Meu Amado Profeta

A BATALHA DE BADR

Esta expedição é também chamada segunda Badr, Badr al-Qitâl e Badr al-Kubrâ. O êxito dos Companheiros nos destacamentos começou a amedrontar os kâfirs. As caravanas deles já partiam em comboios e acompanhadas de soldados. No segundo ano da Hégira, os politeístas de Meca, recolhendo capital de cada família, enviaram a Damasco uma caravana de mil camelos. À frente dela estava Abû Sufyân, um dos notáveis de Meca, que ainda não se tornara muçulmano.1 Para proteger a caravana, haviam sido encarregados também uns quarenta guardas… Depois de vendidas as mercadorias, comprariam armas com todo o dinheiro, e essas armas seriam usadas na guerra contra os muçulmanos.

Quando Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) soube que os politeístas haviam enviado a Damasco uma grande caravana para comerciar, encarregou alguns dos Muhâjir de averiguar a situação. Chegando ao lugar chamado Dhul-Ushayra, souberam que a caravana já havia passado e voltaram para Medina. Se as armas e os bens fossem tirados das mãos da gente da descrença (kufr), eles não poderiam prejudicar a gente do Islã, e sua resistência seria quebrada. Por isso nosso Mestre Rasûlullah avaliou a situação e começou imediatamente os preparativos de guerra.

Deixou Abdullah ibn Umm Maktûm em seu lugar, para dirigir o namâz.2 Enviou Talha ibn Ubaydullah e Sa’îd ibn Zayd como patrulha de reconhecimento, para saberem do regresso da caravana.3 Como a esposa de Uthmân estava gravemente enferma, ordenou-lhe que ficasse em Medina. Depois deu missão a mais quatro pessoas. Assim, os encarregados de missões foram oito.

A ocasião não era para ser perdida. Nosso Mestre, o Profeta, fez imediatamente os preparativos e, levando consigo trezentos e cinco Companheiros dos Muhâjir e dos Ansâr, partiu rumo a Badr no dia doze do nobre mês de Ramadã. Com os encarregados de missões, o seu número chegava a 313.4 Sessenta e quatro deles eram Muhâjir.

Badr era um lugar onde se juntavam os caminhos que levavam a Meca, a Medina e à Síria.

Para tomar parte nesta campanha, até rapazes que mal tinham crescido, e até mulheres, imploravam a nosso Mestre, o Profeta. Umm Waraqa veio à presença de nosso Mestre Rasûlullah e disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Se me permitires, quero ir convosco. Enfaixarei as feridas dos feridos e cuidarei dos doentes. Talvez Allahu ta’âlâ me conceda também o martírio!” Então Habîb-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) disse: “Fica em tua casa e recita o Alcorão al-Karîm. Sem dúvida, Allahu ta’âlâ te concederá o martírio.”

“Fica (ó Umm Waraqa) em tua casa e recita o Alcorão al-Karîm. Sem dúvida, Allahu ta’âlâ te concederá o martírio” Hadîth sharîf

O trajeto da expedição de Badr

Sa’d ibn Abû Waqqâs contou: “Quando nosso Mestre Rasûlullah quis mandar de volta os meninos que desejavam ir conosco à expedição, vi meu irmão Umayr tentando esconder-se num canto, para não ser visto. Tinha ele então dezesseis anos. Perguntei-lhe: ‘Que tens tu, para te esconderes assim?’ Ele respondeu: ‘Tenho medo de que nosso Mestre Rasûlullah me julgue pequeno e me mande de volta! E eu desejo tomar parte na expedição e que Allahu ta’âlâ me conceda o martírio.’ Quando, nesse momento, falaram dele a nosso Mestre Rasûlullah, ele disse a meu irmão: ‘Volta tu.’ Então meu irmão Umayr começou a chorar. Habîb-i akram, o oceano de misericórdia, não pôde resistir às suas lágrimas e deu-lhe permissão. E fui eu quem lhe cingiu a espada, pois ele mesmo não conseguia cingi-la.”5 O estandarte de nosso amado Profeta, o Mestre dos mundos, era levado por Mus’ab ibn Umayr, Sa’d ibn Mu’âdh e Alî.6 Os Companheiros tinham consigo apenas três cavalos e setenta camelos. Um dos cavalos era de Miqdâd, outro de Zubayr e o terceiro de Marthad ibn Abû Marthad. Duas ou três pessoas montavam por turnos um mesmo camelo. Nosso Mestre Rasûlullah montava por turnos com Alî, Abû Lubâba e Marthad ibn Abû Marthad. Mas todos eles, para que o Rasûl alaihis-salâm não andasse a pé e fosse sempre montado no camelo, imploravam-lhe: “Que nossas vidas sejam sacrificadas por ti, yâ Rasûlallah! Não desças do camelo. Nós andaremos a pé em lugar de tua excelsa pessoa.” Mas o Sultão do universo não se considerava diferente deles e disse: “Nem vós sois mais fortes do que eu para andar a pé, nem eu, quanto à recompensa e ao prêmio, preciso deles menos do que vós.” Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) e seus excelsos Companheiros caminhavam pelo deserto sob um calor abrasador. Além disso, estavam jejuando. Para difundir o Islã, os Companheiros suportavam muitas privações e seguiam nosso Mestre, o Profeta, com amor e ardor. Pois no fim estava o agrado de Allahu ta’âlâ e de Seu Rasûl, estavam o martírio e o Paraíso, que eles tanto desejavam… Nosso amado Profeta, olhando o estado de seus Companheiros, fez esta dua: “Ó Allah! Eles vão a pé – dá-lhes montarias! Ó Allah! Estão descobertos e nus – veste-os! Ó Allah! Estão famintos – sacia-os! São pobres – enriquece-os com a Tua graça e generosidade!”

Enquanto nosso Mestre, o Profeta, e seu exército abençoado avançavam rumo a Badr sob aquele calor intenso, também a caravana dos politeístas que vinha de Damasco se aproximara de Badr. Os dois Companheiros que nosso Mestre, o Profeta, enviara para obter notícias da caravana souberam que ela poderia chegar a Badr em um ou dois dias e voltaram depressa. Quando os da caravana chegaram à aldeia onde eles tinham colhido a notícia, perguntaram aos aldeões: “Tendes notícias dos espiões dos muçulmanos?” Eles responderam: “Não sabemos. Mas dois homens vieram, sentaram-se um pouco ali e depois se levantaram e partiram.”

Abû Sufyân foi ao lugar indicado e, examinando-o, esmagou o esterco dos camelos que havia no chão e viu dentro dele caroços de forragem. Disse: “Isto é forragem de Medina. Creio que aqueles dois homens são espiões de Muhammad (alaihis-salâm).” Supondo que os muçulmanos estivessem muito perto, encheu-se de grande medo. Inquieto com a sorte da caravana, decidiu caminhar noite e dia, sem perder tempo, e seguir depressa para Meca pela costa do mar Vermelho. Além disso, enviou a Meca, como mensageiro, um homem chamado Damdam ibn Amr Ghifârî, para comunicar a situação.7

“Ó Allah! Eles (os meus Companheiros) vão a pé – dá-lhes montarias! Ó Allah! Estão descobertos e nus – veste-os! Ó Allah! Estão famintos – sacia-os! São pobres – enriquece-os com a Tua graça e generosidade!” Hadîth sharîf

Ao chegar a Meca, esse homem rasgou a camisa pela frente e por trás. Virou ao contrário a albarda de seu camelo. Num estado estranho, começou a gritar, lamentando-se e clamando: “Socorro! Socorro!… Ó coraixitas! Acudi!… Muhammad e os seus Companheiros atacaram a vossa caravana e os vossos bens que estão com Abû Sufyân. Se chegardes a tempo, podereis salvar a vossa caravana!…”

Os habitantes de Meca, ouvindo isso, reuniram-se imediatamente e fizeram seus preparativos. Juntaram setecentos homens montados em camelos, cem cavaleiros e cento e cinquenta infantes. Quando disseram a Abû Lahab: “Vamos, junta-te também tu!”, ele, de medo, alegou como pretexto uma doença. Em seu lugar enviou Âs ibn Hishâm. Um politeísta chamado Umayya ibn Khalaf preparava-se para a guerra com grande frouxidão. Pois ouvira que nosso Mestre, o Profeta, dissera: “Meus Companheiros matarão Umayya.” E tinha medo, porque sabia que ele jamais se afastava da verdade. Por isso, diante da insistência de Abû Jahl, alegou que era velho e muito gordo. Mas, como Abû Jahl o acusou de covardia, viu-se obrigado a ir.

O exército dos politeístas era de cerca de mil homens. Todos vestiam cotas de malha de ferro. Levavam consigo mulheres de bela voz. Também não se haviam esquecido de levar instrumentos musicais e bebidas. Com um exército tão poderoso, julgavam que venceriam num instante não só trezentos homens, mas até um exército de mil. Havia até os que, antes de partir, já calculavam quem matariam e que espólios tomariam. Mas o maior desejo de todos eles era destruir o Islã. Esse rebanho desenfreado de politeístas pôs-se a caminho ao som dos pandeiros tocados pelas mulheres e das canções que elas cantavam.

Enquanto isso, Abû Sufyân já se afastara bastante de Badr e avançara um bom trecho em direção a Meca. Quando se certificou de que o perigo passara, enviou aos coraixitas um homem seu chamado Qays ibn Imru’ul-Qays, com este recado: “Ó gente de Quraysh! Saístes de Meca para proteger a vossa caravana, os vossos homens e os vossos bens. Nós nos salvamos do perigo. Voltai agora!…” Aconselhou-os ainda: “Guardai-vos de ir a Medina para combater os muçulmanos!”

Quando Qays trouxe a notícia ao exército dos politeístas, Abû Jahl disse: “Juro que iremos a Badr e faremos festa três dias e três noites, degolaremos camelos e beberemos vinho. As tribos dos arredores nos contemplarão, invejarão o nosso estado e verão que não temos medo de ninguém. Depois disso, ninguém, por temor à nossa imponência, ousará atacar-nos. Ó invencível exército de Quraysh! Avante!…” Qays, vendo que Abû Jahl não estava em condições de escutar conselhos, voltou e comunicou a situação a Abû Sufyân. Abû Sufyân, homem previdente e cauteloso, não pôde deixar de dizer: “Ai! Pobre de Quraysh!… Isto é um plano de Amr ibn Hishâm (Abû Jahl). Ele fez isto, sem dúvida, pela ambição de ser chefe dos homens. E tal desmedida é sempre uma grande falha e um mau agouro. Se os muçulmanos os encontrarem, ai de Quraysh!..”

Abû Sufyân fez a caravana chegar depressa a Meca e juntou-se ao exército. Enquanto isso, o Soberano do universo (sallallahu alaihi wa sallam) aproximava-se de Badr com os seus Companheiros. A certa altura, viu no meio do exército do Islã Khubayb ibn Yasâf e Qays ibn Muharris, dos politeístas de Medina. Embora Khubayb tivesse na cabeça um elmo de ferro, reconheceu-o e disse a Sa’d ibn Mu’âdh: “Não é este Khubayb?” Ele respondeu: “Sim, yâ Rasûlallah!” Khubayb era um campeão valente, conhecedor da arte da guerra. Ele e Qays vieram à presença de nosso Mestre Rasûlullah. Nosso Profeta perguntou-lhes: “Por que vindes conosco?” Eles responderam: “Tu és filho de nossa irmã e nosso vizinho. Também nós vimos com o nosso povo para recolher espólios!” Quando nosso Mestre perguntou a Khubayb: “Creste em Allahu ta’âlâ e em Seu Rasûl?”, ele respondeu: “Não.” O Rasûl alaihis-salâm disse: “Então volta! Quem não é da nossa religião não pode estar conosco!” Khubayb disse: “Todos conhecem a minha bravura, o meu heroísmo e que sou um campeão que abre feridas no peito do inimigo. Combaterei a teu lado contra o teu inimigo, pelo espólio.” Nosso Mestre, o Profeta, não aceitou o seu auxílio.

Depois de andarem algum tempo, Khubayb repetiu o pedido, mas nosso Profeta declarou que, enquanto ele não se tornasse muçulmano, o seu desejo não poderia ser aceito. Quando chegaram ao lugar chamado Rawhâ, Khubayb veio à presença de nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) e disse: “Yâ Rasûlallah! Cri que Allahu ta’âlâ é o Senhor dos mundos e cri na tua profecia; abracei a fé.” Então o Soberano do universo alegrou-se muito. Também Qays, depois de voltar a Medina, foi honrado com a fé (radiyallahu anh).

Quando o exército do Islã chegou ao vale de Safrâ, recebeu a notícia de que os habitantes de Meca haviam formado um exército e marchavam rumo a Badr para salvar a sua caravana. Nosso Mestre, o Profeta, reuniu os seus Companheiros e consultou-os sobre a situação. Pois os muçulmanos de Medina, ao prestarem o juramento de fidelidade a nosso Mestre Rasûlullah em Aqaba, haviam-lhe prometido: “Yâ Rasûlallah! Vem à nossa cidade. Lá te protegeremos do teu inimigo, ainda que à custa de nossas vidas, e te seguiremos.” Agora, porém, haviam saído de Medina. E diante deles havia um exército inimigo muitas vezes superior a eles em número, em armas e em bens.

Quando nosso Mestre Rasûlullah perguntou aos seus Companheiros o que pensavam, Abû Bakr as-Siddîq e Umar al-Fârûq, dos Muhâjir, levantaram-se um após o outro e declararam que era preciso combater o exército inimigo. Levantou-se também Miqdâd ibn Aswad, dos Muhâjir, e disse: “Yâ Rasûlallah! Cumpre a ordem de Allahu ta’âlâ, seja ela qual for. Avança com a Sua ordem. Estamos sempre contigo; não nos afastamos de ti nem por um instante. Não diremos palavras como as que os Filhos de Israel disseram a Mûsâ alaihis-salâm: ‘Ó Mûsâ! Enquanto o povo dos tiranos, dos opressores, estiver naquela terra, nós não iremos para lá e jamais entraremos naquela região. Vai, pois, tu e teu Senhor, juntos, e combatei-os vós dois. Nós ficaremos aqui sentados…’8 Sacrificamos nossas vidas e nossas cabeças no caminho de Allahu ta’âlâ e de Seu Rasûl. Juramos por Allahu ta’âlâ, que te enviou como verdadeiro profeta, que, ainda que nos mandes à Abissínia, além do mar, iremos. Jamais te contrariaremos em coisa alguma. Estamos prontos a cumprir todos os teus desejos. Que meu pai, minha mãe e minha vida sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah!..”

