Meu Amado Profeta

A CONQUISTA DE KHAYBAR

Na luminosa Medina havia judeus que, na aparência, eram muçulmanos, mas que, na realidade, eram hipócritas (munâfiq). Antes de Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) emigrar para Medina, o povo de Medina havia escolhido como chefe Abdullah ibn Ubayy ibn Salûl. Tinham-lhe dado até uma coroa adornada de pedras preciosas. Quando Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) honrou Medina com a sua chegada, todo o povo de Medina passou a mostrar respeito e afeto a nosso amado Mestre, o Profeta, e seguiu-o. Ibn Salûl ficou de lado, sem importância. Deixaram de lhe dar atenção. Então Ibn Salûl pôs-se em ação para matar Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) ou causar-lhe algum mal. Um dia, os judeus reuniram-se junto dele. Fizeram alguns planos a esse respeito e pediram ajuda a Labîd ibn Âsim. Labîd disse: “Em tal bairro há uma velha chamada Khayra. É muito hábil em feitiçaria. Procurai-a.” Encontraram aquela mulher maldita e deram-lhe mil dirhams de ouro e dez peças de tecido. Disseram: “Se fizeres perecer Muhammad, nós te daremos ainda muitas coisas.” A velha espetou agulhas num filhote de pomba, atou nós em fios e enrolou-os nele. Colocou-o dentro de um poço abandonado nos arredores de Medina e tapou-lhe a boca. Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) adoeceu. Os seus membros ficaram sem movimento. Deram-lhe vários remédios, mas sem proveito. Este estado durou nove dias.

Depois veio Jibrîl alaihis-salâm e informou-o do ocorrido. Levaram Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) até lá. Ele abriu o poço e tirou a pomba. Mas não foi possível desatar os nós dos fios. Jibrîl alaihis-salâm trouxe as suras Mu’awwidhatayn (al-Falaq e an-Nâs) e disse: “Ó Muhammad alaihis-salâm! Recita estas suras sobre esses nós.” Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) começou a recitar aquelas suras. A cada versículo que recitava, um dos nós começava a desatar-se e uma das agulhas a sair. Quando acabou de recitar inteiramente as suras (os 11 versículos das duas suras), todos os nós se desataram. Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) livrou-se por completo da doença e recuperou a saúde. Depois mandou chamar aquelas pessoas malditas e repreendeu-as. O povo de Medina infligiu-lhes castigos tão duros que pereceram. Também o judeu Labîd foi preso e levado à presença de nosso Mestre Rasûlullah. Quando nosso Mestre, o Profeta, lhe disse: “Por que mandaste fazer isto?”, ele respondeu: “Por amor ao ouro.” Quando alguns dos Companheiros disseram: “Yâ Rasûlallah! Se permitires, cortemos o pescoço deste judeu!”, nosso amado Profeta, que nunca castigava ninguém por causa de si mesmo, disse: “O castigo divino que ele verá no fim é mais severo”, e não permitiu que o matassem.1 Expulsos de Medina, os judeus haviam ido para as regiões do norte da Arábia. Uma parte deles ficou e estabeleceu-se em Khaybar. Outra parte foi para a Síria, ao norte. Haviam sido expulsos das suas terras por terem tramado um atentado contra nosso Mestre Rasûlullah. Mas o rancor, a cobiça e o desejo de vingança que traziam no peito contra os muçulmanos nunca se apagaram. Pelo contrário, cresciam dia a dia: queriam pôr fim, quanto antes, à vida do Sultão do universo, o Habîb de Allahu ta’âlâ, e eliminar a religião do Islã.

Alguns dos seus notáveis disseram: “Vamos aos Ghatafân pedir ajuda e combatamos com eles contra os muçulmanos!” Outros disseram: “Chamemos em nosso socorro também os judeus de Fadak, de Taymâ e de Wâdil-Qurâ e, antes que os muçulmanos nos ataquem, ataquemos nós a sua cidade e tiremos toda a nossa vingança!…” Os judeus de Khaybar aceitaram esta proposta e chamaram em seu socorro as tribos judias dos arredores e os Ghatafân. Só dos Ghatafân vieram muitíssimos guerreiros escolhidos, e começaram os preparativos em Khaybar. Enquanto eles assim se preparavam, o Mestre dos mundos (sallallahu alaihi wa sallam) ficou a par da situação dos judeus. Juntou três Companheiros a Abdullah ibn Rawâha e enviou-o imediatamente para saber o que se passava em Khaybar. Abdullah ibn Rawâha e os seus três companheiros chegaram depressa a Khaybar. Era uma cidade rica, com oito fortalezas inexpugnáveis, outras fortalezas menores, terras férteis e muitíssimas vinhas e pomares. Abdullah enviou um dos companheiros à fortaleza de Shiqq, outro à de Katîba e o terceiro à de Natât. Ele mesmo entrou numa outra fortaleza. Durante três dias examinaram de perto a situação dos judeus e os seus preparativos de guerra. Ao fim de três dias, reuniram-se no lugar combinado, voltaram depressa a Medina e contaram a nosso Mestre, o Profeta, um a um, os preparativos dos judeus.

