Meu Amado Profeta

A BATALHA DE MÛTA

No oitavo ano da Hégira, o Soberano do universo (alaihi afdalus-salawât), misericórdia para os mundos, enviou de novo embaixadores a várias tribos e Estados para a difusão do Islã. De alguns deles vieram resultados positivos; mas Hârith ibn Umayr, enviado ao governador de Busrâ, foi preso por soldados cristãos na aldeia de Mûta, no distrito de Balqâ, na Síria. Levado à presença do governador da Síria, Shurahbîl ibn Amr, Hârith, embora fosse embaixador, foi morto à traição e tornou-se mártir.1

Nosso amado Profeta entristeceu-se muito com esta notícia e ordenou imediatamente que os seus heroicos Companheiros se reunissem. Os Companheiros, recebida esta ordem, pediram perdão aos filhos, despediram-se deles e reuniram-se às pressas no acampamento de Jurf. Habîb-i akram, depois de dirigir o namâz do meio-dia, disse: “Para estes homens que vão sair ao jihâd, nomeei comandante Zayd ibn Hâritha! Se Zayd ibn Hâritha cair mártir, que tome o seu lugar Ja’far ibn Abû Tâlib. Se Ja’far ibn Abû Tâlib cair mártir, que tome o seu lugar Abdullah ibn Rawâha. Se também Abdullah ibn Rawâha cair mártir, que os muçulmanos escolham entre si alguém apropriado e o façam seu comandante!”

Então os Companheiros, compreendendo que os heróis cujos nomes foram enumerados cairiam mártires, começaram a chorar: “Yâ Rasûlallah! Oxalá ficassem vivos e pudéssemos beneficiar-nos deles!…” Nosso Mestre, o Profeta, não lhes respondeu e ficou em silêncio.2 Zayd, Ja’far e Abdullah, que ali estavam, também ouviram estas palavras e foram tomados de grande alegria. Pois o seu maior objetivo era cair mártires enquanto difundiam a religião de Allahu ta’âlâ. A boa nova fora dada, e eles a haviam ouvido com os próprios ouvidos. Os mujâhids, terminados os preparativos, esperavam os seus comandantes. Nosso amado Profeta entregou o estandarte branco do Islã a Zayd ibn Hâritha. Ordenou-lhe que fosse até o lugar onde Hârith ibn Umayr fora martirizado e ali comunicasse o Islã. Se não o aceitassem, mandou que combatesse o inimigo. Abdullah ibn Rawâha, ao despedir-se junto com os outros comandantes que estavam com ele, chorou. Perguntaram-lhe: “Ó filho de Rawâha! Por que choras?” O poeta Abdullah ibn Rawâha disse:

A causa do meu choro
Não é o amor ao mundo,
E, juro por Allah,
Nem a saudade de vós.
A verdadeira causa é esta:
No seu Alcorão al-Karîm,
Nosso Senhor, num versículo,
Disse assim:
“Sabei com certeza:
Não há dentre vós
Ninguém que não passe
Pelo Inferno…”
Ouvi este versículo
Quando Rasûlullah o recitava.
Se eu passar pelo Inferno,
Como hei de suportá-lo!

Os seus companheiros fizeram dua por ele: “Que Allahu ta’âlâ te junte ao grupo dos Seus servos amados e que sejas dos justos!” Então Abdullah ibn Rawâha disse: “Eu, porém, desejo ser perdoado por Allahu ta’âlâ. E desejo cair mártir por um golpe de espada que faça jorrar e espumar o sangue, ou por uma lança cravada que me abrase o fígado e as entranhas!…” Quando o exército se aprontava para partir, Abdullah ibn Rawâha foi até nosso Mestre, o Profeta, despediu-se e perguntou: “Yâ Rasûlallah! Não me aconselharias algo que eu decore e nunca mais me saia da mente?” Nosso Mestre, o Profeta, disse-lhe: “Amanhã chegarás a uma terra onde muito pouco se faz sajda a Allahu ta’âlâ. Ali multiplica as sajdas e os namâz.” Quando Abdullah ibn Rawâha disse: “Yâ Rasûlallah! Não me darias mais conselhos?”, nosso amado Profeta disse: “Faze sempre o dhikr de Allahu ta’âlâ. Pois o dhikr (a recordação) de Allahu ta’âlâ te ajudará a alcançar o que esperas.”

