O SUBLIME CARÁTER DE NOSSO MESTRE, O PROFETA1
Allahu ta’âlâ, enumerando os bens e as dádivas que concedeu ao Seu amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) e afagando-lhe o coração abençoado, diz: “Tu foste criado com belo caráter.”2
Num versículo sagrado foi dito, em sentido: “Sem dúvida, tu estás sobre um khuluq azîm (tu és dotado de um caráter sublime).” Khuluq azîm quer dizer ter com Allahu ta’âlâ segredos, coisas ocultas, e ter entre os homens um belo caráter. Ikrima diz: “Ouvi de Abdullah ibn Abbâs: o ‘khuluq azîm’ deste versículo sagrado, isto é, o belo caráter, é o caráter (akhlâq) que o Alcorão al-Karîm ensina.”
O belo caráter de Rasûlullah foi a causa de muitas pessoas entrarem na religião do Islã.
Suas palavras eram dulcíssimas: conquistavam os corações e atraíam as almas. Era tão grande o seu entendimento que, vindo ao meio de homens rudes e obstinados da península Arábica, governou-os muito bem, suportou com paciência os seus maus-tratos e conduziu-os à brandura e à obediência. A maioria deles deixou a sua religião, tornou-se muçulmana e chegou a combater, no caminho da religião do Islã, contra os próprios pais e filhos.
Sacrificaram por ele os seus bens e os seus lares e derramaram o seu sangue. E, no entanto, não estavam habituados a tais coisas. Seu belo caráter, sua brandura, seu perdão, sua paciência, sua bondade e sua generosidade eram tamanhos que deixavam todos maravilhados. Os que o viam e os que o ouviam tornavam-se muçulmanos de bom grado. Em nenhum de seus movimentos, em nenhuma de suas ações e em nenhuma de suas palavras se viu jamais fealdade alguma, falta alguma. Embora nunca se ofendesse com ninguém por causa de si mesmo, era duro e severo com os inimigos da religião e com os que estendiam contra a religião a língua e a mão.
Manifestaram-se milhares de milagres de Muhammad alaihis-salâm; todos, amigos e inimigos, o disseram. O mais valioso desses milagres era ele ser cortês e de belo caráter. Abû Sa’îd Khudrî disse: “Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) dava forragem aos animais. Amarrava o camelo. Varria a casa. Ordenhava a ovelha. Costurava o rasgão do calçado e remendava a roupa de baixo.3 Comia junto com o seu servidor. Quando o servidor se cansava de girar o moinho de mão, ajudava-o. Comprava coisas no mercado e levava-as para casa num saco. Ao encontrar-se com o pobre e com o rico, com o grande e com o pequeno, era o primeiro a saudar. Era o primeiro a estender a mão abençoada para a musâfaha com eles. Tinha por iguais o escravo e o amo, o nobre, o negro e o branco. Fosse quem fosse que o convidasse, ia ao lugar para onde era chamado. O que lhe punham diante, ainda que pouco, não o tinha por pouco nem por desprezível.
Não guardava comida da tarde para a manhã nem da manhã para a tarde. Era de belo caráter. Gostava de fazer o bem e vivia bem com todos. Era de rosto risonho e de palavra doce, e ao falar não ria. Parecia entristecido, mas não franzia as sobrancelhas. Era humilde de coração, mas não de índole baixa. Era majestoso, inspirava respeito e temor, mas não era rude. Era delicado e generoso, mas não esbanjava nem dava coisa alguma em vão, e tinha compaixão de todos. Sua cabeça abençoada andava sempre inclinada para a frente. Não esperava nada de ninguém. Quem deseja felicidade e sossego deve ser como ele.” Anas ibn Mâlik disse: “Servi a Rasûlullah durante dez anos. Nem uma só vez me disse ‘Uf!’. Nunca disse: ‘Por que fizeste isto assim?’, nem ’Por que não fizeste aquilo?’”4 Abû Hurayra disse: “Numa expedição (ghazâ), pedimos-lhe que fizesse dua para que os kâfirs fossem aniquilados. Ele disse: ‘Não fui enviado para amaldiçoar nem para que os homens sofram castigo. Fui enviado para fazer o bem a todos e para que os homens alcancem a paz.’”5 Allahu ta’âlâ diz, em sentido, no centésimo sétimo versículo sagrado da Sura al-Anbiyâ: “Enviamos-te como misericórdia e bondade para os mundos.”
