O CERCO
O início do cerco
O sétimo ano da bi’tha… Os politeístas não cessavam de se esforçar para impedir que o Islã penetrasse nos corações e se difundisse. Ainda assim, os muçulmanos aumentavam a cada dia. As torturas e as crueldades infligidas aos muçulmanos não os desviavam do seu caminho; pelo contrário, faziam-nos apegar-se ainda mais uns aos outros e unir-se ainda mais estreitamente. Nenhum deles abandonava a sua religião, e não hesitavam em sacrificar a vida pelo nosso Mestre Rasûlullah. As tribos de fora de Meca que ouviam isto ficavam cada vez mais curiosas, e as luzes do Islã chegavam a lugares cada vez mais distantes. Quando os politeístas souberam que os homens que haviam enviado à Abissínia não tinham alcançado o seu intento, e que, mais ainda, o Najâshî Ashama se tornara muçulmano, protegia os muçulmanos e os tratava bem, ficaram fora de si. Para se vingarem cabalmente disto e arrancarem o Islã pela raiz, reuniram-se e tomaram esta terrível decisão: “Onde quer que esteja, onde quer que seja visto, Muhammad será morto sem falta!”
Os descrentes fizeram por isso juramento sobre juramento.
Abû Tâlib, ao saber desta decisão dos politeístas, entristeceu-se muito. Temeu pela vida do seu abençoado sobrinho, o filho das suas entranhas. Reuniu os homens da sua tribo e ordenou-lhes que protegessem o Sultão do universo contra os politeístas coraixitas. Os filhos de Hâshim, movidos pelo zelo do parentesco, uniram-se para cumprir esta ordem. Para isso, convidaram nosso Mestre, o Profeta, e todos os Companheiros que nele criam para o Shi’b Abû Tâlib, isto é, o bairro de Abû Tâlib, situado numa colina ao norte de Meca, a cerca de três quilômetros do Baytullah. Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) reuniu os seus Companheiros e passou a morar no Shi’b. Dos filhos de Hâshim, só Abû Lahab se opôs à decisão de proteger nosso Mestre, o Profeta, e não foi para o Shi’b. Os politeístas, ele incluído, uniram-se e começaram a espreitar uma ocasião para matar nosso Profeta.1
Quando viram que nosso Mestre, o Profeta, e os seus Companheiros se tinham reunido no bairro de Abû Tâlib, os politeístas juntaram-se de novo e tomaram esta decisão: “Enquanto Muhammad alaihis-salâm não for entregue aos coraixitas para ser morto, não se tomará esposa dentre os filhos de Hâshim!… Não se lhes dará nenhuma moça em casamento!… Nada lhes será vendido!… Nada se lhes comprará!… Ninguém se reunirá com eles, nem lhes falará, nem os frequentará!… Ninguém entrará nas suas casas nem nos seus bairros!… Jamais se aceitará deles um pedido de paz!… Nunca se terá compaixão deles!…”
Selaram esta decisão, que um politeísta chamado Mansûr ibn Ikrima escrevera numa folha, e penduraram-na na parede da Ka’ba al-Mu’azzama, para que todos a vissem e a cumprissem.
Quando esta notícia chegou a nosso amado Profeta, ele entristeceu-se muito e fez dua. A sua dua foi aceita de imediato, e as mãos do desgraçado Mansûr secaram num instante. Os politeístas ficaram atônitos e disseram: “Vede! Pela injustiça que fizemos aos filhos de Hâshim, as mãos de Mansûr secaram e uma desgraça caiu sobre ele.” Em vez de caírem em si, enfureceram-se ainda mais. Puseram guardas à entrada dos caminhos que levavam ao Shi’b e impediram que lá entrassem comida e roupa. Disseram aos mercadores que chegavam a Meca que não entrassem no Shi’b nem levassem para lá as suas mercadorias e que, se fosse preciso, eles mesmos as comprariam por alto preço. Pensavam que assim os que estavam no Shi’b morreriam de fome, ou que os filhos de Hâshim se arrependeriam e lhes entregariam nosso Mestre, o Profeta. Esta situação durava, cada ano, até a época da visita à Ka’ba.