O exército do Islã, de três mil homens, pôs-se em marcha entre as vozes de “Allahu akbar! Allahu akbar!” Nosso amado Profeta e os Companheiros que ficavam em Medina acompanharam os mujâhids ghâzîs até a ladeira de Wadâ’. Ali, o Mestre dos mundos dirigiu-se assim ao abençoado exército do Islã: “Recomendo-vos cumprir as ordens de Allahu ta’âlâ e guardar-vos das Suas proibições, ser um bem para os muçulmanos que estão convosco e tratá-los bem. Combatei no caminho de Allahu ta’âlâ, pronunciando o Seu nome. Não cometais fraude nos bens do espólio. Não falteis aos pactos. Não mateis as crianças! Ali encontrareis, nas igrejas dos cristãos, alguns homens que se separaram das pessoas e se entregaram à adoração. Guardai-vos de tocar neles! Além deles, encontrareis alguns homens em cuja cabeça os shaytâns fizeram ninho: cortai-lhes a cabeça com as vossas espadas. Não mateis as mulheres nem os velhos decrépitos. Não queimeis nem corteis as árvores. E não destruais as casas!”

Ao comandante-chefe, Zayd ibn Hâritha, disse também: “Quando encontrares o teu inimigo dentre os politeístas, convida-os a uma de três coisas!… (Se se tornarem muçulmanos,) convida-os a emigrar para Medina, a terra dos Muhâjir! Se aceitarem o teu convite, comunica-lhes que terão os mesmos direitos que os Muhâjir e que lhes caberão os mesmos deveres que cabem aos Muhâjir.

Se se tornarem muçulmanos e preferirem viver na sua terra, comunica-lhes que serão como os árabes nômades dentre os muçulmanos, que a eles se aplicará o mesmo juízo divino que se aplica aos árabes nômades, que dos despojos de guerra não lhes caberá parte alguma e que do espólio só se beneficiarão os que combatem junto dos muçulmanos!

Se não aceitarem o Islã, convida-os a pagar a jizya! Não toques nos que aceitarem isto! E, se não consentirem em pagar a jizya, combate-os, refugiando-te no socorro de Allahu ta’âlâ!…”

Depois destes conselhos, despediu-se dos mujâhids. O exército do Islã partiu com as vozes do takbîr. Os que ficavam acenavam aos que partiam e faziam dua: “Que Allahu ta’âlâ vos guarde de todo perigo e vos faça voltar sãos e salvos…” Até desaparecerem no horizonte, ficaram olhando para eles, com os olhos em lágrimas e com santa inveja…

“Nomeei comandante Zayd ibn Hâritha! Se ele cair mártir, que tome o seu lugar Ja’far ibn Abû Tâlib. Se ele cair mártir, que tome o seu lugar Abdullah ibn Rawâha. Se também ele cair mártir, escolhereis alguém dentre vós” Hadîth sharîf

O estandarte sagrado ondulava nas mãos de Zayd ibn Hâritha, e os mujâhids iam, por um caminho longo e desconhecido, servir a religião de Allahu ta’âlâ. O exército do Islã avançava depressa em direção à Síria. A viagem decorreu sem incidentes e com alegria. Os mujâhids estavam impacientes por encontrar o inimigo quanto antes. Um dos mais ardentes dentre os que desejavam o martírio era Abdullah ibn Rawâha. Zayd ibn Arqam contou-o assim: “Eu era um órfão criado sob a tutela de Abdullah ibn Rawâha. Quando ele partiu para a Batalha de Mûta, levou-me também na garupa da sua camela. À noite, depois de andarmos um pouco, saíram dos seus lábios estes dísticos:

Ó minha camela! Se me levares ao poço das areias
E dali me levares adiante mais quatro paradas,
Não te farei sair mais para outra viagem;
Em breve ficarás sem dono, fica sabendo.
Eu, por certo, não voltarei à minha casa;
Espero cair mártir nesta guerra.
Na última parada, os crentes passaram-me depressa;
Ó filho de Rawâha, até os teus mais próximos
Passaram rompendo os laços de irmandade,
Deixaram-te a Haqq ta’âlâ e partiram.
Já não penso nos bens que ficam para trás:
As árvores e as tamareiras – nada disso me importa!