Abû Sa’îd Khudrî disse: “O pudor (hayâ) de Rasûlullah era maior do que o pudor das moças muçulmanas virgens.”6
Anas ibn Mâlik diz: “Quando Rasûlullah fazia a musâfaha com alguém, não retirava dela a mão abençoada enquanto a pessoa não retirasse a sua.7 Não desviava dela o rosto abençoado enquanto a pessoa não desviasse o seu. Quando se sentava junto de alguém, sentava-se sobre os dois joelhos; por respeito a ela, não se sentava com o joelho abençoado levantado.”
Jâbir ibn Samura diz: “Rasûlullah falava pouco. Falava somente quando era necessário ou quando lhe perguntavam alguma coisa.” Daqui se compreende que todo muçulmano deve calar-se, sem dizer palavras vãs e inúteis. Em suas palavras abençoadas havia tartîl e tarsîl, isto é, falava de modo muito claro e ordenado, e compreendia-se facilmente. Anas ibn Mâlik disse: “Rasûl alaihis-salâm visitava os doentes, seguia os funerais e ia aonde era convidado. Montava também em burro. Vi Rasûl alaihis-salâm na Conquista de Khaybar. Estava montado num burro cujo cabresto era uma corda. Quando Rasûl alaihis-salâm saía do namâz da manhã, as crianças e os trabalhadores de Medina traziam diante dele as suas vasilhas cheias de água e pediam-lhe que nelas mergulhasse o dedo abençoado. Ainda que fosse inverno e a água estivesse fria, ele não recusava o pedido e alegrava-lhes o coração.”8
Anas ibn Mâlik diz ainda: “Se uma menina pequena tomasse Rasûl alaihis-salâm pela mão e o levasse para algum assunto, ele ia com ela e resolvia a sua dificuldade.”
“Sem dúvida, tu estás sobre um khuluq azîm (tu és dotado de um caráter sublime)” Qalam: 4
Jâbir disse: “Nunca se ouviu Rasûl alaihis-salâm dizer ‘não’ quando lhe pediam alguma coisa.”
Também no pudor (hayâ) nosso Mestre, o Profeta, era superior a todas as criaturas. Diante das coisas impróprias, seus olhos eram como que fechados. Não se dirigia a ninguém com palavras que lhe desagradassem.
Nossa mãe Âisha contou: “Quando informavam nosso Mestre Rasûlullah de que alguém havia feito algo reprovável, ele, sem dizer o nome da pessoa, dizia em termos gerais: ‘Por que fazem eles assim?’ Desse modo, sem revelar o nome, afastava essa pessoa da má ação que fizera ou dissera.”9
Anas ibn Mâlik contou: “Um dia entrou na presença de nosso Mestre, o Profeta, um homem que tinha no rosto uma mancha de algo de cor amarela. Nosso Profeta nada lhe disse. Não disse palavra alguma que o magoasse. Quando o homem saiu, disse: ‘Se lhe tivésseis dito isso, ele teria lavado o que tinha no rosto!’”10
Nosso Mestre Rasûlullah unia os povos. Não os fazia odiar-se uns aos outros. Honrava o chefe de cada povo e fazia-o sentar-se no lugar de honra.
Não privava ninguém de seu semblante abençoado. Procurava os Companheiros e perguntava pelos que não vinham. Aconselhava os que se sentavam junto dele e dava a cada um a sua parte.
Pelo seu modo de tratar, nunca passou pelo coração de ninguém o pensamento de que ele amasse mais a um do que a outro. Com quem vinha queixar-se a ele mostrava paciência e o escutava.
