HILYA-I SA’ÂDAT
À aparência de Habîb-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) chama-se “Hilya-i Sa’âdat”. Os sábios do Islã descreveram com clareza, apoiados em suas fontes e documentos, todos os membros visíveis de Muhammad alaihis-salâm, a sua forma, os seus atributos, o seu belo caráter e toda a sua vida, até os mais finos pormenores. Essas informações foram reunidas a partir dos hadîths, que são as próprias palavras de nosso Mestre, o Profeta, e dos relatos transmitidos por seus Companheiros. As obras que as contêm chamam-se livros de sîra (siyar). Entre milhares de livros de sîra, os mais célebres que descrevem a Hilya-i Sa’âdat de nosso Mestre, o Profeta, são “Ash-Shamâil ar-Rasûl”, de imam Tirmidhî; “Shifâ-i Sharîf”, de Qâdî Iyâd; os “Dalâil an-Nubuwwa” de imam Bayhaqî e de Abû Nu’aym Isfahânî; e ainda a obra “Mawâhib-i Ladunniyya”, de imam Qastallânî. Nos hadîths e nos relatos transmitidos pelos Companheiros, a Hilya-i Sa’âdat de nosso amado Profeta é descrita assim: “O rosto abençoado do Orgulho do universo, todos os seus membros honrados e a sua voz abençoada eram mais belos do que os rostos, os membros e as vozes de todos os homens.
Seu rosto abençoado era um tanto arredondado e, quando estava alegre, resplandecia como a lua.1 Sua alegria percebia-se em sua fronte abençoada.
Nosso Mestre Rasûlullah via de noite assim como via de dia. Assim como via o que estava à sua frente, via também o que estava atrás de si. Quando queria olhar para o lado ou para trás, voltava-se com todo o corpo para olhar. Olhava mais para a terra do que para o céu. Seus olhos abençoados eram grandes, e os cílios, longos. Havia em seus olhos abençoados um leve tom avermelhado; a pupila era de um negro intenso, e à noite ele aplicava kohl nos olhos. A fronte do Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) era ampla.
Suas sobrancelhas abençoadas eram finas, e o espaço entre elas, aberto. A veia que havia entre as duas sobrancelhas inchava quando ele se encolerizava. Seu nariz abençoado era belíssimo, um pouco elevado ao meio. Sua cabeça abençoada era grande. Sua boca abençoada não era pequena. Seus dentes abençoados eram brancos, e os da frente, espaçados. Quando falava, era como se saísse nûr por entre os seus dentes. Entre os servos de Allahu ta’âlâ não se viu ninguém de fala mais eloquente nem mais doce do que ele.
Quando o Orgulho do mundo chegou aos quarenta anos,
Pousou-lhe na cabeça a coroa da missão profética (risâla).
A cada instante vinha uma voz: “Ó Amîn,
Eu te fiz misericórdia para os mundos.”
“Perguntei ao bispo de cada igreja por onde passei pelos atributos e pela hilya (aparência) de Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) e gravei tudo, um por um, em minha memória. Ao voltar a Medina, contei tudo a Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam). Isso lhe agradou” Mughîra ibn Shu’ba (radiyallahu anh)
Desceu o Alcorão al-Karîm, versículo a versículo, em provas claras,
Manifestaram-se milagres de muitas espécies.
Embora aquela pessoa pura fosse toda nûr,
Em cada um de seus membros havia milagres.
Primeiro: de seu corpo abençoado
A sombra jamais caía sobre a terra.
Da cabeça aos pés, seu corpo era nûr,
E é evidente que o nûr não tem sombra.
E sobre a sua cabeça abençoada, a todo tempo,
Uma nuvem lhe fazia sombra.
Aonde quer que ele fosse, ela ia junto,
E pairava sempre sobre a sua cabeça.
E o milagre de seus olhos abençoados,
Como era, também vos direi:
Assim como via claramente o que tinha à frente,
Assim também via o que estava atrás de si.