Ao ouvir isto, chorei. Abdullah ibn Rawâha tocou-me com o chicote e disse: ‘Ó travesso! Que tens? Que mal te faz que eu fale assim? Se Allahu ta’âlâ me conceder o martírio, tu voltarás montado no animal e chegarás ao teu lugar. E eu me livrarei de todas as aflições, tristezas, preocupações e acontecimentos do mundo e alcançarei o descanso.’ Desceu e fez um namâz de duas rak’as. No fim, depois de uma longa dua, chamou-me: ‘Ó menino!’ Quando respondi: ‘Às tuas ordens’, disse: ‘Nesta viagem, inshâallah, o martírio me será concedido!’”

Quando os heroicos Companheiros se aproximavam da Síria, Shurahbîl ibn Amr, governador da Síria, havia muito que sabia da aproximação do exército do Islã. Comunicara imediatamente a situação ao imperador bizantino Heráclio e, recebendo dele grande ajuda, ficara tranquilo. Pois, segundo as informações que reunira, os muçulmanos eram apenas três a cinco mil homens. O seu próprio exército, por sua vez, passava de cem mil, e as suas armas eram incontáveis. Os Companheiros (alaihimur-ridwân), ao chegarem a Ma’ân, nas terras da Síria, souberam que os bizantinos vinham contra eles com um exército de cem mil homens. Detiveram-se ali e permaneceram duas noites. O comandante, Zayd ibn Hâritha, reuniu os seus companheiros e expôs-lhes a situação. Perguntou-lhes o que pensavam que se devia fazer contra o exército bizantino. Alguns Companheiros disseram: “Sem enfrentar o exército bizantino, façamos ataques de surpresa à sua terra. Façamos prisioneiros e voltemos a Medina.” Outros disseram: “Escrevamos uma carta ao Rasûl alaihis-salâm e comuniquemos-lhe o número do inimigo. Peçamos-lhe que nos envie depressa soldados ou perguntemos-lhe o que devemos fazer.” Quando estavam para decidir que a segunda opinião era a mais conveniente, Abdullah ibn Rawâha interveio e disse:

“Faze sempre o dhikr de Allahu ta’âlâ. Pois o dhikr (a recordação) de Allahu ta’âlâ te ajudará a alcançar o que esperas” Hadîth sharîf

Ó meu povo, por que razão hesitais?
Não viemos nós à batalha com a intenção de ser mártires?
Não foi por sermos muitos em armas e cavaleiros
Que alguma vez combatemos os descrentes.
Pela força desta religião
Que Allahu ta’âlâ nos concedeu, lutamos como leões.
Ide, combatei – sem dúvida, há bem nisto:
O fim desta obra é o martírio ou a vitória.
Por Allah, no dia de Badr tínhamos dois cavalos;
Em Uhud, um só cavalo, e bem poucas armas.
Se está no destino vencermos nesta batalha,
Assim nos prometeram Allah e o Profeta.
Haqq ta’âlâ jamais volta atrás na Sua promessa;
Portanto, ó crentes, avançai!
E, se o martírio estiver escrito para nós,
No Paraíso reencontraremos os nossos irmãos mártires.

Estas palavras de Abdullah ibn Rawâha deram coragem aos mujâhids. Disseram: “Por Allah, o filho de Rawâha diz a verdade.” A decisão estava tomada: combateriam até cair mártires. Quando os gloriosos Companheiros chegaram à aldeia de Mûta, encontraram-se com o exército bizantino de cem mil homens.

