A BATALHA DE UHUD
Terceiro ano da Hégira, mês de Shawwâl… Os politeístas de Meca não só não haviam tirado lição da derrota sofrida na Batalha de Badr, como também não conseguiam de modo algum esquecer a sua amargura. Quraysh perdera nessa batalha muitos de seus notáveis. Além disso, o fato de a rota comercial da Shâm (Síria) ter passado ao controle dos muçulmanos deixava-os fora de si.
A caravana comercial chefiada por Abû Sufyân voltara a Meca com cem por cento de lucro. Como a maioria dos que haviam contribuído com capital morrera na Batalha de Badr, o lucro da caravana era guardado no edifício chamado Dâr an-Nadwa, onde os politeístas se reuniam para tomar decisões.
Os que haviam perdido em Badr os pais, os irmãos, os maridos e os filhos – como Safwân ibn Umayya, Ikrima ibn Abû Jahl e Abdullah ibn Rabî’a – foram a Abû Sufyân e disseram: “Os muçulmanos mataram os nossos grandes. Arruinaram-nos. Chegou a hora de nos vingarmos deles. Preparemos um exército com o lucro da caravana. Ataquemos Medina e tomemos a nossa vingança!”
Como kâfirs ferozes como Abû Jahl, Utba e Shayba já haviam sido mortos, à frente dos politeístas estava Abû Sufyân, que ainda não se tornara muçulmano. O comércio com a Síria rendera cem mil moedas de ouro. Metade era capital e metade lucro. O capital foi logo distribuído aos seus donos; o lucro foi dividido em duas partes: com uma metade compraram armas e com a outra reuniram soldados. Deu-se dinheiro também aos poetas e aos oradores. Os oradores e os poetas, para inflamar o povo e incitá-lo à guerra, recitavam poemas e elegias, e as mulheres acompanhavam-nos tocando pandeiros e tambores. Os politeístas, cujo objetivo era expulsar os muçulmanos de Medina, eliminar nosso amado Profeta e aniquilar o Islã, percorreram também as tribos vizinhas e reuniram soldados.
Por fim, preparou-se em Meca um grande exército de 3.000 homens. Deles, 700 usavam couraça e 200 eram cavaleiros; tinham, além disso, 3.000 camelos. Esse grande exército, do qual participavam também músicos e mulheres, era comandado por Abû Sufyân. Sua mulher, Hind, estava à frente das mulheres e ia muito longe em incitar os politeístas à guerra, pois na Batalha de Badr perdera o pai e dois irmãos. Não conseguia esquecer essa dor e calava os que não queriam que as mulheres participassem da guerra, dizendo: “Lembrai-vos da Batalha de Badr! Fugistes de Badr para voltar para as vossas mulheres e os vossos filhos!.. Daqui em diante, os que quiserem fugir nos encontrarão diante de si!..” Desse modo, provocava os coraixitas e com todas as suas forças os incitava à guerra.1
Jubayr ibn Mut’im, um dos politeístas, tinha um escravo chamado Wahshî, muito hábil em lançar a lança. Era um atirador certeiro, que acertava tudo o que mirava. Como Hamza havia matado em Badr Utba, o pai de Hind, e Tuayma, o tio de Jubayr, Hind e Jubayr ardiam num terrível fogo de vingança contra ele. Jubayr disse a seu escravo Wahshî:
“Se matares Hamza, eu te libertarei e te deixarei livre!” E Hind prometeu: “Se o matares, eu te darei muito ouro e muitas joias!”2
“Uhud nos ama, e nós o amamos” Hadîth sharîf
O exército de Quraysh, tendo concluído todos os preparativos, desfraldou os estandartes: deram um a Talha ibn Abû Talha, outro a um dos Ahâbîsh e outro a Sufyân, filho de Uwayf.
Em Meca os preparativos estavam concluídos. Abbâs enviou imediatamente a Medina, por um homem de confiança, uma carta. Nela informava que os politeístas haviam formado um exército de três mil homens, dos quais setecentos com couraça e duzentos a cavalo, e que tinham três mil camelos e armas sem conta. Abbâs comunicava também que o exército estava prestes a pôr-se a caminho e pedia que se tomassem medidas de acordo com isso.
Então nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), encarregou alguns de seus Companheiros de examinar a situação. Esses Companheiros partiram em direção a Meca. No caminho, souberam que o exército dos politeístas vinha chegando e puseram-se a recolher informações. Concluíram rapidamente a tarefa e voltaram às pressas a Medina. O que tinham visto e apurado concordava com a carta recebida.
O Mestre dos mundos começou imediatamente os preparativos. Além disso, para não ser surpreendido por um ataque repentino, tomou precauções colocando sentinelas ao redor de Medina. Os Companheiros reuniram-se em pouco tempo e concluíram os seus preparativos. Despediram-se dos que ficavam em casa, pediram-se perdão mutuamente e reuniram-se ao redor do Sultão dos profetas.
Era sexta-feira. Nosso Mestre, o Profeta, conduziu para os seus Companheiros o namâz de sexta-feira. Na khutba, insistiu na importância de fazer jihâd para difundir a religião de Allahu ta’âlâ e de combater no caminho de Allah. Anunciou a boa nova de que os que morressem nesse caminho seriam mártires e iriam para o Paraíso. Informou que Allahu ta’âlâ ajudaria os que se mantivessem firmes diante do inimigo e enfrentassem as dificuldades.
Rasûl-i akram disse que queria consultar os seus Companheiros sobre o lugar onde se devia combater, e contou um sonho que tivera naquela noite. Disse: “Em meu sonho, vi-me dentro de uma couraça sólida. Vi que se abrira uma brecha no fio de minha espada Dhulfiqâr, vi um boi degolado e, depois, que traziam um carneiro.” Quando os Companheiros perguntaram: “Yâ Rasûlallah! Como interpretaste este sonho?”, ele disse: “Vestir uma couraça sólida indica Medina, indica permanecer em Medina. Ficai lá…
Ter visto abrir-se uma brecha no fio de minha espada indica que sofrerei um dano. O boi degolado indica que alguns de meus Companheiros cairão mártires. Quanto ao carneiro trazido depois, o carneiro indica uma tropa militar que Janâb-i Haqq, inshâallah, aniquilará.”
Em outra narração ele disse: “Em meu sonho, bati com a espada no chão e o seu fio se quebrou. Isto indica que, no dia de Uhud, alguns de meus Companheiros cairão mártires. Bati de novo com a espada no chão, e ela voltou ao seu estado anterior, perfeito. Isto indica que virá de Allahu ta’âlâ uma vitória e que os crentes se reunirão.”
Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam), nos assuntos que não lhe eram comunicados por revelação, consultava os seus Companheiros e agia de acordo com isso. Sobre onde se devia enfrentar o inimigo, alguns Companheiros disseram: “Fiquemos em Medina e façamos uma guerra de defesa.” Essa proposta estava também de acordo com o desejo de nosso Mestre, o Profeta. Os grandes dentre os Companheiros, como Abû Bakr, Umar e Sa’d ibn Mu’âdh (radiyallahu anhum), pensavam como nosso Mestre, o Profeta. Mas os Companheiros jovens e valentes que não haviam podido estar na Batalha de Badr, toda vez que ouviam de nosso Mestre, o Profeta, a recompensa e o sawâb3 que haviam ganhado os Companheiros que participaram da Batalha de Badr, e os altos graus alcançados pelos mártires de Badr, entristeciam-se extremamente por não terem estado naquela batalha. Por isso queriam enfrentar o inimigo fora de Medina e combater peito a peito. Hamza, Nu’mân ibn Mâlik e Sa’d ibn Ubâda eram desses. Haythama pediu licença e disse: “Yâ Rasûlallah! Os politeístas coraixitas reuniram soldados de várias tribos árabes. Montaram em seus camelos e cavalos e entraram em nossas terras. Vão cercar-nos em nossas casas e fortalezas e depois voltarão e irão embora. Pelas nossas costas, dirão muitas coisas. Isso fará crescer a sua ousadia, e organizarão novos ataques. Se agora não sairmos ao seu encontro, as outras tribos árabes também porão os olhos em nós. Espero que Allahu ta’âlâ nos conceda a vitória sobre os politeístas.
E se acontecer a segunda, que é o martírio, Badr privou-me dele. Eu o desejava ardentemente. Meu filho, quando soube que eu queria participar da Batalha de Badr, tirou a sorte comigo. Ele foi mais afortunado do que eu: alcançou a honra do martírio.
Yâ Rasûlallah! Tenho grande saudade do martírio. Ontem à noite vi em sonho o meu filho, com uma bela aparência. Andava entre os jardins e os rios do Paraíso e dizia-me: ‘Junta-te à gente do Paraíso! Eu alcancei a verdade que Allahu ta’âlâ prometeu!’
Yâ Rasûlallah! Por Allah, desde esta manhã comecei a desejar intensamente ser companheiro de meu filho no Paraíso. Minha idade também já avançou. Não me resta outro desejo senão encontrar o meu Senhor.
Que a minha vida te seja sacrificada, yâ Rasûlallah! Faze dua a Allahu ta’âlâ para que eu caia mártir e tenha a honra de ser companheiro de meu filho no Paraíso!..”, implorou. Nosso Mestre, o Profeta, não recusou o seu pedido e fez dua para que ele se tornasse mártir.
Vendo que a maioria era dessa opinião, nosso amado Profeta decidiu enfrentar o inimigo fora de Medina. Depois disse: “(Ó meus Companheiros!) Se fordes pacientes e firmes, também desta vez Janâb-i Haqq vos concederá o Seu auxílio. O que nos cabe é mostrar determinação e empenho!”
Depois de conduzir o namâz da tarde, o Sultão do universo foi para a sua casa bendita e abençoada. Atrás dele, Abû Bakr e Umar entraram, com a sua permissão. Ajudaram Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) a enrolar o turbante e a vestir a couraça. Nosso Mestre cingiu a espada e pôs o escudo às costas.
Enquanto isso, lá fora, os Companheiros haviam se reunido e esperavam por nosso Mestre, o Profeta. Os que queriam ficar em Medina e fazer uma guerra de defesa disseram aos outros: “Rasûlullah não pensava em sair de Medina. Aceitou-o por causa das vossas palavras. Ora, Rasûlullah recebe a ordem de Allahu ta’âlâ. Deixai este assunto a ele. Fazei o que ele ordenar.” Os outros também se arrependeram do que haviam feito e desistiram dessa ideia, dizendo: “Não nos oponhamos a Rasûl-i akram.” Quando nosso amado Profeta saiu de sua casa bendita, foram à sua presença e pediram desculpas, dizendo: “Que as nossas vidas te sejam sacrificadas, yâ Rasûlallah! Faze como quiseres. Se quiseres ficar em Medina, fiquemos. Refugiamo-nos em Janâb-i Haqq de nos opormos à tua ordem.”