Nosso amado Profeta ordenou aos seus Companheiros que se preparassem com urgência. Para impedir que os judeus atacassem Madîna al-Munawwara, decidiu marchar sobre Khaybar. Ao saberem desta decisão, os judeus de Medina alarmaram-se. Para abater o ânimo dos muçulmanos, diziam: “Juramos que, se tivésseis visto as fortalezas de Khaybar e os valentes guerreiros ali reunidos, jamais poríeis os pés lá!… As fortalezas de altas torres no cimo dos montes são guardadas por valentes guerreiros de couraça. Milhares de soldados vieram de todos os lados em seu socorro!… Acaso podereis vós conquistar Khaybar?!…” A isso, os heroicos Companheiros respondiam: “Allahu ta’âlâ prometeu ao Seu Habîb que ele conquistaria Khaybar”, e declaravam que jamais teriam medo dos judeus. Esta firmeza dos Companheiros afligia e inquietava ainda mais os judeus. O chefe dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, mandou a Khaybar uma mensagem urgente: “Muhammad vem contra vós com poucas forças. Não há motivo para medo; mas sede prudentes e enchei as vossas fortalezas com os vossos bens. Saí das fortalezas e enfrentai-os!” Os Companheiros terminaram os preparativos, pediram perdão aos familiares, despediram-se deles e reuniram-se em volta de nosso Mestre, o Profeta. Eram duzentos cavaleiros e mil e quatrocentos infantes. Estavam prontos às ordens do seu amado Profeta para difundir a religião de Allahu ta’âlâ, fazer o jihâd e alcançar o grau de mártir. Nesse momento, algumas mulheres pediram a nosso Mestre, o Profeta, uma tarefa: na guerra, preparar a comida dos Companheiros, cuidar dos feridos e dos doentes, enfaixar as feridas, preparar remédios e fazer outros trabalhos de que fossem capazes. Nosso Mestre Rasûlullah teve compaixão delas e não as privou dessa recompensa. Assim, juntaram-se aos mujâhids também vinte mulheres mujâhidas, à frente das quais estava Umm Salama, a abençoada esposa de nosso amado Profeta.2

Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) deixou como seu substituto em Medina Sibâ’, da tribo de Ghifâr, e deu a ordem de partir para Khaybar. (Há também quem relate que foi deixado Numayla ibn Abdullah.) A marcha começou com takbîrs. Os Companheiros que, por algum impedimento, não puderam tomar parte na guerra, e aqueles a quem não se permitiu ir por serem muito jovens, olhavam com santa inveja para nosso Mestre, o Profeta, e para os seus heroicos pais, avôs, tios paternos, tios maternos e irmãos mais velhos, e despediam-se deles com takbîrs e duas.

“A fortaleza de Khaybar será conquistada pelas mãos de Alî ibn Abû Tâlib” Hadîth sharîf

O calendário marcava o mês de Muharram do sétimo ano da Hégira. O estandarte sagrado de nosso Mestre, o Profeta, era levado por Alî, e o comando da ala direita estava com Umar.3 Para a ala esquerda, ele designou um outro Companheiro. A viagem decorria com alegria. Os poetas, com os seus poemas, louvavam a Allahu ta’âlâ pelas dádivas que Ele concedera, recitavam salawât para nosso amado Profeta e exaltavam os gloriosos Companheiros. E os Companheiros, como quem vai a uma festa, faziam ressoar todos os arredores dizendo juntos: “Allahu akbar! Allahu akbar! Lâ ilâha illallahu wallahu akbar!”

Em cada parada, o Sultão do universo fazia esta dua: “Ó Allah! Refugio-me em Ti da inquietação pelo futuro, da tristeza pelo passado, da fraqueza e da preguiça, da avareza, da covardia e da dívida que verga as costas, e do domínio dos opressores e dos injustos!”