A BATALHA DE MÛTA

Montes e pedras estavam cheios de soldados inimigos. De um lado, um exército do Islã de três mil homens, que partira de longe, de Medina, e viera até a Síria para difundir a religião de Allahu ta’âlâ; do outro, um rebanho de cem mil kâfirs reunidos para sufocar o Islã… À primeira vista, a proporção de forças não admitia comparação: por ela, cada muçulmano teria de combater mais de trinta bizantinos. Os dois lados tomaram ordem de batalha. Nesse momento, por ordem de nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), uma delegação do exército do Islã dirigiu-se ao acampamento bizantino. Propuseram ao exército bizantino que aceitasse o Islã ou, do contrário, pagasse a jizya. Mas eles rejeitaram este convite. Já não havia tempo a perder. O comandante, Zayd ibn Hâritha, com o estandarte sagrado do Islã na mão, deu ao seu exército a ordem de atacar. Os mujâhids, que esperavam este momento, lançaram-se para a frente como flechas, entre as vozes de “Allahu akbar!” Desembainhando as espadas como relâmpagos, penetraram como uma tempestade no meio do inimigo… O relinchar dos cavalos, o tinir das espadas, as vozes do takbîr e os gritos dos feridos subiam aos céus; já no começo da batalha o campo se transformara num lago de sangue. A cada golpe de espada, os gloriosos Companheiros faziam cair ou uma cabeça ou um braço.

Zayd, com o estandarte branco de Rasûlullah na mão, combatia bem no meio do inimigo, dizendo “Allah, Allah”. Com os golpes da sua espada abria num instante caminho à sua volta e fazia o inimigo arrepender-se de lhe ter saído ao encontro. Os gloriosos Companheiros, vendo o seu comandante combater heroicamente, não ficavam atrás dele: cada um, sozinho, esforçava-se por alcançar com a espada trinta inimigos e derrubá-los. A certa altura, várias lanças cravaram-se ao mesmo tempo no peito abençoado do comandante Zayd. Atrás delas vieram outras lanças. O corpo do glorioso Companheiro estava todo crivado. Por fim, Zayd ibn Hâritha caiu sobre a terra quente e bebeu o sorvete do martírio, que tanto desejara.

Ja’far, que vinha depois de Zayd ibn Hâritha, agarrou logo o estandarte. Os mujâhids, ao verem ondular o estandarte do Islã, continuaram a batalha com novo ardor. Ja’far também combatia heroicamente, como Zayd ibn Hâritha. De um lado lançava-se contra o inimigo, de outro dava coragem e ardor aos seus companheiros. Este novo comandante, que combatia com bravura, brandia a espada com movimentos ainda mais rápidos e mais ágeis e não dava trégua ao inimigo. Ja’far, combatendo fora de si, avançara bastante à frente dos companheiros. Combatia sozinho no meio dos bizantinos, desferindo golpes de espada em cada um deles. Mas não tardou a compreender que deste caminho não havia volta. O heroico comandante dizia: “O que me cabe é golpear com a minha espada cada um dos kâfirs!”, e tirava nova força espiritual das palavras abençoadas “Allahu akbar!… Allahu akbar!…” A cada golpe de espada eliminava um inimigo e não deixava ninguém aproximar-se de si. Sem tirar da língua o nome abençoado de Allahu ta’âlâ, combatia com uma força inesgotável. Por fim, um soldado inimigo golpeou com a espada o braço direito de Ja’far. Ja’far, com a mão direita cortada, agarrou com a mão esquerda o estandarte sagrado do Islã antes que caísse ao chão. Ergueu-o e fê-lo ondular de novo. Nisto, mais um golpe de espada… Também a mão esquerda foi cortada. Desta vez procurou fazer ondular o estandarte apertando-o ao peito entre os braços cortados. Mas, sob as espadas inimigas que desciam violentamente umas após as outras, alcançou o grau do martírio que tanto desejara. A sua alma abençoada voou para os graus mais altos do Paraíso… No seu corpo contaram-se mais de noventa feridas de espada e de lança.3 Os heroicos mujâhids, vendo que o seu comandante caíra mártir, apanharam o estandarte do Islã caído ao chão e entregaram-no a Abdullah ibn Rawâha.