“Não falteis ao respeito aos meus Companheiros! Ainda que désseis em sadaqa ouro do tamanho do monte Uhud, não alcançaria o sawâb de um punhado de cevada que eles deram em sadaqa!” Hadîth sharîf
Habîb-i akram disse: “Um profeta não tira a couraça que vestiu sem combater, até que Allah julgue entre ele e o seu inimigo. O meu conselho para vós é este: se fizerdes o que vos ordeno e, lembrando o nome de Allahu ta’âlâ, fordes pacientes e firmes, Allahu ta’âlâ vos ajudará…”
Nesse momento, Amr ibn Jamûh, em sua casa, dizia a seus quatro filhos: “Meus filhos! Levai-me também a esta expedição!” Os filhos, por sua vez, tentavam convencer o pai, dizendo: “Papai! Por causa da deficiência de teu pé, Allahu ta’âlâ te considerou dispensado. Rasûlullah te considerou dispensado. Não és obrigado a sair para o jihâd. Nós iremos em teu lugar!” Mas Amr disse: “Que vergonha ter filhos como vós! Também na Batalha de Badr, dizendo isso mesmo, impedistes-me de ganhar o Paraíso. Também desta expedição ides privar-me?..” Depois foi à presença de nosso amado Profeta e disse: “Que a minha vida te seja sacrificada, yâ Rasûlallah! Meus filhos, apresentando várias desculpas, querem privar-me desta expedição. Por Allah, eu quero sair contigo nesta expedição e ter a honra de entrar no Paraíso. Yâ Rasûlallah! Não achas justo que eu combata no caminho de Allah e, caindo mártir, ande no Paraíso com estes meus pés coxos?” O Orgulho do mundo disse: “Sim, acho justo.” Amr ibn Jamûh, muito alegre com isso, preparou-se e juntou-se ao exército.4
Para conduzir o namâz em Medina foi deixado Abdullah ibn Umm Maktûm.5
O Sultão dos mensageiros atou três estandartes. Deu um a Hubâb ibn Mundhir, outro a Usayd ibn Hudayr e o terceiro a Mus’ab ibn Umayr. No exército, de cerca de mil homens, havia dois cavaleiros e cem homens com couraça.6
Na sexta-feira, depois do namâz da tarde, ao som dos takbîrs “Allahu akbar!”, nosso amado Profeta pôs-se a caminho de Uhud como quem vai a uma festa de bayram. À frente iam Sa’d ibn Ubâda e Sa’d ibn Mu’âdh, vestidos de couraça; à direita, os Muhâjir, e à esquerda, os Ansâr.
No caminho encontraram uma tropa de seiscentos homens, formada por judeus. Eram aliados de Abdullah ibn Ubayy ibn Salûl, o chefe dos hipócritas, e queriam juntar-se ao exército islâmico. Nosso Mestre, o Profeta, perguntou: “Eles se tornaram muçulmanos?” Responderam: “Não, yâ Rasûlallah.” Então ele disse: “Ide e dizei-lhes que voltem. Pois nós, contra os politeístas, não pedimos ajuda aos kâfirs.” Nabiyy-i muhtaram (sallallahu alaihi wa sallam) chegou ao lugar chamado Shaykhayn, entre Medina e Uhud. Ali pararam para passar a noite. O sol ainda não se pusera. No exército havia também Companheiros ainda crianças, que queriam combater o inimigo e alcançar o grau do martírio. Ao passar ali o exército em revista, nosso amado Profeta viu que havia cerca de dezessete crianças.
Entre elas, Râfi ibn Khadîj ficava na ponta dos pés para parecer mais alto. Quando Zuhayr disse: “Yâ Rasûlallah! Râfi atira bem com o arco”, aceitaram-no no exército. Ao ver isso, Samura ibn Jundub disse: “Eu posso vencer Râfi na luta. Por isso quero também participar da expedição.” Nosso Mestre, o Profeta, sorriu e fez os dois lutarem. Quando Samura venceu Râfi, aceitaram-no também entre os mujâhids. As outras crianças foram mandadas de volta a Medina para proteger os que lá estavam.7
O adhân do namâz do pôr do sol e o da noite foram recitados por Bilâl Habashî, com sua voz comovente. Depois de conduzir o namâz, nosso amado Profeta pôs Muhammad ibn Maslama à frente de uma tropa de cinquenta homens e ordenou-lhes que montassem guarda até o amanhecer. Os Companheiros recolheram-se para descansar. Naquela noite, a honra de montar guarda à cabeceira de nosso Mestre, o Profeta, coube a Dhakwân.
Entretanto, o exército inimigo soube que o exército islâmico se recolhera para descansar em Shaykhayn e encarregou uma tropa de cavalaria, sob o comando de Ikrima, de patrulhar a área. Ikrima, que ainda não se tornara muçulmano, aproximou-se com a sua tropa do exército islâmico até o lugar chamado Harra, mas, temendo a patrulha dos mujâhids, retirou-se. Depois da aurora, o Mestre dos mundos acordou os seus Companheiros. Chegaram ao monte Uhud. Dali os dois exércitos podiam ver-se. Bilâl Habashî recitou o adhân do namâz da manhã com sua voz comovente, que inflamava as almas e derretia os corações. Os mujâhids, armados, fizeram o namâz atrás de nosso amado Profeta e fizeram as suas duas. O Sultão do universo vestiu por cima uma segunda couraça e pôs na cabeça abençoada o elmo.
Nesse momento, Abdullah ibn Ubayy, o chefe dos hipócritas, dizendo: “Viemos aqui para nos deixar matar? Como não percebemos isso desde o início?”, abandonou o exército islâmico com cerca de 300 hipócritas e voltou para Medina.
O número dos que criam, unidos de coração, dispostos a dar a vida e a cabeça neste caminho sem pestanejar, e ansiosos por alcançar o grau do martírio, era de cerca de setecentos. Todos deram a palavra de proteger nosso amado Profeta até a última gota de seu sangue.
O mestre dos profetas (sallallahu alaihi wa sallam) pôs os mujâhids em ordem de batalha. Dispôs o exército de modo que a sua retaguarda ficasse voltada para o monte Uhud e a frente para Medina.
“Um profeta não tira a couraça que vestiu sem combater, até que Allah julgue entre ele e o seu inimigo” Hadîth sharîf
A Batalha de Uhud
Nomeou comandante da ala direita Ukkâsha ibn Mihsan, e da ala esquerda Abû Salama ibn Abdulasad. Sa’d ibn Abû Waqqâs e Abû Ubayda ibn Jarrâh tomaram posição na frente, à cabeça das tropas de arqueiros. À frente das tropas com couraça pôs-se Zubayr ibn Awwâm, e à frente das tropas sem couraça, que iam adiante, Hamza. A Miqdâd ibn Amr foi dado o encargo de comandar as tropas da retaguarda.
Amava as pessoas só por Allah, e só por Allah as detestava;
nem amigo nem inimigo foi por si mesmo, aquela mina de generosidade.
Nunca riu às gargalhadas, nunca injuriou coisa alguma;
de fala doce e rosto sorridente era a cada instante, aquela mina de generosidade.
Adornado de pudor e brandura, de bondade e de respeito,
nunca deixava em lágrimas quem vinha suplicar, aquela mina de generosidade.
No lado esquerdo do exército islâmico ficava a colina de Aynayn. Nessa colina havia uma passagem estreita. Rasûl-i akram colocou nessa passagem cinquenta arqueiros, sob o comando de Abdullah ibn Jubayr. Os arqueiros tomaram as suas posições na passagem. Nosso amado Profeta foi até eles e deu-lhes esta ordem categórica:
“Protegei-nos pela retaguarda. Ficai em vossas posições e de modo algum vos afasteis daqui. Ainda que vejais que vencemos o inimigo, enquanto não vos avisarmos, enquanto não vos mandarmos alguém, de modo algum deixeis os vossos lugares. Ainda que vejais que o inimigo nos vai matar ou que nos matou, não venhais ajudar-nos.
Não tenteis proteger-nos deles. Sempre que os cavaleiros inimigos se voltarem contra vós, atirai-lhes flechas, pois os cavaleiros não conseguem avançar contra as flechas lançadas. Ó Allah! Tomo-Te por testemunha de que lhes comuniquei isto!” Depois de repetir essas ordens várias vezes, nosso amado Profeta disse: “Ainda que vejais as aves disputando os nossos cadáveres, enquanto eu não vos mandar alguém, de modo algum deixeis o vosso lugar.8 Ainda que vejais que destroçamos os kâfirs e os pisamos sob os nossos pés, enquanto eu não vos mandar aviso, de modo algum abandoneis o vosso lugar!..” Depois afastou-se dali e pôs-se à frente do exército.
Entregou o estandarte a Mus’ab ibn Umayr. Mus’ab, com o estandarte na mão, tomou a sua posição diante de nosso Mestre, o Profeta.9 Nesse momento, Hanzala, recém-casado, chegou às pressas de Medina a Uhud e juntou-se às fileiras dos mujâhids.
O exército dos politeístas, que chegara a Uhud três dias antes, era comandado por Abû Sufyân. Eles se posicionaram de modo a ficar com Medina às suas costas. Os cavaleiros da ala direita seriam comandados por Khâlid ibn Walîd, e os da ala esquerda por Ikrima. Narra-se que também Safwân ibn Umayya assumiu um posto à frente das tropas de cavalaria. O estandarte dos politeístas era levado por Talha ibn Abû Talha.
O equilíbrio de forças entre os dois exércitos era muito desigual. O exército de Quraysh, em número, armas e equipamento, era mais de quatro vezes maior que o exército islâmico.
No exército de Quraysh, o barulho e a algazarra não cessavam; as mulheres, com os olhos transtornados pela sede de vingança, tocavam pandeiros e tambores, cantavam canções incitando os soldados à guerra e pediam ajuda aos ídolos que adoravam.
Do lado dos mujâhids, ao contrário, faziam-se duas e proferiam-se takbîrs: “Allahu akbar! Allahu akbar!..”, e pedia-se a Allahu ta’âlâ auxílio para que a religião do Islã fosse protegida e difundida.
Nosso amado Profeta incitava os seus valentes Companheiros ao jihâd, a combater no caminho de Janâb-i Haqq, e, falando-lhes do sawâb que ganhariam nesse caminho, dizia: “Ó meus Companheiros! Para os que são poucos em número, combater o inimigo é difícil. Se eles mostrarem firmeza e empenho, Allahu ta’âlâ lhes dá alívio. Pois Allahu ta’âlâ está com os que Lhe obedecem… Pedi a recompensa que Allahu ta’âlâ vos prometeu…” Também nos versículos sagrados relativos à Batalha de Uhud foi dito, em sentido: “(Ó crentes!) Obedecei a Allahu ta’âlâ e ao Seu Rasûl (no que ordenam), para que sejais objeto de misericórdia.
Correi (como se fosse, por isso, uma competição) para pedir o perdão de vosso Senhor e para o Paraíso, cuja largura é como a dos céus e da terra, preparado para os que temem a Allahu ta’âlâ. (Esses tementes) dão os seus bens no caminho de Allah, na abundância e na escassez. Sabem conter a sua cólera e perdoam as pessoas. Allahu ta’âlâ ama os que praticam o ihsân (o bem).”10
“A recompensa desses é o perdão de seu Senhor e Paraísos sob cujas árvores correm rios. Neles permanecerão eternamente. Quão bela é a recompensa dos que assim agem, dos que obedecem a Allahu ta’âlâ e ao Seu Rasûl!”11
“Ainda que vejais que destroçamos os kâfirs e os pisamos sob os nossos pés, enquanto eu não vos mandar aviso, de modo algum abandoneis o vosso lugar!..” Hadîth sharîf
Os Companheiros, com o coração cheio de îmân, os olhos lançando faíscas de coragem e ardendo no desejo de cair mártires, não conseguiam ficar em seus lugares e esperavam a ordem para lançar-se quanto antes sobre o inimigo. Como na Batalha de Badr, Alî atou à cabeça um turbante branco, Zubayr ibn Awwâm um amarelo e Abû Dujâna um vermelho. Hamza pôs também o seu penacho, feito de penas de avestruz. Os dois exércitos aproximaram-se bastante um do outro. A tensão chegara ao auge.
