Meu Amado Profeta

Como Salmân Fârisî se tornou muçulmano

Dia após dia, o nûr do Islã espalhava-se, e o nome abençoado de nosso Mestre Rasûlullah, sempre que era ouvido, ia ganhando lugar nos corações. Os homens de saber que esperavam com saudade a sua vinda corriam a Medina, à procura e cheios de emoção, e tinham a honra de abraçar a fé. Um deles era Salmân Fârisî. Ele contou assim como se tornou muçulmano: “Eu sou da aldeia de Jayy, da cidade de Isfahan, na Pérsia (Irã). Meu pai era o homem mais rico da aldeia; tínhamos muitas terras e muitos bens. Eu era o único filho da casa e o único amado de meu pai. Por isso ele me criou como a uma menina. Não me deixava sair de casa. Como era mago (adorador do fogo), ensinou-me o masdeísmo como ele queria, sem nada omitir. Em casa ardia sempre um fogo, e nós o adorávamos e nos prostrávamos diante dele.

Como meu pai tinha muitos bens e propriedades, certa vez levou-me para fora e disse: ‘Meu filho! Quando eu morrer, serás tu o dono destes bens; por isso, vai conhecer os teus bens e as tuas terras.’ Eu disse: ‘Está bem’, e percorri os nossos pomares.

Um dia, indo ver os campos, deparei com uma igreja. Ouvi as vozes dos cristãos e, aproximando-me, vi que lá dentro praticavam a sua adoração. Como nunca antes vira coisa semelhante, fiquei admirado. Pois a nossa adoração não era senão acender um fogo e prostrar-se diante dele. Eles, porém, adoravam a Allah, que não se vê. Disse comigo: ‘Por Allah, a religião destes é a verdadeira, e a nossa é falsa.’ Fiquei a observá-los com curiosidade até o anoitecer. Antes de eu chegar aos nossos campos, começou a escurecer. Quando lhes perguntei: ‘Onde está a origem desta religião?’, disseram: ‘Em Damasco.’ Depois, quando perguntei: ‘Se eu for a Damasco, também me aceitarão?’, responderam: ‘Sim, aceitarão.’ Quando perguntei: ‘Há entre vós quem vá em breve a Damasco?’, falaram-me de uma caravana que partiria dali a algum tempo. As pessoas com quem falei eram poucas e haviam vindo de Damasco a Isfahan. Ocupado com elas, demorei a voltar para casa. Meu pai, vendo que eu não voltava, começara a procurar-me e mandara gente atrás de mim.

Procuraram-me e não me encontraram. Enquanto estavam aflitos, voltei para casa. Meu pai disse: ‘Onde estiveste até esta hora? Não houve lugar onde não te procurássemos.’ Respondi: ‘Meu pai! Hoje saí a percorrer os campos. Mas, no caminho, deparei com uma igreja cristã. Entrei. Vi que eles creem em Allah, que não veem e que governa todas as coisas e tem poder sobre elas. Admirei-me da sua adoração. Fiquei a observá-los até o anoitecer. Compreendi que a religião deles é a verdadeira.’ Ao ouvir isso, meu pai disse: ‘Ó meu filho! Pensas errado; a religião de teus pais e avós é mais correta do que a deles. A religião deles é corrompida. Cuidado, não te deixes enganar nem acredites nela!’ E eu disse: ‘Não, a religião deles é melhor do que a nossa; a deles é verdadeira, e a nossa é falsa.’ Meu pai irritou-se muito com isso, amarrou-me as mãos e os pés e prendeu-me em casa.

Nesse estado, eu esperava sempre notícias da caravana que iria a Damasco. Por fim, soube que os sacerdotes cristãos estavam preparando a caravana.

Desatei as cordas, fugi e fui para a igreja onde estava a caravana. Expliquei que não podia ficar naquelas terras, juntei-me à caravana e tomei o caminho de Damasco. Em Damasco, perguntei pelo maior sábio da religião cristã. Indicaram-me um homem; fui procurá-lo e contei-lhe a minha situação. Disse-lhe que queria ficar com ele e servi-lo, e pedi-lhe que me ensinasse o cristianismo e me fizesse conhecer Allahu ta’âlâ. Ele aceitou. Comecei então a servi-lo e a fazer os trabalhos da igreja. E ele me ensinava o cristianismo.