“Ó Meu Profeta! Bastam-te Allah e os crentes que seguem os teus passos!” Anfâl: 64
Segundo os costumes, nessa época não se derramava sangue. Por isso os filhos de Hâshim iam livremente a Meca e procuravam, fazendo compras, prover às necessidades de um ano. Quando um deles se dirigia a um mercador para comprar alguma mercadoria, notáveis politeístas como Abû Lahab e Abû Jahl acudiam logo e diziam aos mercadores: “Ó mercadores! Subi muito os vossos preços para os Companheiros de Muhammad, de modo que, por serem caros, ninguém possa comprar coisa alguma! Se por isso as vossas mercadorias não se venderem e vos ficarem nas mãos, estamos prontos a comprá-las todas.” E eles pediam alto preço pelas suas mercadorias, e os muçulmanos voltavam sem nada comprar…
Neste caminho, nosso amado Profeta, nossa mãe Khadîja e Abû Bakr as-Siddîq gastaram todos os seus bens, procurando acalmar o choro das crianças, que de fome subia aos céus. Davam-lhes de comer cascas de árvores, raízes de ervas e até pedaços de couro seco. Pais e mães, sem remédio, tinham ficado só pele e osso. Nosso Mestre, o Profeta, e os Companheiros amarraram pedras sobre os abençoados ventres por causa da fome. Se algum dos politeístas, por compaixão, trazia às escondidas alguma coisa, espancavam-no e insultavam-no gravemente. Em suma, as idas e vindas estavam cortadas, e os crentes viram-se numa situação muito difícil.
Os politeístas ficaram à espera de que, com esta crueldade tão dura, os filhos de Hâshim cedessem e Abû Tâlib lhes entregasse nosso Mestre, o Profeta. Mas os muçulmanos do bairro de Abû Tâlib, bem ao contrário do que eles pensavam, protegiam nosso Mestre, o Profeta, e tomavam todas as medidas para que nenhum mal lhe acontecesse. Para impedir um possível atentado, Abû Tâlib punha guardas, por turnos, no lugar onde dormia nosso Mestre Rasûlullah, e assim fazia que ele dormisse tranquilo em casa. Nosso Mestre, o Profeta, por sua vez, sem nenhum receio, não perdia um só segundo em cumprir a ordem de Allahu ta’âlâ e difundir o Islã; convidava as pessoas à religião, esforçando-se para que se salvassem do Inferno, e neste caminho continuava com paciência os seus conselhos. Um dia, para que também os politeístas coraixitas que o desmentiam compreendessem o que é a fome, nosso Mestre Rasûlullah fez esta dua: “Ó Allah! Ajuda-me contra estes, dando-lhes também sete anos de fome, como os sete anos de fome do tempo de Yûsuf (alaihis-salâm).” Nos dias que se seguiram, não caiu do céu uma só gota de chuva. A terra crestou-se de sede. Já não se via na terra uma só planta verde. Os politeístas coraixitas não sabiam o que lhes acontecia. Procuravam escapar da morte comendo carcaças de animais mortos de fome e peles de cães apodrecidas.