“Quem não é da nossa religião não pode estar conosco!” Hadîth sharîf

A Batalha de Badr

Estas palavras de Miqdâd alegraram muito nosso amado Profeta, que fez dua pedindo o bem para ele.9

Aqui, a opinião dos muçulmanos de Medina era muito importante. Pois eles eram mais numerosos e haviam prometido proteger Rasûlullah em Medina. Não tinham feito promessa de combater fora de Medina. Compreendido esse pensamento, Sa’d ibn Mu’âdh, dos Ansâr, pôs-se de pé e disse: “Yâ Rasûlallah! Se me permitires, falarei em nome dos Ansâr.” Dada a permissão, disse: “Yâ Rasûlallah! Nós cremos em ti e confirmamos a tua profecia. Tudo o que trouxeste é verdade e é justo. Sobre isto te demos palavra firme e juramos ouvir e obedecer. Jamais voltaremos atrás nessa palavra; aonde quer que vás, estamos às tuas ordens. Pomos a tua ordem acima de nossas cabeças. Sacrificamos nossas vidas e nossas cabeças em teu caminho. Juramos por Allahu ta’âlâ, que te enviou como verdadeiro profeta, que, se mergulhares no mar, mergulharemos também nós atrás de ti. Nenhum de nós ficará um passo atrás. O que houver em teu nobre coração, ordena-o, e nós o cumpriremos. Que também os nossos bens, com as nossas vidas, sejam sacrificados por ti. Jamais voltaremos o rosto ao inimigo. Somos pacientes na batalha. A nossa esperança é alegrar-te e alcançar o teu agrado. Que a misericórdia de Allahu ta’âlâ esteja sobre ti…” Os Companheiros que ouviram essas palavras comoveram-se muito. Todos declararam aderir a elas de todo o coração. Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) ficou muito satisfeito e fez dua por Sa’d e pelos seus Companheiros. Todas as hesitações haviam desaparecido. Por mais numeroso e mais forte que fosse o inimigo, os gloriosos Companheiros marchariam sem pestanejar para o martírio atrás de nosso amado Profeta e alcançariam o agrado de Allahu ta’âlâ e de Seu Rasûl. Tendo à frente o Mestre do universo, não havia lugar aonde não fossem… O Orgulho do mundo, vendo a fidelidade e o ardor de seus Companheiros para com ele, deu-lhes a boa nova: “Avante, marchai! Alegrai-vos com a graça de Allahu ta’âlâ. Por Allah, é como se eu estivesse agora olhando para os lugares onde os homens de Quraysh cairão feridos no campo de batalha, e os estivesse vendo!” Depois dessa boa nova, os Companheiros seguiram nosso Mestre Rasûlullah com amor.

A vinda dos anjos em socorro

Era a noite que antecedia a sexta-feira quando chegaram aos arredores de Badr. Nosso amado Profeta disse aos seus Companheiros: “Espero que, junto ao poço que está ao lado daquela pequena colina, possais obter algumas informações.” Enviou para lá o leão de Allahu ta’âlâ, Alî, Sa’d ibn Abû Waqqâs, Zubayr ibn Awwâm e alguns outros de seus Companheiros. Alî e seus companheiros foram imediatamente até o poço. Ali viram os cameleiros e os aguadeiros de Quraysh. Estes, ao verem os muçulmanos, fugiram. Mas dois deles foram apanhados. Um era Ashlam, escravo dos filhos de Hajjâj, e o outro, Arîd Abû Yasâr, escravo dos filhos de Âs ibn Sa’îd.

Quando os trouxeram à presença de nosso Mestre, o Profeta, Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) perguntou-lhes: “Onde estão os coraixitas?” Eles responderam: “Acamparam atrás daquela colina de areia que se vê ali.” Nosso Mestre perguntou: “Quantos são os coraixitas?” Disseram: “Não sabemos.” À pergunta: “Quantos camelos degolam por dia?” responderam: “Num dia nove, noutro dia dez.” Então nosso Mestre, o Profeta, disse: “São menos de mil e mais de novecentos.” Perguntou de novo: “Quem há entre os notáveis de Quraysh?” Quando disseram: “Utba, Shayba, Hârith ibn Amr, Abul-Bakhtarî, Hakîm ibn Hizâm, Abû Jahl, Umayya ibn Khalaf…”, nosso Mestre Rasûlullah voltou-se para os seus Companheiros e disse: “O povo de Meca vos entregou os filhos de suas entranhas.” Depois perguntou àqueles dois: “Ao virem, houve alguém dos coraixitas que voltou atrás?” Eles responderam: “Sim. Akhnas ibn Abû Sharîq, dos Banû Zuhra, voltou atrás.” Nosso Mestre disse: “Embora ele mesmo não esteja no caminho reto e não conheça nem a outra vida, nem Allahu ta’âlâ, nem o Livro, mostrou aos Banû Zuhra o caminho reto… Além deles, houve mais alguém que voltou?”, e recebeu a resposta: “Voltaram os filhos de Adiyy ibn Ka’b.”10

“Yâ Rasûlallah! Cumpre a ordem de Allahu ta’âlâ, seja ela qual for. Avança com a Sua ordem. Estamos sempre contigo; não nos afastamos de ti nem por um instante” Miqdâd ibn Aswad (radiyallahu anh)

Nosso Mestre, o Profeta, para advertir os coraixitas uma última vez, enviou-lhes Umar com uma proposta de acordo. Umar ibn Khattâb disse-lhes: “Ó povo obstinado! O Rasûl alaihis-salâm diz: ‘Que cada um desista desta empresa e volte em paz. Pois combater outros que não vós me é mais aceitável do que combater-vos!…’”

Diante dessa proposta, Hakîm ibn Hizâm, dos politeístas coraixitas, adiantou-se e disse: “Ó gente de Quraysh! Muhammad agiu convosco com muita equidade. Aceitai imediatamente o que ele pede. Se não fizerdes o que ele diz, juro que depois disto ele não terá convosco nenhuma equidade!…” Abû Jahl, irritado com essas palavras de Hakîm, disse: “Jamais aceitaremos isto, e não voltaremos atrás enquanto não nos vingarmos dos muçulmanos, para que nunca mais ninguém ouse atacar a nossa caravana”, e fechou os caminhos da paz. Umar voltou.

Naquela noite, nosso Mestre, o Profeta, e seus gloriosos Companheiros chegaram a Badr antes dos politeístas e acamparam num lugar próximo dos poços. Nosso Mestre, o Profeta, consultou os seus Companheiros e pediu-lhes a opinião sobre o lugar onde se devia montar o acampamento. Dentre eles, Hubâb ibn Mundhir, que tinha então apenas trinta e três anos, levantou-se e pediu a palavra. Concedida a permissão, perguntou: “Yâ Rasûlallah! Este é um lugar que Allahu ta’âlâ te ordenou para montar o acampamento e no qual é obrigatório ficar? Ou foi escolhido por uma opinião pessoal, como medida de guerra?” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Não! Este lugar foi escolhido como medida de guerra.”

Então Hubâb disse: “Que meu pai, minha mãe e minha vida sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah!

Nós somos gente de guerra. Conhecemos bem também estas paragens. No poço que fica perto do lugar onde os coraixitas vão acampar há água doce e abundante. Se o permitires, acampemos ali. Tapemos todos os poços dos arredores. Depois façamos um reservatório e enchamo-lo de água. Enquanto combatermos o inimigo, sempre que tivermos sede viremos beber do nosso reservatório. O inimigo, porém, não encontrará água e ficará esgotado.”11 Nesse momento, Jibrîl alaihis-salâm trouxe a revelação declarando que essa ideia era acertada. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Ó Hubâb! A opinião acertada é a que indicaste”, e levantou-se. Foram todos juntos ao poço indicado. Taparam todos os poços, exceto o de água doce, e fizeram um grande reservatório. Encheram-no de água e puseram junto dele vasilhas para beber.

Nesse momento, Sa’d ibn Mu’âdh veio à presença de nosso Mestre, o Profeta, e propôs: “Yâ Rasûlallah! Não faremos para ti, com ramos de tamareira, uma cabana de sombra onde possas ficar sentado?” O Orgulho do mundo ficou satisfeito com essa ideia de Sa’d e fez dua por ele. A cabana de sombra foi feita imediatamente. O Sultão dos profetas percorreu e examinou o campo de batalha com os seus honrados Companheiros. De vez em quando parava e, mostrando um a um, com suas mãos abençoadas, os lugares onde os politeístas coraixitas seriam mortos, dizia: “Inshâallah, amanhã de manhã, aqui é o lugar onde fulano cairá ferido! Inshâallah, amanhã de manhã, aqui é o lugar onde fulano cairá ferido! Eis aqui! Aqui!..”

Mais tarde, Umar relatou: “Vi cada um deles ser ferido e morto exatamente sobre o lugar em que Rasûl-i akram pusera a sua mão abençoada. Nenhum deles estava nem um pouco mais adiante, nem mais atrás.”

O Mestre dos mundos (sallallahu alaihi wa sallam) dividiu os Companheiros em três grupos. Entregou o estandarte dos Muhâjir a Mus’ab ibn Umayr, o da tribo de Aws a Sa’d ibn Mu’âdh e o da tribo de Khazraj a Hubâb ibn Mundhir. Cada um reuniu-se sob o seu estandarte.12 Nosso Mestre dispôs o exército em fileiras e pô-lo em ordem.

Enquanto ordenava o exército, tocou com a vara que tinha na mão abençoada o peito de Sawâd ibn Ghaziyya, que se adiantara da fileira, e disse: “Alinha-te, ó Sawâd!” Sawâd disse: “Yâ Rasûlallah! A vara que tens na mão me doeu. Em nome de Allahu ta’âlâ, que te enviou com a verdadeira religião, com o Livro e com a justiça, quero tocar-te também assim com a vara.” Todos os Companheiros ficaram admirados com estas palavras. Seria possível exigir a pena de talião (qisâs) do Mestre do universo? Seria possível fazer uma coisa dessas? Mas nosso Mestre Rasûlullah abriu a frente de sua camisa abençoada e disse: “Vamos, aplica o talião e toma o teu direito.” Então Sawâd, com grande alegria e amor, beijou o peito abençoado de Habîb-i akram (sallallahu alaihi wa sallam).

Enquanto todos esperavam o talião, diante da cena que viram, admiraram seu irmão Sawâd e invejaram o seu estado. Quando nosso amado Profeta lhe perguntou: “Por que fizeste isso?”, Sawâd disse: “Que meu pai, minha mãe e minha vida sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Hoje vejo que, por ordem de Allahu ta’âlâ, chegou o meu termo, e temo separar-me de tua excelsa pessoa. Por isso desejei que, nestes últimos minutos que passamos juntos, meus lábios tocassem o teu corpo abençoado. Quis fazer disto um meio para que, no Dia do Juízo, intercedas por mim e eu assim me salve do castigo.” Diante desse amor, também nosso Mestre, o Profeta, se comoveu muito e fez dua por Sawâd.

A ala direita do abençoado exército do Islã seria comandada pelo heroico mujâhid Zubayr ibn Awwâm, e a ala esquerda por Miqdâd ibn Aswad.13

Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) quis consultar os seus honrados Companheiros sobre o modo de iniciar a batalha e perguntou: “Como combateis vós?” Âsim ibn Thâbit pôs-se de pé, com o arco e a flecha na mão, e deu a sua opinião: “Yâ Rasûlallah! Quando os coraixitas se aproximarem de nós a uns cem metros, atiremos-lhes flechas. Depois, quando chegarem à distância de um tiro de pedra lançada à mão, atiremos pedras. Quando se aproximarem tanto que as lanças os alcancem, lutemos com as nossas lanças até que se quebrem. Depois desembainhemos as espadas e combatamos!” Essa tática agradou a nosso Mestre, o Profeta. Ele deu aos seus Companheiros esta instrução: “Não abandoneis as vossas fileiras. Mantende-vos firmes em vossos lugares, sem vos moverdes. Não comeceis a batalha enquanto eu não der a ordem. Não gasteis as vossas flechas antes que o inimigo se aproxime. Quando o inimigo afastar o seu escudo, atirai as vossas flechas. Quando o inimigo se tiver aproximado bem, atirai pedras com a mão. Quando chegarem perto, usai as vossas lanças. Quando estiverdes peito a peito com o inimigo, combatei com as vossas espadas…”

“Inshâallah, amanhã de manhã, aqui é o lugar onde fulano cairá ferido! Inshâallah, amanhã de manhã, aqui é o lugar onde fulano cairá ferido! Eis aqui! Aqui!..” Hadîth sharîf

Depois foram postas sentinelas e foi dado descanso aos Companheiros. Pela sabedoria de Allahu ta’âlâ, eles caíram num sono tão profundo que não conseguiam sequer levantar as pálpebras. Quando nosso Mestre, o Profeta, se recolheu à cabana de sombra feita de ramos de tamareira, Abû Bakr e, depois, Sa’d ibn Mu’âdh desembainharam as espadas e montaram guarda à porta da cabana. Nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), levantando as mãos abençoadas, com grande tristeza, começou a implorar a Allahu ta’âlâ: “Ó meu Senhor! Se destruíres este punhado de gente, nunca mais serás adorado na face da terra…” Essa dua comovente durou até o amanhecer.

O lugar onde o abençoado exército do Islã acampara era um areal. Por isso era difícil andar, e os pés afundavam na areia. Por graça de Allahu ta’âlâ e pela bênção da dua de nosso Mestre Rasûlullah, naquela noite começou a cair uma chuva cada vez mais forte, e correram torrentes a ponto de fazer transbordar os riachos. Encheram-se as vasilhas de água, e o chão endureceu de tal modo que os pés já não afundavam.

Os politeístas, porém, ficaram no meio da lama e da enxurrada.

Depois do alvorecer, nosso Mestre Rasûlullah despertou os seus Companheiros para o namâz.

Depois de dirigir o namâz da manhã, falou-lhes da excelência do jihâd contra o inimigo e do martírio, e animou-os para a batalha. Disse: “Sem dúvida, Allahu ta’âlâ ordena o que é verdadeiro e justo. Ele não aceita de ninguém a obra que não seja feita para o Seu agrado… Esforçai-vos por cumprir a ordem em que nosso Senhor vos prometeu, nestes lugares, a Sua misericórdia e o Seu perdão, e saí vitoriosos da prova! Pois a Sua promessa é verdade, a Sua palavra é verdadeira e a Sua punição é severa. Eu e vós estamos ligados a Allahu ta’âlâ, o Hayy e o Qayyûm. Nele nos refugiamos, a Ele nos agarramos, Nele nos apoiamos. E a Ele é o nosso último retorno. Que Allahu ta’âlâ perdoe a mim e a todos os muçulmanos!..”