Quando se aproximaram de Khaybar, nosso amado Profeta fez parar os seus Companheiros. Erguendo as mãos, começou a suplicar: “Ó Allah, Senhor dos céus e de tudo o que eles cobrem com a sua sombra! Ó Allah, Senhor das terras e de tudo o que está sobre elas! Ó Allah, Senhor dos shaytâns e daqueles que eles desviam! Ó Allah, Senhor dos ventos e de tudo o que eles espalham! Nós Te pedimos o bem e a bondade desta terra, o bem e a bondade dos homens que nela vivem e o bem e a bondade de tudo o que há nesta terra. Refugiamo-nos em Ti do mal desta terra, do mal dos homens e do mal de tudo o que nela há!”

Dos lábios dos Companheiros saíam as vozes: “Âmîn, âmîn.” Depois nosso Profeta disse aos seus Companheiros: “Avançai dizendo ‘Bismillahir-rahmânir-rahîm’.”

Os Companheiros, reunidos em volta de Rasûl-i akram, puseram-se de novo em marcha. Chegaram perto da fortaleza de Natât, uma das mais fortes de Khaybar.

Ali montaram o seu acampamento. Era o fim da tarde. Segundo o costume abençoado de nosso Mestre Rasûlullah, não se atacava antes do amanhecer, e primeiro se fazia o convite ao Islã. Se não aceitassem a proposta, começava-se a guerra. Por isso, os Companheiros esperaram até de manhã. Nenhum dos judeus percebera que o exército do Islã havia chegado. O Mestre do universo, depois de dirigir o namâz da manhã, terminou os preparativos e pôs os mujâhids em movimento. Duzentos cavaleiros e mil e quatrocentos infantes, em fileiras ordenadas, aproximaram-se das muralhas da fortaleza de Natât. Nesse momento, os judeus que haviam saído da fortaleza para trabalhar nas vinhas, nos pomares e nos campos depararam de repente com os soldados do Islã e ficaram atônitos.

Gritando: “Juramos que são Muhammad e o seu exército ordenado!…”, começaram a fugir de volta. Ao vê-los nesse estado, nosso amado Profeta disse: “Allahu akbar! Allahu akbar! Khaybar está arruinada”, e repetiu três vezes estas palavras abençoadas. Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), comunicou aos judeus que deviam ou tornar-se muçulmanos, ou render-se e pagar o kharâj e a jizya; do contrário, haveria guerra e derramamento de sangue. Os judeus foram até Sallâm ibn Mishkam, um dos seus notáveis, e expuseram-lhe a situação. Sallâm incitou-os à guerra, dizendo: “Antes eu vos disse que marchásseis contra Muhammad, e não aceitastes. Ao menos agora não mostreis fraqueza em combatê-lo. Morrer combatendo os muçulmanos é melhor do que viver sozinho e desamparado!…” Os judeus juntaram depressa as crianças e as mulheres na fortaleza de Katîba, as provisões em Nâ’im e os soldados na fortaleza de Natât.

À proposta do exército do Islã de que se tornassem muçulmanos, os judeus responderam atirando flechas. Os mujâhids receberam as flechas com os escudos. Por ordem de nosso amado Profeta, os arcos foram retesados e, entre as vozes de “Allahu akbar!…”, as flechas voaram sobre os judeus que estavam nas torres da fortaleza. A guerra começara. De um lado, o Sultão do universo e os seus heroicos Companheiros combatiam para difundir o Islã e para levar os judeus a tornar-se muçulmanos e a salvar-se do Inferno. Do outro, estavam os judeus, que não davam ouvidos a conselhos, que a cada ocasião queriam golpear os muçulmanos pelas costas e que se obstinavam em não ver a verdade. Ao verem que o Selo dos Profetas (Khâtam al-Anbiyâ) não viera do seu povo, por inveja não o aceitaram. Desde a infância de nosso Mestre, o Profeta, recorreram a todas as artimanhas que lhes vieram à mente para eliminá-lo, mas, pela proteção de Allahu ta’âlâ, nada conseguiram fazer.

Mais de dez mil soldados judeus atiravam flechas contra mil e seiscentos gloriosos mujâhids. Com os escudos, os Companheiros protegiam-se dessas flechas, que vinham umas atrás das outras, e, sempre que tinham ocasião, atiravam de volta contra os judeus as flechas caídas no chão. Mas alguns Companheiros foram feridos.