Enquanto o visitante não se retirasse, ele não o deixava para ir embora. Mostrava a todos os homens, da melhor maneira, o seu belo caráter e as suas boas maneiras. Diante dele, em direito e em justiça, todos eram iguais. Ninguém tinha superioridade nem privilégio sobre ninguém. Nossa mãe Âisha disse: “Nunca vi ninguém de caráter tão belo quanto nosso Mestre Rasûlullah. Sempre que alguém de seus Companheiros ou de sua família (Ahl al-Bayt) o chamava, ele respondia infalivelmente: ‘Sim, estou ouvindo!’”11
Nosso Mestre Rasûlullah chamava os Companheiros pelos nomes mais belos. Não cortava a palavra a ninguém. Enquanto a pessoa com quem falava não terminasse de falar ou não se levantasse para ir-se, ele não lhe cortava a palavra. Sobre o seu belo trato, a sua ternura e a sua compaixão, Allahu ta’âlâ disse, em sentido, no centésimo vigésimo oitavo versículo sagrado da Sura at-Tawba: “Pesa-lhe e aflige-o o vosso sofrimento. Está muito empenhado por vós; com os crentes é compassivíssimo e deseja-lhes muitíssimo bem.”
Allahu ta’âlâ disse, em sentido, no centésimo sétimo versículo sagrado da Sura al-Anbiyâ: “(Ó Meu Habîb!) Não te enviamos senão como misericórdia para os mundos.”
Nosso Mestre, o Profeta, receando que algumas coisas pesassem à sua umma, facilitava-as. Disse: “Se não fosse para não impor dificuldade à minha umma, eu lhes ordenaria que usassem o miswâk em cada ablução.”12 Também em cumprir a palavra não houve entre os homens ninguém superior a nosso Mestre, o Profeta. Abdullah ibn Abul-Hamsâ contou: “Antes ainda de lhe ter sido comunicada a profecia, eu fizera um negócio com nosso Profeta. Restara um saldo a favor dele. Prometi encontrar-me com ele em tal hora, em tal lugar, e esqueci-me. Três dias depois, quando me lembrei da promessa, corri logo para aquele lugar. Ao ver que ele estava ali à espera havia três dias, fiquei paralisado de assombro. Ele me disse: ‘Rapaz, cansaste-me! Estou aqui à tua espera há três dias inteiros.’” A humildade de nosso Mestre, o Profeta, era tão grande e tão sem igual que não se encontraria em ninguém, nem sequer em nenhum profeta (alaihimus-salâm).
O sentimento de soberba jamais surgiu nele. Quando a nosso Profeta foi dada a escolha entre ser um profeta-rei e ser um profeta-servo, ele escolheu ser um profeta-servo.13 Então Isrâfîl alaihis-salâm disse a nosso Mestre, o Profeta: “Sem dúvida, Allahu ta’âlâ concedeu-te também aquilo de que, por humildade, abriste mão. Pois no Dia do Juízo tu és o maior dos filhos de Âdam. És o primeiro homem que se levantará do túmulo. E és também o primeiro que intercederá.”
Nosso Mestre, o Profeta, disse a nossa mãe Âisha:
“Foi-me oferecido que as pedras e a terra de Meca se tornassem ouro. Eu disse: ‘Não, ó meu Senhor! Que eu passe um dia com fome e um dia saciado. No dia em que estiver com fome, eu Te implorarei e farei dua. No dia em que estiver saciado, eu Te louvarei e glorificarei.’”14
Um dia, Jibrîl alaihis-salâm veio a nosso Mestre, o Profeta, e disse:
“Allahu ta’âlâ envia-te saudações. Se ele quiser, transformarei em ouro para ele estas montanhas. Aonde quer que vá, essas montanhas de ouro estarão com ele.”
Nosso amado Profeta respondeu: “Ó Jibrîl! O mundo é a casa de quem não tem casa. E é o bem de quem não tem bens. Quem o acumula é quem não tem juízo.”15 Então Jibrîl alaihis-salâm disse: “Ó Muhammad! Allahu ta’âlâ tornou-te firme com a qawl-i thâbit (a palavra firme).”
Nossa mãe Âisha disse: “Havia ocasiões em que passava um mês inteiro sem que acendêssemos fogo em casa (para cozinhar). Havia apenas tâmaras e água.”