No dia dezessete do nobre mês de Ramadã nasceu o sol de uma sexta-feira. Dentro em pouco começaria a batalha mais implacável, mais desigual, mais importante e maior da história…

De um lado estavam o Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) e um punhado de seus honrados Companheiros, que não hesitavam nem um átomo em sacrificar a vida; do outro, uma turba de kâfirs desenfreados e transbordantes de ódio, reunida para afogar o Islã numa colher d’água e aniquilar um profeta honrado com a dignidade de ser o habîb de Allahu ta’âlâ. Infelizmente, entre eles havia também parentes de Rasûl-i akram. Também eles tinham vindo a Badr para combater o seu querido sobrinho.

Nosso Mestre, o Profeta, passou de novo em revista a ordem de seu exército e repetiu as instruções que havia dado. Nesse momento, os politeístas coraixitas saíram de seu acampamento e começaram a afluir para o vale de Badr. A maioria deles estava coberta de cotas de malha. Com grande soberba e arrogância, haviam passado ao ataque contra o exército do Islã. Quando nosso Mestre Rasûlullah viu os politeístas nesse estado, entrou na tenda com Abû Bakr e, levantando as mãos abençoadas, começou a implorar a Janâb-i Haqq: “Ó meu Senhor! Eis que os politeístas coraixitas vêm com toda a sua soberba e arrogância!… Desafiam-Te e desmentem o Teu Profeta. Ó Allah! Peço-Te que cumpras a promessa de auxílio e de vitória que me fizeste!… Ó Allah! Se quiseres a perdição deste punhado de muçulmanos, depois disto não haverá quem Te adore!…”

Assim, sem cessar, pedindo socorro uma e outra vez, implorava a Allahu ta’âlâ. Essa súplica de nosso Mestre, o Profeta, extremamente comovente e de cortar o coração, continuou até que, em seu enlevo, o manto (ridâ) lhe caiu dos ombros abençoados. Abû Bakr, não suportando essa súplica pungente, levantou do chão, com grande reverência, o manto abençoado e, enquanto o punha sobre o ombro abençoado de nosso Mestre, consolou-o dizendo: “Que minha vida seja sacrificada por ti, yâ Rasûlallah! Basta de tanto implorar!… Insististe muito na dua a teu Senhor! Sem dúvida, Allahu ta’âlâ te dará em breve a vitória que te prometeu.” Nesse instante, o Mestre dos mundos saiu da tenda recitando os versículos sagrados seguintes, nos quais é dito, em sentido: “Esta multidão (de Badr) será sem dúvida em breve desbaratada, e eles voltarão as costas e fugirão. Mais ainda: o verdadeiro tempo do seu castigo é o Dia do Juízo. O castigo daquele tempo é mais terrível e mais amargo.”14

Nosso amado Profeta veio para a frente de seu exército. Recitou aos seus gloriosos Companheiros estes versículos sagrados: “Ó vós que credes! Quando enfrentardes uma tropa inimiga, mantende-vos firmes e mencionai muito Allahu ta’âlâ, para que vos salveis… Assim, talvez alcanceis a salvação. Obedecei a Allah e a Seu Rasûl. Não disputeis entre vós; senão fracassareis, e a força (o poder) que tendes nas mãos se irá. Sede pacientes, pois Allahu ta’âlâ está com os pacientes.”15

Esta seria a primeira batalha travada contra o inimigo com todo o exército reunido. A batalha estava para começar. A emoção chegara ao auge. Quando Rasûl-i akram recitou o versículo sagrado cujo sentido é “Mencionai muito Allahu ta’âlâ…”, todos os Companheiros, a uma só voz, começaram a dizer “Allahu akbar!.. Allahu akbar!..” e a implorar a Janâb-i Haqq que lhes concedesse a vitória. Já só esperavam um sinal de nosso Mestre, o Profeta. Segundo o costume daquele tempo, antes de os dois exércitos se enfrentarem, os valentes de ambos os lados saíam ao campo e lutavam entre si. Nesses duelos crescia de ambos os lados o furor e o desejo de combater, e eles se inflamavam para a batalha. Âmir ibn Hadramî, dos politeístas, sem se submeter a essa regra e pisoteando-a, atirou uma flecha contra o exército do Islã. A flecha atingiu Mihja’, dos Muhâjir; ele caiu mártir, e sua alma abençoada subiu ao Paraíso. O mestre dos profetas deu, a respeito desse primeiro mártir, esta boa nova: “Mihja’ é o sayyid (chefe) dos mártires.” Os Companheiros já não conseguiam conter-se em seus lugares. Mas, sem que viesse uma ordem de nosso Mestre, não podiam fazer o menor movimento.

“Ó meu Senhor! Eis que os politeístas coraixitas vêm com toda a sua soberba e arrogância!… Desafiam-Te e desmentem o Teu Profeta. Ó Allah! Peço-Te que cumpras a promessa de auxílio e de vitória que me fizeste!…” Hadîth sharîf

O íntimo de cada um começou a ferver como um vulcão!..

Nesse momento viu-se que três homens se lançavam à frente do exército dos politeístas. Eram eles, dos filhos de Rabî’a, inimigos ferozes do Islã: Utba, seu irmão Shayba e seu filho Walîd. Gritaram aos mujâhids: “Há entre vós alguém capaz de combater conosco?” Quando, dentre os Companheiros, Abû Hudhayfa avançou primeiro para combater seu pai Utba, o Sultão dos mundos disse-lhe: “Detém-te tu!” Então, dos mujâhids de Medina, os filhos de Afrâ Khâtûn – Mu’âdh e Mu’awwidh – e Abdullah ibn Rawâha avançaram. Postaram-se diante de Utba, Shayba e Walîd. De espada na mão, esperavam prontos.

Os politeístas, querendo que se dessem a conhecer, perguntaram: “Quem sois vós?” Quando eles responderam: “Somos muçulmanos de Medina”, os politeístas disseram: “Nada temos a ver convosco! Queremos os filhos de Abdulmuttalib. Com eles queremos combater”, e, voltando-se para o exército do Islã, gritaram: “Ó Muhammad! Manda contra nós os nossos iguais, do nosso próprio povo!”

Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam), depois de fazer dua por esses três valentes Companheiros que estavam no campo, ordenou-lhes que voltassem aos seus lugares. Depois, percorrendo com o olhar os seus Companheiros, disse: “Ó filhos de Hâshim! Levantai-vos! Combatei no caminho do Haqq contra os que vieram para apagar o nûr de Allahu ta’âlâ com as suas falsas religiões, pois foi para isso mesmo que Allahu ta’âlâ enviou o vosso Profeta. Levanta-te, ó Ubayda! Levanta-te, ó Hamza! Levanta-te, ó Alî!”

Os leões de Allahu ta’âlâ – Hamza, Alî e Ubayda – puseram os elmos e marcharam para o campo. Quando se puseram diante deles, os politeístas disseram: “Quem sois vós? Se fordes nossos iguais, combateremos convosco.” Quando eles responderam: “Eu sou Hamza! Eu sou Alî! Eu sou Ubayda!”, os politeístas disseram: “Também vós sois homens honrados como nós. Aceitamos combater convosco.” Os heroicos mujâhids do Islã convidaram primeiro os politeístas à fé, mas eles não aceitaram. Então os três, ao mesmo tempo, desembainharam as espadas e lançaram-se sobre os politeístas. Hamza e Alî mataram de um só golpe os kâfirs Utba e Walîd. Ubayda feriu Shayba. Também Shayba feriu Ubayda. Hamza e Alî acudiram em socorro de Ubayda e mataram Shayba ali mesmo. Tomaram Ubayda nos braços e levaram-no à presença de nosso Mestre Rasûlullah.16 Do tornozelo abençoado de Ubayda ibn Hârith escorriam sangue e medula. Sem dar a menor atenção ao seu estado, ele perguntou: “Que minha vida seja sacrificada por ti, yâ Rasûlallah! Se eu morrer neste estado, não serei mártir?” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Sim, tu és mártir”, dando-lhe a boa nova de que era dos do Paraíso. (Ubayda (radiyallahu anh) faleceu no caminho de volta da batalha, no lugar chamado Safrâ.) Os politeístas, que perderam nesse duelo três de seus homens importantes, ficaram atordoados. Ainda assim, Abû Jahl, para levantar o moral de seu exército, procurava consolá-los dizendo: “Não olheis para a morte de Utba, de Shayba e de Walîd; eles se precipitaram no combate e morreram em vão! Juro que não voltaremos enquanto não agarrarmos os muçulmanos e os amarrarmos com cordas!..” Os heroicos Companheiros, por sua vez, impacientavam-se por castigar o quanto antes com as suas espadas aquela turba de politeístas. E nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), repetia esta dua, que não lhe saía da língua abençoada: “Ó Allah! Cumpre a promessa que me fizeste!.. Ó Allah! Se destruíres este punhado de muçulmanos, não restará na face da terra ninguém que Te adore!..”

Nesse momento, das fileiras dos politeístas, Abdurrahmân, filho de Abû Bakr, que ainda não se tornara muçulmano – um dos mais ousados e certeiros arqueiros de Quraysh –, saiu ao campo e desafiou alguém para um duelo. Naquele calor do meio-dia do mês de julho, viu-se também, das fileiras dos mujâhids, um homem levar imediatamente a mão à espada e avançar. Era Abû Bakr, o herói honrado por ter sido o primeiro a tornar-se muçulmano e pelo grau de Siddîq, o mais excelso dos homens depois dos profetas… Lançara-se à frente para combater o próprio filho. Mas o Mestre dos mundos disse-lhe: “Ó Abû Bakr! Não sabes que tu és para mim como o meu olho que vê e o meu ouvido que ouve? Não te afastes de mim! Toda aflição que vem ao meu corpo e ao meu coração se alivia ao ver o teu rosto abençoado. Contigo o meu coração se fortalece.”

Assim o impediu de combater. Abû Bakr as-Siddîq não pôde deixar de dizer ao filho: “Ó perverso! Onde ficou o teu vínculo comigo?”

Então viu-se o Sultão dos profetas, Habîb-i akram, inclinar-se para o chão e tomar um punhado de areia. Lançando essa areia sobre o inimigo, disse: “Que se enegreçam os seus rostos!.. Ó Allah! Lança o medo em seus corações e o tremor em seus pés!”, e, voltando-se para os seus Companheiros, deu a ordem: “Ao ataque!.. Avançai!” Os gloriosos Companheiros, que só esperavam um sinal, começaram a mover-se segundo a instrução dada antes. Entre os brados de “Allahu akbar!.. Allahu akbar!..”, as flechas começaram a sibilar, as pedras a acertar os alvos e as lanças a chocar-se contra as cotas de malha… Os leões de Allahu ta’âlâ: Hamza combatia com duas espadas, uma em cada mão; Alî, Umar, Zubayr ibn Awwâm, Sa’d ibn Abû Waqqâs, Abû Dujâna17 e Abdullah ibn Jahsh entravam por uma ponta das fileiras dos politeístas e saíam pela outra, deixando os kâfirs atônitos. Cada um deles se tornara uma fortaleza inexpugnável. Os brados de “Allahu akbar!.. Allahu akbar!..” enchiam o mundo, e a grandeza da majestade de Allahu ta’âlâ abatia-se como uma marreta sobre a cabeça dos kâfirs. Nosso Mestre, o Profeta, implorava a Allahu ta’âlâ dizendo: “Yâ Hayy! Yâ Qayyûm! Yâ Hayy! Yâ Qayyûm!” Alî disse: “Em Badr, o mais ousado e o mais heroico de todos nós era o Rasûl alaihis-salâm. Era também ele o que estava mais perto das fileiras dos politeístas. Quando nos víamos em aperto, refugiávamo-nos junto dele.”

Os politeístas puseram no meio de si o seu chefe, Abû Jahl. Vestiram um deles como Abû Jahl, para que se parecesse com ele. O nome desse desventurado era Abdullah ibn Mundhir. Alî lançou-se sobre Abdullah e, diante dos olhos de Abû Jahl, cortou-lhe a cabeça. Depois vestiram assim Abû Qays. Também a ele Hamza matou.

Alî combatia com um politeísta. O politeísta brandira a espada contra Alî, e a espada ficara cravada no escudo. Quando Alî, desferindo a sua Dhulfiqâr contra o corpo do politeísta coberto pela cota de malha, o fendia com a cota, do ombro até o peito, viu brilhar uma espada sobre a sua cabeça. Abaixou depressa a cabeça. No momento em que o dono da espada reluzente dizia: “Toma! Esta é de Hamza ibn Abdulmuttalib!”, a cabeça do politeísta rolou ao chão com o elmo. Alî, voltando-se, viu seu tio Hamza combatendo com duas espadas. Nosso Profeta, sempre que via os seus Companheiros combaterem com tal bravura, elogiava-os dizendo: “Eles são os leões de Allahu ta’âlâ na face da terra.”

“Ó Allah! Cumpre a promessa que me fizeste!.. Ó Allah! Se destruíres este punhado de muçulmanos, não restará na face da terra ninguém que Te adore!..” Hadîth sharîf

A certa altura, quebrou-se a espada de Ukkâsha, que combatia bem ao lado de nosso Mestre Rasûlullah. Vendo isso, nosso amado Profeta tomou um pedaço de pau que viu no chão e, estendendo-o a ele, disse: “Ó Ukkâsha! Combate com isto!..” Mal Ukkâsha tomou o pau, este, como um milagre de nosso Profeta, transformou-se numa espada longa, reluzente, de dorso forte e cortante. Com essa espada ele matou muitos politeístas até o fim da batalha.

O Mestre dos mundos, Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam), de um lado combatia e, de outro, dizia este hadîth sharîf abençoado, que inflamava os seus Companheiros: “Juro por Allahu ta’âlâ, em cuja mão poderosa está a minha existência, que aqueles que hoje combatem esperando o agrado de Janâb-i Haqq, mostrando paciência e firmeza, e que são mortos avançando sem voltar as costas, Haqq ta’âlâ certamente os porá em Seu Paraíso.” Umayr ibn Humâm, ouvindo estas palavras abençoadas, disse: “Que maravilha! Que maravilha! Então, para eu entrar no Paraíso, não é preciso outra coisa senão tornar-me mártir!”, e intensificou ainda mais os seus ataques. De um lado combatia o inimigo e, de outro, dizia: “A Allahu ta’âlâ não se vai com provisões materiais, mas somente com o temor de Haqq ta’âlâ, com as obras para a outra vida e mostrando paciência e firmeza no jihâd. Todas as outras provisões, sem dúvida, acabam e se esgotam!…” Assim combateu até cair mártir.