Dentro em pouco ia começar uma grande batalha campal: de um lado, os mujâhids do Islã, que não hesitavam de modo algum em combater os seus parentes mais próximos para difundir a religião de Allahu ta’âlâ; do outro, os inimigos do Islã, obstinados em seus caminhos falsos.
Quando chegaram à distância de um tiro de flecha, um politeísta de couraça, fazendo avançar o seu camelo das fileiras inimigas, desafiou os mujâhids para um duelo. Julgando que todos tinham medo dele, repetiu o desafio três vezes. Viu-se então que um mujâhid valente, alto e de turbante amarelo, saía a pé do exército islâmico e avançava para o campo. Era Zubayr ibn Awwâm (radiyallahu anh), filho da tia paterna de nosso Mestre, o Profeta. Do exército islâmico erguiam-se os brados “Allahu akbar!..”, e fazia-se dua pela vitória de Zubayr. Viu-se que Zubayr ibn Awwâm, mal se aproximou do politeísta, saltou sobre o camelo dele. Em cima do camelo começou uma luta terrível. Nesse momento ouviu-se nosso amado Profeta dizer: “Derruba-o no chão!” Zubayr, mal recebeu essa ordem, empurrou o adversário para baixo. Em seguida saltou também ele e desferiu a espada contra o seu pescoço. A cabeça do politeísta, com o elmo, separou-se do corpo encouraçado. Nosso Mestre fez dua por Zubayr.
Depois, o porta-estandarte dos politeístas, Talha ibn Abû Talha, lançou-se ao campo e gritou: “Há entre vós alguém que saia contra mim?” Saiu-lhe ao encontro o leão de Allahu ta’âlâ, Alî. Com um só golpe, rachou até o queixo a cabeça do porta-estandarte politeísta, coberto de couraça da cabeça aos pés. Ao ver isso, nosso amado Profeta proferiu o takbîr: “Allahu akbar!.. Allahu akbar!..” Quando os Companheiros também se juntaram a ele, os brados de takbîr fizeram ressoar a terra e o céu.12
Ao ver cair por terra o estandarte dos politeístas, Uthmân ibn Abû Talha, irmão de Talha, correu para o campo. Erguendo o estandarte, pediu um adversário. Contra ele saiu Hamza. Dizendo “Ó Allah!”, desferiu tal golpe de espada no ombro de Uthmân que o politeísta, com o braço que segurava o estandarte decepado, caiu por terra e expirou.13
Desta vez, ao ver de novo cair por terra o estandarte dos politeístas, Abû Sa’d ibn Abû Talha avançou a pé para o campo. Também ele estava coberto de couraça da cabeça aos pés. Levantou do chão o estandarte do kufr e, voltando-se para o exército islâmico, começou a gritar: “Eu sou o pai de Qusam. Quem pode sair contra mim?” Nosso Mestre, o Profeta, mandou de novo Alî contra ele. Alî matou também esse politeísta e, depois de derrubar por terra o seu estandarte, retomou o seu lugar nas fileiras dos mujâhids.
Depois disso, muitos politeístas, um após outro, saíram ao campo, ergueram o estandarte caído e pediram aos mujâhids um valente que os enfrentasse. Mas, todas as vezes, com a permissão de Allahu ta’âlâ, os valentes Companheiros saíram vencedores. Cada vez que um porta-estandarte era morto, erguiam-se do exército islâmico os brados de takbîr, e uma grande tristeza e desesperança abatia-se sobre as fileiras inimigas. Até as mulheres dos politeístas, cuja algazarra subia aos céus, de um lado insultavam os seus próprios soldados, dizendo: “Que vergonha para vós!..”, e de outro os incitavam à luta, dizendo: “Que esperais ainda?..”
Quem dará a esta espada o que lhe é devido?
Num momento em que nenhum dos dois lados conseguia ficar em seu lugar, nosso amado Profeta mostrou a espada que tinha na mão. Nela estava escrito este verso:
Na covardia há vergonha; em avançar, honra e prestígio.
O homem, por ter medo, não escapa ao destino.
E ouviram-no dizer: “Quem toma de mim esta espada?” Ao ouvir isso, muitos dos Companheiros estenderam as mãos ao mesmo tempo para tomá-la. Quando nosso Profeta disse de novo: “Quem a toma para lhe dar o que lhe é devido?”, os Companheiros calaram-se e recuaram. Dentre os que pediam a espada com ardor, Zubayr ibn Awwâm disse: “Eu a tomo, yâ Rasûlallah.” Nosso Profeta não deu a espada a Zubayr. Também os pedidos de Abû Bakr, Umar e Alî (radiyallahu anhum) não foram aceitos por nosso Profeta.
Abû Dujâna perguntou: “Yâ Rasûlallah! Qual é o direito desta espada?” Nosso amado Profeta disse: “O seu direito é golpear com ela o inimigo até que se entorte e se dobre. O seu direito é não matares com ela um muçulmano e não fugires com ela diante dos kâfirs. É combateres com ela no caminho de Allah, até que Allahu ta’âlâ te conceda a vitória ou o martírio.” Então Abû Dujâna disse: “Yâ Rasûlallah! Eu a tomo para lhe dar o que lhe é devido.” Nosso Profeta entregou-lhe a espada que tinha na mão.14
Abû Dujâna (radiyallahu anh), além de ser muito corajoso e valente, agia com muita astúcia nos campos de batalha e observava sem falha o hadîth sharîf “A guerra é astúcia”15. Ao receber a espada, Abû Dujâna pôs-se a caminhar para o campo de batalha com passo altivo, grave e orgulhoso, recitando versos. Não trazia sobre si mais que uma camisa e, na cabeça, o seu turbante vermelho.
Esse modo de andar de Abû Dujâna não foi bem visto entre os Companheiros. Então nosso Mestre, o Profeta, disse: “Este é um andar que, fora destes lugares (dos campos de batalha), é causa da ira de Allahu ta’âlâ”, e assim ensinou que o andar altivo só é permitido diante do inimigo.
Das fileiras dos politeístas, Khâlid ibn Walîd, que não conseguia esperar mais, lançou-se ao ataque com as tropas sob o seu comando. Nosso amado Profeta também deu a ordem de ataque aos Companheiros, que não conseguiam ficar em seus lugares. Num instante, o campo de batalha encheu-se dos brados “Allahu akbar!”. À frente de todos, comandando as tropas sem couraça, Hamza começou a golpear com as espadas que tinha nas mãos todo kâfir que lhe aparecia. As tropas de Khâlid ibn Walîd, que vinham com grande fúria, foram imediatamente repelidas. Então Khâlid ibn Walîd, para atacar pela retaguarda através da passagem da montanha, deu uma grande volta e chegou à colina de Aynayn. Mas Abdullah ibn Jubayr e os cinquenta valentes sob o seu comando repeliram-nos com uma chuva de flechas.
Agora a batalha esquentara. Os dois lados combatiam com todas as forças. Cada Companheiro lutava com pelo menos quatro politeístas, esforçando-se por avançar.
“Ó meus Companheiros! Para os que são poucos em número, combater o inimigo é difícil. Se eles mostrarem firmeza e empenho, Allahu ta’âlâ lhes dá alívio” Hadîth sharîf
Hamza, de um lado, bradava: “Allahu akbar! Allahu akbar!”, e de outro dizia: “Eu sou o leão de Allahu ta’âlâ!”, e avançava destroçando o inimigo. Safwân ibn Umayya, dizendo aos que o cercavam: “Onde está Hamza? Mostrai-o a mim”, examinava o campo de batalha. De repente, os seus olhos caíram sobre alguém que combatia com duas espadas, e ele perguntou: “Quem é este que combate?” Os que estavam à sua volta disseram: “É o homem que procuras! Hamza!” Safwân disse: “Até hoje não vi outro homem tão impetuoso e tão destemido como ele, lançando-se a matar a sua própria gente.”
Quando a batalha estava no auge, Zubayr ibn Awwâm, dos Muhâjir, aborrecido por não lhe ter sido dada a espada, disse consigo mesmo: “Pedi a espada a Rasûlullah, mas ele a deu a Abû Dujâna. E eu sou filho de Safiyya, a tia paterna dele. Além disso, sou de Quraysh. E fui eu o primeiro a pedi-la. Vou ver o que Abû Dujâna fará mais do que eu.” Depois começou a seguir Abû Dujâna. Abû Dujâna proferia o takbîr, dizendo “Allahu akbar!”, e matava a golpes todo politeísta que encontrava. Um dos politeístas mais ferozes, de corpo enorme, todo coberto de couraça, de modo que só se lhe viam os olhos, encontrou-se com Abû Dujâna. Primeiro foi ele que atacou Abû Dujâna. Abû Dujâna protegeu-se do golpe com o escudo. A espada do politeísta cravou-se no escudo de Abû Dujâna. Ele puxou a espada, mas não conseguiu arrancá-la. Agora era a vez de Abû Dujâna. Com um só golpe de espada matou o adversário.
Depois disso, Abû Dujâna, derrubando todo descrente que lhe saía ao encontro, chegou até junto das mulheres que, na encosta do monte, incitavam os politeístas com os seus pandeiros. Mas, já com a espada erguida, desistiu de matar Hind, a mulher de Abû Sufyân.16 Ao ver isso, Zubayr ibn Awwâm disse consigo mesmo: “Allah e o Seu Rasûl sabem melhor do que eu a quem devia ser dada a espada.” E acrescentou: “Por Allah, não vi ninguém que combatesse e golpeasse melhor do que ele.”
Miqdâd ibn Aswad, Zubayr ibn Awwâm, Alî, Umar, Talha ibn Ubaydullah, Mus’ab ibn Umayr – todos eles eram como fortalezas inexpugnáveis. Os gloriosos Companheiros, vendo que nosso Mestre, o Profeta, combatia muito perto do inimigo e atacava uma e outra vez, não conseguiam ficar em seus lugares. Temendo que algum mal atingisse Rasûlullah, reuniam-se à sua volta e não davam trégua ao inimigo coberto de couraças. Nesse momento, viu-se que Abdullah ibn Amr caíra mártir. Foi o primeiro mártir de Uhud. Seus companheiros, ao vê-lo cair mártir, tornaram-se como leões e, pela satisfação de Allahu ta’âlâ, lançaram-se ao meio do inimigo.
Num momento em que a batalha estava muito acesa, encontraram-se Abdullah ibn Jahsh, símbolo da bravura, e Sa’d ibn Abû Waqqâs, o mestre dos arqueiros. Ambos estavam feridos em várias partes do corpo. Sa’d ibn Abû Waqqâs conta: “Em Uhud, era um momento violento da batalha. De repente, Abdullah ibn Jahsh chegou-se a mim, tomou-me pela mão e puxou-me para o pé de uma rocha. E disse-me: ‘Agora faze tu aqui uma dua, e eu direi “Âmîn”. Depois eu farei dua, e tu dirás “Âmîn”!’ Eu disse: ‘Está bem.’ Fiz esta dua: ‘Ó Allah! Envia-me inimigos muito fortes e duros. Que eu combata com eles sem piedade. Que eu mate todos eles. Que eu volte como ghâzî (vencedor).’ A esta minha dua ele disse de todo o coração: ‘Âmîn.’