Ibn Abbâs disse: “Nosso Mestre Rasûlullah e a sua família (Ahl al-Bayt) muitas noites deitavam-se sem jantar. À noite não encontravam nada para comer.” Nossa mãe Âisha disse: “O ventre abençoado de nosso Mestre Rasûlullah nunca se saciou de comida. Nunca se queixou disso a ninguém. A necessidade era para ele melhor do que a riqueza. Ainda que passasse a noite inteira contorcendo-se de fome, isso não o impedia de jejuar durante o dia.16
“Foi-me oferecido que as pedras e a terra de Meca se tornassem ouro. Eu disse: ‘Não, ó meu Senhor! Que eu passe um dia com fome e um dia saciado. No dia em que estiver com fome, eu Te implorarei e farei dua. No dia em que estiver saciado, eu Te louvarei e glorificarei’” Hadîth sharîf
Se quisesse, teria pedido a seu Senhor todos os tesouros da terra, os seus alimentos e uma vida de fartura. Juro que, quando o via nesse estado, tinha pena dele e chorava. Afagando-lhe com a mão o ventre abençoado, eu dizia:
‘Que minha alma te seja sacrificada! Não seria bom que tirasses deste mundo algum proveito que te desse forças?’
E ele dizia: ‘Ó Âisha! Que farei eu com o mundo? Meus irmãos, os profetas ulul-azm, suportaram coisas ainda mais duras do que esta. Mas continuaram a viver nesse estado. Foram ao encontro de seu Senhor. Por isso o seu Senhor tornou belíssimo o seu retorno a Ele e aumentou-lhes as recompensas. Eu me envergonho de viver uma vida de fartura, porque uma vida assim me deixaria atrás deles. Para mim, a coisa mais bela e mais querida é ir ao encontro de meus irmãos, de meus amigos, e juntar-me a eles.’”
Nossa mãe Âisha disse: “Rasûlullah faleceu cerca de um mês depois destas palavras.” A generosidade de nosso Mestre, o Profeta, também se tornou lendária. Tampouco nesta bela qualidade alguém pôde igualar nosso Profeta.
Ibn Abbâs disse: “Em fazer o bem, nosso Mestre Rasûlullah era o mais generoso dos homens. No abençoado mês de Ramadã e nas ocasiões em que se encontrava com Jibrîl alaihis-salâm, era mais generoso do que o vento da manhã.” Anas ibn Mâlik diz: “Eu caminhava junto com Rasûl alaihis-salâm. Ele trazia sobre si um burd-i Najrânî, isto é, um manto de tecido do Iêmen. Um beduíno veio por trás e puxou-o pela gola com tanta força que a gola do manto arranhou o pescoço abençoado dele e deixou marca. Rasûl alaihis-salâm riu-se do que o homem fizera e ordenou que lhe dessem alguma coisa.” Rasûl alaihis-salâm tinha uma vizinha, uma mulher idosa. Ela enviou a filha a Rasûl alaihis-salâm e suplicou: “Não tenho roupa com que me cobrir para fazer o namâz. Manda-me uma roupa para me cobrir no namâz.” Naquele momento, Rasûl alaihis-salâm não tinha outra roupa. Tirou a túnica que trazia sobre o corpo abençoado e enviou-a àquela mulher. Quando chegou a hora do namâz, não pôde ir à mesquita sem roupa. Os Companheiros, ao saberem disso, disseram: “Rasûl alaihis-salâm é tão generoso que, ficando sem camisa, não pode vir à mesquita para a congregação. Distribuamos também nós aos pobres tudo o que temos.” Allahu ta’âlâ revelou imediatamente o vigésimo nono versículo sagrado da Sura al-Isrâ. Primeiro, disse ao Seu Habîb, em sentido:
“Não prendas as tuas mãos ao pescoço, nem as abras por completo (não sejas avaro, não deixes de dar)”, e depois: “Não distribuas os teus bens de modo que nada te reste (a ponto de cair em aperto, perder o namâz e afligir-te)! (Na sadaqa, sê moderado.)”