“O que ouvirdes de mim, contai-o também a vossos irmãos de religião! Fazei-o ouvir uns aos outros!” Hadîth sharîf

Mais tarde, porém, compreendi que ele era um homem mau. Pois escondia as esmolas, o ouro e a prata que os cristãos traziam para dar aos pobres, e não os dava aos necessitados. Juntara nada menos que sete potes de ouro e prata. Ninguém além de mim sabia disso. Algum tempo depois, ele morreu.

Os cristãos reuniram-se para enterrá-lo. Eu lhes disse: ‘Por que lhe tributais tanta honra? Ele não é homem digno dessa honra!’ Disseram: ‘De onde tiras isso?’, e não acreditaram em mim. Então mostrei-lhes o lugar do ouro que ele juntara. Desenterraram os sete potes de ouro e prata e depois disseram: ‘Este homem não é digno de ser amortalhado nem enterrado’; lançaram-no num lugar qualquer e cobriram-no de pedras. Outro homem ocupou o seu lugar.1

Este era verdadeiramente um homem de saber e asceta, que não dava importância nenhuma a este mundo. Desejava a outra vida, trabalhava sempre por ela e adorava a Allah noite e dia. Amei-o muito e fiquei com ele muito tempo. Servia-o de boa vontade. Adorávamos a Allah juntos.

Um dia perguntei-lhe: ‘Ó meu mestre! Há muito tempo estou contigo e amei-te muito, porque obedeces às ordens de Allahu ta’âlâ e te guardas do que Ele proibiu. Quando morreres, que farei? Que me aconselhas?’ Ele respondeu: ‘Meu filho, em Damasco não restou ninguém capaz de corrigir os homens. A quem quer que vás, ele te corromperá. Mas em Mossul há um homem; aconselho-te a procurá-lo.’

Quando ele morreu, fui para Mossul, encontrei o homem que ele me indicara e contei-lhe o que me acontecera. Ele aceitou-me a seu serviço. Também ele era, como o outro, um homem de muito valor, desapegado deste mundo, que adorava a Allah sem cessar. Também a ele servi muito tempo. Mas um dia adoeceu. Quando estava para morrer, fiz-lhe as mesmas perguntas. Ele recomendou-me um homem em Nusaybin. Quando ele morreu, fui imediatamente a Nusaybin. Encontrei o homem de quem ele falara e disse-lhe que queria ficar com ele. Ele aceitou, e estive algum tempo a seu serviço. Quando ele adoeceu, pedi-lhe que me enviasse a outro. Desta vez ele me descreveu outro homem, que vivia em Amûriya, cidade dos bizantinos. Depois que ele morreu, tomei o caminho de Amûriya. Encontrei também esse homem de quem ele falara, entrei a seu serviço e lá fiquei muito tempo.

Depois, também a morte dele se aproximou. Quando lhe pedi que me confiasse a alguém, ele disse: ‘Por Allah, agora não conheço ninguém assim. Mas aproxima-se a vinda do Profeta dos últimos tempos’, e enumerou os seus sinais: ’Ele surgirá entre os árabes, emigrará de sua pátria e se estabelecerá numa cidade de muitas tamareiras, situada entre terrenos pedregosos.

Aceita o presente, mas não aceita a esmola (sadaqa). Entre os seus dois ombros há o selo da profecia.’ Depois que também esse homem morreu, seguindo as suas palavras, decidi ir para a terra dos árabes. Trabalhando em Amûriya, eu adquirira alguns bois e algumas ovelhas. Uma caravana da tribo de Banû Kalb ia partir para a terra dos árabes. Quando lhes disse: ‘Estes bois e estas ovelhas serão vossos; levai-me à terra dos árabes!’, aceitaram a minha proposta e levaram-me consigo. Mas, quando chegamos ao lugar chamado Wâdil-Qurâ, traíram-me e venderam-me como escravo a um judeu. No lugar onde o judeu vivia, vi pomares de tamareiras. Pensei: ‘O lugar para onde o Profeta dos últimos tempos há de emigrar deve ser este.’ Mas não consegui de modo algum afeiçoar-me a ele. Servi algum tempo a esse judeu. Depois ele me vendeu ao filho de seu tio. Este comprou-me e levou-me a Medina. Quando cheguei a Medina, afeiçoei-me imediatamente ao lugar, como se já o tivesse visto. Os meus dias passavam-se agora em Medina; trabalhava na vinha e no pomar do judeu que me comprara e servia-o. Ao mesmo tempo, esperava com impaciência alcançar o meu verdadeiro propósito.