Depois ele mesmo começou a fazer dua: ‘Ó Allah! Envia-me inimigos duros, que eu combata com eles sem piedade. Que eu dê ao jihâd o que lhe é devido. Que eu mate todos eles. No fim, que um deles me faça mártir. Depois, que me corte os lábios, o nariz e as orelhas. Que eu chegue à Tua presença banhado em sangue. E quando Tu perguntares: “Abdullah! Que fizeste dos teus lábios, do teu nariz e das tuas orelhas?”, que eu diga: “Ó Allah! Com eles cometi muitas faltas; não os usei como devia. Tive vergonha de trazê-los à Tua presença. Numa batalha em que estava o meu amado Profeta, cobri-me de pó e de terra, e assim vim.”’ O meu coração não queria dizer “Âmîn” a uma dua assim. Mas, como ele o queria e eu dera antes a minha palavra, disse “Âmîn” a contragosto.
Depois, desembainhamos as espadas e continuamos a combater. Nós dois matávamos quem nos aparecia pela frente. Ele atacava com extrema bravura e desbaratava as fileiras inimigas. Golpeava o inimigo uma e outra vez e voltava a lançar-se ao ataque com um desejo inesgotável de cair mártir. Quando combatia bradando ‘Allahu akbar! Allahu akbar!..’, a sua espada quebrou-se. Nesse instante, nosso amado Profeta estendeu-lhe um ramo de tamareira e ordenou-lhe que continuasse a combater. Esse ramo, por milagre, tornou-se uma espada, e ele continuou a combater todo aquele que lhe aparecia pela frente. Matou muitíssimos inimigos. Perto do fim da batalha, pelas flechas lançadas por um politeísta chamado Abul-Hakam, alcançou o martírio que desejava. Quando caiu mártir, os kâfirs lançaram-se sobre o seu corpo e cortaram-lhe o nariz, os lábios e as orelhas. Ficou todo tingido de sangue.”
Nas fileiras dos mujâhids havia um homem chamado Quzmân. Quebrou a bainha da espada e, dizendo: “Morrer é muito melhor do que fugir!”, lançou-se de espada nua entre os politeístas. Quzmân mostrou muita bravura e heroísmo. Sozinho matou sete ou oito kâfirs. Por fim, ferido, caiu por terra. Os Companheiros, admirados com esse seu heroísmo, contaram-no a nosso Mestre, o Profeta, e ele disse: “Ele é gente do Inferno.” Qatâda ibn Nu’mân foi até Quzmân e disse: “Ó Quzmân! Que o martírio te seja abençoado!” Quzmân respondeu: “Eu não combati por zelo da religião, mas para que os coraixitas não viessem a Medina arruinar o meu tamaral!” Depois furou com uma flecha as veias do pulso e suicidou-se. Assim se compreendeu a sabedoria das palavras de nosso Mestre, o Profeta: “Ele é gente do Inferno!”
Desde o início da batalha, todos os Companheiros, a começar pelo Mestre dos mundos, nosso amado Profeta, travaram uma grande luta. Com ataques violentos repeliram o exército dos politeístas. O bando dos politeístas, que pedia proveito e auxílio aos ídolos que haviam feito de pedra e de madeira e que adoravam dizendo “Lât, Uzzâ, Hubal!”, desbaratou-se diante desse heroísmo dos mujâhids e começou a fugir. As mulheres, que tinham vindo para incitá-los à guerra, soltando gritos lancinantes, tentavam alcançar os soldados em fuga.
Quando os politeístas coraixitas, abandonando o campo de batalha e deixando os bens que haviam trazido consigo, começaram a fugir em direção a Meca, os soldados do Islã, alegres, louvaram a Allahu ta’âlâ por terem alcançado a vitória que Ele lhes prometera. Apesar de sua superioridade, muitas vezes maior em número e em força, os politeístas haviam sido desbaratados diante dos muçulmanos. Enquanto fugiam pisando-se uns aos outros, os gloriosos Companheiros perseguiam-nos e matavam a golpes os que alcançavam. Nessa confusão, Hanzala ibn Abû Âmir, recém-casado, alcançou Abû Sufyân, o comandante-chefe do exército dos politeístas, que tentava fugir a cavalo. Golpeando com a espada as pernas do cavalo, fê-lo cair. Abû Sufyân, caído por terra, começou a gritar com todas as forças: “Ó coraixitas!.. Socorro!.. Eu sou Abû Sufyân! Hanzala quer retalhar-me com a espada!..” Os politeístas que tentavam fugir com ele, embora vissem isso, só pensavam em salvar a própria vida e não se importaram com o seu comandante.
“A guerra é astúcia” Hadîth sharîf
Mas nesse instante o politeísta Shaddâd ibn Aswad, que estava logo atrás de Hanzala, cravou a lança nas costas de Hanzala. Hanzala, dizendo “Allahu akbar!”, quis ainda dar uma investida, mas caiu por terra mártir, e a sua alma abençoada voou para o Paraíso. Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) disse: “Vi os anjos lavarem Hanzala com água da chuva, numa bandeja de prata, entre o céu e a terra.” Abû Usaydî contou: “Quando ouvi essas palavras de Rasûlullah, fui até onde estava Hanzala. Da sua cabeça pingava água da chuva. Voltei e informei disso Rasûl-i akram.” Chamaram Hanzala “Ghasîl al-Malâika”, isto é, aquele a quem os anjos lavaram.17
Ao verem que os politeístas fugiam, alguns dos arqueiros que estavam na passagem de Aynayn, julgando que a batalha acabara, abandonaram os seus postos. O seu comandante, Abdullah ibn Jubayr, e doze homens permaneceram em seus lugares.18
A bravura de Alî
Nesse momento, Khâlid ibn Walîd, comandante da tropa de arqueiros de Quraysh, que esperava alerta e procurava aproveitar toda oportunidade, ao ver que os mujâhids da passagem haviam diminuído, pôs em movimento os cavaleiros sob o seu comando.
Khâlid e Ikrima ibn Abû Jahl chegaram num instante à passagem de Aynayn. Abdullah ibn Jubayr e os seus companheiros leais e fiéis alinharam-se em fileira, bem espaçados. Fizeram chover flechas sobre o inimigo até se esgotarem as flechas de suas aljavas. Depois combateram com as lanças e, quando chegaram ao corpo a corpo, bradando “Allahu akbar! Allahu akbar!”, mostraram muitos feitos de bravura com as suas espadas. Entre os crentes e os descrentes a proporção era muito desigual: um para vinte e cinco. Os gloriosos Companheiros combateram até a última gota de seu sangue para cumprir a ordem de seu Profeta. Um após outro beberam a taça do martírio; os seus corpos abençoados caíram por terra e as suas almas voaram para o Paraíso (radiyallahu anhum).
Os politeístas, por rancor, despiram as roupas de Abdullah e crivaram de lançadas o seu corpo abençoado. Abriram-lhe o ventre e tiraram-lhe as entranhas para fora.
Khâlid ibn Walîd e Ikrima, depois de martirizarem os mujâhids da passagem, atacaram rapidamente o exército islâmico pela retaguarda. Os Companheiros, ao verem o inimigo surgir de repente atrás deles, não tiveram tempo de se reagrupar, pois muitos deles haviam até deposto as armas. Tudo mudou de repente. Os politeístas coraixitas, que iam fugindo à frente, ao verem que Khâlid ibn Walîd passara ao ataque pela retaguarda, voltaram atrás. Os mujâhids ficaram entre dois fogos. O inimigo, atacando pela frente e por trás, começou a apertar os mujâhids. Os Companheiros perderam o contato uns com os outros. Viram-se obrigados a dispersar-se.19
Alî contou: “Lancei-me ao meio de uma tropa de politeístas entre os quais estava também Ikrima ibn Abû Jahl. Cercaram-me; passei a maioria deles a fio de espada. Lancei-me ao meio de outra tropa e também deles pus fora de combate muitíssimos. Como a minha hora ainda não chegara, nada me aconteceu. Por um momento, não consegui ver Rasûlullah. Disse comigo mesmo: ‘Juro que ele não é homem de abandonar o campo de batalha e ir-se embora. Certamente Allahu ta’âlâ, por causa das nossas ações inconvenientes, o retirou do nosso meio e o elevou! Agora não me resta outro caminho senão morrer combatendo’, e quebrei a bainha da minha espada. Quando ataquei os politeístas e os dispersei, vi que Rasûlullah ficara no meio deles. Compreendi então que Allahu ta’âlâ protegia Rasûlullah com os Seus anjos.”
Os soldados inimigos haviam chegado muito perto de Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam). A situação era muito perigosa. Nosso amado Profeta mantinha-se como um monte escarpado, firme, sem arredar do seu lugar. De um lado combatia o inimigo e, de outro, procurando reunir os seus Companheiros dispersos, dizia: “Ó fulano, vem para mim! Ó fulano, vem para mim! Eu sou Rasûlullah.
Para quem voltar para mim há o Paraíso!” Abû Bakr, Umar, Abdurrahmân ibn Awf, Talha ibn Ubaydullah, Alî ibn Abû Tâlib, Zubayr ibn Awwâm, Abû Dujâna, Abû Ubayda ibn Jarrâh, Sa’d ibn Mu’âdh, Sa’d ibn Abû Waqqâs, Hubâb ibn Mundhir, Usayd ibn Hudayr, Sahl ibn Hunayf, Âsim ibn Thâbit e Hârith ibn Simma (radiyallahu anhum) formaram num instante um círculo à volta de nosso amado Profeta e, para protegê-lo, ergueram uma fortaleza viva.
Nesse momento ouviu-se a voz de Abbâs ibn Ubâda, que gritava para reunir os Companheiros dispersos: “Ó meus irmãos! Esta desgraça que nos atingiu é consequência de não termos cumprido a ordem de nosso Profeta. Não vos disperseis! Vinde para junto de nosso Profeta! Se não tomarmos lugar entre os que o protegem e formos causa de que algum mal atinja Rasûlullah, já não teremos desculpa alguma a apresentar diante de nosso Senhor!” Abbâs ibn Ubâda, tendo consigo Khârija ibn Zayd e Aws ibn Arqam, lançou-se de espada nua no meio do inimigo, bradando “Allahu akbar!”. Combateram heroicamente no caminho de Rasûlullah, para protegê-lo. Khârija ibn Zayd recebera dezenove feridas. As dos outros não eram menos que as dele. E os três alcançaram o grau do martírio, que tanto desejavam.
Nesse momento tão perigoso, os Companheiros começaram a reunir-se pouco a pouco à volta de nosso Mestre, o Profeta. Os politeístas cercaram nosso amado Profeta e os seus gloriosos Companheiros, que faziam de seus corpos escudo para ele. Avançando de todos os lados em tropas, apertavam o cerco. O Mestre dos mundos, ao ver que um grupo de coraixitas se lançava para a frente, disse aos Companheiros que estavam junto dele, prontos a sacrificar a vida: “Quem enfrenta esta tropa?”, e viu-se Wahb ibn Qâbûs lançar-se à frente, dizendo: “Que a minha vida te seja sacrificada, yâ Rasûlallah! Eu a enfrento!” Esse valente, que não deixava de ter na língua o nome honrado de Allahu ta’âlâ, entrou de espada nua no meio dos politeístas. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Anuncio-te a boa nova do Paraíso.” E, vendo a firmeza e o empenho que ele mostrava diante do inimigo, disse: “Ó Allah! Tem misericórdia dele! Tem compaixão dele!”