Também os seus filhos começaram a gemer e a chorar de fome. Muitos deles morreram de fome. Quando, de fome, olhavam para o céu, viam tudo como que coberto de fumaça. Pareceram cair em si e compreender a grandeza da injustiça que haviam cometido. Enviaram Abû Sufyân, dentre eles, à abençoada presença de nosso Mestre, o Profeta. Abû Sufyân veio e jurou, dizendo: “Ó Muhammad! Tu dizes que foste enviado como misericórdia para os mundos, e ordenas-nos crer em Allah e respeitar os direitos do parentesco. E, no entanto, o teu povo está perecendo de seca e de fome. Faze uma dua a teu Senhor para que esta calamidade seja retirada de nós; Allah aceita a dua que fazes. Se fizeres tal dua, todos nós creremos!…”
Assim, deixando de lado as injustiças e as torturas que haviam cometido, viram-se em aperto e começaram a implorar a nosso Mestre Rasûlullah. Nosso Mestre, o Profeta, não lhes lançou em rosto o que tinham feito; diante da sua promessa “Creremos”, levantou as abençoadas mãos e fez dua a Janâb-i Haqq. Allahu ta’âlâ aceitou a dua do Seu Habîb e enviou sobre Meca chuva abundante; a terra saciou-se de água e as plantas começaram a reverdecer. Os politeístas, embora livres da seca e da fome, esqueceram a palavra dada e persistiram no kufr…
Allahu ta’âlâ, nos versículos sagrados que revelou como resposta a eles, disse, em sentido: “Mas eles (não creem em Allahu ta’âlâ nem em Muhammad alaihis-salâm; quanto ao Alcorão al-Karîm, à outra vida e à ressurreição…) divertem-se, mergulhados na dúvida. Espera, pois (ó Meu Habîb!), o dia em que o céu trará uma fumaça evidente, que cobrirá inteiramente todos os homens. Este é um castigo terrível! (Os homens) dirão: ‘Ó nosso Senhor! Retira de nós este castigo, para que creiamos.’ Como poderão refletir e tirar lição, se já lhes veio um profeta que lhes explica as verdades? Depois, voltaram-lhe as costas e disseram: ‘É um louco instruído por outros.’ Quando retirarmos um pouco este castigo, voltareis ao vosso estado anterior. No dia em que os agarrarmos com grande violência (o dia de Badr), Nós, sem dúvida, Nos vingaremos (deles). Pela Minha majestade, Nós, sem dúvida, antes destes (os politeístas coraixitas), já tínhamos posto à prova o povo do Faraó. Veio-lhes da Nossa parte um profeta honrado (que é Mûsâ alaihis-salâm). Ele disse-lhes: ’Entregai-me os servos de Allah (os Filhos de Israel). (Deixai-os partir comigo. Soltai-os, não os atormenteis.) Sem dúvida, sou para vós um profeta digno de confiança, enviado por Allahu ta’âlâ com a revelação. Não vos ensoberbeçais diante de Allahu ta’âlâ, pois vim a vós com uma prova que mostra a verdade da minha causa, com um milagre evidente. Sabei que eu me refugio em Allahu ta’âlâ, meu Senhor e vosso Senhor, contra o vosso apedrejar-me e matar-me; Ele me protegerá. Se não me derdes crédito nem crerdes em mim, deixai-me em paz. (Renuncio ao vosso bem; ao menos não me atinja o vosso mal.)’ (Como não creram e o desmentiram e, mais ainda, começaram a infligir-lhe toda sorte de tormentos e opressões,) Mûsâ (alaihis-salâm) fez dua a Allahu ta’âlâ e disse: ‘Ó meu Senhor! Estes são um povo que persiste no kufr.’ Allahu ta’âlâ revelou-lhe e disse: ’Parte de noite (do Egito) com os Meus servos (os Filhos de Israel)! O Faraó e os seus sequazes, quando souberem da vossa partida, certamente vos perseguirão. Depois de atravessares o mar com o teu povo, deixa-o como está (não feches, batendo de novo com o teu bastão, os caminhos que se abriram; deixa-os abertos). Pois o Faraó e o seu exército entrarão nesses caminhos e serão submersos, se afogarão.’”2
O fim do cerco
Os politeístas voltaram atrás na sua palavra “Creremos” e recomeçaram a oprimir. Um dia, Allahu ta’âlâ informou nosso Mestre, o Profeta, por revelação, “que enviara um caruncho (traça) ao documento pendurado na Ka’ba e que esse bichinho comera todos os escritos, exceto o nome de Allahu ta’âlâ”. Nosso Mestre, o Profeta, disse a Abû Tâlib: “Ó tio! Allahu ta’âlâ, que é o meu Senhor, enviou um caruncho ao documento dos coraixitas. Fora o nome de Allahu ta’âlâ, não deixou nada do que lá estava escrito – a injustiça, o corte dos laços de parentesco, a calúnia… –; destruiu tudo.”