Um dia, eu estava trabalhando no alto de uma tamareira. O meu dono conversava com alguém debaixo da árvore. A certa altura, disseram: ‘Pereçam as tribos de Aws e de Khazraj! Chegou a Qubâ um homem vindo de Meca. Diz que é profeta. E essas tribos aceitam-no e entram na sua religião…’ Ao ouvir essas palavras, quase perdi os sentidos. Desci imediatamente e perguntei àquele homem: ‘Que dizes?’ O meu dono disse-me: ‘Que tens tu com isso? Por que perguntas? Cuida do teu trabalho!’, e deu-me uma bofetada. Naquele dia, ao anoitecer, peguei algumas tâmaras e fui logo a Qubâ. Entrei onde estava nosso Mestre Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) e disse: ‘Tu és um homem virtuoso, e tens contigo pobres. Trouxe estas tâmaras como esmola (sadaqa).’

Rasûlullah disse aos Companheiros que estavam com ele: ‘Vinde, comei tâmaras.’ Eles comeram. Mas ele mesmo não comeu nada. Disse comigo: ‘Eis um dos sinais. Ele não aceita a esmola.’ Depois que nosso Mestre Rasûlullah chegou a Medina, peguei mais algumas tâmaras e levei-as a Rasûlullah. Disse: ‘Isto é um presente.’ Desta vez ele comeu com os Companheiros que estavam com ele. Disse comigo: ‘Eis que apareceu também o segundo sinal.’ As tâmaras que eu levara eram umas vinte e cinco. Mas os caroços das tâmaras comidas eram cerca de mil. Pelo milagre de nosso Mestre Rasûlullah, as tâmaras haviam-se multiplicado. Disse comigo: ‘Vi mais um sinal.’ Fui de novo à presença de Rasûlullah. Estavam enterrando um morto. Como desejava ver o selo da profecia, aproximei-me bem. Ele compreendeu o meu desejo e levantou a camisa. Quando as suas costas abençoadas ficaram descobertas, vi o selo da profecia; beijei-o logo e chorei. Nesse instante, pronunciei a kalima-i shahâda e tornei-me muçulmano.

Depois contei a Rasûlullah, um por um, os acontecimentos que eu vivera. Isso lhe agradou. Ordenou-me que os contasse também aos Companheiros. Os Companheiros reuniram-se, e eu contei o que me acontecera até os mínimos pormenores…”2

Quando Salmân Fârisî abraçou a fé, como não sabia a língua árabe, pediu um intérprete. O intérprete judeu que veio dizia o contrário dos louvores que ele fazia a nosso amado Profeta. Nesse momento, Jibrîl alaihis-salâm veio e comunicou corretamente a Rasûlullah as palavras de Salmân. O judeu, compreendendo o que se passava, pronunciou a kalima-i shahâda e tornou-se muçulmano.

Depois de se tornar muçulmano, Salmân Fârisî continuou escravo por algum tempo. Quando nosso amado Profeta lhe disse: “Livra-te da escravidão, ó Salmân!”, ele foi falar com o seu dono e disse-lhe que queria ser libertado. O judeu, que consentiu a contragosto, aceitou com a condição de que ele plantasse trezentas mudas de tamareira, as fizesse crescer até darem tâmaras e lhe desse mil e seiscentos dirhams de ouro (segundo uma narração, cerca de quatro mil dirhams de prata).

Ele comunicou isso a nosso Mestre Rasûlullah. Nosso Profeta disse aos Companheiros: “Ajudai o vosso irmão.” Eles juntaram para ele trezentas mudas de tamareira. Nosso Mestre Rasûlullah disse: “Prepara as covas para elas e, quando estiverem prontas, avisa-me.” Quando ele preparou as covas e o avisou, ele veio ao lugar e plantou as mudas com as suas próprias mãos abençoadas. Uma delas fora plantada por Umar. Com exceção da que Umar plantara, todas deram tâmaras naquele mesmo ano, com a permissão de Allahu ta’âlâ. Nosso Mestre Rasûlullah arrancou também aquela única muda, plantou-a de novo com a sua mão abençoada, e ela deu tâmaras no instante em que foi plantada.