Sa’d ibn Abû Waqqâs, ao ver que os politeístas haviam cercado Wahb e o tinham martirizado com lanças, lançou-se para a frente para ajudá-lo, entrou no meio do inimigo e mostrou feitos de bravura nunca vistos. Pôs fora de combate muitos kâfirs. Repelindo também os outros, voltou para junto de seu amado Profeta. Rasûl-i akram disse a respeito de Wahb: “Eu estou satisfeito contigo. Que Allahu ta’âlâ também esteja satisfeito.” Habîb-i akram, ao ver que uma companhia de politeístas, rompendo o círculo dos mujâhids, avançava em sua direção, disse a Alî: “Ataca-os!” Alî atacou, matou Amr ibn Abdullah e pôs os outros em fuga. Quando a sua espada se quebrou, nosso Profeta deu-lhe Dhulfiqâr. Quando vinha outro grupo, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Ó Alî! Afasta de mim o mal destes!” O leão de Allahu ta’âlâ, que sacrificara a sua vida por Rasûlullah, passou imediatamente ao ataque. Matou Shayba ibn Mâlik e repeliu os outros. Nesse instante veio Jibrîl alaihis-salâm e disse a nosso Mestre, o Profeta: “Yâ Rasûlallah! O que Alî mostrou é um extraordinário ato de nobre valentia.” Nosso Mestre Rasûlullah disse: “Ele é de mim, e eu sou dele.”
“Vi os anjos lavarem Hanzala com água da chuva, numa bandeja de prata, entre o céu e a terra” Hadîth sharîf
Jibrîl alaihis-salâm disse também: “E eu sou de vós dois.” Nesse mesmo instante ouviu-se uma voz que dizia: “Não há valente como Alî, nem espada como Dhulfiqâr.”
Os politeístas, ao compreenderem que não conseguiriam aproximar-se de nosso amado Profeta, começaram a atirar flechas. As flechas lançadas ou passavam por cima dele, ou caíam à sua frente, à sua direita ou à sua esquerda.
Os Companheiros, que combatiam arriscando a vida para repelir o inimigo, mal viram isso, reuniram-se à volta do Mestre dos mundos e começaram a fazer de seus corpos abençoados escudo contra as flechas que vinham. Quando nosso Mestre, o Profeta, ordenou aos seus Companheiros que respondessem com flechas, também os Companheiros começaram a atirar flechas contra o inimigo. Nosso amado Profeta fez Sa’d ibn Abû Waqqâs sentar-se à sua frente. Sa’d, atirador muito certeiro, começou a fazer chover sobre o inimigo, depressa e uma após outra, as suas flechas. Cada vez que tirava uma flecha da aljava, isto é, do estojo das flechas, dizia: “Ó meu Senhor! Esta é a Tua flecha. Atinge com ela o inimigo!”, e nosso Mestre, o Profeta, dizia: “Ó Allah! Aceita a dua de Sa’d! Ó Allah! Endireita a flecha de Sa’d!.. Continua, Sa’d! Continua! Que meu pai e minha mãe te sejam sacrificados!” Assim, a cada flecha lançada, nosso Mestre, o Profeta, repetia as mesmas duas.
Quando as flechas de Sa’d se acabaram, nosso amado Profeta deu-lhe as suas próprias flechas e mandou-o atirá-las. Cada flecha de Sa’d ibn Abû Waqqâs atingia um inimigo ou o animal em que ele montava.
Enquanto os politeístas atiravam flechas, Abû Talha cobria a frente de nosso amado Profeta, fazendo de seu corpo e de seu escudo proteção contra cada flecha que vinha, e de vez em quando soltava brados que desorientavam o inimigo. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “No exército, a voz de Abû Talha é melhor que cem homens.” Abû Talha, sempre que tinha ocasião, não deixava de atirar flechas contra os politeístas; atirava com força e muito depressa, e nenhuma flecha sua se perdia. Cada vez que Rasûl-i akram, curioso por ver as flechas que ele atirava, levantava a cabeça abençoada, Abû Talha, com medo de que uma flecha atingisse Rasûlullah, dizia: “Que meu pai e minha mãe e a minha vida te sejam sacrificados, yâ Rasûlallah! Não levantes a tua cabeça abençoada, para que nenhuma flecha inimiga te atinja e te faça mal! O meu corpo é escudo para o teu corpo abençoado e é sacrificado por ti! Enquanto não me degolarem, não chegarão a ti! Enquanto eu não morrer, nada te acontecerá!..” Assim, ele preferia nosso amado Profeta à sua própria vida.
Em todas as partes do campo de Uhud continuava, com toda a violência, um combate implacável e terrível; uns a cavalo, outros a pé, prosseguiam a luta entre o îmân e o kufr. Os Companheiros ainda não haviam conseguido reagrupar-se. À volta de nosso Mestre, o Profeta, apenas cerca de trinta Companheiros giravam como mariposas em torno da vela. Faziam de seus próprios corpos escudo contra as flechas, as lanças e os golpes de espada que vinham. O seu único desejo era cumprir a ordem de nosso Mestre, o Profeta, e afastar dele todo mal que pudesse atingi-lo. Hamza, o chefe dos valentes, nessa confusão separara-se de nosso Mestre, o Profeta. Combatia no meio de um grupo, com uma espada em cada mão, e com os brados “Allahu akbar!..” lançava o medo no coração do inimigo. Até aquele momento matara sozinho trinta e um politeístas e deixara muitos sem braço ou sem perna. Quando dispersava o bando de politeístas em que se metera, Sibâ’ ibn Umm Anmâr desafiou Hamza ao campo, dizendo: “Há algum valente que possa enfrentar-me?” Hamza disse: “Vem cá, ó filho da mulher que circuncidava! Então tu te opões a Allah e ao Seu Rasûl?”, e, sem lhe dar tempo de abrir os olhos, agarrou-o pelas pernas e lançou-o por terra.20 Hamza montou sobre ele e separou-lhe a cabeça do corpo. Depois, viu Wahshî, que ainda não se tornara muçulmano, atrás de uma rocha em frente, com uma lança na mão, mirando-o. Dirigiu-se imediatamente para ele, mas, ao chegar a uma cova aberta pela torrente que tinha à frente, escorregou e caiu de costas. Nesse instante a couraça abriu-se-lhe à altura do ventre. Wahshî, aproveitando a ocasião, arremessou a lança!.. A lança voou, cravou-se no corpo abençoado de Hamza e atravessou-o. O maior dos valentes, dizendo “Ó Allah!”, deixou-se cair ali. Caiu mártir e alcançou o grau que desejava. Sacrificou a sua vida no caminho de Allahu ta’âlâ, por seu amado Profeta (radiyallahu anh).
“Ó Sa’d! Que meu pai e minha mãe te sejam sacrificados! Ó meu Senhor! Faze as suas flechas chegarem ao alvo e aceita as suas duas!” Hadîth sharîf
Nesse momento, nas fileiras inimigas, alguém incitava os politeístas a atacar o Mestre do universo (sallallahu alaihi wa sallam), dizendo: “Ó gente de Quraysh! Não deixeis de combater Muhammad, que não respeitou os direitos do parentesco e dividiu o vosso povo. Se Muhammad se salvar, que eu não me salve!..” Era a voz de Âsim ibn Abû Awf. Abû Dujâna ouviu essa voz. Combatendo sem parar, encontrou Âsim ibn Abû Awf e matou-o imediatamente. Mas o politeísta Ma’bad, que estava atrás dele, desferiu a espada com toda a força contra Abû Dujâna. Por uma graça de Allahu ta’âlâ, Abû Dujâna, lançando-se ao chão com um movimento súbito e muito rápido, escapou do golpe mortal. Levantou-se imediatamente, golpeou Ma’bad com a espada e matou-o.
O alvo dos politeístas coraixitas era o Mestre dos mundos. Gastavam todas as suas forças para poder aproximar-se dele. Mas de modo algum conseguiam passar pelos seus gloriosos e honrados Companheiros, que giravam à sua volta como mariposas e, com medo de que lhe sucedesse algum mal, não hesitavam um átomo sequer em sacrificar a vida. Esses trinta valentes heróis disseram diante de nosso Mestre Rasûlullah: “Yâ Rasûlallah! Para nunca nos afastarmos de ti, os nossos rostos são proteção e escudo diante do teu rosto abençoado; os nossos corpos são sacrificados pelo teu corpo abençoado; basta que tu estejas a salvo!”
Os politeístas atacavam em grupos. O Orgulho do mundo, apontando para um grupo, disse aos seus valentes Companheiros que estavam junto dele e faziam de seus corpos escudo para ele: “Quem sacrifica por nós o seu corpo no caminho de Allahu ta’âlâ?”, e cinco Companheiros de Medina lançaram-se para a frente. Essas mariposas valentes, diante dos olhos abençoados de nosso Mestre Rasûlullah, proferindo takbîrs e girando sem cessar à sua volta, combateram. Por fim, quatro deles caíram ali mesmo mártires. Quando o quinto, ferido em quatorze lugares, caiu por terra, o Mestre dos mundos disse: “Trazei-o para junto de mim.” De todas as partes do seu corpo corria sangue. Nosso amado Profeta sentou-se e fez de seus pés abençoados travesseiro para a cabeça dele. Esse feliz Companheiro, que nesse estado alcançou a honra do martírio, era Umâra ibn Yazîd.
A bravura de Talha ibn Ubaydullah
Num momento em que os politeístas haviam chegado muito perto, nosso Profeta disse: “Quem enfrenta aqueles, quem os detém?” Talha ibn Ubaydullah, dizendo: “Eu! Yâ Rasûlallah!”, quis lançar-se para a frente. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Quem mais há como tu?” Um dos Companheiros de Medina pediu licença, dizendo: “Yâ Rasûlallah! Eu!” Quando nosso amado Profeta disse: “Vai, enfrenta-os tu”, ele lançou-se para a frente e atirou-se sobre os politeístas.
Mostrou feitos de bravura sem igual. Depois de matar alguns descrentes, bebeu a taça do martírio.21 Rasûl-i akram disse de novo: “Quem resiste a estes?” De novo, antes de todos, apresentou-se Talha. Quando nosso Mestre, o Profeta, perguntou: “Quem mais há como tu?”, um homem abençoado dentre os Ansâr disse: “Eu os enfrento, yâ Rasûlallah.” Nosso Profeta disse: “Vai, enfrenta-os tu.” Também ele caiu mártir, combatendo os politeístas. Assim, todos os Companheiros que naquele momento estavam junto de nosso Mestre, o Profeta, alcançaram o martírio combatendo.
Já não restava junto do Sultão do universo ninguém além de Talha ibn Ubaydullah. Talha, receando que algum mal atingisse Rasûlullah, corria para todos os lados e combatia sem piedade os kâfirs. A rapidez com que brandia a espada, o modo como num instante respondia ao inimigo de todos os lados de Rasûlullah e fazia do seu corpo escudo contra as flechas, as lanças e os golpes de espada eram coisa sem igual. Talha girava como uma mariposa e não fazia caso algum das espadas que o atingiam. O seu desejo era proteger o Sultão do universo e, nesse caminho, cair mártir como os seus outros irmãos. Não lhe restara no corpo lugar sem ferida; na roupa já não se via outra coisa senão sangue. Apesar disso, acudia a todos os lados ao mesmo tempo. Nesse momento, Abû Bakr e Sa’d ibn Abû Waqqâs chegaram junto de Rasûl-i akram.
