, bem reta, uma fileira de pelos.
Esta linha negra, neste corpo abençoado,
Era bela como o halo em torno da lua.
Por toda a vida permaneceram assim
Como na juventude os seus membros abençoados.
À medida que avançava a idade do Profeta,
Renovava-se sempre, como um botão de rosa.
E não penses tampouco que o Sultão do universo
Fosse muito gordo.
Não era magro nem muito carnudo,
Era equilibrado e muito forte.

Os homens do coração disseram a seu respeito:
Seus membros não eram demais nem de menos uns que os outros.
O Artífice construiu o palácio do seu corpo
Sobre os alicerces da justiça e do equilíbrio.
Seu corpo puro era bem proporcionado,
Todo o seu corpo estava imerso em nûr.
Era de estatura média aquele cuja morada é a Sidra,
Por ele o mundo encontrou a sua ordem.
Os que contemplaram o milagre do seu porte
Disseram todos, louvando a sua pessoa:
Não vimos belo assim, de rosto de rosa,
Belo de estatura, de caráter e de rosto.
Embora o Profeta fosse de estatura média,
Se andasse com alguém alto,
Por mais alto que fosse aquele homem,
O Profeta parecia ainda mais alto.
Aquela joia era mais alta que o homem alto
Uma palma de mão.
Se seguia por um caminho com dignidade,
Andava muito depressa.
Dizemos ainda, entre as suas nobres qualidades:
Ao andar, inclinava-se para a frente.
Isto é, como quem desce uma ladeira,
Sempre se inclinava um pouco para a frente.
Glorioso e honrado era aquele sublime,
Dele se orgulhava a alma do Khalîl.
A pessoa que Allah escolhe,
Cada membro seu, por certo, é o mais excelso.
Se alguém, andando pelo caminho,
De repente visse Rasûlullah,
Caía-lhe no coração o temor
Pela majestade de Rasûlullah.
E se alguém, com o Profeta, continuamente
Conversasse e lhe falasse,
Pela doçura das suas palavras
Seu servo se tornaria, se o Rasûl o aceitasse.

O Criador eterno o adornara
Com belo caráter, sem igual nem par.
Yâ Rasûlallah! Não tenho forças para te louvar,
Todos nós fomos criados em consideração a ti.
Em suma, ó Rei do reino da fidelidade,
Por ti dou a minha alma, dou tudo!
Hüseyin Hilmi Işık
(qaddasallahu ta’âlâ sirrahul-azîz)

Uma vista antiga de Makka al-Mukarrama

QASÎDA DA AHL AS-SUNNA
O credo da Ahl as-Sunna é o que primeiro te é necessário,
Há setenta e três seitas, mas as restantes são do Inferno.
Os muçulmanos são todos sunitas; o chefe de todos eles é Nu’mân.
Foi anunciado o Paraíso a quem os segue na fé.
Torna firme o teu credo; depois apega-te ao Islã!
Cumpre as cinco condições do Islã; guarda-te logo dos harâm!
Se cometeres um pecado, arrepende-te, não percas tempo!
Quem não segue o Islã, um dia, por certo, se arrependerá.
Não te deixes enganar pelo sem-religião: perecerás tu também, cuidado!
Se creres na palavra doce, depois o teu estado será mau!
Multiplicaram-se os de duas caras: anjo por fora, serpente por dentro,
Para te fazer cair na armadilha, mostram-se amigos, e de coração.
Cada um se julga com razão: “Mau”, diz, “é quem não me segue”.
O Islã é a balança; é ele que distingue quem tem razão!
Sabe que quem não segue o Islã é homem desviado do caminho reto;
Nesta palavra por certo crê quem compreende bem a história.
Por que corre ao médico aquele a quem dói alguma parte do corpo?
Porque ninguém gosta de morrer; mais doce do que tudo é a vida.
Há quem diga: “Não tenho desejo de viver para sempre”?
Morrer não é deixar de existir; crê na vida do túmulo!
O Paraíso é eterno, e o Inferno também; isto informou o Alcorão,
É preciso precaver-se do sofrimento eterno, ainda que seja só uma suposição.
Há também quem não creia nisto; o morcego foge da luz.
O corvo acha gosto no monturo; o rouxinol é que procura a rosa.
Não pode amar o Islã quem se entrega ao ego e ao prazer.
Serão estes dois uma só coisa? O bom é distinto do mau!
Os muçulmanos reconhecem o direito, fazem o bem a toda criatura,
Os sem-fé são como serpentes; deleitam-se em fazer sofrer.
Socorro, ó meu Senhor, socorro! Como é difícil o fim dos tempos,
Esqueceu-se a ciência da religião; diminuíram muito os que fazem o namâz.