“Aproxima-se a vinda do Profeta dos últimos tempos. Ele surgirá entre os árabes, emigrará de sua pátria e se estabelecerá numa cidade de muitas tamareiras, situada entre terrenos pedregosos. Aceita o presente, mas não aceita a esmola. Entre os seus dois ombros há o selo da profecia” O monge de Amûriya

Salmân Fârisî contou: “Um dia, um homem procurava-me e perguntava: ‘Onde está o pobre mukâtab (escravo que fez com o seu dono um acordo para alcançar a liberdade mediante certa quantia) Salmân Fârisî?’ Encontrou-me e deu-me um pedaço de ouro do tamanho de um ovo, que trazia na mão. Peguei-o, fui até nosso Profeta e expus-lhe o caso.

Rasûlullah devolveu-me o ouro e disse: ‘Toma este ouro e paga a tua dívida!’ Quando eu disse: ‘Yâ Rasûlallah! Este ouro não tem o peso que o judeu pede’, nosso Mestre Rasûlullah tomou o ouro e passou-o sobre a sua língua abençoada. Depois disse: ‘Toma-o! Allahu ta’âlâ pagará com ele a tua dívida.’ Por Allah, pesei esse ouro, e tinha exatamente o que se pedia. Levei-o também e entreguei-o. Assim me livrei da escravidão.”3

A partir desse dia, Salmân Fârisî juntou-se aos Ashâb-i Suffa.

Os anjos vinham ouvir

Nosso Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) recitava o Alcorão al-Karîm de modo tão belo, tão doce e tão comovente que até os não muçulmanos que o ouviam ficavam maravilhados. Eram muitos os que se tornavam muçulmanos ao ouvi-lo.

Barâ ibn Âzib contou: “Uma vez, depois do namâz da noite, ouvi nosso Mestre Rasûlullah recitar a Sura at-Tîn. Recitava de modo tão belo que eu nunca ouvira ninguém de voz e de recitação mais perfeitas que as dele.”

Entre os Companheiros eram muitos os que tinham voz muito bela e que choravam e faziam chorar ao recitar o Alcorão al-Karîm. Um deles era Usayd ibn Hudayr. Uma noite, amarrou o cavalo junto de si e começou a recitar a Sura al-Baqara. Enquanto recitava, o cavalo de repente se espantou. Usayd calou-se, e o cavalo acalmou-se. Começou a recitar, e o cavalo espantou-se de novo. Quando se calou, acalmou-se. Quando recomeçou a recitar, o cavalo espantou-se outra vez. Yahyâ, filho de Usayd ibn Hudayr, estava deitado num lugar perto do cavalo. Receando que o cavalo fizesse mal ao menino, deixou de recitar.

Olhando para o céu, viu, dentro de uma névoa semelhante à sombra de uma nuvem branca, coisas que brilhavam como lamparinas. Quando parou de recitar, viu essas coisas brilhantes subirem para o céu e irem-se embora.

Quando amanheceu, foi à presença de nosso amado Profeta e contou-lhe o que lhe acontecera.

Quando nosso Mestre Rasûlullah perguntou: “Sabes o que eram?”, Usayd respondeu: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti, yâ Rasûlallah! Não sei.”

Nosso Mestre, o Profeta, disse: “Eram anjos. Haviam-se aproximado da tua voz. Se tivesses continuado a recitar, eles te teriam ouvido até o amanhecer, e as pessoas também os veriam e os contemplariam. Eles não se esconderiam dos olhos do povo.”

Um dos que recitavam o Alcorão al-Karîm com grande comoção era Abû Bakr as-Siddîq. Quando, no namâz, começava a recitar em voz alta, não conseguia conter-se, e as lágrimas corriam-lhe dos olhos abençoados. Os que o viam admiravam esse seu estado. Um dia, os politeístas reuniram-se e disseram: “Este homem chora recitando com comoção o que o profeta trouxe. Temos medo de que as nossas mulheres e os nossos filhos se encantem com esse seu estado e se tornem muçulmanos.”

Como Abdullah ibn Salâm se tornou muçulmano

Um dos que se enamoraram de nosso amado Profeta ao ver o seu rosto abençoado, e se tornaram muçulmanos, maravilhados, ao ouvir as suas palavras abençoadas e o Alcorão al-Karîm que ele recitava, foi Abdullah ibn Salâm.