“Ó Allah! Ajuda-me contra estes, dando-lhes também sete anos de fome, como os sete anos de fome do tempo de Yûsuf (alaihis-salâm)!” Hadîth sharîf
Quando Abû Tâlib perguntou: “Foi o teu Senhor que te informou disto?”, nosso Mestre, o Profeta, respondeu: “Sim.” Então Abû Tâlib disse: “Dou testemunho de que tu só dizes a verdade.” Vestiu-se imediatamente e foi à Ka’ba. Lá estavam sentados os notáveis dos politeístas. Vendo Abû Tâlib chegar, disseram: “Decerto vem entregar-nos Muhammad!…” Quando chegou junto deles, Abû Tâlib disse: “Ó assembleia de Quraysh! O filho de meu irmão, chamado ‘al-Amîn’, que nunca disse uma mentira, informou-me de que um caruncho comeu todos os escritos da folha que escrevestes, exceto o nome de Allahu ta’âlâ. Vamos, trazei o papel que escrevestes contra nós, para que vejamos!… Se esta palavra for verdadeira, juro que todos nós continuaremos a protegê-lo até a morte! E vós, deixai já esta vossa injustiça e este vosso mau proceder…” Os politeístas, agitados, tiraram a folha da parede da Ka’ba e trouxeram-na. Quando Abû Tâlib disse: “Lede!”, um deles abriu a folha para a ler e viu que todos os escritos se tinham apagado, exceto as palavras “Bismika Allahumma”.3 Os politeístas não sabiam o que dizer nem o que fazer. Como alguns deles até desistiram do pacto, puseram fim a este duro cerco, que durava havia três anos, que trouxera sofrimentos inesquecíveis e abrira feridas profundas nos corações. Mas de modo algum renunciaram à sua inimizade; pelo contrário, mostraram-se ainda mais duros. Tentaram todos os caminhos para impedir a difusão do Islã. Apesar de todos os seus esforços, o Islã difundia-se rapidamente. Nosso amado Profeta, Muhammad alaihis-salâm, esforçava-se por salvar as pessoas que sufocavam nas trevas (zulmat) da Era da Ignorância, e fazia-as alcançar a verdadeira felicidade. Os que alcançavam esta felicidade agradeciam a grande dádiva que haviam alcançado e de modo algum se intimidavam diante dos insultos e das torturas dos politeístas. Quantos corações, vendo os milagres de Muhammad alaihis-salâm e a firmeza dos muçulmanos na sua religião, se iluminavam com o nûr do Islã!
A divisão da lua em duas
Um dos grandes milagres de nosso Mestre, o Profeta, é a divisão da lua em duas. Um grupo de politeístas, entre os quais estavam Abû Jahl e Walîd ibn Mughîra, disse a Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam): “Se és realmente profeta, divide a lua em duas, de modo que metade se veja sobre o monte Qu’ayqi’ân e a outra metade sobre o monte Abû Qubays!…” Nosso Mestre Rasûlullah perguntou: “Se eu fizer isso, crereis?” Eles responderam: “Sim, creremos.” Nosso Mestre Rasûlullah fez dua a Allahu ta’âlâ para que a lua se dividisse em duas. Jibrîl alaihis-salâm veio imediatamente a nosso amado Profeta e disse: “Ó Muhammad! Avisa os habitantes de Meca para que esta noite contemplem o milagre.” Nosso Mestre, o Profeta, anunciou que na décima quarta noite do mês, quando a lua estivesse cheia (badr), isto é, inteiramente redonda e no seu maior brilho, a lua se dividiria em duas, e que a contemplassem os que quisessem tirar lição. Naquela noite, quando nosso amado Profeta fez um sinal com o seu abençoado dedo, a lua dividiu-se em duas. Uma parte foi vista sobre o monte Abû Qubays e a outra sobre o monte Qu’ayqi’ân. Depois, voltaram a unir-se no céu.