Ouvi também sobre o seu nariz abençoado,
Vede qual era o milagre que nele havia:
Quando Jibrîl, o Amîn, descia com a revelação,
No mesmo instante em que se separava do céu,
Ele sentia o perfume de Jibrîl
E sabia que descia com a revelação.
Quando aquele de rosto de lua movia os lábios,
Movia-se também no céu o disco do sol.
Suas palavras abençoadas compreendiam-se com grande facilidade; conquistavam os corações e atraíam as almas. Quando falava, as palavras alinhavam-se como pérolas. Quem quisesse poderia contar as suas palavras. Às vezes, para que fosse bem compreendido, repetia três vezes o que dizia. (No Paraíso se falará como falava Muhammad alaihis-salâm.) Sua voz abençoada chegava aonde a voz de ninguém chegava. O Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) tinha sempre o rosto risonho. Seu riso era um sorriso, e então se viam os seus abençoados dentes da frente.
Quando ria, o seu nûr refletia-se nas paredes. Seu choro era brando como o seu riso. Não ria às gargalhadas nem chorava em voz alta; mas, quando se entristecia, corriam lágrimas de seus olhos abençoados e ouvia-se o som de seu peito abençoado. Chorava ao pensar nos pecados de sua umma, por temor a Allahu ta’âlâ, ao ouvir o Alcorão al-Karîm e, às vezes, também enquanto fazia o namâz. Os dedos abençoados do Orgulho do mundo eram grossos, e seus braços abençoados, carnudos. As palmas de suas mãos abençoadas eram largas. O perfume de todo o seu corpo era mais agradável do que o almíscar. Seu corpo abençoado era ao mesmo tempo macio e forte. Anas ibn Mâlik diz: “Servi a Rasûlullah durante dez anos. Suas mãos abençoadas eram mais macias do que a seda.”
Sua pele abençoada tinha um perfume mais agradável do que o almíscar e as flores. Seus braços, pernas e dedos abençoados eram longos. Os dedos de seus pés abençoados eram grossos, e as plantas dos pés, não muito arqueadas e macias. Seu ventre abençoado era largo e ficava no mesmo nível do peito. Os ossos dos ombros eram grandes, e seu peito abençoado, largo. O coração honrado de nosso Mestre Rasûlullah era o lugar para onde se volta o olhar divino (nazargâh-i ilâhî). Rasûl-i akram não era muito alto, nem tampouco baixo. Se um homem alto se pusesse a seu lado, Rasûl-i akram parecia mais alto do que ele. Quando se sentava, seus ombros abençoados ficavam mais altos do que os de todos os que estavam sentados.
Seus cabelos e os pelos de sua barba abençoados não eram muito crespos nem muito lisos; eram naturalmente ondulados. Seus cabelos abençoados eram longos; no início, deixava uma franja na fronte; mais tarde, passou a reparti-los em dois. Às vezes deixava crescer os cabelos abençoados; às vezes cortava-os curtos. Não tingia os cabelos nem a barba. Quando faleceu, os fios brancos de seus cabelos e de sua barba eram menos de vinte. Aparava o bigode abençoado. O comprimento e o feitio do bigode eram como os de suas sobrancelhas abençoadas. Tinha a seu serviço barbeiros particulares.
Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) não se separava do seu miswâk e do seu pente. Quando penteava os cabelos e a barba abençoados, olhava-se no espelho. O Orgulho do universo caminhava depressa, olhando para a frente, e, quando passava por um lugar, percebia-se a sua passagem pelo seu perfume agradável. Nosso Mestre Rasûlullah era árabe. Isto é, sua tez era branca, mesclada de rosado; era belíssimo, luminoso e encantador.” Quem disser que nosso Mestre, o Profeta, era negro torna-se kâfir. A palavra “árabe”, em seu sentido léxico, quer dizer “belo”. Por exemplo, “lisân al-arab” quer dizer “língua bela”. Em seu sentido técnico, isto é, em geografia, árabe é aquele que nasceu e cresceu na península chamada Arábia, que se criou com o clima, o ar, a água e os alimentos dali e que é do sangue daquela gente. Assim como se chamam turcos os que são do sangue da Anatólia, búlgaros os que nasceram e cresceram na Bulgária e alemães os da Alemanha, também Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) é árabe, por ter nascido na península Arábica. Os árabes são brancos, de tez trigueira. Em particular, a linhagem de nosso Profeta era branca e muito bela. Aliás, seu antepassado Ibrâhîm alaihis-salâm era branco e filho de um crente branco chamado Târûh, que era dos habitantes da cidade de Basra. Âzar, que era kâfir, não era o pai de Ibrâhîm alaihis-salâm, mas seu tio e padrasto.
“Servi a Rasûlullah durante dez anos. Suas mãos abençoadas eram mais macias do que a seda. Sua pele abençoada tinha um perfume mais agradável do que o almíscar e as flores” Anas ibn Mâlik (radiyallahu anh)
A beleza de Abdullah, o pai de nosso amado Profeta, espalhara-se até o Egito, e, por causa do nûr que tinha na testa, perto de duzentas moças tinham vindo a Meca para casar-se com ele. Mas o nûr de Muhammad alaihis-salâm coube a Âmina. Seu tio Abbâs e Abdullah, o filho de Abbâs, também eram brancos. Os descendentes de nosso Profeta, até o Dia do Juízo, são também belos e brancos. Os Companheiros de Rasûlullah também eram brancos e belos. Uthmân (radiyallahu anh) era branco e louro. Dihya Kalbî, o embaixador que nosso Mestre Rasûlullah enviou ao governo de Heráclio, o imperador bizantino, era muito belo, e, quando andava pelas ruas, as moças bizantinas saíam às ruas para ver-lhe o rosto. Jibrîl alaihis-salâm vinha muitas vezes sob a forma de Dihya (radiyallahu anh). Os nativos do Egito, da Síria (Shâm), da África, da Sicília e da Espanha não são árabes. Mas, como os árabes saíram da península Arábica e foram para essas terras a fim de difundir o Islã pelo mundo, hoje eles existem também ali. Do mesmo modo, existem também na Anatólia, na Índia e em outros países. Porém, hoje não seria correto chamar de árabe a população de nenhum desses países.
A população do Egito é morena. A população da Abissínia é negra; chamam-se abissínios (habash). Os habitantes de Zanzibar são chamados zanjis; também eles são negros. Amar e respeitar os parentes e os descendentes de nosso Profeta é adoração (ibâda). Todo muçulmano os ama. Felás, abissínios e zanjis negros que vinham à Anatólia como hóspedes apresentavam-se como árabes para serem honrados e bem recebidos, e os muçulmanos de coração puro da Anatólia, crendo em suas palavras, amavam-nos. Pois nesse amor não há distinção entre negro e branco. Um muçulmano negro é muitíssimo superior, mais valioso e mais amável do que um kâfir branco. Ser negro não diminui a honra da fé. Bilâl Habashî e Usâma, a quem Rasûlullah muito amava, eram negros. Os kâfirs Abû Lahab e Abû Jahl, cuja maldade e baixeza todos conhecem, eram brancos. Allahu ta’âlâ não dá valor à cor da pessoa, mas à força de sua fé e à sua taqwâ. Contudo, o fato de os negros se apresentarem como árabes serviu aos inimigos do Islã, os judeus. De um lado, apresentaram os negros como gente inferior e repugnante. Usaram-nos como escravos.
De outro lado, chamando os gatos e os cães pretos de “Árabe, Árabe!” e dando o nome de árabe às figuras e caricaturas negras que publicavam nos jornais e revistas, esforçaram-se por apresentar aos jovens o árabe como negro e, desse modo, afastar do coração das crianças muçulmanas o amor por nosso Profeta (sallallahu alaihi wa sallam).