Abdullah ibn Salâm, que conhecia bem a Tawrât e o Injîl, era, antes de abraçar a fé, um sábio judeu. Ele próprio conta assim como se tornou muçulmano: “Eu estudara com meu pai a Tawrât e os seus comentários. Um dia, meu pai contou-me os atributos, os sinais e as obras do profeta que viria nos últimos tempos e disse: ‘Se ele vier da descendência de Hârûn, eu o seguirei; senão, não o seguirei!’ E morreu antes de Rasûlullah chegar a Medina.

Quando ouvi que Rasûlullah anunciara em Meca a sua profecia, eu já conhecia os seus atributos, o seu nome e o tempo de sua vinda. Por isso fiquei à sua espera. Até saber por alguém que Rasûlullah estava hospedado na casa dos filhos de Amr ibn Awf, no lugar chamado Qubâ, perto de Medina, escondi dos judeus esse meu estado e fiquei calado.

Um dia, quando eu colhia tâmaras frescas de uma tamareira em meu pomar, um dos filhos de Nadîr gritou: ‘Hoje chegou o homem dos árabes!’ Fui tomado de um tremor. Imediatamente proferi o takbîr, dizendo: ‘Allahu akbar.’ Nesse momento, minha tia paterna, Khâlida bint Hârith, estava sentada debaixo da árvore. Era uma mulher muito idosa. Ao ouvir o meu takbîr, repreendeu-me, irritada: ‘Que Allah te deixe de mãos vazias e não te faça alcançar o que esperas! Por Allah, se tivesses ouvido que vinha Mûsâ ibn Imrân4, não te alegrarias mais do que isso!’ Eu lhe disse: ‘Ó tia! Por Allah, ele é irmão de Mûsâ ibn Imrân e profeta como ele. Está no caminho dele e foi enviado com o mesmo tawhîd com que ele foi enviado.’

Então ela me disse: ‘Ó filho de meu irmão! Será ele o profeta que, segundo nos foi anunciado, seria enviado perto do Juízo Final?’ ‘Sim’, respondi. ‘Então tens razão’, disse ela.5

Quando Rasûlullah emigrou para Medina, misturei-me logo ao povo para vê-lo. Assim que vi o seu rosto abençoado, a sua face luminosa, disse: ‘O rosto dele não pode ser rosto de mentiroso!’ Rasûlullah explicava o Islã e dava conselhos às pessoas reunidas. O primeiro hadîth sharîf que ali ouvi de Rasûlullah foi este: ‘Difundi entre vós a saudação de paz (salâm), alimentai os famintos, praticai a silat ar-rahim (visitai os parentes próximos) e fazei o namâz quando os homens dormem. Assim entrareis no Paraíso em paz.’

O Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam), reconhecendo-me pelo nûr da profecia, disse: ‘Não és tu Ibn Salâm, o sábio de Medina?’ Quando respondi: ‘Sim’, nosso amado Profeta disse: ‘Aproxima-te’, e fez-me esta pergunta: ‘Ó Abdullah! Dize-me, por Allahu ta’âlâ! Não leste e aprendeste na Tawrât os meus atributos?’ Eu disse: ‘Podes dizer-me quais são os atributos de Allahu ta’âlâ?’

Diante dessa pergunta, Rasûlullah esperou um pouco, e Jibrîl alaihis-salâm trouxe a Sura al-Ikhlâs. Ao ouvir essa sura que nosso Mestre Rasûlullah recitou, eu disse imediatamente a nosso Profeta: ‘Sim, yâ Rasûlallah! Dizes a verdade. Dou testemunho de que não há deus senão Allahu ta’âlâ e de que tu és o Seu servo e o Seu rasûl’, e, pronunciando a kalima-i shahâda, tornei-me muçulmano. Depois disse: ‘Yâ Rasûlallah! Os judeus são um povo opressor, que mente a ponto de deixar as pessoas pasmadas e que lança acusações sem fundamento e calúnias. Se souberem que me tornei muçulmano antes de lhes perguntares sobre o meu caráter e toda a minha condição, sem dúvida me caluniarão diante de ti de modo inimaginável. Pergunta-lhes primeiro a meu respeito!’ E escondi-me num canto da casa. Depois de mim, entrou um grupo dos notáveis dos judeus. Nosso Mestre Rasûlullah perguntou aos judeus: ‘Que homem é Abdullah ibn Salâm, que vive entre vós?’ Os judeus disseram: ‘É o mais elevado de nossos sábios e filho do maior de nossos sábios! Ibn Salâm é o melhor de nós e filho do melhor de nós!’ Então nosso Mestre Rasûlullah perguntou aos judeus: ‘Se ele se tivesse tornado muçulmano, que diríeis disso?’