Rasûlullah disse: “Ó Abû Salama ibn Abdulasad, ó Arqam ibn Abul-Arqam! Sede testemunhas!”, e depois disse também aos outros Companheiros que estavam com ele: “Sede testemunhas!” Os politeístas viram com os próprios olhos mais um milagre evidente. Mas, em vez de manterem a palavra e crerem, para impedirem que também os outros cressem, disseram: “Isto não passa de um feitiço que Muhammad nos fez! Mas ele não pode enfeitiçar todos os homens!… Perguntemos também às pessoas que vêm de outras terras. Vejamos se também elas testemunharam o mesmo acontecimento. Se o viram, a pretensão de Muhammad à profecia é verdadeira. Do contrário, isto é feitiço.” Perguntaram aos que chegavam e até enviaram gente a outros lugares para perguntar. De todos ouviram a mesma coisa: “Sim, naquela noite vimos a lua dividir-se em duas!” E mesmo assim negaram. À frente dos que negavam estava Abû Jahl. Para que as pessoas não alcançassem a dádiva da fé, ele corrompia os corações dizendo: “O feitiço do órfão de Abû Tâlib atingiu até o céu!…”4 Por causa desta sua negação, Allahu ta’âlâ revelou versículos sagrados, em sentido:
“A Hora (o Juízo Final) aproximou-se e a lua fendeu-se (dividiu-se em duas). Se eles (os kâfirs coraixitas) veem um milagre (um milagre que prova a profecia de Muhammad alaihis-salâm), voltam-lhe as costas (sem refletir nele e sem crer) e dizem: ’É uma magia contínua (que não se interrompe, abrangente, poderosa).’ Eles desmentiram (o Profeta ou o milagre) e seguiram as suas paixões (os desejos e as aspirações dos seus nafs). Mas toda coisa chega ao seu termo (àquele para onde se dirige) e encontra o seu lugar. Juro que lhes chegaram (aos politeístas de Meca) muitas notícias importantes (normas, proibições) que os poderiam ter afastado (do mal). (Estas ordens e estes conhecimentos são) uma sabedoria perfeita. Mas os mensageiros, as advertências e as ameaças de nada (lhes) aproveitam. Volta-lhes, pois, também tu as costas (ó Meu Habîb, se eles se obstinam na negação). No dia em que aquele que chama (Isrâfîl alaihis-salâm) chamar para uma coisa nunca vista e desconhecida (o lugar da Reunião, a prestação de contas), sairão dos túmulos de olhos humilhados e abatidos (sem saber, de medo e de pavor, para onde ir), como gafanhotos dispersos. Os kâfirs, correndo (de pescoço curvado) para aquele que chama, dirão: ‘Que dia penoso e terrível é este para nós!’”5
Que meu Senhor vos conceda também a hidâya
Depois de terminado o cerco de três anos que os politeístas impuseram aos muçulmanos, veio a nosso Mestre Rasûlullah um grupo de pessoas de Najrân. Eram cerca de vinte; tinham ouvido dos Companheiros que haviam emigrado para a Abissínia falar do Islã e tinham vindo a Meca para aprender o Islã e alcançar a felicidade de ver nosso Mestre, o Profeta. Encontraram-se com nosso Mestre Rasûlullah junto à Ka’ba al-Mu’azzama. Fizeram muitas perguntas e receberam respostas ainda mais belas e perfeitas do que desejavam. Os politeístas coraixitas observavam-nos de todos os lados. Nosso amado Profeta, enviado como misericórdia para os mundos, recitou-lhes alguns versículos sagrados do Alcorão al-Karîm. Ficaram profundamente comovidos e, sem poder conter as lágrimas, choraram. Depois, ao convite de nosso Mestre, com grande alegria proferiram a kalima-i shahâda e foram honrados com o Islã. Quando pediram licença para voltar à sua terra, Abû Jahl aproximou-se deles e disse estas palavras cheias de insulto: “Nunca vimos gente tão tola como vós!… Bastou sentardes uma vez junto dele para abandonardes a vossa religião e aprovardes tudo o que ele disse!…” Estas pessoas, que acabavam de ser honradas com a companhia do Profeta, responderam: “Desejamos que Allahu ta’âlâ vos conceda também a hidâya. Não vos faremos este insulto e esta ignorância que nos fizestes. Nós não violamos nenhum direito vosso. Mas sabei bem isto: por causa das palavras de alguns ignorantes, de modo algum queremos perder esta grande dádiva que alcançamos; não abandonaremos esta religião verdadeira.”6