A batalha tornara-se violentíssima!… Sobre um único Companheiro lançavam-se ao mesmo tempo pelo menos três politeístas. Nada intimidava os gloriosos Companheiros, que procuravam alcançar cada um deles com a espada. A cada “Allahu akbar! Allahu akbar!..” fortaleciam-se de novo e não se cansavam de atacar uma e outra vez. A certa altura, o ataque dos politeístas tornou-se mais violento, e os Companheiros viram-se em situação difícil. Nesse momento, nosso Mestre Rasûlullah entrou com Abû Bakr na sua tenda feita de ramos de tamareira. Nosso Profeta começou de novo a suplicar a Allahu ta’âlâ. Implorava: “Ó meu Senhor! Concede-me o auxílio que me prometeste!…” Nesse instante veio a revelação, na qual foi dito, em sentido: “Naquela hora pedíeis auxílio e vitória a vosso Senhor, e Ele, dizendo-vos: ‘Certamente virei em vosso auxílio com mil anjos, que se sucederão uns aos outros’, respondeu a este vosso pedido e aceitou a vossa dua.”18 Nosso Mestre, o Profeta, levantou-se imediatamente e disse: “Boa nova, ó Abû Bakr! Chegou-te o auxílio de Allahu ta’âlâ! Eis ali Jibrîl. Sobre as colinas de areia, segurando as rédeas de seu cavalo, armado, espera a ordem.” Como foi declarado na Sura al-Anfâl, Janâb-i Haqq dissera aos anjos, em sentido: “Quando teu Senhor revelou aos anjos: ’Estou convosco (no socorro e no auxílio aos muçulmanos). Vamos, sustentai os crentes (com a boa nova da vitória) e dai-lhes força e vigor. Eu lançarei agora o terror e o medo no coração dos kâfirs. Golpeai-os acima do pescoço e quebrai-lhes as articulações dos dedos das mãos e dos pés, as junturas.’ Pois eles se opuseram a Allahu ta’âlâ e a Seu Rasûl. E quem se opõe a Allahu ta’âlâ e a Seu Rasûl (incorre em Seu castigo): a punição de Allahu ta’âlâ é muito severa!”19

Diante dessa ordem, Jibrîl, Mîkâîl e Isrâfîl alaihimus-salâm, tomando consigo mil anjos cada um, ocuparam por ordem os seus lugares junto de nosso amado Profeta, à sua direita e à sua esquerda.20

Jibrîl alaihis-salâm envolvera a cabeça com um turbante amarelo. Os outros anjos traziam na cabeça turbantes brancos. Haviam deixado cair as pontas dos turbantes sobre as costas e montavam cavalos brancos. O Soberano do mundo disse aos seus Companheiros: “Os anjos têm sinais e distintivos. Fazei também vós um sinal e um distintivo para vós!”

Zubayr ibn Awwâm envolveu a cabeça, à maneira de turbante, com um pano amarelo, e Abû Dujâna com um pano vermelho. Alî pôs um penacho branco, e Hamza prendeu ao peito uma pena de asa de avestruz. Com a entrada dos anjos na batalha, a situação mudou num instante. Antes mesmo que um Companheiro brandisse a espada contra o kâfir à sua frente, a cabeça deste se separava do tronco e caía ao chão. Via-se que, à direita e à esquerda de nosso Mestre, o Profeta, à sua frente e atrás dele, pessoas desconhecidas combatiam os politeístas.

Sahl contou: “Na Batalha de Badr, quando algum de nós brandia a espada sobre a cabeça de um politeísta, víamos que, antes mesmo de a espada chegar ao alvo, a cabeça se separava do corpo e rolava pelo chão!…”

A morte de Abû Jahl

O porta-estandarte dos politeístas, Abû Azîz ibn Umayr, foi feito prisioneiro. O seu comandante, Abû Jahl, para dar coragem aos coraixitas, recitava poemas sem cessar e procurava levantar o moral de seus soldados. Atacava como um rapaz e vangloriava-se dizendo: “Foi para dias como estes que minha mãe me deu à luz!…”, e incitava os jovens. Ubayda ibn Sa’îd, dos politeístas, vestira-se de cota de malha da cabeça aos pés. Só se lhe viam os olhos. Virando-se sobre o cavalo ora para um lado, ora para o outro, desafiava a seu modo, dizendo: “Eu sou Abû Dhât al-Karish! Eu sou Abû Dhât al-Karish!”, isto é: “Eu sou o de grande barriga, o pai da barriga.” O heroico mujâhid Zubayr ibn Awwâm aproximou-se dele, apontou a lança direto para o seu olho e, dizendo: “Allahu akbar!”, arremessou-a. A lança, acertando o alvo, derrubou-o do cavalo. Quando Zubayr correu até ele, Ubayda estava morto. Embora Zubayr apoiasse o pé na face dele e puxasse com toda a força, a lança mal saiu, e saiu torta. O heroísmo que Zubayr mostrou na Batalha de Badr foi imenso. Não lhe ficara no corpo lugar sem ferida. Seu filho Urwa contou isto assim: “Meu pai recebera três graves golpes de espada. Um deles era no pescoço. A ferida deixara uma marca tão funda que eu conseguia enfiar nela o dedo.” Também Abdurrahmân ibn Awf combatia sem tréguas os coraixitas e, sem fazer caso do sangue que corria de suas feridas, derrubava quem lhe aparecia pela frente. Abdurrahmân relatou assim um acontecimento de que foi testemunha: “A certa altura já não havia ninguém diante de mim. Olhando para a direita e para a esquerda, avistei dois rapazes dos Ansâr. Quis estar junto do mais forte e mais destemido deles. Um desses dois jovens mediu-me com o olhar e, voltando-se para mim, perguntou: ‘Ó tio! Conheces Abû Jahl?’ Respondi: ‘Sim, conheço’, e perguntei: ‘Ó filho de meu irmão, que vais fazer com Abû Jahl?’ Ele disse: ‘Disseram-me que ele insulta Rasûlullah. Juro por Allahu ta’âlâ que, se o vir, não me afastarei dele enquanto não o matar ou eu mesmo não morrer.’ Confesso que fiquei admirado diante dessas palavras decididas e resolutas que um jovem dizia em sua exaltação.

“Ó Abû Bakr! Não sabes que tu és para mim como o meu olho que vê e o meu ouvido que ouve? Não te afastes de mim! Toda aflição que vem ao meu corpo e ao meu coração se alivia ao ver o teu rosto abençoado. Contigo o meu coração se fortalece” Hadîth sharîf

O outro desses dois jovens também me examinou com os olhos e disse o mesmo que o primeiro dissera. Nesse momento avistei Abû Jahl! Ele andava sem parar, para lá e para cá, no meio do exército de Quraysh. Quando eu disse: ‘Ó jovens! Aquele homem que vai e vem às pressas, para um lado e para outro, é Abû Jahl’, eles imediatamente empunharam as espadas e foram na direção de Abû Jahl.

Começaram a combater. Esses jovens eram os irmãos Mu’âdh e Mu’awwidh, filhos de Afrâ Khâtûn.” Nesse momento, Mu’âdh ibn Amr, um dos heróis dos Companheiros, encontrou ocasião de chegar perto de Abû Jahl. Lançou-se sobre Abû Jahl, que estava montado num cavalo de cauda longa, e desferiu-lhe na perna, com toda a força, um golpe de espada. A perna de Abû Jahl caiu ao chão. Nesse momento, Ikrima, que acudia em socorro de seu pai e ainda não se tornara muçulmano, começou a combater com Mu’âdh ibn Amr.

Nesse instante, os irmãos Mu’âdh e Mu’awwidh lançaram-se à frente como um falcão. Derrubando quem lhes surgia pela frente, chegaram a Abû Jahl. Golpearam-no com as espadas até julgarem que estava morto.

Mu’âdh ibn Amr, por sua vez, no combate com Ikrima, fora ferido na mão e no braço. Sua mão abençoada fora decepada no pulso e ficara pendurada pela pele. Mu’âdh ibn Amr, inteiramente entregue ao combate, não tinha tempo de ocupar-se da mão, de enfaixá-la para tratá-la. Mesmo com a mão cortada balançando presa à pele, combatia heroicamente.

Allahu akbar!.. Que fé tão forte!.. Que cena digna de se ver!.. Depois de combater assim por algum tempo, Mu’âdh viu que a sua capacidade de movimento diminuíra. A causa era a mão cortada. Pôs imediatamente o pé sobre ela, arrancou-a e lançou-a fora…21

Nawfal ibn Khuwaylid, um dos inimigos ferozes do Islã, era um dos campeões mais admirados de Quraysh. Gritava sem cessar e esforçava-se por excitar e inflamar o rebanho dos politeístas. Vendo-o nesse estado, nosso Mestre, o Profeta, fizera esta dua: “Ó Allah! Ajuda-me contra Nawfal ibn Khuwaylid. Dá-lhe o que ele merece.” O leão de Allahu ta’âlâ, Alî, ao ver o politeísta Nawfal, lançou-se imediatamente sobre ele. Desceu a espada com tal violência que, embora as pernas dele estivessem cobertas pela cota de malha, cortou as duas de uma vez. Depois, golpeando-lhe o pescoço com a espada, separou-lhe a cabeça do tronco.22

Umayya ibn Khalaf, que deitara Bilâl Habashî sobre a areia escaldante e lhe pusera no peito pedras enormes, era um dos mais ferozes politeístas. Esse grande inimigo do Islã, que aproveitava todas as ocasiões para torturar nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam), também no vale de Badr procurava reunir os politeístas e esforçava-se por apagar o nûr do Islã. Bilâl, vendo-o assim, aproximou-se dele de espada desembainhada, postou-se à sua frente e, dizendo: “Ó Umayya ibn Khalaf, cabeça da descrença (kufr)!.. Que eu não me salve, se tu te salvares!”, lançou-se sobre ele. E mal acabara de gritar: “Ó irmãos Ansâr! Acudi, a cabeça da descrença está aqui!”, os Companheiros cercaram Umayya e mataram-no imediatamente.23

No exército dos politeístas já não restava chefe. Nenhum deles sabia o que fazer, e procuravam fugir ao acaso. A fortaleza da descrença ruíra. Os gloriosos Companheiros continuaram a perseguição. Uma parte dos politeístas foi feita prisioneira. Entre os prisioneiros estava também Abbâs, tio de nosso amado Profeta.24

A vitória foi dos que creem

Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), perguntou aos seus gloriosos Companheiros: “Alguém tem notícia de Nawfal ibn Khuwaylid?” Alî adiantou-se e disse: “Yâ Rasûlallah! Eu o matei.” Nosso amado Profeta, muito alegre com essa notícia, proferiu o takbîr dizendo: “Allahu akbar!”, e disse: “Allahu ta’âlâ aceitou a minha dua a respeito dele.”

Quando lhe disseram que Umayya ibn Khalaf fora morto, também se alegrou muito e disse: “Alhamdulillah! Graças a Allahu ta’âlâ. Meu Senhor confirmou o Seu servo e fez triunfar a Sua religião.”

Rasûl-i akram, a respeito de Abû Jahl, disse: “Que terá feito Abû Jahl, que terá sido dele? Quem irá ver?”, e mandou que o procurassem entre os mortos. Procuraram, mas não o encontraram. Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Procurai-o; tenho uma palavra a respeito dele. Se não o reconhecerdes, olhai a cicatriz de seu joelho. Um dia, eu e ele estávamos num banquete de Abdullah ibn Jud’ân. Éramos ambos jovens. Eu era um pouco mais velho que ele. No aperto, empurrei-o. Ele caiu de joelhos. Um de seus joelhos ficou ferido, e a cicatriz dessa ferida nunca mais lhe saiu do joelho.”

Então Abdullah ibn Mas’ûd foi procurar Abû Jahl. Encontrou-o ferido e reconheceu-o. Disse: “És tu Abû Jahl?” Pôs-lhe o pé sobre o pescoço. Agarrou-o pela barba, puxou-a e disse: “Ó inimigo de Allahu ta’âlâ! Afinal Allahu ta’âlâ te humilhou e te aviltou?” Abû Jahl disse: “Por que me havia de humilhar e aviltar! Ó pastor de ovelhas! Que Allah te humilhe e te avilte. Subiste a um lugar bem difícil de subir! Dize-me antes: de que lado estão hoje a vitória e o triunfo?” Ibn Mas’ûd disse: “A vitória está do lado de Allah e de Seu Rasûl.” Enquanto lhe tirava o elmo da cabeça, disse: “Ó Abû Jahl! Vou matar-te.” Abû Jahl disse: “Não és o primeiro a matar o grande de seu povo. Mas, na verdade, ser morto por ti me pesará muito. Ao menos corta-me o pescoço perto do peito, para que a minha cabeça pareça imponente!”, e mostrou a que ponto haviam chegado a sua descrença (kufr), a sua soberba e a sua arrogância.

Ibn Mas’ûd, não conseguindo cortar a cabeça de Abû Jahl com a sua própria espada, cortou-a com a espada de Abû Jahl e, trazendo as armas, a cota de malha, o elmo e a cabeça dele, colocou-os diante de nosso Mestre, o Profeta, dizendo: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Esta é a cabeça de Abû Jahl, o inimigo de Allahu ta’âlâ.” Nosso amado Profeta disse: “Ele é Allah; não há deus senão Ele.” Depois levantou-se e foi com os seus Companheiros até junto do cadáver de Abû Jahl. Ali disse: “Louvado seja Allahu ta’âlâ, que te tornou vil e desprezível.