“Allahu ta’âlâ fez-me saber que ama quatro pessoas. Ordenou-me amar estas quatro. São elas Alî, Abû Dharr, Miqdâd e Salmân” Hadîth sharîf

Os judeus responderam: ‘Que Allah o proteja de tal coisa!’

Nesse momento saí do lugar onde me escondera e, confirmando-o, disse: ‘Ó comunidade dos judeus! Temei a Allahu ta’âlâ! Aceitai o que vos veio. Juro por Allahu ta’âlâ – e vós mesmos o sabeis – que este é o rasûl de Allahu ta’âlâ, cujo nome e cujos atributos vistes escritos na Tawrât que tendes nas mãos. Dou testemunho de que não há deus senão Allahu ta’âlâ. Dou testemunho, também, de que Muhammad alaihis-salâm é Seu servo e Seu rasûl.’ Então os judeus, dizendo: ‘Ele é o pior de nós e o filho do pior de nós!’, atribuíram-me toda sorte de defeitos, levantaram-me calúnias e puseram-se a falar mal de mim. Eu disse: ‘Era exatamente isto o que eu temia. Yâ Rasûlallah! Não te havia eu dito que eles são um povo opressor, mentiroso, caluniador, que não se abstém de nenhum mal? Eis que tudo veio à luz!’ Rasûlullah disse aos judeus: ‘Vosso primeiro testemunho nos basta; o segundo é desnecessário.’ Então voltei imediatamente para casa.

Convidei minha família e meus parentes ao Islã. Todos eles, inclusive minha tia, tornaram-se muçulmanos.

Minha conversão enfureceu muito os judeus. Por isso começaram a pressionar-me. Alguns sábios judeus chegaram a tentar afastar-me do Islã, dizendo: ‘Dos árabes não sai profeta; esse teu homem é um rei’, mas não o conseguiram.”

Junto com ele, Tha’laba ibn Sa’ya, Usayd ibn Sa’ya, Asad ibn Ubayd e alguns outros judeus tornaram-se muçulmanos com sinceridade. Alguns sábios judeus, porém, disseram: “Em Muhammad só creram os maus dentre nós. Se fossem dos bons, não teriam abandonado a religião de seus pais.” Então Allahu ta’âlâ, em resposta a eles, revelou um versículo sagrado e disse, em sentido: “Eles (a Gente do Livro) não são todos iguais. Entre a Gente do Livro há uma comunidade dedicada à adoração e à obediência, que, nas horas da noite, prostrada, recita os versículos de Allahu ta’âlâ.”6

Pior fica dia a dia o meu estado, e muito, yâ Rasûlallah!
Que enfim se endireitem os meus atos – socorro, yâ Rasûlallah!
Desviou-se esta minha alma vil (nafs), fez-me seguir o shaytân;
Com tanta rebeldia, que posso eu? – Refúgio, yâ Rasûlallah!
Será possível escapar aos desejos do nafs e do shaytân,
Se de ti não me chegar a guia (hidâya), yâ Rasûlallah?
Quando tua graça e teu favor chegam, por um instante, a um pecador,
O seu caminho, nos dois mundos, é salvação, yâ Rasûlallah!
Venerei a ordem e a proibição; ao harâm não chamei halâl.
O fim de cada pecado foi o arrependimento, yâ Rasûlallah!
Ó Rasûl dos homens e dos jinns, o mais excelso dos homens,
Por minha sinceridade, concede-me a intercessão, yâ Rasûlallah!

“Difundi entre vós a saudação de paz (salâm), alimentai os famintos, praticai a silat ar-rahim e fazei o namâz quando os homens dormem. Assim entrareis no Paraíso em paz” Hadîth sharîf

Uma vista antiga de Madîna al-Munawwara (1890)

Alguns acontecimentos do primeiro ano da Hégira

No primeiro ano da Hégira faleceram As’ad ibn Zurâra, Barâ ibn Ma’rûr e Kulthûm ibn Hidm, dos Ansâr, e Uthmân ibn Maz’ûn, dos Muhâjir. Além disso, Abû Bakr e Bilâl Habashî (radiyallahu anhumâ), que não resistiram ao clima e à água de Medina, contraíram malária. Então Rasûlullah (sallallahu alaihi wa sallam) fez esta dua: “Ó meu Senhor! Assim como nos fizeste amar Meca, faze-nos amar também Medina, e concede-nos aqui bênção e abundância de sustento.” Janâb-i Haqq aceitou a sua dua e fez os Muhâjir amarem Medina.