Todas as belas qualidades reuniam-se em nosso amado Profeta. Suas belas qualidades eram dadas (wahbî), isto é, concedidas por Allahu ta’âlâ, e não adquiridas (kasbî), isto é, ganhas depois com esforço. Nunca amaldiçoou um muçulmano nomeando-o, e jamais bateu em ninguém com sua mão abençoada. Vingou-se por Allah; por si mesmo, não se vingou de ninguém. Tratava bem e com humildade os parentes, os Companheiros e os servidores. Dentro de casa era muito brando e de rosto risonho. Visitava os doentes e estava presente nos funerais. Ajudava os Companheiros em seus trabalhos e tomava os filhos deles no colo. Mas o seu coração não se ocupava dessas coisas. Sua alma abençoada estava no mundo dos anjos. Quem visse nosso Mestre Rasûlullah de repente era tomado de temor. Se ele próprio não se mostrasse brando, por causa dos estados da profecia ninguém poderia sentar-se a seu lado nem teria forças para ouvir suas palavras. E, no entanto, por pudor (hayâ), ele não olhava com seus olhos abençoados para o rosto de ninguém.
O Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) era o mais generoso dos homens. Ninguém jamais o viu dizer “não tenho” quando lhe pediam alguma coisa. Se tinha o que lhe pediam, dava; se não tinha, não respondia.
Eram tantas as suas bondades e tantas as suas dádivas que nem os imperadores bizantinos, nem os xás da Pérsia, nem soberano algum foi capaz de dar tanto quanto ele. Mas ele próprio gostava de viver na estreiteza; levava uma vida tal que nem lhe passava pela mente comer e beber. Nunca dizia: “Trazei comida para comermos” ou “Cozinhai tal prato”. Se lhe traziam comida, comia; qualquer fruta que lhe dessem, aceitava. Às vezes, durante meses, comia pouco e amava a fome. Às vezes também comia muito. No fim da refeição não bebia água. Bebia a água sentado.2 Quando comia com outros, era o último a retirar a mão.3 Aceitava o presente de todos. A quem lhe trazia um presente dava em troca muitas vezes mais.
Era seu costume vestir roupas diversas. Quando vinham embaixadores de Estados estrangeiros, adornava-se, vestia roupas valiosas e finas e mostrava seu belo rosto. Usava um anel de prata com pedra de ágata, que servia também de selo. No anel estava escrito “Muhammadun Rasûlullah”. Seu leito era de couro, cheio de fibras de tamareira. Às vezes deitava-se nesse leito, às vezes sobre um couro estendido no chão, e às vezes sobre uma esteira ou sobre a terra nua. Deitava-se sobre o lado direito, pondo a palma da mão abençoada debaixo da face direita.4 Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) não recebia bens de zakât, não comia coisas como cebola e alho crus e não compunha poesia. Os olhos abençoados de nosso Mestre, o Profeta, dormiam, mas o seu coração honrado não dormia. Deitava-se com fome e levantava-se saciado. Nunca bocejava. Seu corpo abençoado era luminoso, e a sua sombra não caía sobre a terra. Em suas roupas não pousavam moscas, e os mosquitos e outros insetos não bebiam o seu sangue abençoado.
Depois que Allahu ta’âlâ lhe comunicou que ele era Rasûlullah, os shaytâns já não puderam subir aos céus para colher notícias, e os adivinhos já não puderam predizer. O Soberano do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) vive agora uma vida que nós não conhecemos. O seu corpo honrado jamais se decompõe. Um anjo está junto ao seu túmulo e comunica-lhe as salawât honradas que a sua umma profere por ele. O lugar entre o seu minbar e o seu túmulo honrado chama-se Rawda-i Mutahhara. Esse lugar é um dos jardins do Paraíso. Visitar o seu túmulo honrado é o maior dos atos de obediência e o mais valioso dos atos de adoração. Os grandes dentre os Companheiros descreveram assim a beleza de nosso Mestre, o Profeta. Abû Hurayra disse: “Não vi ninguém mais belo do que Rasûlullah. Era como se o sol, com todo o seu esplendor, brilhasse em seu rosto. Quando ria, seus dentes espalhavam claridade sobre as paredes.”