A certa altura, Hubâb ibn Mundhir aproximou-se de Habîbullah com grande respeito e perguntou: “Que a minha vida seja sacrificada por ti, yâ Rasûlallah! Não seria bom montarmos o acampamento noutro lugar?” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Inshâallahu ta’âlâ, quando anoitecer, nós o mudaremos!” Os mujâhids tinham ficado ao alcance das flechas. As flechas que os judeus atiravam da fortaleza chegavam até as partes de trás do acampamento do Islã.4 Naquele dia, até o anoitecer, o combate continuou com flechas. Cerca de cinquenta Companheiros foram feridos pelas flechas. Ao anoitecer, Muhammad ibn Maslama foi encarregado de procurar um novo lugar para o acampamento. Quando ele indicou que o lugar chamado Rajî era conveniente, o acampamento do Islã foi transferido para lá.

“Nós, os profetas, não deixamos herança. O que deixamos é sadaqa para os pobres” Hadîth sharîf

A Conquista de Khaybar

Os feridos começaram a ser tratados.5 No dia seguinte, os heroicos Companheiros apresentaram-se diante de Natât e combateram até o anoitecer. No terceiro, no quarto e no quinto dia o cerco continuou. Os judeus mantiveram-se sempre na defensiva. Naqueles dias, nosso amado Profeta foi acometido de uma forte dor de cabeça e, durante dois dias, não pôde estar entre os mujâhids. No primeiro dia deu o estandarte a Abû Bakr; no segundo, a Umar. Ambos, à frente dos Companheiros, combateram duramente contra os judeus, mas não foi possível conquistar a fortaleza. Entretanto, os judeus, cuja coragem aumentara, abriram as portas da fortaleza e passaram ao ataque. Começou então o combate corpo a corpo. A batalha tornou-se muito acesa. Sempre que nosso Mestre, o Profeta, dizia aos seus Companheiros: “Proferi o takbîr dizendo: Allahu akbar! Allahu akbar!…”, eles, entre as vozes do takbîr, golpeavam o inimigo com a espada, cheios de amor e de ardor. A certa altura, Mahmûd, irmão de Muhammad ibn Maslama, caiu mártir. Os confrontos violentos continuaram até o anoitecer.

No dia seguinte, Marhab, um dos mais famosos comandantes de Khaybar, saiu da fortaleza coberto de couraças. Era um homem forte e robusto, como um gigante. Até então não aparecera diante dele nenhum valente capaz de vencê-lo. Voltando-se para os mujâhids, começou a vangloriar-se: “Eu sou Marhab, conhecido pela coragem e pelo heroísmo!” Enquanto assim se gabava, um mujâhid saiu do meio dos Companheiros e lançou-se à frente. Gritou a Marhab: “E eu sou Âmir, que não teme lançar-se no meio das batalhas terríveis e violentas!”, e pôs-se imediatamente diante dele. O gigante Marhab desferiu contra Âmir, com toda a força, a sua espada, na qual estava escrito: “A quem toca, fá-lo perecer!…” O valente Âmir ergueu no mesmo instante o escudo. Quando a larga espada bateu no escudo, um som violento ecoou ao redor, e a espada ficou cravada no escudo.

Âmir, refugiando-se no Criador, disse: “Yâ Allah!” e golpeou com a espada as pernas couraçadas de Marhab. Mal a espada tocou a couraça de aço, ricocheteou e atingiu de repente a perna do próprio Companheiro. O violento ricochete da espada cortou a artéria da perna de Âmir. Os Companheiros correram, tomaram Âmir nos braços e levaram-no ao acampamento para ser tratado. Mas Âmir (radiyallahu anh) ali alcançou o martírio e voou para os graus mais altos do Paraíso.6

O combate continuava com toda a força. Ao entardecer, nosso amado Profeta propôs aos politeístas de Ghatafân, que tinham vindo com quatro mil soldados em socorro dos judeus e haviam entrado na batalha, que se separassem e voltassem para a sua terra. Prometeu também que, se o fizessem, lhes daria a colheita de um ano das tâmaras de Khaybar. Mas os de Ghatafân rejeitaram a proposta. Então o Mestre dos mundos (sallallahu alaihi wa sallam) ordenou aos seus Companheiros que passassem a noite em volta da fortaleza onde estavam os de Ghatafân. Os de Ghatafân tiveram muito medo de que os mujâhids os atacassem à noite e não conseguiram dormir. Naquela noite, uma voz de origem desconhecida anunciava que a terra de Ghatafân fora atacada e que os seus filhos e os seus bens haviam sido tomados. Esta voz repetiu-se três vezes, e todos os de Ghatafân a ouviram com grande pavor. O seu comandante, Uyayna, ouviu também a mesma voz três vezes e, quando estava para romper a aurora, tomou o seu exército, afastou-se às pressas de Khaybar e pôs-se a caminho da sua terra. De manhã, os judeus espantaram-se por os de Ghatafân terem abandonado Khaybar sem motivo e caíram no desespero. Arrependeram-se muito também de os terem chamado em seu socorro.