Naquele dia, depois do namâz, Alî veio a Rasûlullah e disse: “Yâ Rasûlallah! Hoje tomei emprestados oito dirhams de prata para o sustento de minha família. Dou-te a metade. Compra uma túnica para ti.” Rasûl alaihis-salâm foi ao mercado e comprou uma túnica por dois dirhams. Quando ia comprar comida com os dois dirhams restantes, viu um cego sentado, que dizia: “Quem me dá uma camisa, pelo agrado de Allah e para alcançar as vestes do Paraíso?” Deu-lhe a túnica que havia comprado. Quando o cego tomou a túnica nas mãos, sentiu um perfume agradável como o almíscar. Compreendeu que aquele perfume vinha da mão abençoada de Rasûl alaihis-salâm, pois de tudo o que Rasûl alaihis-salâm vestisse uma só vez, ainda que se gastasse e se desfizesse, cada pedaço tinha um perfume agradável como o almíscar.
O cego fez dua, dizendo: “Ó meu Senhor! Em consideração a esta camisa, abre-me os olhos!” E os seus dois olhos abriram-se imediatamente. Rasûl alaihis-salâm afastou-se dali. Comprou uma túnica por um dirham. Quando ia comprar comida com o dirham restante, viu uma moça criada que chorava, e perguntou: “Minha filha, por que choras assim?” A moça disse: “Sou criada de um judeu. Ele me deu um dirham e mandou-me comprar uma garrafa com meio dirham e azeite com a outra metade. Comprei-os e, quando voltava para casa, caíram-me das mãos. Perdi a garrafa e o azeite, e agora não sei o que fazer.” Rasûl alaihis-salâm deu à moça o seu último dirham e disse: “Compra com isto a garrafa e o azeite e leva-os para casa.” Mas a pobre moça disse: “Tenho medo de que o judeu me bata por eu ter chegado tarde em casa.” Rasûl alaihis-salâm disse: “Não tenhas medo! Irei contigo e lhe direi que não te faça nada.” Chegaram à casa e bateram à porta. O judeu abriu a porta e, ao ver nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam), ficou estupefato. Rasûlullah contou ao judeu o que havia acontecido e intercedeu pela moça, para que ele não lhe fizesse nada. O judeu lançou-se aos pés de Rasûlullah e disse: “Ó grande Profeta, coroa da cabeça de milhares de homens, cujas ordens milhares de leões esperam para cumprir! Honraste por uma criada a porta de um pobre miserável como eu. Yâ Rasûlallah! Em tua honra libertei esta moça. Ensina-me a fé, o Islã. Que eu me torne muçulmano em tua presença.” Rasûl alaihis-salâm ensinou-lhe o Islã. O judeu tornou-se muçulmano. Entrou em casa e contou à família o que acontecera. Todos se tornaram muçulmanos. Tudo isso aconteceu pela bênção do belo caráter de Rasûlullah.
Todo muçulmano deve tomar como exemplo para si estes estados de Rasûlullah. É necessário a todo muçulmano adornar-se com o caráter de Allahu ta’âlâ. Pois nosso Mestre Rasûlullah disse: “Adornai-vos com o caráter de Allahu ta’âlâ!” Por exemplo, um dos atributos de Allahu ta’âlâ é “Sattâr”. Isto é, Ele é Aquele que encobre os pecados.
O muçulmano também deve encobrir o defeito e a falta de seu irmão na religião. Allahu ta’âlâ perdoa os pecados de Seus servos. Por isso, também os muçulmanos devem perdoar as faltas e os erros uns dos outros. Allahu ta’âlâ é Karîm e Rahîm. Isto é, a Sua graça e a Sua bondade são abundantes, e a Sua compaixão, imensa. O muçulmano deve ser generoso e compassivo. O mesmo se dá com todo o belo caráter.
“Sim! Sei que vós fareis tudo. Mas não quero sentar-me à parte dos que trabalham. Allahu ta’âlâ não ama quem se senta à parte de seus companheiros” Hadîth sharîf
As belas qualidades de Rasûl alaihis-salâm são muitíssimas. Todo muçulmano deve aprendê-las e adornar-se com um caráter semelhante. Assim lhe será concedido salvar-se das calamidades e das aflições, neste mundo e na outra vida, e alcançar a intercessão do Mestre dos dois mundos.