“Os que mais me amam em minha umma são os que virão depois de mim e que dariam a família e os bens para me ver” Hadîth sharîf
Ibn Abû Hâla disse: “O rosto abençoado de nosso Mestre, o Profeta, resplandecia como a lua cheia.” Alî disse: “Quem o via de repente era tomado de temor diante de sua majestade. Mas quem conversava com ele e o conhecia logo se afeiçoava a ele e o amava.”
Jâbir ibn Samura disse: “Rasûlullah passou a mão abençoada pelo meu rosto. Senti em sua mão um perfume agradável e um frescor, como se ela tivesse acabado de sair da bolsa de um perfumista (attâr), isto é, de quem vende perfumes. Se nosso Mestre Rasûlullah tocava com a mão a mão de alguém para a musâfaha, durante todo aquele dia esse perfume agradável não saía da mão dessa pessoa.”5
Nossa mãe Âisha disse: “Quando Rasûlullah acariciava a cabeça de uma criança, essa criança logo se distinguia das outras pelo seu perfume agradável.”6
Um dia, nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) dormia em sua casa. Veio Umm Sulaym, a mãe de Anas ibn Mâlik. Durante o sono, haviam aparecido gotas de suor no rosto abençoado de nosso Mestre Rasûlullah. Umm Sulaym começou a recolher o suor abençoado de nosso Mestre, o Profeta. Quando ele acordou e perguntou o motivo, Umm Sulaym, que era tia materna de leite de nosso Mestre, o Profeta, disse: “Nós o misturamos aos nossos perfumes. O teu suor é o mais belo e o mais fragrante dos perfumes.”7
Abû Hurayra disse: “Não vi ninguém que andasse mais depressa do que Rasûlullah. Era como se a terra se enrolasse diante dele. Quando caminhávamos com ele, nós nos esforçávamos com todas as nossas forças.”
Nosso Mestre, o Profeta, falava de modo extraordinariamente belo. Sabia da maneira mais perfeita por onde começar a fala e onde terminá-la. Suas palavras eram límpidas no modo de dizer, sumamente eloquentes e apropriadas. Em suas falas e em suas palavras manifestava-se sempre a verdade do sentido. Como o seu poder de expressão era extraordinariamente elevado, ao falar nunca se cansava nem sentia dificuldade.
A beleza de nosso Mestre, o Profeta
Os grandes sábios do Islã chamados “ulamâ-i râsihîn”, mestres tanto nas ciências exteriores (zâhir) como nas interiores (bâtin) e herdeiros de nosso Mestre, o Profeta, viram-no com todas as suas belezas e enamoraram-se dele. O primeiro deles é Abû Bakr as-Siddîq. Ele viu em nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) o nûr da profecia, compreendeu a sua superioridade, a sua beleza e a sua elevação, e enamorou-se dele; e avançou tanto nesse amor que ninguém mais pôde ser como ele. Abû Bakr, a cada instante e para onde quer que olhasse, via nosso Mestre Rasûlullah. Certa vez, descreveu assim o seu estado: “Yâ Rasûlallah! Para onde quer que eu olhe, vejo-te.” E outra vez disse: “Trocaria todas as minhas boas obras por um só lapso (sahw) teu.” Uma das que melhor viram, compreenderam e descreveram a beleza de nosso Mestre Rasûlullah foi a mãe dos crentes, nossa mãe Âisha. Âisha era sábia, mujtahida, inteligente, perspicaz e versada nas letras. Falava com grande eloquência e elegância. Conhecia muito bem os sentidos do Alcorão al-Karîm, o halâl e o harâm, a poesia árabe e a ciência do cálculo. Tem poemas em louvor de Rasûlullah. Os dois versos seguintes foram ditos por nossa mãe Âisha:
“Quando Rasûlullah acariciava a cabeça de uma criança, essa criança logo se distinguia das outras pelo seu perfume agradável” Âisha (radiyallahu anhâ)
Wa law sami’û ahlu Misra awsâfa khaddihî,
Lamâ badhalû fî sawmi Yûsufa min naqdin.