“No dia em que tomamos a fortaleza de Khaybar, Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) proibiu comer a carne do asno doméstico e tomar mulher pelo casamento de mut’a” Alî (radiyallahu anh)

O heroísmo de Alî

Também naquele dia houve combates violentos diante de Khaybar, mas a fortaleza não foi conquistada. À noite, o Sultão do universo deu a boa nova: “Amanhã darei o estandarte a um valente que ama Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl, e a quem Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl também amam. Allahu ta’âlâ concederá a vitória pelas suas mãos!”

Naquela noite, os Companheiros esperaram a manhã com emoção. Cada um esperava que o estandarte lhe fosse dado e fazia dua a Allahu ta’âlâ nesse sentido. Bilâl Habashî recitou o adhân da manhã com a sua voz ardente e bela. Enquanto se recitava o adhân, nascia em todos uma emoção particular, um deleite particular; desse deleite divino ninguém se saciava. Nosso amado Profeta, depois de dirigir para os seus Companheiros o namâz da manhã, pôs-se de pé. Mandou trazer o abençoado estandarte do Islã. Enquanto o estandarte sagrado era trazido, os Companheiros esperavam de pé, atentos, para ouvir as palavras que sairiam dos lábios abençoados de Rasûl-i akram.

Por fim, o Mestre dos mundos disse: “Juro por Allahu ta’âlâ, que honrou Muhammad com a profecia, que darei este estandarte a um valente que não sabe o que é fugir”, e, passando os olhos abençoados por entre os seus Companheiros, perguntou: “Onde está Alî?” Os Companheiros disseram: “Yâ Rasûlallah! Ele está com dor nos olhos.” Nosso Mestre disse: “Chamai-o à minha presença.” Naqueles dias, Alî fora acometido de uma dor nos olhos e não conseguia abri-los. Foram até ele, comunicaram-lhe o ocorrido e, tomando-o pelo braço, trouxeram-no à presença de nosso Mestre Rasûlullah. O Sultão do universo fez dua a Allahu ta’âlâ para que Alî se curasse, molhou na boca os seus dedos abençoados e passou-os nos olhos dele. No mesmo instante, não restou nos olhos de Alî dor alguma. Fez ainda esta dua por ele: “Ó meu Senhor! Afasta dele o incômodo do calor e do frio!” Depois, com as suas mãos abençoadas, vestiu-lhe uma couraça, cingiu-lhe à cintura a sua própria espada, deu-lhe na mão o estandarte branco do Islã e disse: “Combate até que Allahu ta’âlâ te conceda a vitória. Cuidado, não voltes as costas!” Alî disse: “Que a minha vida seja sacrificada por ti, yâ Rasûlallah! Combaterei contra eles até que entrem na religião do Islã.” Nosso amado Profeta disse: “Por Allah, que Allahu ta’âlâ, por teu intermédio, conduza ao caminho reto um só homem dentre eles é melhor para ti do que possuíres muitos camelos vermelhos e os dares como sadaqa no caminho de Allahu ta’âlâ.”7

Enquanto Alî avançava para a fortaleza dos judeus com o estandarte na mão, os gloriosos Companheiros caminhavam atrás dele. Quando chegou bem perto da fortaleza e fincou o estandarte ao pé de uma pedra, abriu-se a porta da fortaleza de Natât.