“Ó meu povo, por que razão hesitais? Não viemos nós à batalha com a intenção de ser mártires?” Abdullah ibn Rawâha (radiyallahu anh)

Abdullah, montado no cavalo e fazendo ondular o estandarte, lançou-se violentamente contra o inimigo. De um lado derrubava o inimigo que lhe aparecia pela frente; de outro dizia assim:

Ó minha alma (nafs), tu certamente me obedecerás;
Hoje serei mártir – jurei-o nesta batalha.
Ou tu mesma consentirás nisso de bom grado,
Ou à força eu te farei aceitá-lo.
Se não fores morta nesta batalha, dize-me, ó minha alma,
Acaso nunca hás de morrer?
Se fizeres o que fizeram Ja’far ibn Abû Tâlib
E Zayd ibn Hâritha, sabe que farás bem.
Eles caíram mártires; ó minha alma, não fiques para trás,
Senão serás desventurada – vamos, lança-te à frente!

Também Abdullah, entre as vozes de “Allahu akbar!”, travou com o inimigo uma luta sem tréguas. A certa altura, um golpe de espada atingiu-lhe um dedo, e o dedo cortado ficou pendurado na mão, balançando. Este abençoado comandante, que ardia no amor de Allahu ta’âlâ e do Seu Rasûl, saltou imediatamente do cavalo ao chão. Pôs debaixo do pé o dedo ferido que o impedia de combater e, dizendo: “Não és tu apenas um dedo ferido? E foi no caminho de Allahu ta’âlâ que sofreste esta desgraça!”, arrancou-o com um puxão. Saltou como um raio para o cavalo e recomeçou a combater com todas as suas forças. Mas, por não alcançar o grau do martírio por mais que combatesse, começou a censurar-se a si mesmo… Lançou-se uma e outra vez contra o inimigo. Por fim, caiu ao chão com um golpe de lança. Caiu mártir combatendo no caminho de Allahu ta’âlâ e do Seu Rasûl, e a sua alma abençoada voou para o Paraíso… Nesse instante, Abul-Yusr Ka’b ibn Umayr, que combatia ao lado de Abdullah, tentou fazer ondular o estandarte. Correndo os olhos pelos Companheiros, procurou alguém mais velho e mais experiente do que ele. Ao ver Thâbit ibn Aqram, entregou-lhe o estandarte. Thâbit fincou o estandarte diante dos mujâhids e disse: “Ó meus irmãos! Escolhei depressa um dentre vós como comandante e segui-o!” Eles disseram: “Escolhemos a ti”, mas Thâbit não aceitou. Os seus olhos pousaram em Khâlid ibn Walîd. Disse-lhe: “Ó Abû Sulaymân! Toma tu o estandarte!” Khâlid, que havia pouco se juntara aos muçulmanos, por respeito não quis tomar o estandarte sagrado, e dos seus lábios abençoados saíram estas palavras: “Não posso tomar de ti este estandarte! Tu és mais digno dele do que eu. Pois és mais velho e tiveste a honra de combater ao lado de Rasûlullah na Batalha de Badr!…” Mas o tempo era precioso. À volta deles, os Companheiros combatiam o inimigo sem tréguas, esforçando-se por fazer recuar um inimigo de cem mil homens. Thâbit repetiu as suas palavras: “Ó Khâlid! Toma depressa o estandarte sagrado de Rasûlullah! Por Allah, eu o tomei para dá-lo a ti. Tu conheces a arte da guerra melhor do que eu!” E perguntou aos mujâhids à sua volta: “Ó meus irmãos! Que pensais de fazermos de Khâlid o comandante?” Eles disseram a uma só voz: “Fizemo-lo nosso comandante.” Então Khâlid tomou com grande respeito e reverência o estandarte que o Mestre dos mundos entregara com a sua mão abençoada, e beijou-o. Saltou para o cavalo e lançou-se contra o inimigo com toda a sua majestade e força.4