Lawâimu Zalîkhâ law raayna jabînahû,
La-âtharna bil-qat’il-qulûbi alal-aydî.
Tradução:
Se os do Egito tivessem ouvido falar da beleza de suas faces,
Não teriam dado moeda alguma ao regatear por Yûsuf alaihis-salâm.
(Guardariam todos os seus bens para poder ver-lhe as faces.)
Se as mulheres que censuravam Zalîkhâ vissem a sua fronte resplandecente,
Em vez das mãos, cortariam os corações (e nem sentiriam a dor).
Nossa mãe Âisha diz: “Um dia, Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) tirava as correias de suas sandálias abençoadas, e eu fiava. Olhei para o seu rosto abençoado. De sua fronte resplandecente gotejava suor. Cada gota de suor espalhava nûr em todas as direções e ofuscava-me os olhos. Fiquei paralisada de assombro. Ele olhou para mim e disse: ‘Que tens tu, que estás assim absorta?’ Eu disse: ‘Yâ Rasûlallah! Olhando para o brilho dos nûrs de teu rosto abençoado e para as luzes que espalham as gotas de suor de tua fronte abençoada, fiquei fora de mim.’ Rasûlullah levantou-se e veio até mim. Beijou-me entre os olhos e disse: ‘Ó Âisha! Que Allahu ta’âlâ te conceda todo o bem! Não consegui alegrar-te tanto quanto tu me alegraste.’” Isto é, disse: “A alegria que tu me deste é maior do que a que eu te dei.” Ele beijou Âisha entre os seus olhos abençoados porque ela, amando nosso Mestre Rasûlullah, via-o compreendendo a sua beleza. Por isso foi apreciada e agraciada.
Misra’:
Bravo, meus olhos, que conseguem ver a tua beleza!
E bayt:
Que felizes são os olhos que contemplam o belo!
Que venturoso o coração que por ele arde!
As belezas visíveis reunidas no corpo abençoado de Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam), que mostram as belezas interiores, não se reuniram no corpo de nenhum outro indivíduo.
Imam Qurtubî relatou o seguinte: “A beleza de Rasûl-i akram não se mostrou por completo. Se a sua verdadeira beleza se tivesse mostrado, os Companheiros não teriam forças para olhar para ele. Se ele tivesse mostrado a sua verdadeira beleza, ninguém teria suportado olhá-lo.”
Yûsuf alaihis-salâm apareceu aos homens com as belezas exteriores, e nosso Mestre Rasûlullah, com as belezas interiores. Quando se viu a formosura de Yûsuf alaihis-salâm, as mãos foram cortadas. Com a perfeição de nosso Mestre Rasûlullah, os zunnârs foram cortados, os ídolos quebrados e as nuvens do kufr dissiparam-se. Os Companheiros perguntaram a nosso Mestre, o Profeta: “Yâ Rasûlallah! És tu o mais belo, ou era Yûsuf alaihis-salâm mais belo?” Nosso Mestre respondeu: “Meu irmão Yûsuf é mais formoso (sabîh) do que eu, e eu sou mais gracioso (malîh) do que ele. A beleza visível dele é maior do que a minha beleza visível.”
Em um hadîth sharîf, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Todo profeta que Allahu ta’âlâ enviou era de rosto belo e de voz bela. O vosso Profeta, porém, é o de rosto mais belo e de voz mais bela dentre eles.”