Ó inimigo de Allah! Tu eras o Faraó desta umma.” Depois agradeceu a Allahu ta’âlâ, dizendo: “Ó meu Senhor! Cumpriste a promessa que me fizeste.” Nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) mandou enfaixar as feridas dos Companheiros feridos. Mandou identificar os que haviam caído mártires. Haviam caído quatorze mártires: seis dos Muhâjir e oito dos Ansâr. Enquanto as almas abençoadas de todos eles voavam para o Paraíso, dos politeístas que se esforçavam por apagar o nûr do Islã setenta foram mortos e setenta feitos prisioneiros. Nosso Mestre Rasûlullah enviou Abdullah ibn Rawâha e Zayd ibn Hâritha a Medina para anunciar a vitória. Nosso Mestre, o Profeta, dirigiu o namâz fúnebre (janâza)25 dos mártires e mandou sepultá-los. Lançaram vinte e quatro dos cadáveres dos politeístas num poço seco e os demais em covas, todos juntos, e cobriram-nos de terra. O Mestre dos mundos veio com os seus honrados Companheiros à beira do poço e disse: “Ó vós que fostes lançados ao poço!” Depois, enumerando os nomes dos politeístas mortos junto com os nomes de seus pais, disse: “Ó Utba ibn Rabî’a! Ó Umayya ibn Khalaf! Ó Abû Jahl ibn Hishâm!.. Que mau povo fostes para o vosso Profeta! Vós me desmentistes, e outros me confirmaram e reconheceram como verdadeiro. Vós me expulsastes de minha cidade e de minha terra, e outros me abriram as suas portas e me apertaram ao peito. Vós me fizestes guerra, e outros me ajudaram. Alcançastes o que meu Senhor vos prometeu? Eu alcancei a vitória que meu Senhor me prometeu.”

“(Ó meus Companheiros!) Os anjos têm sinais e distintivos. Fazei também vós um sinal e um distintivo para vós!” Hadîth sharîf

Umar perguntou: “Yâ Rasûlallah! Falas a gente que já apodreceu?” Então Rasûl-i akram disse: “Por meu Senhor, que me enviou como verdadeiro profeta, digo que vós não me ouvis melhor do que eles. Mas eles não podem responder.”

Os politeístas, fugindo às pressas do campo de batalha para salvar a vida, não puderam levar nada do que tinham trazido. Tudo caiu nas mãos dos muçulmanos. Nosso Mestre, o Profeta, repartiu os bens do espólio entre todos os seus Companheiros que tomaram parte na Batalha de Badr e os que estavam em missão. Ficaram em Badr ainda três noites e, dezenove dias depois, voltaram a Medina. Enquanto isso, Abdullah ibn Rawâha e Zayd ibn Hâritha, enviados como portadores da boa nova, haviam-se aproximado de Medina. No domingo, à hora do duhâ (meio da manhã), ao chegarem ao lugar chamado Aqîq, separaram-se. Abdullah ibn Rawâha entrou em Medina por um lado e Zayd ibn Hâritha por outro. Iam de casa em casa anunciando a vitória. Abdullah ibn Rawâha, o poeta de nosso Mestre Rasûlullah, anunciava a vitória em alta voz, dizendo:

Ó comunidade dos Ansâr! Trago-vos a boa nova:
São e salvo está o Profeta de Allah.
Os politeístas foram mortos e feitos prisioneiros,
E há entre os prisioneiros homens de grande renome.
Os filhos de Rabî’a e de Hajjâj, todos eles,
Foram mortos em Badr, e também Abû Jahl, Amr ibn Hishâm.

Âsim ibn Adiyy perguntou: “Ó Ibn Rawâha! É verdade o que dizes?” Abdullah ibn Rawâha disse: “Sim, por Allah, é verdade! Inshâallah, amanhã Rasûlullah também chegará, com os prisioneiros de mãos atadas!”

O falecimento de Ruqayya

Naquele dia falecera Ruqayya (radiyallahu anhâ), filha de nosso amado Profeta. Seu esposo, Uthmân, dirigira o seu namâz fúnebre. A notícia da vitória, chegando sobre essa tristeza, trouxe-lhes algum alívio.

Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), com os seus Companheiros, louvou a Allahu ta’âlâ, que lhe concedera a vitória de Badr, e prostrou-se em sajda de gratidão; depois pôs-se a caminho de Madîna al-Munawwara com os prisioneiros.

Abdullah ibn Rawâha e Zayd ibn Hâritha, que antes haviam levado a boa nova, tinham contado o que acontecera na Batalha de Badr e quem caíra mártir. As crianças, as mulheres e os encarregados de missões que haviam ficado em Medina alegraram-se muito com a vitória. Saíram ao encontro de nosso Mestre, o Profeta. Entre os que caíram mártires estava também Hâritha ibn Surâqa. A mãe de Hâritha, Rubayyi’, soubera que o filho fora atingido por uma flecha inimiga enquanto bebia água no reservatório, e caíra mártir. Nossa mãe Rubayyi’, ao ouvir essa notícia, dissera: “Enquanto o Rasûl alaihis-salâm não chegar, não chorarei por meu filho. Quando ele honrar Medina com a sua chegada, eu lhe perguntarei. Se meu filho estiver no Paraíso, não chorarei de modo algum. Mas se estiver no Inferno, derramarei sangue de meus olhos em lugar de lágrimas.”

Quando nosso amado Profeta, com os seus abençoados Companheiros, honrou Medina com a sua chegada, Rubayyi’ foi à sua presença e disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Conheces o amor que tenho por meu filho Hâritha. Terá ele caído mártir e entrado no Paraíso? Se assim for, terei paciência. Se não for, derramarei de meus olhos lágrimas de sangue.” Habîb-i akram deu-lhe esta boa nova: “Ó Umm Hâritha! Teu filho não está num só Paraíso, mas em vários. O seu lugar é o Firdaws.” Então Rubayyi’ disse: “Já não chorarei por meu filho.” O Sultão do universo pediu uma vasilha com água. Por compaixão, mergulhou na água a mão abençoada e retirou-a. Deu dessa água a beber à mãe e à irmã de Hâritha. Além disso, passou dessa água sobre a cabeça e o rosto delas. Desde aquele dia, o rosto de Rubayyi’ e de sua filha ficou muito luminoso. E a vida delas foi muito longa. O Preceptor do universo (alaihi afdalus-salawât) repartiu entre os seus Companheiros os setenta prisioneiros trazidos a Medina e ordenou que fossem bem tratados. A respeito da sorte dos prisioneiros ainda não viera nenhuma revelação de Allahu ta’âlâ. Nosso Mestre Rasûlullah, depois de consultar os seus Companheiros, decidiu libertar os prisioneiros mediante resgate (fidya).

O valor do resgate foi fixado segundo os bens de cada prisioneiro. Dos que não tinham dinheiro, os que sabiam ler e escrever ensinariam a ler e a escrever a dez pessoas de Medina que não sabiam, e só depois poderiam ir para Meca. Nosso Mestre, o Profeta, disse a seu tio Abbâs, que estava entre os prisioneiros: “Ó Abbâs! Paga o resgate por ti mesmo, pelo filho de teu irmão, Aqîl ibn Abû Tâlib, e por Nawfal ibn Hârith. Pois tu és rico.” Abbâs disse: “Yâ Rasûlallah! Eu sou muçulmano. Os coraixitas trouxeram-me à força a Badr.” Rasûlullah disse: “Allahu ta’âlâ conhece o teu Islã. Se dizes a verdade, Allahu ta’âlâ certamente te dará a recompensa por isso. Mas, quanto à aparência, estás contra nós. Por isso é preciso que pagues o teu resgate.” Abbâs disse: “Yâ Rasûlallah! Não tenho outros bens além dos 800 dirhams que me tomastes como espólio.” Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Ó Abbâs! E aquelas moedas de ouro, por que não falas delas?” Ele perguntou: “Que moedas de ouro?” Nosso amado Profeta disse: “As moedas de ouro que deste à tua esposa, Umm al-Fadl, filha de Hârith, no dia em que ias sair de Meca! Quando as deste, não havia ninguém convosco além de vós. Tu disseste a Umm al-Fadl: ‘Não sei o que me acontecerá nesta campanha. Se me suceder uma desgraça e eu não voltar, esta parte é tua, esta parte é para Fadl, esta para Abdullah, esta para Ubaydullah e esta para Qutham.’” Então Abbâs ficou atônito e disse: “Juro que, quando dei essas moedas de ouro à minha esposa, não havia ninguém conosco. Como sabes disso?” Quando nosso Mestre, o Profeta, disse: “Allahu ta’âlâ me informou”, Abbâs disse: “Dou testemunho de que és o rasûl de Allahu ta’âlâ e de que dizes a verdade”, e pronunciou a kalima-i shahâda.26 Quando ele se tornou muçulmano, nosso Mestre, o Profeta, encarregou-o de uma missão em Meca. Ordenou-lhe que protegesse os muçulmanos de lá e que enviasse notícias sobre os inimigos do Islã.

“Por meu Senhor, que me enviou como verdadeiro profeta, digo que vós não me ouvis melhor do que eles (os cadáveres dos politeístas). Mas eles não podem responder” Hadîth sharîf

Foi enviada notícia aos coraixitas, derrotados na Batalha de Badr, de que poderiam libertar os seus prisioneiros mediante resgate. Mas Nadr ibn Hârith, que antes da Hégira infligira muitíssimos maus-tratos e torturas ao mestre dos profetas, foi decapitado. E foi morto também o vil Uqba ibn Abû Mu’ayt, que tivera a desventura de pôr intestinos de camelo sobre as costas abençoadas do Rasûl alaihis-salâm enquanto ele fazia o namâz junto à Ka’ba. Quando a cabeça desse feroz inimigo do Islã foi separada do tronco, nosso Mestre Rasûlullah louvou a Allahu ta’âlâ. Indo até junto dele, disse: “Por Allah, não conheço ninguém tão mau quanto tu, que negaste Allahu ta’âlâ, o Seu rasûl e o Alcorão al-Karîm e submeteste o teu profeta a tortura após tortura.”

Os prisioneiros, até serem resgatados pelos seus, mediante pagamento, ficaram junto dos Companheiros (alaihimur-ridwân). Todos os Companheiros trataram muito bem os prisioneiros e fizeram-nos partícipes de seu alimento.

Abû Azîz, irmão de Mus’ab ibn Umayr, estava entre os prisioneiros. Ele contou: “Eu também era prisioneiro na casa de um muçulmano de Medina. Tratavam-me muito bem: davam-me o pão que comeriam de manhã e à tarde, e eles próprios ficavam obrigados a comer só tâmaras. Se algum deles conseguia um pedaço de pão, trazia-o diretamente para mim. Eu, envergonhado, devolvia o pão a quem o trouxera. Mas ele o devolvia de novo a mim.”

Também um coraixita chamado Yazîd, dentre os prisioneiros, contou assim: “Quando os muçulmanos vinham de Badr para Medina, fizeram-nos montar, a nós, prisioneiros, nos animais, e eles mesmos foram a pé.”

Entre os prisioneiros estava também Abul-Âs ibn Rabî’, filho da irmã de Khadîja (radiyallahu anhâ) e genro de nosso Mestre, o Profeta. Abul-Âs era um dos mercadores de Meca e tinha muitos bens. Era famoso por sua fidelidade aos depósitos e por sua probidade. Quando de Meca se enviavam os resgates dos prisioneiros, Zaynab, para completar o resgate, enviara também o colar que sua mãe lhe dera de presente no dia do casamento. Quando chegaram os resgates, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) reconheceu o colar e disse: “Ó meus Companheiros, se o achardes bem, devolvei à minha filha Zaynab o seu prisioneiro, junto com o seu resgate.” Os Companheiros concordaram. Com a condição de enviar Zaynab a Medina, permitiu-se a Abul-Âs voltar a Meca com os seus bens. Abul-Âs mandou Zaynab e os que estavam com ela pôr-se a caminho, junto com seu irmão Kinâna. Os politeístas, sabendo disso, encolerizaram-se e enviaram alguns de seus homens atrás deles. Alcançaram-nos em Dhû Tuwâ. Quando Habbâr ibn Aswad arremessou a lança, o camelo espantou-se e atirou Zaynab ao chão. Kinâna espalhou as flechas diante de si e disse que mataria com uma flecha quem quer que atentasse contra Zaynab. Tirou Zaynab de Meca e levou-a até a etapa da viagem. Zaynab adoeceu em consequência dos ferimentos que sofreu. Estava grávida; ao chegar a Medina, perdeu o filho. O Rasûl alaihis-salâm, ao saber disso, entristeceu-se muito.

A derrota dos politeístas em Badr e a sua fuga do campo de batalha em estado lastimável provocaram em Meca grande consternação. Ocorrera um resultado que eles não esperavam de modo algum, que nem sequer lhes passara pela cabeça. Abû Lahab e os outros politeístas não acreditaram nas palavras do primeiro que trouxe a notícia. Quando Abû Sufyân, que fugira do campo de batalha, chegou a Meca, chamaram-no imediatamente à sua presença. Abû Lahab perguntou-lhe: “Ó filho de meu irmão! Conta-nos: como foi?” Abû Sufyân sentou-se ali num lugar. Muitos o escutavam de pé. Abû Sufyân contou assim:

“Nem perguntes: quando nos encontramos com os muçulmanos, era como se tivéssemos as mãos e os braços atados. Fizeram o que quiseram. Mataram uma parte de nós e fizeram prisioneira outra parte. Juro que não censuro nem recrimino nenhum dos nossos. Pois naquele momento nos deparamos, entre a terra e o céu, com homens vestidos de branco montados em cavalos tordilhos. Nada lhes podia resistir, nem ninguém lhes podia fazer frente!”

Estava ali Abû Râfi, escravo de Abbâs, que, embora se tivesse tornado muçulmano nos primeiros tempos do Islã, não declarava o seu Islã por medo da maldade dos politeístas. Abû Râfi, que os escutava em silêncio, de tanta alegria, esqueceu-se de tudo e deixou escapar: “Por Allah, aqueles eram anjos!”

Abû Lahab deu-lhe uma violenta bofetada, levantou-o e atirou-o ao chão. Bateu-lhe ainda bastante. Então Umm al-Fadl, esposa de Abbâs, que estava ali, não pôde conter-se. Pois também ela já se tornara muçulmana. Umm al-Fadl tomou uma das estacas que havia no quarto e, dizendo: “Por ele não ter ninguém o julgaste fraco, não é?”, golpeou violentamente Abû Lahab. A cabeça de Abû Lahab abriu-se. Sangrando, vil, desprezível e humilhado, ele voltou as costas e foi-se embora. Sete dias depois, Allahu ta’âlâ deu-lhe uma doença chamada “pústula negra”. Morreu dessa doença. Seus filhos deixaram-no duas ou três noites sem o enterrar. Por fim começou a cheirar mal. Todos fugiam da doença que acometera Abû Lahab como quem foge da peste (tâ’ûn) e sentiam repugnância. Então um dos coraixitas disse aos filhos de Abû Lahab: “Ai de vós! Não tendes vergonha? Deixastes vosso pai em casa até cheirar mal. Ao menos enterrai-o em algum lugar e fazei-o desaparecer.” Os filhos responderam àquele homem: “Temos medo da doença que ele tem!” Então o homem disse-lhes: “Ide vós, eu também vou; vou ajudar-vos.” Depois os três se juntaram. Carregaram-no e deixaram-no num lugar afastado. Atiraram-lhe pedras por cima até que não se visse mais. Assim Abû Lahab entrou na morada em que ficará para sempre no castigo e no fogo: o seu túmulo, escuro, que é uma cova do Inferno.