O primeiro tratado escrito

Antes da Hégira de nosso Mestre Rasûlullah, Abdullah ibn Ubayy, chefe da tribo de Khazraj, em Medina, estava para ser escolhido rei de Medina. Mas quando, depois dos juramentos de fidelidade (bay’a) de Aqaba e, mais tarde, com a Hégira, a maior parte das tribos de Aws e de Khazraj se tornou muçulmana, o reinado de Abdullah ibn Ubayy não se realizou. Por isso Abdullah ibn Ubayy guardava rancor, antes de tudo, a nosso Mestre, o Profeta, e aos Companheiros emigrantes (Muhâjir), e depois aos Companheiros de Medina; não podia, porém, mostrar abertamente a sua inimizade. Com algumas pessoas semelhantes a ele, formou o grupo dos hipócritas (munâfiq). Diante dos muçulmanos, eles diziam ter entrado na religião do Islã, mas pelas costas zombavam deles. Começaram a semear às escondidas as sementes da hipocrisia (nifâq) e a provocar a discórdia (fitna). Foram tão longe que chegaram a transmitir às avessas e a deturpar as palavras abençoadas do Orgulho do mundo (sallallahu alaihi wa sallam).

Enquanto isso, os politeístas de Meca também não estavam parados: tentavam fazer em Medina contra nosso Mestre Rasûlullah o que não tinham conseguido fazer em Meca. Assim como enviavam cartas de ameaça aos politeístas de Medina, enviavam também às tribos judaicas de Medina cartas e mensagens cheias de ameaças. Essas ameaças levaram os judeus a aproximar-se de nosso Mestre Rasûlullah.

Nessa época, os judeus vieram à presença de nosso Mestre Rasûlullah e disseram: “Viemos fazer a paz convosco. Façamos um tratado, para que não nos prejudiquemos uns aos outros.” Nosso Profeta fez com eles um tratado de cinquenta e cinco artigos. Algumas das decisões tomadas são estas:

1. Este tratado é um documento escrito por Rasûlullah Muhammad alaihis-salâm entre os muçulmanos de Meca e de Medina, os que os seguem, os que a eles se unirem mais tarde e os que combatem ao lado deles.

2. Sem dúvida, eles formam uma comunidade distinta dos demais homens.

3. Cada tribo pagará em conjunto o resgate de seus prisioneiros (segundo a justiça vigente entre os muçulmanos).

4. Os muçulmanos se oporão aos que, entre eles, provocarem desordem, ainda que sejam seus próprios filhos.

5. Os judeus que seguirem os muçulmanos não sofrerão nenhuma injustiça; antes, serão também ajudados.

6. Os judeus formarão um só grupo com os muçulmanos, e cada um cumprirá os preceitos de sua própria religião.

7. Nenhum dos judeus poderá sair em expedição militar sem a permissão de Muhammad alaihis-salâm.

8. Ninguém fará mal àquele com quem fez acordo; o que sofrer injustiça será socorrido em qualquer caso.

9. O vale de Medina é, para os que fazem este tratado, território inviolável e sagrado (harâm).

10. Os politeístas de Meca e os que os ajudam não receberão proteção de modo algum.

11. Contra os que atacarem Medina, os muçulmanos e os judeus se ajudarão mutuamente.

Por este tratado, os judeus deviam (na aparência) manter amizade com os muçulmanos, não lhes guardar rancor e não lhes fazer inimizade.7