“Ó tio! Allahu ta’âlâ, que é o meu Senhor, enviou um caruncho ao documento dos coraixitas. Fora o nome de Allahu ta’âlâ, não deixou nada do que lá estava escrito – a injustiça, o corte dos laços de parentesco, a calúnia… –; destruiu tudo” Hadîth sharîf
Allahu ta’âlâ, nos versículos sagrados que revelou a propósito deste acontecimento, disse, em sentido: “Aqueles a quem, antes deste (do Alcorão al-Karîm), demos o Livro, muitos deles creem nele (no Alcorão al-Karîm). Quando lhes é recitado (o Alcorão al-Karîm), dizem: ’Cremos nele. Sem dúvida, é a verdade (vinda) do nosso Senhor. Na verdade, já antes dele éramos dos que haviam aceitado o Islã.’ A estes será dada duas vezes a sua recompensa, por terem sido pacientes (e firmes). Eles repelem o mal com o bem e gastam (no bem) daquilo que lhes demos por sustento. Quando ouvem palavras torpes, voltam-lhes as costas e dizem: ’A nós as nossas obras, a vós as vossas obras. Que a paz esteja convosco (estai seguros da nossa parte). Não buscamos os ignorantes (nem desejamos a sua amizade).’”7
A QASÎDA DA ÁGUA8
Ó olho, não lances lágrimas ao fogo do meu coração – não lhe dês água,
Pois a chamas que assim ardem não serve de remédio a água.
Não sei se a cor da abóbada que gira é cor de água,
Ou se, das lágrimas dos meus olhos, cobriu a abóbada a água.
Não é de estranhar que o deleite da tua espada me rasgue o coração,
Pois, ao passar, deixa brechas no muro a água.
O coração ferido fala com temor da ponta da tua flecha9,
Quem tem ferida bebe sempre com cautela a água.
Entregue o jardineiro o roseiral à água e não se canse:
Não abre rosa como o teu rosto, ainda que a mil jardins dê água.
Nenhum escriba consegue retratar a tua perfeita figura;
Ainda que fite como o cálamo, desce-lhe aos olhos a negra água.
Se ao lembrar a tua face se umedecem meus cílios, que importa?
Não se perde dar, na esperança da rosa, ao espinho água.
No dia da tristeza não negues ao coração doente a espada do teu olhar:
É boa obra dar ao doente, em noite escura, água.
Ó coração, pede a ponta da flecha e acalma o ardor da separação;
Tenho sede; neste deserto tenho de buscar água.
Como o asceta deseja o Kawthar, anseio eu pelos teus lábios;
Como ao ébrio agrada o vinho, ao sóbrio agrada a água.
Ao jardim da tua rua corre sem cessar,
Decerto enamorada daquele cipreste de andar gracioso, a água.
Feito pó, naquela rua, devo cortar-lhe o caminho;
Não a deixo ir lá, pois minha rival é a água.
Ó amigos, se eu morrer no desejo de beijar-lhe a mão,
Fazei do meu pó um cântaro e levai ao Amado água.
“Aqueles a quem, antes deste, demos o Livro, muitos deles creem nele. Quando lhes é recitado (o Alcorão al-Karîm), dizem: ‘Cremos nele. Sem dúvida, é a verdade (vinda) do nosso Senhor. Na verdade, já antes dele éramos dos que haviam aceitado o Islã’” Qasas: 52–53
Jannat al-Mu’allâ
O cemitério onde se encontram os mausoléus de muitos Companheiros, a começar por nossa mãe Khadîja (radiyallahu anhâ). Hoje não é possível ver esses mausoléus. Infelizmente, todas estas belas obras históricas foram demolidas.