Entre os coraixitas feitos prisioneiros em Badr estava também Walîd ibn Walîd. Fora Abdullah ibn Jahsh quem o capturara. Os irmãos de Walîd, Hishâm e Khâlid ibn Walîd, que ainda não se tornara muçulmano, vieram a Medina. Abdullah ibn Jahsh não quis soltá-lo sem o pagamento do resgate (fidya-i najât). Khâlid concordou, mas Hishâm, seu irmão por parte de pai e de outra mãe, não aceitou. Nosso Mestre Rasûlullah propôs que se entregassem as armas e o equipamento do pai deles. Hishâm concordou, mas Khâlid não aceitou. Por fim, chegaram a acordo em troca da espada, da cota de malha e do elmo do pai deles, que valiam cem dinares. Libertaram Walîd do cativeiro e puseram-se a caminho de Meca. Mas Walîd, no caminho de Meca, em Dhul-Hulayfa, a quatro milhas de Medina, separou-se deles, foi até nosso Mestre, o Profeta, abraçou a fé e tornou-se um dos Companheiros. Algum tempo depois de se tornar muçulmano, foi a Meca, para junto de seus irmãos. Então Khâlid ibn Walîd perguntou-lhe: “Já que ias tornar-te muçulmano, por que não o fizeste antes de pagar o resgate? Fizeste-nos perder a lembrança que nos ficara de nosso pai. Por que fizeste isso?” Ele respondeu: “Tive medo de que os coraixitas dissessem: ‘Não suportou o cativeiro e seguiu Muhammad alaihis-salâm.’”

“Ó Abbâs! Allahu ta’âlâ conhece o teu Islã. Se dizes a verdade, Allahu ta’âlâ certamente te dará a recompensa por isso. Mas, quanto à aparência, estás contra nós. Por isso é preciso que pagues o teu resgate” Hadîth sharîf

Seus irmãos, muito irritados com esta resposta, encerraram-no na prisão junto de alguns muçulmanos dos filhos de Makhzûm, Ayyâsh ibn Abû Rabî’a e Salama ibn Hishâm (radiyallahu anhumâ). Walîd ibn Walîd (radiyallahu anh) ficou anos na prisão por ter abraçado a fé. Sofreu muita injustiça e tortura de seu tio Hishâm, um dos inimigos ferozes do Islã, e de seus parentes politeístas. Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) fez esta dua por Ayyâsh ibn Abû Rabî’a, Salama ibn Hishâm e Walîd, vítimas da opressão dos politeístas: “Ó Allah! Salva Walîd ibn Walîd, Salama ibn Hishâm, Ayyâsh ibn Abû Rabî’a e os outros crentes que são tidos por fracos (e impotentes, sufocados nas mãos dos kâfirs). Ó Allah, esmaga Mudar (os coraixitas) com mais dureza (muito duramente). Faze estes anos (para eles) semelhantes aos anos de Yûsuf.”

Pela bênção da dua de nosso Mestre Rasûlullah, Walîd encontrou uma ocasião e fugiu do lugar onde estava amarrado. Chegou a Madîna al-Munawwara e reuniu-se a nosso amado Profeta. Quando nosso Mestre Habîbullah perguntou pela situação de Ayyâsh ibn Abû Rabî’a e de Salama ibn Hishâm, ele informou que estavam amarrados um ao outro pelos pés e que se contorciam sob castigos e torturas terríveis.

O Sultão do universo entristeceu-se muito com o estado deles e procurou os meios de salvá-los. Quando perguntou quem poderia salvá-los, Walîd, embora tivesse passado anos sob tortura, respondeu com grande coragem e amor: “Yâ Rasûlallah! Eu os salvarei e os trarei a ti.” Voltou a Meca e, seguindo uma mulher que lhes levava comida, descobriu onde estavam os muçulmanos torturados. Os dois estavam presos num edifício sem teto. Walîd, de noite, arriscando a vida, desceu com grande coragem pelo muro e chegou até os seus companheiros. Os dois oprimidos, que não tinham outra culpa senão a de ter crido, eram amarrados pelos politeístas a uma pedra e submetidos a toda sorte de injustiças sob o calor abrasador do deserto da Arábia. Walîd libertou esses seus irmãos abençoados e fê-los montar em seu camelo. Ele mesmo, a pé e descalço, pôs-se a caminho de Madîna al-Munawwara, para chegar quanto antes junto de Rasûlullah, a quem tanto amava. Não era o calor escaldante do deserto que o queimava, mas o amor de reunir-se ao Mestre dos mundos.

Chegou a Medina em três dias, faminto, sedento e descalço. Seus dedos estavam despedaçados pelas pedras. Walîd ibn Walîd, todo ensanguentado, reuniu-se a Habîbullah, a quem tanto amava.

A vitória de Badr encheu os muçulmanos de grande alegria. Os politeístas, ao contrário, caíram em grande tristeza e desespero. Também o Najâshî, rei da Abissínia, ao saber que nosso Mestre Rasûlullah saíra vitorioso, foi imediatamente até os Companheiros que estavam em seu país e deu-lhes a boa nova, dizendo: “Louvado seja Allahu ta’âlâ, que fez vitorioso o Seu Rasûl em Badr e lhe concedeu a vitória.”

Os acontecimentos depois da Batalha de Badr

Nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) lutava em Medina tanto com os judeus como com os hipócritas que pareciam muçulmanos, como Abdullah ibn Ubayy, e ainda com os politeístas. Além disso, convidava ao Islã as tribos politeístas de fora de Medina e esforçava-se para que fossem honradas com a conversão ao Islã. As expedições de Qarqara, Banû Qaynuqâ, Sawîq, Ghatafân, Bahrân… ocorreram todas depois da Batalha de Badr.

Alguns acontecimentos do segundo ano da Hégira

Neste ano veio a ordem de que o zakât se tornava fard, de que se desse a sadaqa do fitr, de que se fizessem os namâz do bayram e de que se oferecesse o sacrifício. Nosso Mestre Rasûlullah casou a sua filha Umm Kulthûm com Uthmân. Tomou em casamento Hafsa, filha de Umar, e Zaynab bint Khuzayma (radiyallahu anhumâ). Nasceu Hasan, filho de Alî.

O casamento com Âisha

Nosso Mestre, o Profeta, ficara noivo de Âisha quando ainda estava em Meca, mas ainda não houvera a festa de casamento. Certo dia, Abû Bakr perguntou ao Soberano do mundo: “Yâ Rasûlallah! O que te impede de te reunires à tua esposa?” Rasûlullah disse: “O dote (mahr).” Abû Bakr enviou a Rasûlullah o dinheiro do dote.27

Então se celebrou a festa de casamento de nossa mãe Âisha. Nosso Mestre, o Profeta, tinha então cinquenta e cinco anos.28 Nossa mãe Âisha era muito inteligente e dotada e conseguia narrar em versos, de improviso, os acontecimentos. Jamais esquecia o que aprendera e decorara. Era muito sensata, inteligente, sábia, culta, casta e virtuosa. Como tinha uma memória muito forte, os Companheiros perguntavam-lhe e aprendiam com ela muitas coisas. Foi louvada num versículo sagrado.

A expedição de Qarqarat al-Kudr

Chegou a notícia de que um grupo dos Banû Sulaym e de Ghatafân se reunira em Qarqara. Então nosso Mestre, o Profeta, partiu de Medina com duzentos homens dos Muhâjir e dos Ansâr. Ibn Umm Maktûm ficara em Medina como substituto. Alî levava o estandarte branco. Chegaram ao lugar. Não encontraram ninguém: os politeístas, sabendo da chegada do exército do Islã, haviam abandonado o local. Avançando pelo vale, depararam com um cameleiro. Perguntaram-lhe onde estavam os dos Banû Sulaym e de Ghatafân. O cameleiro disse: “Contrataram-me por cinco dias para cuidar de seus animais. Agora não sei onde estão.” Tomaram-se como espólio quinhentos camelos. O pastor Yasâr foi também feito prisioneiro. Depois de pernoitarem três noites no vale de Qarqarat al-Kudr, partiram para Medina tocando os camelos. Nosso Mestre, o Profeta, num lugar chamado Dirâr, separou a quinta parte dos camelos e repartiu o restante. Couberam a cada um dois camelos. No dia seguinte, enquanto faziam o namâz da manhã, viram que esse cameleiro chamado Yasâr fazia o namâz com eles. Nosso Mestre, o Profeta, libertou esse escravo. Depois voltaram a Medina sãos e salvos.

“Por Allah, não conheço ninguém tão mau quanto tu (Uqba ibn Abû Mu’ayt), que negaste Allahu ta’âlâ, o Seu rasûl e o Alcorão al-Karîm e submeteste o teu profeta a tortura após tortura” Hadîth sharîf

Toda alma que arde no fogo do anseio sem limites torna-se luz;
E o coração arruinado pela dor do amor é de novo edificado.

A expedição de Banû Qaynuqâ

Certo dia, os judeus de Banû Qaynuqâ quiseram zombar de uma mulher muçulmana; um dos Companheiros, vendo isso, desembainhou imediatamente a espada e matou aquele judeu. Os judeus, por sua vez, reuniram-se e mataram esse abençoado Companheiro, que caiu mártir. O ocorrido foi comunicado a nosso Mestre, o Profeta. Rasûl-i akram reuniu-os no mercado de Qaynuqâ e disse: “Ó comunidade dos judeus! Temei ser atingidos por um castigo como o castigo que Allahu ta’âlâ deu aos coraixitas, e tornai-vos muçulmanos. Sabeis bem que sou um profeta enviado por Allahu ta’âlâ. Isto, e também o pacto que Allahu ta’âlâ fez convosco, vós o lestes em vosso livro…”

“Louvado seja Allahu ta’âlâ, que fez vitorioso o Seu Rasûl em Badr e lhe concedeu a vitória” o Najâshî Ashama (rahmatullahi alaih)

A expedição de Banû Qaynuqâ

Apesar dessa misericórdia, os judeus, que romperam o tratado que haviam feito, desafiaram o Sultão dos mundos dizendo: “Ó Muhammad! Não te iluda teres derrotado um povo que não sabe guerrear! Juramos que nós somos gente de guerra! Só quando começares a combater conosco compreenderás que heróis somos nós!..” Assim deixaram claro que haviam rompido o tratado anterior e lançavam o desafio. Então Jibrîl alaihis-salâm trouxe a revelação, em que era dito, em sentido: “(Ó Meu Habîb!) Se temeres uma traição (uma ação contrária ao pacto) da parte de um povo que fez tratado (contigo), (antes de declarar guerra) comunica-lhes diretamente, com verdade e justiça, que rejeitas o pacto deles. Pois Allahu ta’âlâ não ama os traidores.”29

Em outro versículo sagrado foi dito, em sentido: “Ó Meu Rasûl! Dize àqueles judeus que são kâfirs: Sem dúvida sereis vencidos e sereis reunidos e arrastados para o Inferno; e que péssimo lugar de permanência é o Inferno!”30

Habîb-i akram, imediatamente, num sábado, em meados do mês de Shawwâl, formou um exército e marchou contra a fortaleza onde estavam os judeus de Qaynuqâ. Hamza levava o estandarte branco, e Abû Lubâba ficara em Medina como substituto.31

O abençoado exército cercou a fortaleza de Qaynuqâ. Os judeus, que diziam “Que heróis guerreiros somos nós!..”, longe de resistir, nem sequer ousaram atirar uma flecha de sua fortaleza. Nosso Mestre Rasûlullah pôs sob controle as entradas e as saídas. Ninguém pôde sair. Essa situação durou quinze dias.32

Os judeus, tomados de medo, renderam-se. Embora cada um deles devesse ser morto, nosso amado Profeta, enviado como misericórdia para os mundos, teve compaixão e permitiu aos judeus de Qaynuqâ que fossem para a Síria. A nenhum deles se permitiu ficar naquela região. Assim foram expulsos das terras de Medina.33 Os Banû Qaynuqâ partiram de suas terras. Seus bens e suas armas tornaram-se espólio para os muçulmanos.

A expedição de Sawîq

Abû Sufyân, quando chegou a Meca fugindo da Batalha de Badr, fez o voto de “não untar a cabeça com óleo e não se aproximar de suas mulheres” enquanto não se vingasse de Muhammad (sallallahu alaihi wa sallam). No segundo ano da Hégira, no domingo, quinto dia do mês de Dhul-Hijja, para cumprir o seu voto, partiu rumo a Medina com duzentos cavaleiros. Certa noite, foi à casa de alguém em Medina e perguntou por nosso Mestre, o Profeta. Aquela pessoa não lhe deu atenção.

Nem sequer lhe abriu a porta. Saindo dali, hospedou-se em casa de Sallâm ibn Mishkam. No dia seguinte, partindo dali, chegou à localidade de Urayd. Nessa localidade encontrou Ma’bad ibn Amr, dos Ansâr, e o seu servo e matou-os enquanto trabalhavam; caíram mártires. Ateou fogo a um tamaral e foi-se dali dizendo: “Meu juramento está cumprido.”

Quando esse acontecimento foi comunicado a nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), ele deixou Abû Lubâba em Medina como substituto e saiu com duzentos homens no encalço de Abû Sufyân.

“Sem dúvida sereis vencidos e sereis reunidos e arrastados para o Inferno; e que péssimo lugar de permanência é o Inferno!” Âl Imrân: 12

Os politeístas, sabendo disso, puseram-se em fuga. Para se salvarem, fugiram abandonando ali as suas cargas e uma espécie de cereal a que chamavam “sawîq”, junto com as panelas que haviam trazido para cozinhá-lo. Os muçulmanos encontraram essas coisas e tomaram-nas como espólio. Por isso esta expedição é chamada expedição de Sawîq.

O casamento de Alî e Fâtima

Era o segundo ano da Hégira. Fâtima, filha do Orgulho do universo (sallallahu alaihi wa sallam), completara quinze anos.