Saíram as tropas de assalto dos judeus. Eram os heróis mais escolhidos de Khaybar. Cada um vestia couraça dupla e estava envolto em proteções de ferro. Um deles avançou para Alî e pôs-se diante dele para combater. Era Hârith, irmão de Marhab, que não tinha igual em coragem. Atacou com ímpeto… Enquanto o som dos dois aços enchia o campo, Dhulfiqâr desceu como um raio e separou do corpo a cabeça de Hârith. Nesse instante, as vozes de “Allahu akbar! Allahu akbar!” subiram aos céus. Marhab, ao saber que o irmão fora morto, veio ao campo em fúria com os soldados sob o seu comando e pôs-se diante de Alî. Também ele vestia couraça dupla. Cingido de duas espadas, Marhab, com o seu corpo enorme, lembrava um gigante. Com toda a sua cólera, começou a vangloriar-se: “Eu sou Marhab, que, quando as batalhas estão no seu auge, se lança ao meio delas e combate heroicamente! Até os leões que rugem eu crivo de golpes com a minha lança ou com a minha espada!…”

Alî (karramallahu wajhah wa radiyallahu anh) respondeu assim: “Eu sou aquele a quem a mãe deu o nome de Haydar (Leão). Sou como um leão imponente! Sou o valente que te derrubará por terra de um só golpe!…”

Ao ouvir de Alî a palavra “Haydar”, o medo caiu no coração de Marhab. Pois, naquela noite, em sonho, um leão o despedaçara. Seria este o leão que vira em sonho? Nisto o gigante Marhab atacou, e Alî recebeu-o com o escudo. Depois, refugiando-se em Allahu ta’âlâ e dizendo “Yâ Allah!…”, desceu Dhulfiqâr sobre a cabeça do kâfir com tal força que partiu em dois o espesso escudo de aço que o enorme Marhab erguia contra Dhulfiqâr e o elmo feito de aço, e fendeu-lhe a cabeça em duas partes, do alto até a nuca. Do seu pescoço o sangue jorrou como de uma fonte, e o seu corpo de gigante tombou por terra. O som terrível de Dhulfiqâr ouviu-se em todos os cantos de Khaybar. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Alegrai-vos! A Conquista de Khaybar tornou-se agora fácil.” Os Companheiros ficaram maravilhados com esta bravura de Alî e fizeram ressoar o céu com as vozes de “Allahu akbar! Allahu akbar!…”

O combate continuava com toda a força. Num momento em que os Companheiros, combatendo, haviam chegado junto à porta da fortaleza, um judeu golpeou com a espada o escudo de Alî. O escudo caiu ao chão, mas não havia tempo para inclinar-se e apanhá-lo. O judeu, não querendo perder a ocasião, agarrou o escudo e fugiu com ele. O Leão de Allahu ta’âlâ, muito aflito com isto, depois de dispersar com Dhulfiqâr os inimigos à sua volta, resolveu fazer da porta da fortaleza o seu escudo. Dizendo “Bismillahir-rahmânir-rahîm”, agarrou-se às argolas da enorme porta de ferro. Sacudiu os seus ganchos e arrancou-os da muralha… Enquanto Alî arrancava a porta, a fortaleza estremeceu no seu lugar. Usando como escudo, numa só mão, esta porta, que oito ou dez homens fortes não conseguiriam mover do lugar, começou a combater. Este acontecimento inacreditável foi um milagre de nosso amado Profeta e uma karâma de Alî.8

Diante dele saíram, um após outro, mais seis dos mais valentes campeões dos judeus. Vencendo também a estes, com a permissão de Allahu ta’âlâ, Alî entrou na fortaleza com os seus heroicos companheiros. Já se combatia dentro da fortaleza. Em pouco tempo não restou ninguém que pudesse enfrentá-los. Fincaram na fortaleza o estandarte do Islã. Assim foi conquistada Natât, a fortaleza mais inexpugnável de Khaybar. Nosso amado Profeta beijou Alî nos olhos e disse: “Pelo heroísmo que mostraste, Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl estão satisfeitos contigo.” Ao ouvir estas palavras abençoadas, Alî chorou de alegria. Quando nosso Mestre, o Profeta, perguntou: “Por que choras?”, ele respondeu: “Que a minha vida seja sacrificada por ti, yâ Rasûlallah! Choro de alegria. Pois Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl estão satisfeitos comigo.” Então nosso amado Profeta disse: “Não somente eu, mas também Jibrîl, Mîkâîl e todos os anjos estão satisfeitos contigo.” Nesse momento, vieram em socorro de nosso Mestre, o Profeta, quatrocentos muçulmanos da tribo de Daws.9 Depois disso, os combates para conquistar as demais fortalezas continuaram com violência. Quando também as outras sete fortalezas inexpugnáveis de Khaybar caíram, uma a uma, os judeus, sem saída, enviaram uma delegação e pediram a paz. Nosso Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) aceitou a proposta, e entraram em acordo sobre as seguintes condições: 1. Não será derramado o sangue dos judeus que combateram contra os muçulmanos nesta expedição. 2. Os judeus que deixarem Khaybar poderão levar consigo somente os filhos e a carga de um camelo com os utensílios domésticos necessários. 3. Todos os demais bens, móveis e imóveis; todas as armas, como couraças, espadas, escudos, arcos e flechas; todas as roupas, exceto as que trazem no corpo; os tecidos, o ouro e também os tesouros; todos os animais, como cavalos, camelos e ovelhas… tudo o que houver ficará para os muçulmanos. 4. Nada do que deve ser deixado aos muçulmanos será escondido de modo algum. Os que os esconderem ficarão fora da segurança e da proteção de Allahu ta’âlâ e do Seu Rasûl…