Os heroicos Companheiros passaram de novo ao ataque atrás do seu novo comandante. Khâlid combatia com coragem e habilidade nunca vistas e derrubava quem lhe saía à frente. A certa altura, Qutba ibn Qatâda separou do corpo a cabeça de Mâlik ibn Zâfila, um dos comandantes inimigos. O ânimo dos bizantinos abateu-se. Mas o tempo já era pouco: anoitecera e começava a escurecer. Combater no escuro era muito perigoso. Pois poderiam, por engano, golpear os próprios companheiros…

Por isso, os dois lados recolheram-se aos seus acampamentos. Os feridos começaram a ser tratados. Khâlid era um gênio na arte da guerra. Queria apresentar-se de manhã diante do inimigo com uma nova tática e desorientá-lo. Naquela noite, trocou os lugares dos soldados: passou os da direita para a esquerda, os da esquerda para a direita, os da frente para trás e os de trás para a frente.

De manhã, os heroicos mujâhids, lançando-se de novo ao ataque, começaram a combater entre as vozes de “Allahu akbar”. Os soldados inimigos viam pela primeira vez os que os atacavam. Não eram os homens com quem tinham combatido na véspera.

Certamente viera um novo exército em socorro dos muçulmanos!… Os soldados bizantinos, pensando que haviam chegado reforços e tomados de medo, perderam o ânimo. Entraram em pânico e começaram a fugir. O exército do Islã, aproveitando a ocasião, atacou-os violentamente.

Depois de desbaratado o inimigo, chegaram à fortaleza de Mûta. Conquistaram também a fortaleza e mataram muitos dos seus notáveis. Khâlid e os heroicos Companheiros, combatendo naquele dia ainda melhor, golpearam o inimigo e enviaram ao Inferno as almas de milhares deles. Naquele dia, quebraram-se nove espadas nas mãos de Khâlid ibn Walîd.5 Pela graça de Allahu ta’âlâ e pela bênção das duas de Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam), três mil mujâhids ghâzîs desbarataram um exército inimigo de cem mil soldados. Nesta grande batalha campal houve quinze mártires. Assim, o Império Bizantino teve os seus limites marcados, e impediu-se que organizasse novas incursões para o sul… Rasûl-i akram, Nabiyy-i muhtaram, antes que lhe chegasse qualquer notícia do campo de batalha, reuniu os seus Companheiros na mesquita para lhes comunicar o que se passara em Mûta. Pelo rosto abençoado de nosso amado Profeta percebia-se que estava muito triste, e ninguém ousava perguntar-lhe nada, temendo entristecê-lo ainda mais. Por fim, um dos Companheiros disse: “Que as nossas vidas sejam sacrificadas por ti, yâ Rasûlallah! Desde que vimos a tristeza que há em ti, o nosso interior chora sangue; só Janâb-i Haqq sabe quão grande é a nossa dor!” Dos olhos abençoados de nosso amado Profeta correram lágrimas, e ele disse: “A tristeza que vedes em mim, o que me deixou na aflição, foi o martírio dos meus Companheiros. Este estado durou até que os vi no Paraíso, como irmãos sentados sobre tronos, frente a frente. Zayd ibn Hâritha tomou o estandarte na mão. Por fim, caiu mártir. Agora entrou no Paraíso. Ali anda correndo. Depois tomou o estandarte Ja’far ibn Abû Tâlib. Lançou-se contra os exércitos inimigos, combateu e, por fim, também ele caiu mártir. Entrou mártir no Paraíso e voa como quer com duas asas de rubi. Depois de Ja’far, tomou o estandarte Abdullah ibn Rawâha. Com o estandarte na mão, combateu os inimigos, caiu mártir e entrou no Paraíso. Foram-me mostrados no Paraíso sobre tronos de ouro. Ó Allah! Perdoa Zayd!… Ó Allah! Perdoa Ja’far! Ó Allah! Perdoa Abdullah ibn Rawâha!”