Um homem veio a nosso Mestre Rasûlullah e perguntou: “Ó Rasûl de Allahu ta’âlâ! Quando chegará o Juízo Final?” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Que preparaste para o Juízo Final?” O homem respondeu: “Na verdade, não me preparei para o Juízo Final fazendo muito namâz, jejuando e dando sadaqa. Mas amo Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl.” Então nosso Mestre, o Profeta, disse: “A pessoa estará com aquele a quem ama.”8
Amar Rasûlullah é fard-i ayn para todos os muçulmanos.
Quando o amor daquele Soberano se instala num coração, viver o Islã e alcançar o sabor da fé e do Islã e o seu deleite insaciável tornam-se muito fáceis. Esse amor leva a seguir plenamente o Mestre dos dois mundos. Com esse amor obtém-se a honra de alcançar as dádivas e as bênçãos infinitas e indescritíveis que Allahu ta’âlâ concedeu ao Seu Habîb. Os sábios da Ahl as-Sunna e os seus livros, que conduzem diretamente ao amor de Rasûlullah todo muçulmano, pequeno ou grande, são as provas dessas bênçãos.
O crente que menciona ou ouve o nome abençoado de Rasûl alaihis-salâm deve, como se estivesse na honrada assembleia de Rasûlullah, manter-se em sossego, guardar a compostura e reverenciá-lo com o coração e com o corpo; isso é wâjib.
Responder ao que se transmite das palavras e dos atos abençoados de nosso Mestre Rasûlullah com algo que exalte a sua dignidade faz parte da reverência e do respeito por ele. Não qualificar Rasûlullah com palavras que entre os homens se usam para uma condição baixa e vil também faz parte da reverência por ele.
Por exemplo, não se diz de Rasûlullah que era pobre. Não se diz que era pastor. Quando se diz: “Nosso Mestre Rasûlullah gostava de tal coisa”, não responder: “Pois eu não gosto dela” faz parte da reverência por ele. Do mesmo modo, às palavras de Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam): “Eu não como reclinado nem apoiado em coisa alguma”,9 não se deve contrapor: “Pois eu como apoiado”, e depois comer reclinado. Observar estas coisas faz parte da reverência a Rasûlullah. Descuidá-las deliberadamente, com a intenção de não lhes dar importância, abre as portas do kufr.
Não pôr nenhum outro livro nem nenhum objeto de casa sobre o Alcorão al-Karîm e os livros de hadîth também faz parte da reverência a Allahu ta’âlâ e ao Seu Rasûl. Tirar-lhes o pó e não jogar fora um papel em que esteja escrito o nome honrado de Allahu ta’âlâ ou os nomes abençoados de nosso Mestre Rasûlullah é reverenciar Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl. Tais papéis não se rasgam. Deve-se respeitar ainda mais os papéis escritos com as letras do Islã. Se livros e papéis em que estejam o nome honrado de Allahu ta’âlâ e versículos sagrados se rasgarem por estarem velhos, devem ser envolvidos num pano limpo e enterrados, ou lavados com água até que se apague a escrita, ou queimados. Se forem queimados, as cinzas são enterradas. Queimar é melhor do que lavar para apagar a escrita, pois a água usada na lavagem pode acabar sendo pisada.
Reverenciar e respeitar Madîna al-Munawwara, que é o haram de Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam), abster-se ali do que é proibido (ou de cometer pecados) e tratar com generosidade os habitantes de Madîna al-Munawwara também se conta como reverência a Rasûlullah.
Tu és o sultão do reino do meu ser,
Tu és, sem dúvida, o amado da minha alma;
Sezâî já aniquilou tudo o que tinha:
O que existe é só a tua graça (ihsân).
Hasan Sezâî
“Meu irmão Yûsuf é mais formoso (sabîh) do que eu, e eu sou mais gracioso (malîh) do que ele. A beleza visível dele é maior do que a minha beleza visível” Hadîth sharîf