Algumas de suas belas qualidades:
1. O saber de Rasûlullah (sallallahu ta’âlâ alaihi wa sallam), o seu conhecimento interior (irfân), a sua compreensão (fahm), a sua certeza (yaqîn), a sua convicção firme (îqân), a sua inteligência, a sua perspicácia, a sua generosidade, a sua humildade, a sua brandura (hilm), a sua ternura, a sua paciência, o seu zelo, o seu brio (hamiyya), a sua lealdade, a sua fidelidade ao que lhe era confiado, a sua coragem, a sua majestade (mahâba), a sua bravura, a sua eloquência, a pureza de sua linguagem, a sua sagacidade, a sua graça (malâha), o seu escrúpulo (wara’), a sua castidade, a sua magnanimidade, a sua equidade, o seu pudor (hayâ), o seu desapego do mundo (zuhd) e a sua taqwâ eram maiores do que os de todos os profetas.
2. Perdoava os danos e os maus-tratos que recebia dos amigos e dos inimigos. Não pagava a nenhum deles na mesma moeda. Na Batalha de Uhud, quando os kâfirs lhe feriram a face abençoada e lhe quebraram os dentes, fez dua por aqueles que o haviam feito: “Ó meu Senhor! Perdoa-lhes! Desculpa-os por sua ignorância!”
3. Sua ternura era imensa. Dava de beber aos animais. Segurando com a mão a vasilha de água, esperava até que se saciassem. Limpava o rosto e os olhos do cavalo que montava.
4. A todo aquele que o chamava respondia dizendo “Labbaik” (“Sim, aqui estou!”). Diante de ninguém estendia as pernas. Sentava-se de joelhos. 5. Não se considerava superior a ninguém. Numa viagem, quando iam preparar um carneiro assado, um deles disse: “Eu o abato.” Outro disse: “Eu o esfolo.” Outro ainda disse: “Eu o cozinho.” Quando Rasûlullah disse: “E eu junto a lenha”, eles disseram: “Yâ Rasûlallah! Descansa tu! Nós a juntaremos.” Ele disse: “Sim! Sei que vós fareis tudo. Mas não quero sentar-me à parte dos que trabalham. Allahu ta’âlâ não ama quem se senta à parte de seus companheiros.” E levantou-se e foi juntar lenha. 6. Quando chegava ao lugar onde estavam sentados os Companheiros (radiyallahu ta’âlâ anhum ajma’în), não passava para o lugar de honra. Sentava-se no lugar vazio que encontrasse. Um dia, quando saiu à rua com o bastão na mão, os que o viram puseram-se de pé. Ele disse: “Não vos levanteis por mim, como os outros se levantam uns pelos outros em sinal de respeito! Também eu sou um homem como vós. Eu como assim como todos comem. Quando me canso, sento-me.”
7. Na comida, na roupa e em todas as coisas não fazia distinção entre si e os seus servidores. Ajudava-os em seus trabalhos. Nunca se viu que batesse em alguém ou que injuriasse alguém.
Anas ibn Mâlik, que esteve sempre a seu serviço, diz: “Servi a Rasûlullah durante dez anos. O serviço que ele me prestou foi maior do que o que eu lhe prestei. Nunca o vi magoado comigo nem o ouvi falar-me com aspereza.”17
8. Ele próprio remendava as suas roupas descosidas e rasgadas, ele próprio ordenhava as suas ovelhas e dava forragem aos seus animais. O que comprava no mercado, levava-o ele mesmo para casa. Em viagem, dava forragem aos animais e às vezes também os escovava. Estas coisas, às vezes fazia-as sozinho; às vezes ajudava os seus servidores. 9. Quando os servidores de algumas pessoas vinham chamá-lo, seguindo o costume de Medina, ia de mãos dadas com eles.