“Ó Khâlid! Toma depressa o estandarte sagrado de Rasûlullah! Por Allah, eu o tomei para dá-lo a ti. Tu conheces a arte da guerra melhor do que eu!” Thâbit ibn Aqram (radiyallahu anh)

Dos olhos abençoados do Mestre dos mundos ainda corriam lágrimas. Entre lágrimas, ele continuou: “Depois de Abdullah ibn Rawâha, tomou o estandarte Khâlid ibn Walîd. Agora a batalha se tornou violenta. Ó Allah! Ele (Khâlid ibn Walîd) é uma de Tuas espadas. Ajuda-o!…”6 Com a permissão de Allahu ta’âlâ, nosso amado Profeta viu, como um milagre, o que se passava no campo de batalha, a mais de mil quilômetros de distância, e contou-o a seus Companheiros. No dia em que Ja’far ibn Abû Tâlib caiu mártir, depois de narrar esse acontecimento, nosso Profeta levantou-se e foi à casa de Ja’far. Asmâ, a esposa de Ja’far, havia terminado os afazeres da casa, dado banho nos filhos e penteado seus cabelos. Nosso amado Profeta disse: “Ó Asmâ! Onde estão os filhos de Ja’far? Traze-os a mim!” Quando Asmâ Khâtûn trouxe as crianças, nosso Mestre Rasûlullah apertou-as ao peito, beijou-as e cheirou-as longamente. Seu coração abençoado não resistiu, e de seus olhos abençoados as lágrimas começaram a correr em fio. Vendo isso, a esposa de Ja’far perguntou suplicante: “Que minha mãe, meu pai e a minha própria vida sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Por que mostras aos meus filhos a compaixão que se mostra aos órfãos? Acaso recebeste uma notícia amarga a respeito de Ja’far e de seus companheiros?!” O Mestre dos mundos estava profundamente comovido e respondeu: “Sim!… Eles caíram mártires hoje!…” Nossa mãe Asmâ também começou a chorar, apertando ao peito os filhos órfãos. Nosso amado Profeta não pôde suportar por muito tempo aquela cena e retirou-se dali.7

De volta à sua casa bem-aventurada, Habîb-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) disse a suas esposas puras: “Não deixeis de preparar comida para a família de Ja’far!” Durante três dias enviaram-se refeições às famílias dos mártires. Passaram-se alguns dias, e Ya’lâ ibn Umayya trouxe a Medina a boa notícia. Antes que ele contasse o que havia acontecido, Rasûl-i akram disse-lhe: “Se quiseres, conta tu o que se passou; se quiseres, eu te conto”, e narrou com todos os pormenores o que ocorrera no campo de batalha. Ya’lâ ibn Umayya disse então: “Juro por Allahu ta’âlâ, que te enviou como Profeta com a religião verdadeira e com o Livro, que não deixaste sem contar um único dos acontecimentos por que passaram os mujâhids.” Nosso Mestre respondeu: “Allahu ta’âlâ suprimiu para mim a distância que nos separava, e eu vi o campo de batalha com os meus próprios olhos.”

Alguns dias depois, os mensageiros anunciaram que o exército do Islã se aproximava de Medina. Nosso Mestre, o Profeta, levantou-se com seus Companheiros e saiu dos limites de Medina para recebê-lo. Ao longe erguia-se uma nuvem de poeira, e ondulava o sagrado estandarte do Islã. O brilho das espadas e dos escudos fazia cintilar os arredores como um espelho… Em todos se notava uma profunda emoção. Pouco depois, os mujâhids vitoriosos, tendo à frente Khâlid ibn Walîd, entraram em Medina, radiyallahu ta’âlâ anhum ajma’în…

“Ó Allah! Perdoa Zayd!… Ó Allah! Perdoa Ja’far! Ó Allah! Perdoa Abdullah ibn Rawâha!” Hadîth sharîf

Vieram as donzelas do Paraíso,
Envolveram-no em faixas de nûr,
Tocaram com o rosto em Muhammad,
Na noite em que Muhammad nasceu.
Abriu-se a porta dos céus,
Sobre o mundo derramou-se misericórdia,
Talharam-se as vestes do Paraíso,
Na noite em que Muhammad nasceu.
Diz Yunus: “Ó irmãos,
Dos olhos correm lágrimas de sangue,
Prostraram-se os montes e as pedras,
Na noite em que Muhammad nasceu.”

Uma vista antiga da Ka’ba al-Mu’azzama /

Makka al-Mukarrama [1890]