Certo dia, Fâtima entrara na presença de Rasûl-i akram para um serviço. Nosso Mestre Rasûlullah observou que sua filha chegara à idade de casar. Desde esse dia, muitos pediram a mão de nossa mãe Fâtima az-Zahrâ. O Rasûl alaihis-salâm não lhes deu atenção e disse: “O assunto dela depende da ordem de Haqq ta’âlâ.”

Certo dia, Abû Bakr, Umar e Sa’d ibn Mu’âdh, sentados na mesquita, conversavam: “Todos pediram a mão de Fâtima, exceto Alî. A ninguém se deu atenção.” Siddîq disse: “Creio que caberá a Alî. Vamos visitá-lo e falar-lhe deste assunto. Se ele alegar a pobreza, nós o ajudaremos.” Sa’d disse: “Ó Abû Bakr! Tu sempre fazes o bem. Levanta-te, que nós te faremos companhia.” Os três saíram juntos da mesquita e foram até Alî. Alî levara o seu camelo e estava regando o tamaral de um dos Ansâr. Ao vê-los, recebeu-os e perguntou-lhes como estavam. Abû Bakr disse: “Ó Alî! Em toda obra de bem tu és o primeiro, e junto de Rasûl-i akram estás num grau que não foi dado a ninguém. Todos pediram a mão de Fâtima. A ninguém se deu atenção. Pensamos que ela caberá a ti. Por que não tomas a iniciativa?”

Ao ouvir isso, os olhos abençoados de Alî encheram-se de lágrimas, e ele disse: “Ó Abû Bakr! Tocaste-me fundo no coração. Ninguém a deseja mais do que eu. Mas a minha pobreza me impede.” Abû Bakr disse: “Não digas isso. Junto de Allahu ta’âlâ e de Seu Rasûl, o mundo não é nada. A pobreza não pode ser impedimento para isso. Vai e pede-a.”

Alî conta: “Entrei na presença de Rasûlullah com vergonha e acanhamento. Toda a majestade e a gravidade de Rasûlullah estavam sobre ele. Sentei-me diante dele e não fui capaz de falar. Nosso Mestre Rasûlullah perguntou: ‘Por que vieste? Tens alguma necessidade?’ Calei-me. Quando disse: ‘Certamente vieste pedir a mão de Fâtima’, só consegui dizer: ‘Sim.’ (Nosso Mestre, o Profeta, fez saber a Fâtima que Alî a pedia. Ela se calou.) Nosso Mestre, o Profeta, perguntou: ‘Que tens para dar a Fâtima como dote?’ Respondi: ‘Yâ Rasûlallah, não tenho comigo nada que lhe possa dar.’”

Ele perguntou de novo: “Onde está a camisa de malha khutamiyya que te dei? Que foi feito dela?” Quando respondeu: “Está comigo”, disse: “Vende-a e traze-me o dinheiro. Como dote, isso basta.”34 Em outra narração, quando nosso Mestre Rasûlullah perguntou a Alî: “Que tens contigo?”, ele respondeu: “Tenho o meu cavalo e a minha camisa de malha”, e nosso Mestre Rasûlullah disse: “O cavalo te será necessário, mas vende a tua cota de malha.” E em outra narração ele disse: “Ó Alî, vai e aluga uma casa para ti.”

Até se casar, Alî vivia junto de nosso Mestre, o Profeta. Por ordem de nosso Mestre, o Profeta, alugou a casa de Hâritha ibn Nu’mân, perto da Masjid an-Nabawî, defronte do quarto de Âisha. Enviou a sua cota de malha ao mercado. Uthmân (radiyallahu ta’âlâ anh), andando pelo mercado, reconheceu a cota de malha de Alî. Chamou o pregoeiro e perguntou: “Quanto pede o dono por esta cota?” O pregoeiro respondeu: “Pede quatrocentos dirhams.” Uthmân (radiyallahu anh) disse: “Vem buscar o dinheiro.” Depois foi para sua casa venturosa. Recebeu a cota do pregoeiro e pagou-lhe o dinheiro. Disse: “Esta cota não convém a ninguém senão a ele. E este dinheiro, que ele o gaste na festa de casamento. E que aceite também as nossas desculpas.” Deu os quatrocentos dirhams e, pondo por cima a cota de malha, enviou tudo de presente a Alî. Quando Alî veio a nosso Profeta com a cota e os dirhams, nosso Mestre, o Profeta, fez muitas duas pelo bem de Uthmân e disse: “Uthmân é o meu companheiro no Paraíso.” Depois chamou Bilâl Habashî, deu-lhe uma parte do dinheiro e ordenou: “Toma este dinheiro e vai ao mercado! Compra um pouco de água de rosas e, com o resto do dinheiro, mel, e dissolve-o com água num recipiente limpo, num canto da mesquita. Faze uma bebida de mel (sharbat), para que a bebamos depois de celebrado o nikâh. Convida à mesquita os meus Companheiros, dos Ansâr e dos Muhâjir, que estiverem presentes, e anuncia ao povo que será celebrado o nikâh de Fâtima e Alî.”

Bilâl Habashî saiu e anunciou ao povo que seria celebrado o nikâh de Alî e Fâtima. Os Companheiros vieram à Masjid an-Nabawî e encheram-na por dentro e por fora. Então nosso Mestre, o Profeta, levantou-se e pronunciou esta khutba: “Todo louvor e toda gratidão pertencem ao Senhor dos mundos. Ele é Aquele que é louvado pelas dádivas que concede, adorado por Seu poder e Sua força infinitos, temido por Seu castigo e Seu ajuste de contas, cujo juízo e cuja ordem prevalecem na terra e nos céus. Foi Ele quem criou as criaturas com Seu poder, quem as distinguiu umas das outras com Seus juízos justos e quem honrou os homens com a religião (do Islã) e com o Profeta Muhammad (alaihis-salâm)… Allahu ta’âlâ ordenou-me que unisse em nikâh minha filha Fâtima a Alî ibn Abû Tâlib. Tomo-vos agora por testemunhas de que (por ordem de Allahu ta’âlâ) uni em nikâh Fâtima a Alî ibn Abû Tâlib, com um dote de 400 mithqâls de prata. Que meu Senhor una as suas vidas e torne essa união abençoada para eles. Que torne a sua descendência pura, chave da misericórdia, mina de sabedoria e segurança para a umma de Muhammad.

Isto é o que eu tinha a dizer. Peço a meu Senhor perdão para mim e para vós.”

Depois Alî também se levantou e pronunciou esta breve khutba: “… Envio salât e salâm a Muhammad alaihis-salâm, em cuja presença estamos e que me uniu em nikâh a sua filha abençoada, Fâtima, com um dote de 400 mithqâls de prata. Ó meus irmãos de religião! Sem dúvida ouvistes o que nosso Mestre, o Profeta, disse e sois testemunhas disso. Também eu sou testemunha disso e estou de acordo. Aceito-o exatamente assim. Allahu ta’âlâ é testemunha das palavras de todos nós e o Guardião de todos nós.”35

“Uthmân é o meu companheiro no Paraíso” Hadîth sharîf

Concluído o contrato do nikâh, nosso Mestre, o Profeta, mandou trazer tâmaras frescas e disse: “Vamos, tomai destas tâmaras e comei.” Todos tomaram e comeram. Depois Bilâl distribuiu a bebida de mel; também a beberam, e todos os Companheiros fizeram esta dua: “Bârakallahu fîkumâ wa alaikumâ wa jama’a shamlakumâ.” Quando se celebrou o nikâh, Fâtima (radiyallahu anhâ) tinha quinze anos e Alî (radiyallahu anh), vinte e cinco.

Depois do nikâh, Fâtima chorava. Nosso Mestre, o Profeta, foi até ela e disse: “Ó Fâtima! Que tens, que choras? Juro por Allahu ta’âlâ que te uni em nikâh ao mais sábio dos que te pediram, ao mais excelente em brandura e em inteligência e ao primeiro a tornar-se muçulmano.” Fâtima disse: “Papai! O dote de toda moça que se casa é avaliado e fixado em ouro e prata. Se também o meu dote for fixado assim, que diferença haverá entre ti e os outros? No Dia do Juízo, por quantos dos pecadores entre os crentes tu intercederes, eu quero interceder pelas mulheres deles. Este é o meu desejo.”

Quando Allahu ta’âlâ fez saber que esse desejo de Fâtima fora aceito, nosso Mestre Rasûlullah disse: “Ó Fâtima, mostraste que és filha de profeta!”

Alî disse: “Passaram-se alguns meses depois destes acontecimentos. Na assembleia não se falou mais do assunto. Também eu, por pudor (hijâb), isto é, por vergonha, não consegui abrir a boca. Mas nosso Mestre Rasûlullah, às vezes, quando me via a sós, dizia: ‘Que boa mulher é a tua esposa! Boa nova para ti: ela é a sayyida (senhora) das mulheres do mundo.’”

Naqueles dias, Aqîl, irmão de Alî, disse: “Ó Alî! Alegramo-nos com este contrato de casamento. Mas o meu desejo é que estes dois venturosos passem a viver juntos.” Alî respondeu: “Esse é também o meu desejo, mas tenho vergonha.” Aqîl tomou Alî pela mão e, quando chegaram à casa de nosso Mestre, o Profeta, encontraram Umm Ayman, a criada de Rasûlullah. Contaram-lhe a situação. Umm Ayman disse: “Não é preciso que vós venhais para isto. Nós combinaremos com as esposas puras (azwâj-i tâhirât) e vos daremos a notícia. Pois nestes assuntos se escuta a palavra das mulheres.”

Umm Ayman contou o caso às esposas de Rasûlullah. As outras esposas puras vieram então à casa de Âisha. Lembrando Khadîja, disseram: “Se ela estivesse viva, não teríamos nenhuma preocupação.” Nosso Mestre Rasûlullah chorou e disse: “Onde há uma mulher como Khadîja? Quando o povo me desmentia, ela me confirmou e gastou todos os seus bens em meu caminho. Ajudou muito a religião do Islã. Quando ela ainda vivia, Haqq ta’âlâ ordenou-me: ‘Dá a Khadîja a boa nova: no Paraíso foi construído para ela um palácio de esmeralda.’” As esposas de nosso Mestre Rasûlullah expuseram o desejo de Alî. Então nosso Mestre Rasûlullah ordenou a Umm Ayman que chamasse Alî. Quando Alî chegou, as mulheres que estavam na assembleia levantaram-se e saíram. Alî sentou-se de cabeça baixa. Rasûlullah perguntou: “Queres a tua esposa, ó Alî?”

Alî (radiyallahu anh) disse: “Sim, yâ Rasûlallah! Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti.” Rasûl-i akram disse a Asmâ bint Umays: “Vai e prepara a casa de Fâtima.” Asmâ foi à casa para onde Fâtima iria como noiva. Fez uma almofada de couro novo, outra de couro remendado e outra de esteira, e encheu-as de fibra de tamareira. Nosso Mestre Rasûlullah, depois do namâz da noite, foi à casa de Fâtima e examinou o que fora preparado.

Nosso Profeta ordenou que, com dois terços do dinheiro trazido por Alî, se comprassem coisas como alimentos, adornos e perfumes, e com um terço, roupas, e mandou completar os utensílios da casa. No enxoval e nos utensílios da casa de Fâtima havia isto: as três almofadas preparadas por Asmâ bint Umays, um tapete com franjas, um travesseiro cheio de fibra de tamareira, dois moinhos de mão, um odre de água, um cântaro de barro, um copo de couro, uma toalha, uma saia, uma pele de carneiro curtida, um tapete iemenita listrado, já gasto e sem pelo, um estrado trançado de folhas de tamareira, duas vestes listradas de feitio iemenita e uma colcha de veludo. Depois nosso Mestre Rasûlullah deu a Alî algum dinheiro e mandou-o comprar tâmaras e manteiga. Alî contou assim o que se seguiu:

“Comprei tâmaras com cinco dirhams e manteiga com quatro dirhams. Levei-os à presença de Rasûlullah. Ele pediu uma toalha de couro. Misturando com a mão abençoada as tâmaras, a farinha, a manteiga e a coalhada, fez uma espécie de prato e disse: ‘Ó Alî! Vai e traze quem encontrares.’ Saí, vi muita gente, convidei todos e, entrando, disse: ‘Yâ Rasûlallah! É muita gente.’

O Mestre dos mundos, o Orgulho do universo, disse: ‘Faze-os entrar de dez em dez, para que comam.’ Assim fiz. Fez-se a conta: setecentas pessoas, homens e mulheres, haviam comido e ficado saciadas.”

Depois de comido o banquete de núpcias (walîma) de Alî e Fâtima, segundo relatou Umm Ayman, nosso Mestre, o Profeta, disse a Alî: “Ó Alî, minha filha Fâtima foi como noiva para a vossa casa. Também eu irei depois do namâz do pôr do sol para fazer dua. Esperai-me.”

Quando Alî chegou a casa, sentou-se num canto. Fâtima também se sentou noutro canto da casa. Depois nosso Mestre Rasûlullah veio e bateu à porta. Umm Ayman abriu a porta.

Rasûlullah perguntou: “Meu irmão está aqui?” Umm Ayman disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Quem é o teu irmão?” Quando nosso Mestre Rasûlullah disse: “É Alî ibn Abû Tâlib”, Umm Ayman perguntou: “Casaste tua filha com o teu irmão?” Nosso Mestre Rasûlullah disse: “Sim.” Umm Ayman, pelas palavras de Rasûlullah “Meu irmão está aqui?”, julgou que o nikâh não seria lícito. E nosso Mestre Rasûlullah, ao dizer “Sim”, indicou que o impedimento ao casamento é ter nascido da mesma mãe.

Depois nosso Mestre Rasûlullah perguntou a Umm Ayman: “Asmâ bint Umays também está aqui?” Quando ela respondeu: “Sim”, ele disse: “Então veio servir a filha de Rasûlullah.” Quando Umm Ayman disse: “Sim”, ele disse: “Que alcance o bem”, e fez dua por ela.