“Eu sou aquele a quem a mãe deu o nome de Haydar (Leão). Sou como um leão imponente!” Alî (radiyallahu anh)

Kinâna ibn Rabî’, que não cumpriu estas condições e enterrou os seus tesouros em odres de couro, foi castigado. O espólio obtido era incalculável. As terras férteis e os tamareirais de Khaybar ficaram inteiramente para o exército do Islã.10 Nesse momento, os de Ghatafân, que tinham voltado para a sua terra, regressaram a Khaybar para ajudar os judeus. Quando viram que nosso Mestre, o Profeta, conquistara Khaybar e obrigara os judeus a render-se, disseram: “Ó Muhammad! Tu nos prometeste que, se deixássemos Khaybar, nos darias as tâmaras de Khaybar de um ano. Nós cumprimos a palavra. Vamos, dá-nos as tâmaras!” Nosso Mestre disse-lhes: “Que tal monte seja vosso.” Os de Ghatafân tentaram ameaçar: “Então combateremos contra vós.” Rasûl-i akram disse: “Que o lugar do nosso combate seja Janafa.” Janafa era o nome de uma das regiões dos de Ghatafân. Ao ouvirem isto, os de Ghatafân recuaram com medo e foram-se embora.

Nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) e os seus heroicos Companheiros estavam muito cansados durante a Conquista de Khaybar. De um lado, os feridos eram tratados; de outro, descansavam.

Zaynab, mulher de Sallâm ibn Mishkam, um dos notáveis dos judeus, quis matar nosso Mestre, o Profeta, envenenando-o. Para isso, abateu uma ovelha, cozinhou-a e pôs na carne uma grande quantidade de veneno. Depois foi à presença de nosso Mestre Rasûlullah e disse que trazia um presente. Rasûl-i akram aceitou-o e chamou os seus Companheiros, e todos se sentaram juntos para comer. O Mestre dos mundos arrancou um pedaço do assado de ovelha e, dizendo “Bismillahir-rahmânir-rahîm”, levou-o à boca abençoada. Depois de mastigá-lo algumas vezes, tirou-o logo da boca abençoada e disse: “Ó meus Companheiros! Retirai as mãos desta comida! Pois esta carne da espádua informou-me que está envenenada.” Os Companheiros retiraram imediatamente as mãos da comida. Mas o corpo de Bishr ibn Barâ, que comera um bocado da carne, ficou logo roxo, e ele caiu mártir. Jibrîl alaihis-salâm veio a nosso amado Profeta e disse-lhe que, para se livrar do efeito do veneno misturado à sua saliva abençoada, fizesse aplicar ventosas (hijâma) entre os seus ombros abençoados. Assim se fez. Depois o assado envenenado foi enterrado. Zaynab, que fizera isto, foi presa e trazida à presença do Profeta.

Nosso Mestre disse-lhe: “Foste tu que envenenaste este assado de ovelha?” Ela confessou o que fizera: “Sim! Fui eu que o envenenei!” Quando nosso Mestre, o Profeta, perguntou: “Por que quiseste fazer isto?”, ela disse: “Tu mataste o meu marido, o meu pai e o meu tio. Eu disse comigo: ‘Se ele for realmente profeta, Allah o informará. Se não for, este veneno fará efeito nele e ele morrerá. Assim nos livraremos dele.’” Os Companheiros ficaram muito aflitos com este acontecimento. Quando perguntaram: “Que as nossas vidas sejam sacrificadas por ti, yâ Rasûlallah! Matamo-la?”, o Mestre dos mundos, que perdoava toda ofensa feita à sua pessoa, perdoou também esta. Zaynab, ao ver esta grande misericórdia, proferiu a kalima-i shahâda e tornou-se muçulmana.11 Entre os despojos e os cativos tomados em Khaybar estava também Safiyya, filha de Huyayy ibn Akhtab. Coube a nosso Mestre, o Profeta, na partilha, como direito do comandante-chefe. O Mestre dos mundos libertou a sua cativa. Ela, muito comovida com isto, proferiu de todo o coração a kalima-i shahâda e tornou-se muçulmana. Nosso amado Profeta, muito alegre com isto, honrou e alegrou nossa mãe Safiyya com o casamento. Assim, Safiyya tornou-se mãe dos crentes. As suas bodas foram celebradas no lugar chamado Sahbâ, e ofereceu-se uma walîma, isto é, um banquete de casamento, de melão e tâmaras.12