10. Visitava os doentes e estava presente nos funerais. Para ganhar os corações, visitava também os doentes dos kâfirs e dos munâfiqs. 11. Depois de dirigir o namâz da manhã, sentava-se voltado para a congregação e dizia: “Há algum irmão nosso doente? Vamos visitá-lo!” Se não havia doente, dizia: “Há alguém que tenha um funeral? Vamos ajudar!” Se havia um funeral, ajudava a lavar e a amortalhar o defunto, dirigia ele mesmo o namâz fúnebre e acompanhava-o até a sepultura. Se não havia funeral, dizia: “Se alguém teve um sonho, que o conte! Vamos ouvi-lo e interpretá-lo!”
12. Se não via um de seus Companheiros por três dias, perguntava por ele. Se ele tinha partido em viagem, fazia dua por ele; se estava na cidade, ia visitá-lo. 13. Era ele o primeiro a saudar o muçulmano que encontrava no caminho. 14. Montava em camelo, em cavalo, em mula e em burro, e às vezes levava outra pessoa na garupa.
15. Servia os seus hóspedes e os seus Companheiros e dizia: “O chefe de um povo, o melhor dentre eles, é aquele que os serve.”
16. Nunca se viu que risse às gargalhadas. Sorria silenciosamente. Às vezes, ao rir, viam-se os seus abençoados dentes da frente.
17. Parecia sempre pensativo e entristecido, e falava pouco. Começava a falar sorrindo. 18. Não dizia coisa desnecessária e inútil. Quando era preciso, falava de modo breve, proveitoso e de sentido claro. Para que fosse bem compreendido, às vezes repetia três vezes.
19. Gracejava e dizia brincadeiras com estranhos e com conhecidos, com as crianças, com as mulheres idosas e com as mulheres de sua família (mahram). Mas isso nunca o levava a esquecer-se de Allahu ta’âlâ um só instante.
20. Por causa de sua majestade, ninguém conseguia olhá-lo no rosto. Um homem veio e, ao olhar para o seu rosto abençoado, pôs-se a tremer. Ele disse: “Não te aflijas! Não sou rei nem tirano. Sou filho de uma pobre mulher que comia carne seca.” O temor do homem desapareceu, e ele começou a contar a sua aflição.
21. Não tinha guardas nem porteiros. Qualquer um podia vir facilmente até ele e expor-lhe a sua aflição. 22. Era muito pudico. Tinha pejo de olhar para o rosto da pessoa com quem falava.
“O chefe de um povo, o melhor dentre eles, é aquele que os serve” Hadîth sharîf
23. Não lançava em rosto a ninguém o seu defeito. Não se queixava de ninguém nem falava de ninguém pelas costas. Quando não lhe agradavam as palavras ou as ações de alguém, dizia: “Por que será que algumas pessoas fazem assim?”
24. Sendo o amado, o rasûl e o aceito de Allahu ta’âlâ, dizia: “Dentre vós, eu sou quem melhor conhece Allahu ta’âlâ e quem mais O teme.” E dizia: “Se vísseis o que eu vejo, riríeis pouco e choraríeis muito.”18 Quando via uma nuvem no céu, dizia: “Ó meu Senhor! Não nos envies castigo com esta nuvem!” Quando soprava o vento, fazia dua: “Ó meu Senhor! Envia-nos um vento benéfico!” Quando trovejava, dizia: “Ó meu Senhor! Não nos mates com a Tua ira, não nos aniquiles com o Teu castigo, e antes disso concede-nos o bem-estar!”
Quando se punha de pé para o namâz, ouvia-se em seu peito um som, como o suspiro de quem chora. Assim acontecia também quando recitava o Alcorão al-Karîm. 25. A força de seu coração e a sua coragem eram tão grandes que causavam assombro. Na Batalha de Hunayn, quando os muçulmanos se dispersaram, ele ficara com apenas três ou quatro pessoas. Várias vezes enfrentou sozinho o ataque dos kâfirs e jamais recuou. Fez-lhes frente e pô-los em fuga.
26. Era muito generoso. Dava de presente centenas de camelos e de ovelhas e não guardava nada para si. Muitos kâfirs de coração duro, ao verem essas dádivas, abraçaram a fé.