Entretanto, o chefe dos valentes, Talha, pela perda de sangue, caiu desmaiado sobre a terra quente. Estava todo crivado de golpes de espada, de lança e de flecha. Tinha sessenta e seis feridas grandes e incontáveis feridas pequenas. Nosso amado Profeta ordenou a Abû Bakr que corresse imediatamente em socorro de Talha. Abû Bakr as-Siddîq aspergiu água no rosto abençoado de Talha para que ele voltasse a si. Talha ibn Ubaydullah, mal voltou a si, disse: “Ó Abû Bakr! Rasûlullah está bem?”, e mostrou assim o mais belo grau de amor e de lealdade. Amar Rasûl-i akram e sacrificar a vida pelo seu corpo abençoado não pode ser mais do que isso. Quando Abû Bakr disse: “Rasûlullah está bem. Foi ele quem me mandou”, Talha respirou aliviado e disse: “Infinitos agradecimentos a Allahu ta’âlâ. Estando ele vivo, qualquer desgraça é nada.” Nesse momento chegaram mais alguns Companheiros.
O Mestre dos mundos, Muhammad Mustafâ (sallallahu ta’âlâ alaihi wa sallam), veio até Talha. O mujâhid ferido, ao ver Rasûlullah vivo, chorou de alegria. Nosso Mestre, o Profeta, passou a mão sobre o seu corpo e depois, erguendo as mãos, fez dua: “Ó Allah! Dá-lhe a cura, concede-lhe força.” Por um milagre de Rasûl-i akram, Talha pôs-se de pé perfeitamente são e voltou a combater o inimigo. Nosso amado Profeta disse a respeito dele: “No dia de Uhud, vi que sobre a terra não havia ninguém perto de mim, senão Jibrîl à minha direita e Talha ibn Ubaydullah à minha esquerda.”22 “Quem quiser ver um homem do Paraíso andando sobre a terra, olhe para Talha ibn Ubaydullah.”
“Talha e Zubayr são meus vizinhos no Paraíso” Hadîth sharîf
Em todas as partes do campo de batalha o combate continuava com toda a violência. À volta de nosso Mestre, o Profeta, estavam Abû Dujâna, o porta-estandarte Mus’ab ibn Umayr, Talha ibn Ubaydullah, Nasîba Khâtûn – que viera correndo das fileiras de trás para proteger nosso Profeta – e alguns Companheiros. Combatiam os politeístas juntamente com nosso Mestre Rasûlullah. O feroz politeísta Abdullah ibn Hunayd, armado da cabeça aos pés, de couraça e elmo, ao ver nosso amado Profeta, esporeou o cavalo. Gritava: “Eu sou o filho de Zuhayr. Mostrai-me Muhammad. Ou eu o mato, ou morro junto dele!” Quando ele lançava o cavalo contra nosso Mestre, o Profeta, Abû Dujâna pôs-se atravessado em seu caminho e disse: “Vem cá! Eu sou um homem que, com o meu corpo, protege o corpo abençoado de Muhammad alaihis-salâm. Enquanto não me pisares, não chegarás a ele!” Golpeando com a espada as pernas do cavalo, derrubou Abdullah ibn Hunayd e, erguendo a espada, abateu-o com um só golpe, dizendo: “Toma, isto é do filho de Kharasha!” O Mestre dos mundos, que assistia à cena, fez esta dua: “Ó Allah! Assim como eu estou satisfeito com o filho de Kharasha (Abû Dujâna), fica Tu também satisfeito com ele!”
Um dos politeístas, Mâlik ibn Zuhayr, atirador muito certeiro, arqueiro que acertava tudo o que mirava, procurava nosso Mestre, o Profeta, por toda parte, querendo atingi-lo com uma flecha na primeira ocasião. Chegou muito perto de nosso Mestre Rasûlullah, retesou o arco e, mirando a cabeça abençoada de nosso amado Profeta, disparou a flecha. Não havia tempo nem para um piscar de olhos. Talha, num instante, abriu a mão e pôs-se como alvo. A flecha cravou-se na palma da mão de Talha e despedaçou-lhe a mão. Cortaram-se todos os nervos dos seus dedos e quebraram-se os ossos da sua mão. O Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) viu o que se passara, entristeceu-se muito e disse: “Se (ao estender a mão contra a flecha para me proteger) tivesses dito ‘Bismillahir-rahmânir-rahîm’, os anjos te teriam elevado aos céus enquanto as pessoas olhavam para ti.”23
Quatro politeístas de Meca, chamados Abdullah ibn Qamî’a, Ubayy ibn Khalaf, Utba ibn Abû Waqqâs e Abdullah ibn Shihâb Zuhrî, haviam combinado e jurado pôr fim à vida de Rasûl-i akram. Nesse momento apertado, nosso Mestre Rasûlullah, tendo junto de si alguns Companheiros, lutava sem trégua contra o inimigo. Diante de nosso Mestre, o Profeta, estava o porta-estandarte Mus’ab ibn Umayr. Mus’ab, pela couraça que vestia, parecia-se muito com nosso amado Profeta. Também ele, com o estandarte do Islã na mão direita, entrara numa luta terrível com os politeístas. Nesse momento aproximou-se dali, a cavalo, Ibn Qamî’a, coberto de couraças. Gritando com toda a força da voz: “Mostrai-me Muhammad! Se ele se salvar, que eu não me salve!”, esporeou o cavalo em direção a nosso Mestre, o Profeta. Mus’ab e Nasîba Khâtûn enfrentaram-no e começaram a combater fazendo de seus corpos escudo para nosso Mestre, o Profeta. Por mais golpes de espada que dessem nesse kâfir, por causa da couraça não lhe faziam efeito. Ibn Qamî’a desferiu um golpe de espada em Nasîba Khâtûn e despedaçou-lhe o ombro. Depois desceu a espada sobre a mão direita de Mus’ab, que segurava o estandarte. Mus’ab ibn Umayr, com a mão direita decepada, tomou na mão esquerda, sem deixá-lo cair por terra, o abençoado estandarte do Islã, que ele estimava mais do que a própria vida.
Nesse momento recitava o versículo sagrado cujo sentido é: “Muhammad alaihis-salâm é um rasûl. Antes dele também vieram rasûls.”24 Desta vez Ibn Qamî’a desceu a espada sobre a mão esquerda de Mus’ab. O glorioso porta-estandarte, com a mão esquerda também decepada, continuava a não deixar cair por terra o estandarte do Islã. O valente Companheiro segurou o estandarte com os braços, apertou-o contra o corpo e continuou a fazê-lo tremular. Então Ibn Qamî’a cravou a lança no corpo do glorioso Companheiro. Também ele, como os seus outros companheiros, caiu mártir e passou à outra vida.
Quando Mus’ab caiu, o glorioso estandarte do Islã não foi deixado cair por terra: um anjo que tomara a forma de Mus’ab apanhou-o imediatamente. Quando nosso amado Profeta disse: “Avante, ó Mus’ab! Avante!”, o anjo que segurava o estandarte disse: “Eu não sou Mus’ab.” Então o Sultão do universo compreendeu que ele era um anjo e deu o estandarte a Alî.25
Ibn Qamî’a, por sua vez, julgando que Mus’ab era nosso Mestre, o Profeta, foi às pressas para o meio dos politeístas e começou a gritar: “Matei Muhammad!” Os politeístas que ouviram isso enfureceram-se ainda mais com o prazer de terem alcançado o seu objetivo. Os Companheiros, que não sabiam a verdade do que acontecera, ficaram como que paralisados. Pairava por toda parte um ar de luto. Até Umar ficou com os braços caídos e sentou-se com os seus companheiros no lugar onde estavam. Anas ibn Nadr, ao vê-los nesse estado, perguntou: “Por que estais sentados?”
Eles responderam: “Rasûlullah foi martirizado!..” Anas disse: “Se Rasûlullah foi martirizado, o seu Senhor (Allahu ta’âlâ) é eterno. Que faremos nós, vivos, depois de Rasûlullah! Vamos, levantai-vos! Sacrifiquemos também nós a nossa vida por aquilo por que nosso Profeta, combatendo, sacrificou a sua vida abençoada.” Anas quebrou a bainha da espada26 e, com os brados “Allahu akbar!..”, lançou-se de espada nua ao meio do inimigo. Abateu muitos dos kâfirs e caiu mártir. Só no rosto tinha setenta feridas. Como tinha no corpo feridas sem conta, ninguém, senão a sua irmã, pôde reconhecê-lo.
Muitos dos Companheiros haviam se dispersado, e uma parte alcançara o martírio. Os politeístas, aproveitando-se dessa dispersão, reuniram-se à volta de Rasûl-i akram. Com pedras e espadas tentavam martirizar o Sultão dos dois mundos. Como tinha sobre si duas couraças, os golpes não lhe faziam efeito. As pedras lançadas por Utba ibn Abû Waqqâs atingiram o rosto abençoado de nosso amado Profeta e feriram-lhe o lábio inferior. Quebrou-se o seu abençoado dente rabâ’iyya direito da mandíbula inferior, isto é, o dente incisivo. Nesse momento chegou também o politeísta chamado Ibn Qamî’a e desferiu a espada sobre a cabeça abençoada do Mestre dos mundos. O elmo de nosso amado Profeta partiu-se, e dois dos seus anéis cravaram-se nas suas fontes abençoadas.
Com mais um golpe de espada de Ibn Qamî’a, ele foi ferido no ombro abençoado e caiu de lado na cova profunda que Abû Âmir cavara para fazer cair os muçulmanos. Nosso amado Profeta fez esta dua contra o traidor Ibn Qamî’a: “Que Allahu ta’âlâ te faça humilhado e desgraçado!” Ibn Qamî’a, muito contente, foi até Abû Sufyân gritando: “Matei Muhammad! Matei Muhammad!..” Os politeístas haviam alcançado o seu objetivo! Já não se ocupavam de nosso Profeta. Afastaram-se dos arredores da cova em que estava nosso Mestre, o Profeta, e puseram-se a combater os Companheiros.27
“Quem quiser ver um homem do Paraíso andando sobre a terra, olhe para Talha ibn Ubaydullah” Hadîth sharîf
Quando Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) caiu na cova, as suas faces abençoadas sangravam. Ao passar as mãos abençoadas pelo rosto, viu que as mãos e a sua barba abençoada estavam tingidas de sangue. Antes que uma só gota caísse por terra, Jibrîl alaihis-salâm chegou, apanhou aquele sangue abençoado e disse: “Yâ Habîballah! Pelo direito de Allahu ta’âlâ, se uma gota deste sangue caísse na terra, até o Dia do Juízo não nasceria erva sobre a terra.” O Orgulho do mundo disse: “Se uma gota de meu sangue cair na terra, descerá do céu o castigo. Ó meu Senhor! Perdoa o meu povo, pois eles não sabem”, e fazia dua para que chegassem à hidâya os que haviam tentado matá-lo, os que haviam golpeado com a espada o seu corpo abençoado, quebrado os seus dentes abençoados e tingido de sangue o seu rosto abençoado.