Ó Meu Habîb! Não te entristeças

Os judeus, que escondiam no íntimo a sua inimizade, depois de assinarem este tratado passaram a vir em grupos à presença de nosso Mestre, o Profeta. Faziam-lhe perguntas que, a seu ver, eram muito difíceis. Pelas respostas que recebiam, compreendiam que ele era o verdadeiro profeta. Mas, por obstinação e inveja, não criam. Então nosso amado Profeta disse: “Se dez dos sábios judeus tivessem crido em mim, todos os judeus teriam crido.” Allahu ta’âlâ consolou nosso Mestre Rasûlullah, assim entristecido, com este versículo sagrado: “(Ó Meu Habîb!) Ó glorioso Rasûl! Não te entristeça (a situação dos) que se apressam na descrença (kufr) – dentre os que dizem com a boca ‘Cremos’, embora seu coração não creia (os hipócritas), e dentre os judeus. Eles escutam sem cessar a mentira e espionam (dentre os filhos de Qurayza) em favor de outro povo (os judeus de Khaybar) que não vem à tua presença. Mudam do seu lugar as palavras e as verdades que ouvem, contando-as de modo a afastá-las da verdade. E dizem: ’Se vos for dada esta (sentença), aceitai-a; se não vos for dada, guardai-vos!’ Se Allahu ta’âlâ quiser que alguém caia na provação (fitna), tu de modo algum poderás impedir a vontade de Allahu ta’âlâ. São pessoas cujo coração Allahu ta’âlâ não quis purificar. Para eles há, neste mundo, humilhação e desgraça e, na outra vida, um castigo imenso.”8

Por causa do tratado feito, alguns dos Companheiros haviam travado amizade com os judeus, seus vizinhos. Allahu ta’âlâ proibiu-lhes também isso e disse: “Ó vós que credes! Não tomeis por amigos íntimos outros (os kâfirs e os hipócritas) que não os vossos irmãos de religião. Eles não deixam de vos fazer mal e de semear a corrupção, e desejam que caiais em aflição. O rancor e a inimizade que vos têm já transbordam de sua boca. E a inimizade que escondem em seu coração é ainda maior. Se refletirdes e compreenderdes, Nós vos expusemos os versículos sobre a inimizade deles (mostramo-vos com toda a clareza aquilo a que deveis estar atentos).”9

Os politeístas de Meca não cessavam de incitar e ameaçar os politeístas, os hipócritas e os judeus de Medina e as tribos dos arredores de Medina. Esforçavam-se por apagar o quanto antes o nûr do Islã e buscavam os meios de tirar a vida abençoada de nosso amado Profeta.

“Se dez dos sábios judeus tivessem crido em mim, todos os judeus teriam crido” Hadîth sharîf

Diante dessas ações dos hipócritas e dos politeístas, nosso Mestre Rasûlullah seguiu sempre o caminho da paz. Alguns dos Companheiros acreditavam que já era necessário enfrentar o inimigo e faziam esta dua: “Ó meu Senhor! Para nós, nada é mais precioso do que lutar, em Teu caminho, contra esses politeístas. Esses politeístas coraixitas desmentiram a profecia de Teu Habîb e obrigaram-no a sair de Meca. Ó Allah! Certamente nos permitirás combatê-los!..” Nosso Mestre Rasûlullah, porém, aguardava nisso a ordem de Allahu ta’âlâ e agia conforme o que Ele ordenasse. Chegara, enfim, o momento. Na revelação trazida por Jibrîl alaihis-salâm foi dito: “Combatei também vós, no caminho de Allahu ta’âlâ, os que vos fazem guerra. Mas não ultrapasseis os limites nem cometais excessos. Por certo, Allahu ta’âlâ não ama os que cometem excessos. Matai-os (os kâfirs) onde quer que os encontreis. Assim como eles vos expulsaram (de Meca), expulsai-os também vós. A provação (fitna) do shirk deles é pior do que o homicídio. Enquanto eles não combaterem convosco na Masjid al-Harâm, não lhes façais guerra ali. Mas, se eles vos matarem ali, matai-os também vós ali. Tal é a punição dos kâfirs. E, se desistirem de negar Allahu ta’âlâ e de combater, (desisti também vós. Pois) por certo, Allahu ta’âlâ é Perdoador e Misericordioso.”10

Num versículo sagrado revelado depois, foi dito: “Combatei esses politeístas até que não reste vestígio da provação (fitna) do shirk e a religião seja somente de Allahu ta’âlâ (até que somente Allahu ta’âlâ seja adorado). Se eles desistirem (do shirk), (não haverá injustiça contra eles.) A hostilidade (a punição) é somente contra os injustos.”11

Mâ madahtu Muhammadan bi maqâlâtî,
Lâkin madahtu maqâlâtî bi Muhammadin.
(Não consigo louvar Muhammad alaihis-salâm;
É com ele que dou valor aos meus escritos.)
Imam Rabbânî (rahmatullahi alaih)