“Ó Fâtima! Que tens, que choras? Juro por Allahu ta’âlâ que te uni em nikâh ao mais sábio dos que te pediram, ao mais excelente em brandura e em inteligência e ao primeiro a tornar-se muçulmano” Hadîth sharîf

Depois mandou trazer uma vasilha com água. Lavou as mãos abençoadas. Deitou na água um pouco de almíscar. Depois chamou Fâtima. Fâtima, de vergonha, olhava para o próprio vestido. Nosso Mestre Rasûlullah tomou um pouco da água e aspergiu-a no peito, na cabeça e nas costas de Fâtima e fez esta dua: “Allahumma innî u’îdhuhâ bika wa dhurriyyatahâ minash-shaytânir-rajîm” (Ó meu Senhor, refugio-me em Ti para que a protejas, a ela e à sua descendência, do mal do shaytân rajîm, o apedrejado). Depois fez o mesmo a Alî e fez esta dua: “Allahumma bârik fîhimâ wa bârik alaihimâ wa bârik lahumâ fî naslihimâ.” Recitou as suras al-Ikhlâs e al-Mu’awwidhatayn e disse: “Entra junto de tua esposa com o nome e a bênção de Allahu ta’âlâ.” Depois, segurando com as mãos abençoadas os dois batentes da porta, fez dua pedindo a bênção e partiu dali.36

Alî disse: “Quatro dias depois de nosso casamento, nosso Mestre Rasûlullah honrou a nossa casa com a sua visita. Aconselhou-nos com palavras cheias de sabedoria, que conquistam os corações, e disse: ‘Ó Alî! Traze água!’ Levantei-me e trouxe água. Ele recitou um versículo sagrado e disse: ‘Bebe um pouco desta água. Que fique um pouco.’ Assim fiz. A água que sobrou, aspergiu-a na minha cabeça e no meu peito. Disse de novo: ‘Traze água.’ De novo trouxe água. Fez a Fâtima o mesmo que fizera a mim. Depois mandou-me sair.”

Depois que Alî saiu, ele perguntou à filha a respeito de Alî. Fâtima disse: “Papai, todas as qualidades da perfeição se encontram nele. Mas algumas mulheres de Quraysh me dizem: ‘Teu marido é pobre.’” Então nosso Mestre Rasûlullah disse: “Ó minha filha! Nem teu pai nem teu esposo são pobres. Ofereceram-me todos os tesouros e riquezas da terra e do céu. Não os aceitei. Aceitei o que é aceito junto de Allahu ta’âlâ. Ó minha filhinha! Se soubesses o que eu sei, o mundo seria vil e desprezível aos teus olhos. Juro por Allahu ta’âlâ: teu esposo é o primeiro dos Companheiros. É também grande no Islã e o mais profundo em saber. Ó minha filha! Allahu ta’âlâ escolheu duas pessoas da Ahl al-Bayt (da família do Profeta). Uma é teu pai e a outra é teu esposo. Guarda-te de lhe desobedecer e não contraries a sua ordem.”

O Orgulho do universo (alaihi afdalus-salawât), depois de aconselhar a filha, chamou Alî. Confiou-lhe também Fâtima, dizendo: “Ó Alî! Respeita os sentimentos de Fâtima. Ela é uma parte de mim. Trata-a bem. Se a magoares, é a mim que magoarás.” Confiou ambos a Allahu ta’âlâ. Depois, quando se levantou e se dispunha a partir, Fâtima disse: “Yâ Rasûlallah! O serviço de dentro de casa, faço-o eu. O serviço de fora, fá-lo Alî. Se me concederes uma serva, ela me ajudará em alguns trabalhos. Ficarei contente.” Nosso Mestre Rasûlullah disse: “Ó Fâtima! Queres que te conceda algo melhor do que uma serva, ou uma serva?”

Nossa mãe Fâtima disse: “Concede-me o que é melhor do que uma serva.” Então nosso Mestre Rasûlullah disse: “Todos os dias, ao deitares, dize trinta e três vezes ‘Subhânallah’, trinta e três vezes ‘Alhamdulillah’, trinta e três vezes ‘Allahu akbar’ e uma vez ‘Lâ ilâha illallahu wahdahû lâ sharîka lah, lahul-mulku wa lahul-hamdu wa huwa alâ kulli shay’in qadîr’. Ao todo são cem palavras. No Dia do Juízo encontrarás mil boas obras (hasana). Na Balança (Mîzân) as tuas boas obras pesarão.” Depois nosso Mestre, o Profeta, saiu da casa de sua filha e foi para a sua casa venturosa.

A morte de Ka’b ibn Ashraf

Com a vitória de Badr, o medo entrou no coração dos judeus e dos politeístas idólatras de Medina. Alguns judeus, voltando à equidade, disseram: “O homem cujos atributos lemos em nossos livros é certamente este. Já não é possível resistir-lhe. Pois ele sempre vencerá”, e tornaram-se muçulmanos. Outros, porém, disseram: “Muhammad combateu os coraixitas, que não entendem de guerra. Por isso venceu. Se combatesse conosco, nós lhe mostraríamos como se faz a guerra e como se conquista a vitória.”

Um judeu chamado Ka’b ibn Ashraf, ao saber da vitória do exército do Islã em Badr, foi a Meca movido pelo rancor que tinha aos muçulmanos. Reuniu os politeístas de lá, recitou poemas para que atacassem Medina, incitou-os e instigou-os. Fez acordo com eles para combater nosso Mestre, o Profeta. Chegou até a tramar um atentado contra nosso amado Profeta. Allahu ta’âlâ comunicou esta situação a nosso Mestre Rasûlullah e disse, em sentido: “Esses são os que Allahu ta’âlâ amaldiçoou (afastou de Sua misericórdia)…”37

Então Rasûl-i akram disse aos seus honrados Companheiros: “Quem matará Ka’b ibn Ashraf? Pois ele ofendeu Allahu ta’âlâ e o Seu Rasûl.”

Muhammad ibn Maslama perguntou: “Yâ Rasûlallah! Queres que eu o mate?” Nosso Mestre Rasûlullah disse: “Sim, quero.” Muhammad ibn Maslama refletiu alguns dias sobre o assunto e fez planos. Foi procurar os seus companheiros Abû Nâila, Abbâd ibn Bishr, Hârith ibn Aws e Abû Abs ibn Jabr e expôs-lhes a questão. Todos aprovaram, dizendo: “Nós o mataremos juntos.” Foram juntos a nosso Mestre, o Profeta, e disseram: “Yâ Rasûlallah! Se permitires, enquanto falarmos com ele, podemos dizer a teu respeito algumas palavras que agradem a Ka’b?” Nosso Mestre, o Profeta, permitiu-lhes dizer o que quisessem.

Então Muhammad ibn Maslama foi com os seus companheiros até Ka’b ibn Ashraf. Disse: “Esse Muhammad nos pediu sadaqa. Impôs-nos muitos tributos. Por isso vim pedir-te alguma coisa emprestada.” Ka’b alegrou-se, julgando que Muhammad ibn Maslama pensava como ele, e disse: “Ele vos cansará ainda mais.” Muhammad ibn Maslama disse: “Uma vez que o seguimos, continuaremos a segui-lo. Vejamos como acaba. Agora empresta-nos algumas tâmaras.” Ka’b disse: “Sim, empresto-vos, mas tendes de me dar algo em penhor!” Muhammad ibn Maslama e os que estavam com ele perguntaram: “Que queres?” Quando Ka’b disse: “Quero as vossas mulheres em penhor”, eles não consentiram. Ka’b disse: “Então dai-me em penhor os vossos filhos.” Eles disseram: “Também a eles não podemos dar em penhor. De um deles se diria que foi dado em penhor por uma ou duas cargas de camelo de tâmaras, e isso seria para nós uma mancha inesquecível. Mas podemos dar-te em penhor as nossas armas e as nossas cotas de malha.” Ka’b aceitou essa proposta. Disse-lhes também quando deviam vir.38

“Ó Alî! Respeita os sentimentos de Fâtima. Ela é uma parte de mim. Trata-a bem. Se a magoares, é a mim que magoarás” Hadîth sharîf

Certa noite, Muhammad ibn Maslama foi até Ka’b. Abû Nâila estava com ele. Ka’b chamou-os à fortaleza, e ele mesmo desceu para recebê-los. A mulher de Ka’b disse: “Aonde vais a esta hora?” Ka’b respondeu: “Os que chegaram são Muhammad ibn Maslama e meu irmão Abû Nâila.” Sua mulher disse: “Esta voz que ouço não me agrada nada. É como se dela pingasse sangue.” Ka’b disse: “Não, são Muhammad ibn Maslama e meu irmão de leite Abû Nâila. É um bom rapaz. Mesmo que o chamem de noite para um combate de espadas, vem sem hesitar. É assim.” Muhammad ibn Maslama fez entrar na fortaleza consigo dois homens – segundo uma narração, três. Eram Abû Abs ibn Jabr, Hârith ibn Aws e Abbâd ibn Bishr.39 Muhammad ibn Maslama disse aos seus companheiros: “Quando Ka’b chegar, eu lhe direi que vou cheirar-lhe o cabelo, segurarei a sua cabeça e a cheirarei. Quando virdes que agarrei bem a cabeça de Ka’b, golpeai-o com as vossas espadas.” Ka’b ibn Ashraf veio até eles bem vestido e exalando um bom perfume. Ibn Maslama aproximou-se de Ka’b dizendo: “Até hoje nunca senti perfume tão bom.” Ka’b vangloriou-se: “As mulheres mais perfumadas dos árabes estão comigo.” Muhammad ibn Maslama disse: “Permites que eu te cheire a cabeça?” Ka’b disse que permitia. Ibn Maslama cheirou-a e fê-la cheirar também aos companheiros. Depois disse que queria cheirá-la de novo. Desta vez, Muhammad ibn Maslama agarrou-lhe a cabeça e fez sinal aos companheiros para que o golpeassem com as espadas.

Ao primeiro golpe de espada, Ka’b gritou violentamente, mas não morreu. Então Muhammad ibn Maslama matou-o com o seu punhal. Os mujâhids que mataram Ka’b deixaram imediatamente o lugar e chegaram a Medina. Quando deram a boa nova a nosso Mestre Rasûlullah, nosso Profeta louvou a Allahu ta’âlâ e fez dua pelos mujâhids. A morte do kâfir Ka’b ibn Ashraf lançou os judeus num grande medo. Pois, depois de morto um chefe notável como Ka’b, a morte deles próprios era questão de tempo. De manhã reuniram-se e vieram à presença de nosso Mestre, o Profeta. Queixaram-se do acontecimento da noite. Rasûl-i akram disse: “Ele nos molestava sempre e recitava poemas contra nós. Se algum de vós fizer o mesmo, saiba que a sua punição é a espada.” Diante dessa advertência, os judeus, por medo, fizeram de novo um tratado com nosso Mestre Rasûlullah.40

A expedição de Ghatafân

Esta expedição é chamada também “expedição de Anmâr” e “expedição de Dhî Amr”. Um grupo dos Banû Tha’laba e dos Banû Muhârib, reunido no lugar chamado Dhî Amr, decidira saquear tudo o que encontrasse nos arredores de Medina. O chefe deles era um homem chamado Da’thûr ibn Hârith ibn Muhârib, de alcunha Ghawrath. Nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), deixou Uthmân ibn Affân (radiyallahu anh) em Medina como substituto e partiu de Medina com uma força de quatrocentos e cinquenta homens. No caminho encontraram um homem chamado Jabbâr. Perguntaram-lhe pelo inimigo. Ele disse: “Eles não querem combater convosco. Quando vos viram, fugiram para as montanhas.” Nosso Mestre Rasûlullah apresentou-lhe o Islã. Ele aceitou e tornou-se muçulmano.

Enquanto o exército islâmico avançava em direção ao vale, começou a chover. Durante algum tempo a chuva caiu com toda a força; depois foi diminuindo e parou. Os mujâhids, a começar por nosso Mestre, o Profeta, ficaram encharcados da cabeça aos pés. Cada um, num canto, secava a roupa. Também Rasûlullah, para secar a roupa, tirou-a num lugar afastado e estendeu-a sobre uma árvore. Enquanto ele descansava debaixo da árvore, os kâfirs que vigiavam o exército islâmico viram Rasûlullah sozinho e avisaram Da’thûr ibn Hârith. Este, para matar Rasûlullah, aproximou-se em silêncio do lugar onde ele descansava. Desembainhou a espada e disse: “Quem te pode salvar das minhas mãos?” Rasûlullah disse: “Allahu ta’âlâ me salva.” Nesse instante veio Jibrîl alaihis-salâm, deu um golpe no peito de Da’thûr e derrubou-o por terra. A espada caiu-lhe da mão. Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) tomou a espada de Da’thûr e disse: “Quem te salva das minhas mãos?” Da’thûr respondeu: “Ninguém pode salvar-me”, pronunciou a kalima-i shahâda e tornou-se muçulmano. Foi por sua causa que muitas pessoas abraçaram a fé.41 Prometeu que nunca mais reuniria tropas para a guerra. Voltaram a Medina sem nenhum confronto armado. A expedição durou onze dias.

A expedição de Bahrân

Esta expedição é chamada também “Banû Sulaym” ou “expedição de Najrân”. Chegou a notícia de que um grande número de politeístas, reunidos entre os Banû Sulaym, iria atacar Medina. Ibn Umm Maktûm foi deixado como substituto. Rasûlullah marchou contra o inimigo com uma força de trezentos homens. O inimigo, ao saber que o exército islâmico se aproximava, fugiu para as montanhas. Por isso, não foi possível o encontro. A expedição durou doze dias.

“Ele (Ka’b ibn Ashraf) nos molestava sempre e recitava poemas contra nós. Se algum de vós fizer o mesmo, saiba que a sua punição é a espada” Hadîth sharîf

Teu amor tirou-me de mim;
amo-Te, ó meu Senhor!
Quão doce é o Teu amor;
amo-Te, ó meu Senhor!
Nem com a riqueza me alegro,
nem com a pobreza me lamento.
No Teu amor me deleito;
amo-Te, ó meu Senhor!
Ordenaste as adorações,
louvaste os bons estados,
deste dádivas sem fim;
amo-Te, ó meu Senhor!
Que nafs tão ingrata é a minha:
por seu prazer, sempre me sacrifica!
Mas eu achei o prazer verdadeiro;
amo-Te, ó meu Senhor!
Fazer bem a adoração,
trabalhar também para o mundo –
é meu ofício noite e dia, pois
amo-Te, ó meu Senhor!
Amar não se faz com palavras, ó Hilmi!
Teu Senhor disse: “Esforçai-vos!”
Que se veja também em teu estado:
amo-Te, ó meu Senhor!
São tantos os inimigos do Islã,
que atacam a religião às ocultas;
se ficares parado, será isso certo?
Amo-Te, ó meu Senhor!
Fica o amante sentado, preguiçoso?
Deixa pousar pó sobre o amado?
Faze calar o inimigo e dize:
“Amo-Te, ó meu Senhor!”