Nesse momento, Ka’b ibn Mâlik gritava em alta voz: “Ó muçulmanos! Boa nova! Eis aqui Rasûlullah!…” Os gloriosos Companheiros, ao ouvirem essa voz, correram para lá cheios de alegria, como se tivessem voltado à vida. Alî e Talha ibn Ubaydullah chegaram imediatamente e tiraram-no da cova. Abû Ubayda ibn Jarrâh arrancou com os dentes os anéis do elmo que se haviam cravado nas fontes abençoadas de nosso amado Profeta. Ao arrancar esses pedaços de ferro, Abû Ubayda perdeu também os seus dois dentes da frente. Um dos Companheiros, Mâlik ibn Sinân, sugou o sangue que escorria do rosto abençoado de nosso Mestre Rasûlullah. Então nosso Mestre, o Profeta, disse: “O fogo do Inferno não tocará aquele cujo sangue se misturou com o meu sangue.”
Os politeístas recomeçaram a vir contra eles. Os Companheiros, com a alegria de terem reencontrado nosso Mestre, o Profeta, formaram num instante um círculo à volta de nosso Mestre Rasûlullah e não deixaram aproximar-se nenhum politeísta. Os politeístas, compreendendo que já não podiam fazer nada contra nosso Mestre, o Profeta, começaram a subir ao alto do monte. O Sultão dos dois mundos disse a Sa’d ibn Abû Waqqâs, que estava junto dele: “Faze-os voltar atrás.” Quando Sa’d perguntou: “Yâ Rasûlallah! Tenho comigo uma só flecha. Como os farei voltar atrás com ela?”, Rasûl-i akram repetiu a mesma ordem. Então o mestre dos arqueiros, Sa’d ibn Abû Waqqâs, levou a mão à aljava e atirou a flecha. A flecha acertou o alvo e derrubou um politeísta. Quando estendeu de novo a mão à aljava, viu que ali havia mais uma flecha. Olhou com atenção: era a flecha que atirara pouco antes. Morreu mais um politeísta. Isso se repetiu muitas vezes. Por um milagre de nosso amado Profeta, Sa’d encontrava sempre na aljava a flecha que atirara antes. Os coraixitas, vendo os seus homens mortos um após o outro, desistiram de subir ao monte. Desceram e retiraram-se.
Um deles, Ubayy ibn Khalaf, lançando o cavalo em direção a nosso Mestre, o Profeta, começou a gritar: “Onde está esse homem que pretende ser profeta? Que saia contra mim e combata comigo!” Os Companheiros quiseram sair-lhe ao encontro, mas nosso amado Profeta não o permitiu. Tomou a lança de Hârith ibn Simma e avançou ele mesmo. O vil Ubayy esporeou o cavalo e aproximou-se, dizendo: “Ó Muhammad! Se tu te salvares, que eu não me salve!” Estava coberto de couraças da cabeça aos pés. O Mestre dos mundos arremessou a lança que tinha na mão ao pescoço de Ubayy. A lança voou e cravou-se-lhe no pescoço, entre o elmo e a gola da couraça. Ubayy, mugindo como um boi, rolou do cavalo ao chão. Quebraram-se-lhe as costelas. Os politeístas levantaram-no e levaram-no. No caminho, gritando “Muhammad matou-me!…”, expirou. Nosso Mestre Rasûlullah, com os Companheiros que estavam junto dele, começou a subir em direção aos rochedos de Uhud. Ao chegar aos rochedos, quis subir mais acima. Mas, por estar extremamente cansado, por vestir duas couraças uma sobre a outra e por ter recebido no corpo abençoado mais de setenta golpes de espada, não teve forças. Então Talha tomou nosso Mestre, o Profeta, às costas e levou-o para o alto dos rochedos. Nosso amado Profeta disse: “Quando Talha ajudou Rasûlullah, o Paraíso tornou-se para ele wâjib.” Como não lhe restavam forças, fez sentado o namâz do meio-dia.
Nas encostas do monte, os Companheiros, cada um feito um leão, lançavam-se sobre os politeístas. Aos que haviam golpeado nosso Profeta com a espada, fizeram do mundo uma prisão. Num dado momento, Hâtib ibn Abû Balta’a veio até nosso amado Profeta e perguntou: “Que a minha vida te seja sacrificada, yâ Rasûlallah! Quem te fez isto?” Nosso Mestre disse:
“Utba ibn Abû Waqqâs atirou-me uma pedra, atingiu-me no rosto e quebrou-me o dente rabâ’iyya.” Então Hâtib perguntou de novo: “Yâ Rasûlallah! Para que lado ele foi?” Nosso Mestre, o Profeta, mostrou com um gesto o lado para onde ele fora. Hâtib correu imediatamente para lá. Procurando sem cessar, encontrou Utba. Derrubou-o do cavalo, cortou-lhe a cabeça com um só golpe e, trazendo-a à presença de Rasûlullah, deu-lhe a boa nova. Nosso Mestre, o Profeta, fez dua por ele, dizendo: “Que Allahu ta’âlâ esteja satisfeito contigo. Que Allahu ta’âlâ esteja satisfeito contigo.” Os politeístas não conseguiram resistir aos Companheiros, que se haviam reagrupado e passado de novo ao ataque. Deixando perto de trinta mortos, abandonaram o campo de batalha e puseram-se a caminho de Meca. O boato de que nosso Mestre, o Profeta, fora martirizado chegara a Medina. Mulheres como Fâtima, Âisha, Umm Sulaym, Umm Ayman, Hamna bint Jahsh e Ku’ayba correram para Uhud. Fâtima, ao ver ferido seu pai, nosso Mestre, o Profeta, chorou. Nosso Mestre Rasûlullah consolou-a. Alî trouxe água no seu escudo. Nossa mãe Fâtima lavou com essa água o rosto abençoado de nosso Mestre, o Profeta, limpando-lhe o sangue. Mas o sangue do rosto não estancava. Quando Fâtima queimou um pedaço de esteira e apertou a cinza contra a ferida, o sangue parou.28
Depois desceram ao campo de batalha. Primeiro identificaram os feridos e enfaixaram as suas feridas. Os politeístas haviam deixado alguns mártires irreconhecíveis.
Tinham-lhes cortado as orelhas, o nariz e outros membros e aberto o ventre. Abdullah ibn Jahsh estava entre eles. Ao ver isso, nosso amado Profeta e os seus Companheiros entristeceram-se muito. Os mais seletos dos Companheiros haviam bebido a taça do martírio e, regando com o seu sangue a terra de Uhud, voado para o Paraíso. Mas o tratamento dado aos mártires era insuportável. Não só nosso Mestre, o Profeta, mas todos os Companheiros sentiam o coração apertado de tristeza. Diante dessa cena, o Mestre dos mundos chorou. Com lágrimas correndo-lhe dos olhos abençoados, disse: “Eu darei testemunho, no Dia do Juízo, de que estes mártires sacrificaram a sua vida no caminho de Allahu ta’âlâ. Enterrai-os com o seu sangue. Por Allah, no Dia do Juízo virão ao mahshar29 com as feridas sangrando. A cor do seu sangue será cor de sangue, e o seu cheiro, cheiro de almíscar.”
Depois nosso amado Profeta disse: “Não vejo Hamza. Que foi feito dele?” Alî procurou-o e encontrou-o. Nosso Profeta foi até lá e, deparando com uma cena inimaginável, não conseguiu conter-se. As orelhas, o nariz e os outros membros de Hamza haviam sido cortados, o rosto ficara irreconhecível, o ventre fora aberto e o fígado arrancado. Nosso Mestre, o Profeta, com lágrimas correndo-lhe dos olhos abençoados, voltou-se para Hamza e disse: “Ó Hamza! Nunca ninguém sofreu nem sofrerá uma desgraça como a tua. Ó tio de Rasûlullah! Ó Hamza, leão de Allahu ta’âlâ e do Seu Rasûl! Ó Hamza, que praticavas o bem! Ó Hamza, protetor de Rasûlullah! Que Allahu ta’âlâ tenha misericórdia de ti!…”
“Quando Talha ajudou Rasûlullah, o Paraíso tornou-se para ele wâjib” Hadîth sharîf
Nesse momento viu-se uma mulher que vinha na direção deles, apressada e aflita. Era nossa mãe Safiyya, a tia paterna de nosso amado Profeta. Também ela, como as outras mulheres, ao ouvir o boato de que nosso Mestre Rasûlullah fora martirizado, esquecera tudo e viera correndo a Uhud. Rasûl-i akram, ao ver a tia, pensando que ela não suportaria o estado dos mártires, disse ao filho dela, Zubayr ibn Awwâm: “Faze tua mãe voltar, que ela não veja o corpo do irmão.” Zubayr correu até junto da mãe. A abençoada senhora, aflita, disse: “Meu filho! Dá-me notícias de Rasûlullah!…” Alî também chegara junto deles. Quando ele disse: “Alhamdulillah30, Rasûlullah está bem”, Safiyya sentiu-se aliviada, mas não conseguiu deixar de dizer: “Mostrai-o a mim.” Alî mostrou com um gesto o Mestre dos mundos. Nossa mãe Safiyya, ao ver vivo o sol dos dois mundos, alegrou-se muito e louvou a Allahu ta’âlâ. Desta vez quis avançar para ver o estado de seu irmão Hamza. Quando seu filho Zubayr lhe disse: “Mamãe! Rasûlullah ordena que voltes”, Safiyya disse: “Se querem que eu volte para não me mostrarem o que lhe fizeram, eu já sei que o corpo de meu irmão foi cortado e retalhado. Ele sofreu isso no caminho de Allahu ta’âlâ. Neste caminho, aceitamos até coisas piores do que esta. Esperaremos de Allahu ta’âlâ a recompensa (sawâb) por isso. Inshâallah, teremos paciência e suportaremos.” Quando Zubayr ibn Awwâm voltou e contou isso, nosso Mestre, o Profeta, disse: “Então deixa-a ver.”
Safiyya sentou-se junto do corpo de Hamza e chorou em silêncio. Ao vir, Safiyya trouxera consigo duas khirqas (mantos). Tirou-as e disse: “Trouxe-as para o meu irmão Hamza; envolvei-o nelas.” Amortalharam com uma dessas khirqas Hamza, o “Sayyid ash-Shuhadâ”, isto é, o chefe dos mártires.31 Habîbullah chegou à cabeceira do porta-estandarte Mus’ab ibn Umayr. As mãos de Mus’ab haviam sido decepadas e ele estava ferido em muitos lugares. À sua volta havia um lago de sangue. Também aqui nosso Mestre, o Profeta, se entristeceu muito e, dirigindo-se a esses mártires queridos, recitou o vigésimo terceiro versículo sagrado da Sura al-Ahzâb, cujo sentido é: “Entre os crentes há homens que foram fiéis à palavra que deram a Allahu ta’âlâ. Alguns deles cumpriram a palavra de combater até cair mártires (caíram mártires). Outros esperam ainda cair mártires. Eles não mudaram de modo algum a palavra que deram.” Depois nosso Mestre, o Profeta, disse: “Também o Rasûl de Allahu ta’âlâ é testemunha: no Dia do Juízo sereis ressuscitados como mártires na presença de Allahu ta’âlâ.”
Depois, voltando-se para os que estavam junto dele, disse: “Visitai-os. Saudai-os. Juro por Allahu ta’âlâ que, a quem os saudar neste mundo, estes mártires queridos responderão com a saudação no Dia do Juízo.”