Nos olhos abençoados de nossa mãe Safiyya via-se uma mancha roxa.

Quando nosso amado Profeta perguntou: “Que marca é esta?”, ela disse: “Uma noite, vi em sonho que a lua descia do céu e entrava no meu regaço. Quando o contei ao meu marido, Kinâna, ele disse: ‘Puseste os olhos em ser mulher desse rei árabe que vem contra nós!’, e deu-me uma bofetada no olho, e, como vês, ficou roxo.” Depois da Conquista de Khaybar, os judeus vieram a nosso Mestre, o Profeta, com esta proposta: “Ó Muhammad! Nós sairemos de Khaybar. Mas entendemos bem de agricultura, do cuidado dos campos, das vinhas e dos pomares. Se quiseres, arrenda-nos estas terras férteis. Trabalhemos nós estas propriedades e demos-te a metade da colheita!” Nosso amado Profeta e os Companheiros não tinham tempo para ocupar-se dos trabalhos do campo. Esforçavam-se para difundir a religião do Islã e, pelo jihâd fî sabîlillah, trabalhavam sem cessar, juntando a noite ao dia.13 Nosso Mestre, o Profeta, ficou satisfeito com esta proposta e disse: “Com a condição de vos fazermos sair quando quisermos.” Os judeus aceitaram e começaram a trabalhar as terras de Khaybar.14 Nosso Mestre, o Profeta, voltou a Medina vitorioso com os seus Companheiros. Naqueles dias, os últimos Companheiros que restavam dos emigrantes para a Abissínia, entre os quais estava também Umm Habîba (radiyallahu anhâ), sob o comando de Ja’far ibn Abû Tâlib, embarcaram em dois navios fornecidos pelo Najâshî e desembarcaram no porto de Jâr. Dali, montados em camelos, vieram a Medina. Nosso Profeta alegrou-se muito ao ver chegar, sob o comando de Ja’far ibn Abû Tâlib, os seus Companheiros que doze anos antes haviam emigrado para a Abissínia. Beijou Ja’far na testa, apertou-o ao peito e disse:

“Ó meus Companheiros! Retirai as mãos desta comida! Pois esta carne da espádua informou-me que está envenenada” Hadîth sharîf

“Não sei se hei de me alegrar com a Conquista de Khaybar ou com a chegada de Ja’far. A vossa Hégira é dupla: emigrastes tanto para a terra da Abissínia como para a minha terra.” Entregaram a Rasûlullah os presentes e a carta enviados pelo Najâshî Ashama. As bodas com nossa mãe Umm Habîba também se celebraram nesse ano. Nossa mãe Umm Habîba tinha então trinta e seis anos. Os despojos obtidos em Khaybar foram repartidos entre todos os Companheiros que participaram do tratado de Hudaybiya, os que participaram da Conquista de Khaybar, os Companheiros que voltaram da Hégira da Abissínia e a tribo de Daws, que tomou parte na conquista.15

Com a Conquista de Khaybar, todos os judeus da Arábia passaram a estar sob as ordens de nosso Mestre, o Profeta. Já não tinham possibilidade de ajudar os politeístas. As tribos e os Estados vizinhos compreenderam também quão poderosos eram os muçulmanos, que haviam tomado a fortaleza de Khaybar, cuja conquista, pelas armas e pelos soldados, parecia impossível, e começaram a precaver-se diante deste Estado do Islã. Os politeístas de Meca, com a Conquista de Khaybar, caíram em grande tristeza e desespero. Depois desta vitória, muitíssimas tribos, pequenas e grandes, vieram a Madîna al-Munawwara para se tornarem muçulmanas e tiveram a honra de estar entre os Companheiros – até mesmo os de Ghatafân… Algumas tribos que não se emendaram foram submetidas pelo envio de tropas.