27. Nunca se ouviu que dissesse “não tenho” quando lhe pediam alguma coisa. Se tinha, dava; se não tinha, calava-se.
28. Embora Allahu ta’âlâ lhe tivesse dito: “Pede, que Eu te darei”, não pediu riquezas deste mundo. Nunca comeu pão de farinha de trigo peneirada. Comia sempre pão de farinha de cevada não peneirada. Nunca se viu que comesse até se saciar. Houve ocasiões em que, durante dois ou três meses, não se cozinhou comida nem se fez pão em casa, e ele comeu só tâmaras. Acontecia também passar dois ou três dias sem comer nada.
29. Quando faleceu, encontrou-se a sua cota de malha de ferro empenhada a um judeu por trinta quilos de cevada. 30. Nunca se ouviu que desdenhasse uma comida. Comia o que lhe agradava; o que não lhe agradava, não o comia e não dizia nada. Comia uma vez por dia. Às vezes comia de manhã, às vezes à tarde. Ao chegar em casa, perguntava: “Há alguma coisa para comer?” Se lhe diziam que não, jejuava. Não comia a comida sobre toalha, bandeja, mesa ou coisa semelhante; punha-a no chão, ajoelhava-se e comia sem se apoiar em nada. Começava a refeição dizendo a basmala. Comia com a mão direita. 31. Às vezes separava para as suas esposas e para alguns servidores cevada e tâmaras para um ano, e disso dava também sadaqa aos pobres.
32. Como os outros profetas, não aceitava sadaqa nem bens de zakât. Aceitava o presente. Na maioria das vezes, retribuía-o com acréscimo.
33. Seu leito era de couro curtido, cheio de fibras de tamareira. Quando lhe trouxeram um leito cheio de lã, não o aceitou e disse: “Ó Âisha! Juro por Allahu ta’âlâ que, se eu quisesse, Allahu ta’âlâ faria com que em toda parte houvesse junto de mim montes de ouro e de prata.” Às vezes dormia sobre uma esteira, uma tábua, um colchão, um feltro de lã ou sobre a terra nua.
34. Depois do namâz da noite (ishâ), dormia até a meia-noite e depois praticava a adoração até o namâz da manhã. Deitava-se sobre o lado direito, punha a mão direita debaixo da face e adormecia depois de recitar algumas suras. 35. Fazia tafa’ul. Isto é, interpretava para o bem as coisas que via primeiro ou de repente. Não tinha coisa alguma por agourenta.
36. Nos momentos de tristeza, segurava a barba e ficava pensativo.
37. Quando se afligia, começava logo a fazer o namâz. Com o deleite e a serenidade do namâz dissipava a sua tristeza. 38. Nunca dava ouvidos às palavras de quem fazia ghîba, isto é, de quem falava mal dos outros pelas costas.
39. Ao caminhar, se precisava de olhar para o lado ou para trás, voltava-se com todo o corpo para olhar. Não olhava virando apenas a cabeça. 40. O temor de nosso Mestre, o Profeta, a Allahu ta’âlâ, a sua obediência a Ele e a sua adoração eram tão grandes que ninguém teria forças para suportar esse estado. Fazia o namâz até que lhe inchassem os pés abençoados. Quando lhe disseram: “Yâ Rasûlallah! Se todas as tuas faltas passadas e futuras foram perdoadas, por que te impões tanto esforço?”, ele respondeu: “E não hei de ser eu o servo mais agradecido de Allahu ta’âlâ?”
O rouxinol da alma deseja sem cessar uma rosa;
Não penses que deseja contender com os estranhos.
Sem parar, gira-lhe em volta como um compasso,
E de repente deseja voar para a solidão.
Compreendi: aquela bela rosa não abriu ao estranho o seu segredo;
Como um botão, deseja sempre o rouxinol.
Aquela formosa escondeu do estranho a face,
E eles, em vão, desejam um amor sem fruto.
Zâtî! No caminho da união, ele anda como Majnûn,
Desfazendo-se a si mesmo, só a Laylâ deseja.
“E não hei de ser eu o servo mais agradecido de Allahu ta’âlâ?” Hadîth sharîf