Não encontraram nada que servisse de mortalha para Mus’ab ibn Umayr. O seu próprio kaftan não cobria inteiramente o seu corpo abençoado. Se lhe cobriam a cabeça, ficavam descobertos os pés; se lhe cobriam os pés, ficava descoberta a cabeça. Habîb-i akram disse: “Cobri-lhe a cabeça com o kaftan e os pés com a erva idhkhir.”32
Esse feliz Companheiro, que passara a vida servindo ao Islã e alcançara nesse caminho o grau do martírio, deixou o mundo com meia mortalha.33
Fez-se o namâz fúnebre dos outros mártires, e eles foram enterrados com as roupas ensanguentadas, dois ou três em cada túmulo (radiyallahu anhum). Na Batalha de Uhud houve setenta mártires. Sessenta e quatro deles eram dos Ansâr e seis dos Muhâjir.
Os parentes de muitos dos Companheiros haviam caído mártires. Por isso tinham o coração ferido. Para consolar os que ficaram, Habîb-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) disse: “Por Allah, quanto eu teria desejado cair mártir também, junto com os meus Companheiros, e passar a noite no seio do monte Uhud! Quando os vossos irmãos caíram mártires, Allahu ta’âlâ pôs as suas almas no papo de aves verdes.
Elas vão aos rios do Paraíso e bebem da sua água. Comem dos seus frutos. Contemplam todos os cantos do Paraíso. Voam pelos seus roseirais. Depois entram nas lâmpadas de ouro suspensas sob o Arsh-i a’lâ e ali passam a noite. Ao verem a delícia e a beleza de tais comidas e bebidas, dizem: ‘Quem dera os nossos irmãos soubessem as dádivas que Allahu ta’âlâ nos concedeu, para que não fugissem do jihâd nem, com medo de combater, voltassem as costas ao inimigo!’ E Allahu ta’âlâ disse: ‘Eu os informarei do vosso estado.’” (E Janâb-i Haqq revelou um versículo sagrado e disse, em sentido:) “Não julgueis de modo algum que estão mortos os que caíram mártires no caminho de Allahu ta’âlâ! Ao contrário, estão vivos e recebem o seu sustento junto de seu Senhor. Estão alegres com aquilo que Allahu ta’âlâ lhes concedeu (o grau do martírio). Quanto aos que, atrás deles, ainda não se lhes juntaram (pelo martírio), querem dar-lhes a boa nova: ‘Não terão medo algum, nem se entristecerão.’ Alegram-se por uma dádiva e uma graça vindas de Allahu ta’âlâ e pela boa nova de que Allahu ta’âlâ não deixa perder a recompensa dos crentes.”34 “Allahu ta’âlâ mostra-Se a eles e diz: ‘Ó Meus servos! Dizei o que deseja a vossa alma, e Eu vos farei prová-lo em abundância.’ Eles dizem: ‘Ó nosso Senhor! Não há dádiva mais elevada do que as dádivas que nos concedeste, para que a peçamos. Comemos no Paraíso das coisas que desejamos. Mas, se pedíssemos, pediríamos que as nossas almas fossem devolvidas aos nossos corpos, que fôssemos devolvidos ao mundo e que, combatendo no Teu caminho, fôssemos mortos de novo.’”
Já não restava nada a fazer ali. Reuniram-se e prepararam-se para partir. Em Uhud, aonde tinham vindo para o jihâd fî sabîlillah, isto é, para difundir a religião de Allahu ta’âlâ, travara-se uma batalha sem igual na história. Ali se testemunharam incontáveis feitos de bravura dos Companheiros, jamais vistos e que ultrapassam a imaginação, e deu-se mais uma lição aos kâfirs.
“Ó Hamza! Nunca ninguém sofreu nem sofrerá uma desgraça como a tua. Ó tio de Rasûlullah! Ó Hamza, leão de Allahu ta’âlâ e do Seu Rasûl! Ó Hamza, que praticavas o bem! Ó Hamza, protetor de Rasûlullah! Que Allahu ta’âlâ tenha misericórdia de ti!…” Hadîth sharîf
O Mestre dos mundos (sallallahu alaihi wa sallam) pôs-se a caminho da luminosa Medina com os seus abençoados Companheiros. Ao chegar ao lugar chamado Harra, pôs os Companheiros em fileiras, ergueu as mãos abençoadas e começou a implorar a Allahu ta’âlâ e a fazer esta dua: “Ó Allah! O louvor e a glorificação pertencem sobretudo a Ti. Ó Allah! Não há quem guie ao caminho reto aquele que Tu deixaste no desvio, nem quem desvie aquele que Tu guiaste… Ó Allah! Faze-nos amar o îmân. Adorna os nossos corações com o îmân. Faze-nos detestar o kufr, a rebeldia e a transgressão. Faze-nos dos que conhecem o que é nocivo à nossa religião e ao nosso mundo, dos que alcançam o caminho reto. Ó Allah! Faze-nos viver como muçulmanos e faze-nos morrer como muçulmanos. Junta-nos ao grupo dos virtuosos e dos bons, pois eles não são dos que perdem a honra e a dignidade, nem dos que abandonam a religião. Ó Allah! Dá o seu castigo aos kâfirs que desmentiram o Teu Rasûl, que se afastaram do Teu caminho e que combateram o Teu Profeta! Faze descer sobre eles o Teu castigo, que é verdade e realidade!… Âmîn!”
Os Companheiros juntaram-se a essa dua, dizendo: “Âmîn! Âmîn!” Nosso amado Profeta aproximara-se de Medina com os seus Companheiros. As mulheres e as crianças que haviam ficado em Medina tinham saído aos caminhos e, com ansiedade e tristeza, procuravam ver o Mestre do universo no meio do exército que chegava. Ao verem o seu rosto resplandecente, que ilumina o mundo, louvavam a Allahu ta’âlâ. Depois os olhos fixavam-se no exército: procuravam os pais, os maridos, os filhos, os tios maternos e os tios paternos. Se não os viam… não conseguiam conter as lágrimas. Rasûl-i akram, oceano de misericórdia, vendo a tristeza dos seus Companheiros, também se entristecia muito, e dos seus olhos abençoados corriam lágrimas.
Num dado momento, viu-se que Kabsha Khâtûn, a mãe de Sa’d ibn Mu’âdh, se aproximava de nosso Mestre, o Profeta. Em Uhud caíra mártir o seu filho Amr. Ao chegar à sua presença bendita, disse: “Que meu pai e minha mãe e a minha vida te sejam sacrificados, yâ Rasûlallah! Alhamdulillah, vi-te são e salvo. Estando tu a salvo, todas as calamidades para mim não são nada!” Não perguntou pelo filho de suas entranhas. Nosso amado Profeta, depois de lhe dar os pêsames por seu filho Amr, disse: “Ó mãe de Sa’d! Boa nova para ti e para a gente da sua casa: todos os que dentre eles caíram mártires reuniram-se no Paraíso e tornaram-se companheiros uns dos outros. E eles intercederão também pela gente da sua casa.”
Kabsha Khâtûn disse: “Estamos satisfeitos com tudo o que vem de Allahu ta’âlâ, yâ Rasûlallah! Depois destas boas novas, quem chorará por eles! Faze tu dua pelos que ficaram.” O Mestre dos mundos fez esta dua: “Ó Allah! Tira a tristeza que há em seus corações! E faze dos que ficaram os melhores dos que ficam!”
Nosso Mestre, o Profeta, referindo-se à luta contra os desejos do corpo, disse aos seus Companheiros: “(Ó meus Companheiros! Agora) voltamos do jihâd menor e começaremos o jihâd maior.”35 Depois aconselhou a todos que fossem descansar em suas casas e aos feridos que tratassem as suas feridas. Ele mesmo estava ferido. Foi diretamente para a sua casa bendita.
A expedição de Hamrâ al-Asad
Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam), ao voltar a Medina, tomou precauções, pois havia a possibilidade de os politeístas voltarem a qualquer momento e atacarem Medina de surpresa.
Na segunda-feira seguinte à Batalha de Uhud, embora ferido, quis mostrar que os muçulmanos não haviam ficado enfraquecidos pela batalha da véspera e intimidar o inimigo, para que não voltasse sobre Medina. Disse então a Bilâl Habashî: “Dize: ‘Rasûlullah ordena-vos que persigais o inimigo! Os que ontem não combateram conosco em Uhud não venham; venham somente os que participaram do combate!’” Quando Bilâl comunicou essa ordem aos Companheiros, eles, embora a maioria estivesse ferida, prepararam-se imediatamente. Até dois irmãos gravemente feridos, chamados Abdullah e Râfi, mal ouviram esse chamado de Rasûl-i akram, apesar de todas as dores e pontadas, correram para as fileiras dos mujâhids, dizendo: “Vamos então perder a ocasião de sair em expedição com Rasûlullah?!”
Nosso amado Profeta, com os seus gloriosos Companheiros, começou a perseguir os politeístas. No lugar chamado Rawhâ souberam que os politeístas se haviam reunido e decidido atacar Medina de surpresa e aniquilar os muçulmanos. Ficou claro que também esta medida fora um milagre de nosso Mestre, o Profeta.
Os politeístas, ao ouvirem que Rasûl-i akram vinha contra eles, tiveram medo, abandonaram o lugar em que estavam e voltaram para Meca.36
Nosso Mestre, o Profeta, perseguiu-os até o lugar chamado Hamrâ al-Asad. Dois dos politeístas foram capturados. Ficaram ali três dias e depois voltaram para Medina.
Num versículo sagrado, Allahu ta’âlâ louvou esses honrados Companheiros que foram a Hamrâ al-Asad, dizendo, em sentido: “Para os que, depois de feridos, ainda acudiram ao chamado de Allahu ta’âlâ e do Seu Profeta, e sobretudo para os que dentre eles praticam o bem e se guardam do mal, há uma recompensa muito grande.”37
Ibn Qamî’a, um dos que em Uhud haviam jurado matar nosso amado Profeta, ao voltar a Meca, subiu um dia ao monte para ver as suas ovelhas. No alto do monte encontrou as ovelhas. Do meio delas um carneiro veio correndo e começou a dar marradas em Ibn Qamî’a. À força de marradas, despedaçou Ibn Qamî’a e matou-o.
Também Abdullah Shihâb Zuhrî, quando ia para Meca, foi mordido por uma serpente de manchas brancas e morreu.
Todos os que atentaram contra nosso Mestre, o Profeta, receberam o seu castigo e morreram no espaço de um ano.
“Ó meus Companheiros! Agora voltamos do jihâd menor e começaremos o jihâd maior” Hadîth sharîf
Se o seu amigo bebe veneno de serpente, torna-se-lhe água da vida;
Se o seu inimigo bebe água, em veneno de serpente se torna a água.
Em cada gota fez ondear mil mares de misericórdia,
Quando, na ablução, estendendo a mão, tocou seu rosto de rosa a água.
“Que eu alcance o pó de seus pés”, diz, e há séculos, sem cessar,
Bate a cabeça de pedra em pedra e vagueia errante a água.
Quer espalhar luz, partícula a partícula, sobre o pó de seu umbral;
Não se aparta desse umbral, ainda que se faça em pedaços, a água.
Os pecadores sabem que repetir o teu louvor é remédio,
Assim como, para curar-se da ressaca,
O ébrio bebe água.
Yâ Habîballah, yâ Khayral-bashar, de ti tenho saudade,
Como os lábios sedentos, ardendo, desejam a água.
Tu és aquele mar de generosidade que, na noite do Mi’râj,
Levou o orvalho de tua graça às estrelas fixas e aos planetas – a água.
